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“Eu, ex-cotista, “vagabunda”: Leia o testemunho de uma brasileira pobre, negra e “audaciosa” que foi à luta

Programa afroatiude, autor Alexsandro de Brito Almeida

Capa do relatório sobre o primeiro ano do programa Afroatiude, por Alexsandro de Brito Almeida. Reprodução permitida.

Aos 27 anos, Gabriela Moura é uma jovem brasileira que já pode dizer que venceu muito na vida. Vinda da periferia e de escolas públicas do norte do Paraná, ela acalentou um desejo que chama de “audácia muito grande”: ingressar no curso de Relações Públicas da Universidade Estadual de Londrina. Não é um sonho fácil no Brasil, país onde filhos de costureiras, empregadas e babás, como ela, não costumavam “ter sonhos além de chegar ao final do ensino médio”.

No post íntimo e comovente “Eu, ex-cotista, “vagabunda”, Gabriela conta a saga que percorreu para passar no vestibular, aos 17 anos, e como foi enfrentar preconceito e racismo como estudante aprovada por meio do sistema de cotas raciais para instituições de ensino superior. Ela fala ainda sobre o primeiro contato com a cultura negra, algo que mudou a vida dela para sempre – e desde então tem mudado a vida de todos os jovens negros que passam em seu caminho.

No Brasil, a adoção de reserva de vagas em universidades começou em 2000, e o sistema foi validado pelo Supremo Tribunal Federal em 2012. O objetivo é reservar vagas em instituições públicas ou privadas para grupos específicos, como negros e indígenas, como uma forma de ação afirmativa para reverter o racismo histórico contra determinadas classes étnico/raciais. Identidade racial é um assunto complexo, ligado a status social e econômico, enquanto racismo é um tópico espinhoso entre brasileiros – veja alguns posts de nossa cobertura sobre o tema abaixo.

Gabriela Moura

Gabriela Moura, em 7 de março de 2014. Publicada com permissão.

Veja a seguir trechos do depoimento da blogueira, que chama a atenção da blogosfera brasileira. Começando com a preparação autodidata para o vestibular:

Quando eu tinha 16 anos eu decidi mudar de período na escola, indo do matutino ao noturno, para que assim tivesse um tempo para trabalhar e pagar o cursinho pré-vestibular. E isso já era uma audácia muito grande: desejar ingressar na Universidade Estadual de Londrina. A minha mãe não deixou que eu seguisse com estes planos, dizia que seria pesado demais conciliar trabalho e escola, e me sobraria pouco ou quase nenhum tempo livre pra diversão e coisas de adolescente. Por isso eu comecei a tentar estudar em casa mesmo, só com os materiais da escola – internet era um luxo inimaginável. Na verdade, nem computador eu tinha, e não tinha vaga ideia de quando eu teria um. A minha mãe trabalhava como costureira autônoma.

Sobre a aprovação no vestibular e o preconceito dentro da universidade:

Para encurtar esta parte da história: Em fevereiro de 2005 eu fui a uma festa promovida pela rádio pop local, que divulgaria o resultado do vestibular ao vivo, e quando eles distribuíram o jornalzinho do resultado (patrocinado pelo maior colégio particular da cidade, risos), meu nome estava lá, e naturalmente minha mãe chorou quando recebeu a notícia por telefone, um celular que eu peguei emprestado de um amigo.

Estaria tudo ok se não fosse um porém: eu era cotista. Isso aí é como se eu carregasse alguma placa em neon piscante dizendo que eu não pertencia àquele lugar. Desde o começo eu ouvi manifestações hostis de pessoas que diziam abertamente que eu não deveria estar ali, pelos seguintes motivos:
– Elas estudaram muito, pagaram 2, 3, 4 anos do cursinho mais caro da cidade justamente para terem mais chance.
– Um possível mau desempenho meu atrasaria a turma toda.
– É racismo inverso contra brancos (sic).
– Cria vagabundos.

Sobre a realidade como estudante pobre e cotista:

Sobre o racismo inverso a gente finge que não ouviu, pro bem da nossa saúde mental. E se insistirem, uma aula explicando o massacre das populações negras deveria ser suficiente. Se não for, é porque o ouvinte é mau-caráter, mesmo. E também me surgia a dúvida: a pessoa estuda 4 anos em escola particular e culpa uma cotista de ter roubado a vaga? Não soa razoável. Mas dinheiro ainda importava.

Ai vem a nova parte da minha novela.
Sobre a vagabundagem cotista: possivelmente a acusação mais esdrúxula neste mar de chorume racista. O curso de Relações Públicas não é dos mais caros. Os livros saem por cerca de 40 reais. A exceção são os livros de Economia e Marketing que, às vezes, passam dos 100. Mas todo aquele volume de xérox começou a falir a conta bancária que eu já não tinha. E, em certos dias, eu precisava escolher entre pagar 3 reais de passagem de ônibus ou usar estes mesmos 3 reais para comprar comida. Dentro do ambiente acadêmico, porém, o desempenho era equivalente. Eu não sentia que era menos capaz do que meus colegas oriundos de escolas particulares.

Sobre o Afroatitude, projeto que uniu alunos cotistas de 10 universidades públicas:

Com este projeto eu entrei em contato com a cultura negra, o que me era inédito, usei o dinheiro da bolsa pra comprar o primeiro computador da minha vida, estudei a vulnerabilidade da população negra e isso serviu de estopim pra tudo o que eu sou hoje. Apoiados pela Secretaria dos Direitos Humanos do Governo Federal, nós tivemos a chance de estudar a influência e as carências das populações negras das regiões em que vivíamos, e pudemos finalmente ter a noção do tanto de trabalho que ainda havia a ser feito. Eu não sei se consigo ser objetiva neste ponto e explicar direito a importância deste projeto em minha vida. Digamos que minha intelectualidade ganhou na loteria acumulada. Muita riqueza de informação. Em paralelo a isso, eu queria entender por que alguns colegas insistiam que eu e meus demais amigos cotistas éramos inúteis e tão dispensáveis, e por que não deveríamos estar ali. 

A formatura e o resultado:

Eu me formei em 2008, sem ter a minha foto de criança exposta no painel da festa, como meus outros colegas, por eu não ter conseguido pagar a festa. Eu fui como convidada de uma amiga. Eu me formei odiando festas de formatura e me sentindo deslocada.

Mas o que é importante dizer que cotas funcionam, sim. E incomodam, também. Incomodam porque provam que vestibular não serve mais pra nada, e porque “mescla” um ambiente que, até 10 anos atrás, era homogêneo. Branco. As cotas provam que elite intelectual é um termo inventado para deprimir e assustar aqueles que não possuem grandes quantias de dinheiro para serem gastas em escolas que vendem mais imagem do que conhecimento. Ou para manter estas pessoas longe da preocupação da escola pública, porque afinal, pra que se preocupar com a escola da filha da empregada se a tua cria pode estudar no palácio do centro?

E depois da formatura:

Como profissional de Relações Públicas, aos 24 anos eu alcancei a posição de gerência da empresa onde trabalhei. Não me soa nada ruim.

Eu voltei a estudar em 2010, desta vez escolhi aprender a ler, escrever e falar árabe coloquial e árabe clássico. Estudei cinema árabe, literatura árabe, filosofia árabe, história árabe.

Sobre o sistema de cotas:

O sistema de cotas para negros é bem simples de entender, ele é feito para a inserção de pessoas negras na universidade. Ele não substitui a necessidade de repensarmos a educação de base, mas impede que a disparidade racial do país aumente. O sistema de cotas não é outra coisa, senão um sistema inclusivo. Também é leviano chama-lo de “esmola governamental”, porque uma das obrigações do governo é justamente zelar pelo bem estar de seus cidadãos, e os cotistas estão apenas utilizando um direito, que é o de estudar. Errado é achar que, porque estas pessoas não tiveram 1.500 reais por mês durante 15 anos, não merecem entrar pelos portões da frente do ensino superior. O sistema de cotas incomoda porque mostra que dinheiro pode comprar coisas, pode até comprar gente, mas não pode comprar humanidade.

Não deixe de ler o relato completo no blog Gabinóica etc.

Aquarela de Gabriela Moura

Aquarela de Gabriela Moura, publicada com permissão

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  • Bruno Galvao dos Santos

    Texto simplesmente lindo. Como alguém pode ser contra cotas? Aliás, só para acrescentar sou branco, de classe média alta e estudei em escola particular.