Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

8 perguntas sobre Madagascar que você sempre quis fazer mas nunca teve coragem

Jeunes filles malgaches par Hery Zo Rakotondramana on FlickR - CC BY-SA 2.0

Meninas malgaxes por Hery Zo Rakotondramana no FlickR – CC BY-SA 2.0

[Este artigo contém links que levam a outras páginas, inclusive noutros idiomas, caso queira aprofundar o assunto].

Mesmo sendo a quarta maior ilha do mundo, Madagascar é ainda um mistério para muita gente. Recentemente sob os holofotes graças à visita de Valérie Trierweiler, ex-companheira do presidente francês François Hollande e autora do best-seller “Merci pour ce Moment”, Madagascar é fascinante por se tratar de uma ponte entre a Ásia e a África e também por causa da sua biodiversidade. Se você está planejando uma primeira viagem a Madagascar ou se você deseja saber mais sobre a terra de seus amigos ou, ainda, se você quer apenas saber um pouco mais sobre essa parte do mundo, você talvez já tenha feito as seguintes perguntas sobre o país. As respostas foram dadas por cidadãos malgaxes ativos na web cujos blogs merecem uma visita:

1) Estou de viagem marcada para Madagascar e gostaria de conhecer melhor o cotidiano dos malgaxes. Qual é o modo de vida padrão no país?

Tudo depende da pessoa a quem você pergunta. Segundo o Banco Mundial, 90% dos malgaxes vive com menos de dois dólares por dia. A desigualdade social é tanta que não se pode falar realmente de um modo de vida típico. Randriamihaly descreve perfeitamente essas disparidades:

Ainsi, les princes et les princesses sont ceux qui possèdent le plus. Il ne faut pas s’étonner de les entendre parler de leur vie à Tana comme d’un conte de fées. Ils vivent dans une bulle increvable. Leurs palaces gardés par les agences de sécurités sont truffés de meubles dorés et de gadgets de haute technologie. Ils sortent de là en 4×4 pour aller dans ces lieux qui leur sont réservés : écoles américaines ou françaises, restaurants, piscines, spa,  centres commerciaux. [..] A quelques mètres de là, dans Antananarivo, l’enfer, c’est ce que vit la famille d’Ernestine. Cette femme se lève très tôt le matin afin de préparer ses enfants pour l’école : se laver à l’eau froide du bidon, manger la soupe de riz avec le bout de viande fumée et partir à pied. L’école, c’est le rêve auquel elle s’accroche. Elle croit que si ses enfants parviennent à décrocher un diplôme, n’importe lequel, ils pourront s’en sortir plus tard et ils n’auront pas à vivre un calvaire quotidien comme elle. Elle va chez les patrons, elle peut tout faire : lessive, vaisselle, ménage, porteuse d’eau, garde d’enfant, tout. Et le soir, elle revient exténuée, ses enfants dorment déjà. Elle veille sur leur sommeil à cause des rats qui peuvent attaquer. Et puis, comment avoir un bon sommeil lorsqu’on est à 4, 5 ou 6 à dormir dans une seule pièce de 2 m de largeur ? 

Assim, os príncipes e princesas são aqueles que mais possuem. Não é de se espantar que eles descrevam suas vidas em Tana como um conto de fadas. Eles vivem numa bolha indestrutível. Seus palácios vigiados pelas agências de segurança estão cheios de móveis dourados e de equipamentos de alta tecnologia. Eles saem de lá em seus veículos 4×4 para ir aos lugares reservados a eles: escolas americanas ou francesas, restaurantes, piscinas, spas,  shoppings. [..] A alguns metros de lá, em Antananarivo, o inferno é o que vive a família de Ernestine. Esta mulher que se levanta muito cedo de manhã para preparar seus filhos para a escola: se lavar com a água fria da garrafa, comer a sopa de arroz com um pedaço de carne defumada e sair à pé. A escola é o sonho ao qual ela se agarra. Ela acredita que, se seus filhos conseguirem obter um diploma, não importa qual, eles poderão vencer na vida e não precisarão viver um calvário cotidiano como ela. Ela vai à casa dos patrões e faz de tudo: lava roupa e louça, faz faxina, carrega água, cuida das crianças, tudo. E, à noite, quando ela volta exausta, seus filhos já estão dormindo. Ela fica de guarda enquanto eles dormem por causa dos possíveis ataques de ratos. E, além do mais, como dormir bem quando são quatro, cinco ou seis dormindo em um único cômodo de dois metros de largura?

Não existe, então, um cotidiano típico em Madagascar. Isso é verdade para todos os países, mas ainda mais num país onde a classe média é reduzida.  

2) Como pronunciar o nome do atual presidente? 

O presidente malgaxe desde janeiro de 2014 se chama Hery Martial Rajaonarimampianina Rakotoarimanana. É atualmente o nome mais longo de um dirigente, segundo o jornal britânico The Guardian.  E de difícil pronúncia, mesmo para um malgaxe. Se você o encontrar, no lugar de arriscar um erro diplomático ao pronunciar seu nome de forma incorreta, talvez seja melhor se referir a seu partido, o Hery Vaovao,  ou oferecer a ele uma lanterna para paliar seus problemas de eletricidade.  

3) Nós planejamos fazer trilhas na ilha. O que é preciso saber para reduzir os riscos?   

Os jornais malgaxes dos últimos anos trazem muitas reportagens alarmantes sobre a pobreza, as crises de saúde pública, a insegurança e a criminalidade. O episódio do linchamento de dois estrangeiros em Nosy Be continua na mémoria. No entanto, os passeios pelas trilhas da ilha são experiências únicas que muitos turistas e malgaxes realizam a cada ano.

Para a saúde, o principal risco é a malária. O país é classificado na zona 3, o que significa que, lá, o parasita que gera a doença apresenta um pouco de resistência ao tratamento à base de cloroquina. A malária está presente em 90% do território de Madagascar. Para se proteger, confira alguns conselhos:

- il est indispensable de prendre un traitement antipaludique.
– le soir, porter des vêtements les plus couvrants possible et, mieux encore, traités (par exemple avec Insect Ecran® trempage) ;- sur les parties découvertes, utiliser lotions ou crèmes répulsives efficaces. S'enduire les parties découvertes du corps dès le coucher du soleil ;
– utiliser une moustiquaire.

- é indispensável fazer um tratamento anti-malária;
– à noite, usar roupas que cubram o máximo possível o corpo e, o que é ainda melhor, tratadas com um repelente para roupas (Insect Ecran® trempage, por exemplo); nas partes do corpo expostas, aplicar repelentes eficazes a partir do pôr-do-sol;
– utilizar um mosquiteiro.

A febre chikungunya e outras doenças tropicais também estão presentes em Madagascar. As regras básicas são as mesma que em todos os países.

No que diz respeito à insegurança, não existem estudos estatísticos oficiais sobre a criminalidade mas ela é suficientemente presente no imaginário para ter um impacto negativo sobre o turismo. Veja  a opinião de um habitante da capital, Mofo Lany:

Il ne se passe pas une semaine sans que les journaux ne relatent des faits de violences dans la capitale malgache Antananarivo. Toutes les couches de la population, des plus aisées aux plus modestes, sont victimes de ce phénomène. Même les étrangers ne sont pas en reste. Les attaques à main armée sont particulièrement nombreuses. 

Não tem uma semana em que os jornais não relatem casos de violência na capital malgaxe, Antananarivo. Todas as camadas da população, das mais abastadas às mais modestas, são vítimas desse fenômeno. Nem mesmo os estrangeiros são poupados. Os ataques à mão armada são particularmente numerosos.

 4) Eu devo aprender malgaxe quando estiver em Madagascar? Se sim, como?   

O ideal seria que sim. Como o aprendizado de qualquer língua, o malgaxe requer, no entanto, muita determinação e motivação. E, como todas as línguas, ela possui tanto algumas facilidades como alguns desafios. As vantagens:

  • Nenhuma distinção de gênero: masculino e feminino são idênticos;
  • Nenhuma distinção de número: singular e plural são idênticos;
  • Somente três tempos: passado, presente e futuro, sem conjugação.

Quanto aos desafios, essa foi a experiência de Lilikely, uma vazaha (“estrangeira” em malgaxe), sobre o aprendizado do malgaxe

- Déjà, pas mal de gens parlent un peu français : beaucoup dans les grandes villes, et assez peu dans les campagnes. Du coup, c'est plus facile pour se faire comprendre, on finit toujours par trouver quelqu'un pour nous aider si ce qu'on cherche est compliqué. Du coup, on n'a pas besoin de se forcer, et si on est un peu flemmard, on profite de cela.
-La grammaire. Ca parait simplissime au début.  MAIS… Tout cela c'est pour la forme active. Et au final, les malgaches s'expriment surtout avec la forme passive… nettement plus difficile à maîtriser.
– Les références culturelles et la façon d'exprimer les idées sont aussi très éloignées des nôtres
– Les spécificités régionales font que le découragement arrive vite lorsqu'on voyage. 

- Muitas pessoas falam um pouco de francês: muitas nas grandes cidades, e poucas no interior. Assim, é mais fácil de ser entendida, acabamos sempre encontrando alguém para nos ajudar se o que buscamos é complicado. Então, a gente não precisa se forçar e, se somos meio preguiçosos, nos aproveitamos disso.
– A gramática parece simplicíssima no começo.  MAS… Isso diz respeito à forma ativa. E os malgaxes acabam se expressando principalmente com a forma passiva… claramente mais difícil de dominar.
– As referências culturais e a forma de expressar as ideias são também muito distantes das nossas.
– As especificidades regionais nos desmotivam rápido quando viajamos.

Como aprender? Alguns recursos para iniciar-se no idioma: o básico no site mylanguages.org e no Wikitravel e uma explicação dos tempos verbais

5) Os malgaxes são africanos, asiáticos ou outra coisa?  

Betsileo, Madagascar, 1908 CC-BY-2.0

Betsileo, Madagascar, 1908 CC-BY-2.0

Ah, a pergunta que não quer calar! Aqui começa a parte dos assuntos controversos em Madagascar. A questão é legítima, pois o país fica no cruzamento dos continentes africano e asiático e sua população é de uma grande diversidade. O problema está no debate que acompanha a questão. Na verdade, a discussão sobre esse assunto acaba muitas vezes em pressuposições racistas e preconceitos de todo tipo. Se você quiser esclarecer a questão, Dominique Ranaivoson, especialista em literatura malgaxe e professora, fala sobre o assunto em seu livro. Em Madagascar existem 18 tribos tradicionais, incluindo populações de origem africana, asiática ou árabe. Mas é verdade que um racismo latente existe entre esses diferentes grupos.

Pêcheur Vézo par Jean-Louis Vandevivère  CC-BY-2.0

Pescador Vézo por Jean-Louis Vandevivère CC-BY-2.0

6) Por que alguns malgaxes “reviram seus mortos” (famadihana) ?

Ah, outra questão polêmica!  O famadihana é um costume funerário que consiste em honrar os ancestrais. Lay explica assim o ritual

Un razana (ancêtre)  peut se manifester à un de ses descendants dans son rêve ou dans un tromba en lui disant qu’il a froid. Il promet en contrepartie de bénir ses descendants dans leur vie quotidienne. C’est ainsi que les Malgaches rouvrent les tombeaux et remplacent les tissus qui recouvrent les restes de leurs morts. C’est l’occasion de fêtes monumentales, de danses et de beuveries

Um razana (antepassado)  pode aparecer a um de seus descendentes em um sonho ou em uma visão dizendo que tem frio. Ele promete, em troca, abençoar seus descendentes na vida cotidiana. É por isso que os malgaxes reabrem os jazigos e trocam os tecidos que cobrem os restos mortais. Essa é também a ocasião para festas monumentais, danças e bebedeiras.

Soahary explica a particularidade deste costume no contexto malgaxe: 

La relation des Malgaches avec la mort et les parents déjà partis est assez particulière. On considère que nos ancêtres veillent sur nous.  Ainsi, ils ne sont jamais vraiment partis. On leur rend hommage périodiquement en recouvrant leur corps de nouveaux linceuls. 

A relação dos malgaxes com a morte e com os familiares já falecidos é bem particular. Eles consideram que os antepassados os protegem. Então, eles nunca vão embora realmente. Periodicamente, eles os homenageiam cobrindo seus corpos com novas mortalhas.

Hemerson Andrianetrazafy, professor de civilização na Universidade de Antananarivo, acrescenta:

 Le famadihana est très exactement le rituel par lequel la dépouille d’un parent atteint le statut de razana, d’ancêtre. Un moment capital dans la spiritualité malgache, car tous les morts ne deviennent pas automatiquement des razana  [..] Pour les Malgaches, la mort n’est pas une dissolution, un anéantissement, mais une étape conduisant au statut d’ancêtre. « Tsy maty fa lasan-ko razana », (Ils vivent mais sous une autre forme), servant d’intermédiaire entre les vivants et les zanahary, les divinités.

O famadihana é exatamente o ritual pelo qual, através do despojo, um parente atinge o status de razana (ancestral). Um momento capital na espiritualidade malgaxe, pois nem todos os mortos se tornam automatiquemente razana  [..] Para os Malgaxes, a morte não é uma dissolução, uma destruição total, mas uma etapa que conduz ao status de antepassado. « Tsy maty fa lasan-ko razana », (Eles vivem mas sob uma outra forma), servindo de intermediários entre os vivos e os zanahary (divindades).

Vários cristãos malgaxes afirmam que essa prática contradiz os princípios bíblicos.  A prática do famadihana tende a diminuir também por causa do custo elevado da cerimônia.  

7) Por que a circuncisão  (ou hasoavana em malgaxe) é tão difundida em Madagascar? 

Um outro costume tradicional em Madagascar é a circuncisão dos meninos antes de completar dois anos.   

É também a ocasião de fazer uma festa em família. A prática, que em Madagascar não está ligada a um costume religioso, causa polêmica. Ariniaina explica porque ela circuncisou seu filho:  

Mais pourquoi faire ce rituel? J’allais me justifier en disant que c’est pour des raisons médicales. Comme quoi des saletés peuvent rester dans le prépuce, que plus tard, il se peut qu’on doit quand même le circoncire parce qu’il aura des problèmes de santé. Il sera alors plus âgé, plus conscient de la douleur. Ainsi, j’aurai regretté de ne pas avoir fait la circoncision plus tôt. Mais, au fond, est-ce la culture qui l’emporte? N’est considéré « vrai homme » que celui qui est circoncis. 

Mas por que fazer esse ritual? Eu ia me justificar dizendo que foi por motivo de saúde. A sujeira pode ficar no prepúcio e, mais tarde, talvez seja mesmo necessário circuncisar por causa de problemas de saúde. Ele será então mais velho, mais consciente da dor. Então, eu iria me arrepender de não ter feito a circuncisão mais cedo. Mas, no fundo, é a cultura que prevalece? Só é considerado homem de verdade aquele que é circuncisado. 

 8) Qual a relação entre Madagascar, o país e Madagascar, o desenho animado?  

Nenhuma. Na verdade, sim, duas coisas: 1)  as boates malgaxes dançaram bastante ao som de “Eu me remexo muito” nos anos 90.  2) M. Katzenberg, presidente da DreamWorks, que produziu a trilogia de filmes Madagascar, fez uma doação de 500 mil dólares à ONG Conservação Internacional para promover o ecoturismo em Madagascar

Tradução editada por Débora Medeiros como parte do projeto Global Voices Lingua