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Falta água em São Paulo, mas autoridades negam necessidade de racionamento

The Cantareira System, which supplies 7 million people with water, has reached record lows yesterday with 4,1% of its total capacity. Image by Flickr user Fernando Stankuns.

Sistema Cantareira, que abastece água para 7 milhões de pessoas, alcançou ontem recorde de queda, com 4,1% de sua capacidade total. Imagem do usuário do Flickr Fernando Stankuns. CC BY-NC-SA 2.0

São Paulo, o mais populoso estado Brasileiro, enfrenta a pior crise hídrica em décadas. O último verão foi o mais seco em 84 anos, desencadeando uma seca que já atinge 70 cidades, afetando a vida de 13,8 milhões de pessoas.

Dentre elas, 38 já adotaram um plano de racionamento de água, onde o abastecimento é alternado entre bairros a cada semana. Uma das situações mais preocupantes, no entanto, é na própria cidade de São Paulo, a capital do estado e maior metrópole da América Latina. O Sistema Cantareira, um complexo de quatro lagos reservatórios responsáveis ​​pelo fornecimento de água a 45% da região metropolitana da cidade (cerca de 6,5 milhões de pessoas) e outras cidades vizinhas, está funcionando com o recorde mais baixo da história – 4,1 por cento de sua capacidade total.

Apesar disso, há meses o governo do Estado e a Sabesp, estatal que gerencia o Sistema da Cantareira, têm negado o risco de falta de água na capital e a necessidade de colocar em prática um plano de racionamento, como outras cidades do interior já fizeram. Mas desde o início do ano moradores de vários bairros de São Paulo reclamam de interrupções semanais e até diárias. Só nesta semana, 34 escolas públicas da cidade passaram por problemas no fornecimento de água – e pelo menos uma precisou cancelar as aulas por conta disso.

Algumas pessoas acreditam que estão passando por um racionamento não oficial. No site Faltou Água, um mapa colaborativo mostra locais onde usuários relatam interrupções no abastecimento de água. Veja abaixo uma seleção de mensagens postadas no site entre agosto e setembro:

Corte de agua das 00:00 as 6:30 no jardim sao paulo zn de sp. Acontece a pelo menos 1 semana”
 
Aqui na Vl Monumento falta água toda noite, começou faltando à partir das 0h depois foi aumentando o período, hoje dá 21h e já não tem mais água.
 

Na v Madalena cortam todas as noites. Isso faz quase 2 meses

Ainda assim, muitos moradores de São Paulo não enfrentaram nenhum problema com o abastecimento. Para explicar isso, Vinícius Duarte tem uma teoria interessante, que ele compartilhou em seu Facebook:

Boa parte da população paulistana AINDA não sente a falta d'água (e acredita no governo, e continua gastando a rodo, e fazem piadinha com o tema) por uma razão simples: mora em prédio de apartamentos. Quando a Sabesp desliga o fornecimento (todo dia), o morador não vê a torneira seca e fica tranquilão. Afinal, ela continua a ser abastecida pela caixa d'água do edifício, que é coletiva. (…) Como algumas unidades consomem menos que outras, a coisa vai meio que se compensando. Mas isso só enquanto TEM água na caixa.

Sistema Cantareira à beira do colapso

Nesta semana, o Ministério Público Estadual revelou que a Sabesp sabia que os reservatórios corriam em risco de escassez de água desde 2012. Na época, a empresa enviou um relatório aos seus investidores em Nova York – 25,4% de suas ações são cotadas na Bolsa de Valores de New York – advertindo que a seca prevista para abril de 2014 poderia afetar suas finanças. A Sabesp, no entanto, só decidiu tomar medidas há cerca de oito meses: um desconto para usuários que economizavam água foi a sua principal estratégia para combater o colapso iminente do seu principal reservatório.

Desde maio, a empresa tem utilizado a primeira cota de “volume morto” (reservatório de água situado abaixo das comportas das represas). A Justiça Federal havia proibido a Sabesp de captar água da segunda cota desse volume mediante preocupações de má gestão de suprimentos, mas a decisão foi revogada ontem devido à urgência da situação, uma vez que a primeira quota só vai durar até o início de novembro.

A segunda quota compreende 106 bilhões de litros e deve durar até março de 2015, sem racionamento de água. Depois disso, acabou: não há “terceiro” volume morto na Cantareira. Resta apenas a esperança de que a chuva durante a estação chuvosa, que vai de dezembro a fevereiro, seja o suficiente para fornecer mais água para o resto de 2015.

Como disse a blogueira Camilla Pavanelli para seus mais de 1.600 seguidores no Facebook:

O plano do governo do estado é um só: captar até a última gota de volume morto e torcer para que chova. Não há plano B. Sendo assim, eu diria que já passou a hora de reconhecermos o seguinte: O tempo de pensar no uso racional e consciente de água já passou. O assunto, agora, é outro. O assunto não é “usar com parcimônia para que não acabe”. O assunto é que está acabando – ou, se considerarmos que a água do Sistema Cantareira que estamos consumindo é volume morto, já acabou.

Segundo especialistas, deve levar pelo menos quatro anos para que o sistema volte ao normal, mas tal estimativa depende das chuvas permanecerem dentro das médias históricas. As principais obras de drenagem de outros rios e reservatórios devem ficar prontos apenas em 2016, de acordo com o próprio cronograma da Sabesp. 

Na zona rural

O racionamento oficial de água atinge 38 municípios na zona rural. Estas cidades, que não são abastecidas pela Sabesp, dependem de pequenas empresas locais para o suprimento de água.

A vantagem de passar por um racionamento oficial é que as pessoas conseguem saber que dia e hora terão o abastecimento de água interrompido – de forma a tomar precauções em vez de ser pego de surpresa.

Isso, no entanto, não significa necessariamente que não haja manifestações e revoltas entre a população. A cidade de Itu, com 163 mil habitantes, sofre racionamento desde fevereiro, com o distrito tendo que comprar 3 milhões de litros de água por dia de cidades próximas. No domingo, moradores que participaram do quarto protesto contra a falta de água bloquearam uma estrada e atearam fogo em um ônibus.