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1 milhão de refugiados podem marchar até à capital do Paquistão para conseguir atenção do governo

Internally displaced people from North Waziristan are at registration camp in Peshawar.

IDP's (pessoas deslocadas internamente) de Waziristão do Norte em um campo de registro em Peshawar. Imagem de ppiimages. Copyright Demotix (8/7/2014)

Dezenas de milhares de manifestantes anti-governo estão organizando manifestações na capital Islamabad. A crise política resultante tem cativado e monopolizado a atenção da mídia paquistanesa desde meados de agosto.

Ao mesmo tempo, a imprensa paquistanesa mal tem dado cobertura a uma operação militar em curso que forçou um milhão de pessoas a deixarem seus lares no Waziristão do Norte, perto da fronteira com o Afeganistão.

Zainab Abdullah, paquistanesa residente nos Estados Unidos, escreveu em seu perfil no twitter:

O Paquistão está em guerra, com mais de milhão de deslocados internos, desabrigados, famintos e abandonados. Ainda assim, todos os olhos e corações estão voltados para a capital – triste

O exército paquistanês lançou em junho a Operação Zarb-e-Azb, atacando diversos campos, inclusive alguns pertencentes ao TTP (Movimento Talibã do Paquistão) e ao IMU (Movimento Islâmico do Usbequistão), que reivindicaram a responsabilidade por um ataque a um aeroporto internacional em Carachi.

A primeira fase da operação incluiu intensos ataques aéreos no Waziristão do Norte, cujos alvos eram áreas de treinamento, esconderijos e outras infra-estruturas de grupos militantes. Os primeiros ataques aéreos fizeram com que pelo menos 457.000 pessoas deixassem seus lares. Os ataques continuaram, e de acordo com as últimas informações publicadas pelo OCHA (Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários) a quantidade de deslocados internos nessa região já ultrapassa um milhão.

Screenshot from Ocha's North Waziristan Displacements snapshot as on 15 August, 2014.

Imagem publicada no relatório do OCHA sobre os refugiados do Waziristão do Norte; atualizado pela última vez em 15 de agosto de 2014.

Essa onda de refugiados foi somada a outras 690.000 pessoas que já vivam no país na condição de deslocados internos, alguns desde 2004, outros devido a operações militares anteriores contra os talibãs e ainda outros na decorrência de inundações desastrosas.

O governo paquistanês estava despreparado para esta crise humanitária. Há relatos de que alguns campos de refugiados dirigidos pelo governo estão vazios. Enquanto isso, os deslocados espalhados por todo o país enfrentam condições miseráveis e sobrevivem graças à ajuda de alguns bons samaritanos locais. Os grupos minoritários são, por vezes, totalmente ignorados. Funcionários da província de Sindh alegam que, devido a restrições orçamentais, não podem acomodar os deslocados da província de Khyber Pakhtunkhwa. Muitos deslocados enfrentam ainda um processo de registro exaustivamente lento, além de uma ineficaz distribuição de suprimentos. Com efeito, a lista de irregularidades e riscos à saúde dos deslocados longa.

Diversos grupos, incluindo partidos da oposição, têm trabalhado para comunicar as queixas dos deslocados ao governo nacional. De Islamabad, porém, o governo tem subestimado a gravidade do desastre. No dia 10 de julho, o Ministério das Relações Exteriores se recusou a solicitar ajuda internacional, alegando ser a reabilitação dos deslocados uma questão interna. No entanto, o governo está permitindo que a ONU e parceiros humanitários ligados à Associação Humanitária Nacional levantem fundos e ofereçam assistência humanitária essencial para manter 500.000 deslocados por seis meses. Até o momento, o dinheiro já doado ou prometido não passa de 25% dos US$ 99 milhões necessários, e nesse meio tempo, o número de refugiados passou de um milhão.

Algumas autoridades das comunidades deslocadas estão cada vez mais impacientes com as medidas ineficientes do governo. A líder tribal do Waziristão do Norte, por exemplo, ameaçou marchar com sua tribo até Islamabad, se for isso o necessário para atrair a atenção nacional.

Relief Goods consignment from Pakistan Army being dispatched for IDPs of North Waziristan. Image by ppiimages. Copyright Demotix (3/7/2014)

Suprimentos dos Exército Paquistanês sendo despachados aos deslocados do Waziristão do Norte. Imagem de ppiimages. Copyright Demotix (3/7/2014)

No dia 14 de agosto, os partidos PTI (Movimento Paquistanês pela Justiça) do ex-jogador de críquete Imran Khan e PAT (Movimento do Povo Paquistanês) do político e professor sufista Tahir-ul-Qadri, respectivamente, organizaram marchas anti-governamentais em Islamabad. Suas acusações contra o governo são diversas: manipulação das eleições gerais de 2013, corrupção, nepotismo e a morte de pessoas inocentes, só para citar algumas. Suas exigências incluem, entre outras coisas, as resignações do primeiro ministro Nawaz Sharif e do ministro chefe do Punjabe, Shehbaz Sharif.

As manifestações começaram como passeatas pacíficas em frente ao edifício do Parlamento. Porém a 30 de agosto, houve choques violentos entre a polícia e os manifestantes. Até à data, três pessoas foram mortas e muitas outras feridas.
Desde o começo das passeatas, os canais de notícias paquistaneses têm feito maratonas de transmissões dedicadas estritamente à crise política do lado de fora do Parlamento em Islamabad. A mídia tem ignorado quase por completo a situação da população paquistanesa deslocada.

Sherry Rehman, ex-ministro da informação e embaixador nos EUA, encorajou a mídia paquistanesa a “crescer” e se voltar mais à crise dos deslocados no país.

Se a mídia paquistanesa quiser começar a crescer, deveria fazer melhores escolhas editoriais. Procurem dar um pouco mais de atenção aos deslocados nas suas maratonas de transmissão.

A televisão paquistanesa ignorou também outros importantes acontecimentos recentes, como a morte de mais 15 pessoas causada pelas intensas chuvas do mês passado e um ataque talibã a uma base aérea em Quetta, no oeste do Paquistão.

Como muitos paquistaneses, Hafsa Khawaja, estudante em Lahore e preocupada com a atual situação do país, tuitou aos principais meios de comunicação, pedindo aos jornalistas que repensem suas prioridades editoriais e dediquem mais atenção às tragédias ignoradas no país.

Seria bom se a mídia desse ao menos metade da atenção que está dando a este caos, aos paquistaneses sofredores e ignorados

Vários jornalistas também reclamaram sobre a aparente apatia da mídia em relação aos deslocados paquistaneses. Mesmo antes das manifestações, Nasim Zehra, uma proeminente âncora e colunista, já se perguntava se a política da capital estava promovendo a indiferença em relação à crise humanitária no Paquistão. Zehra se dirigiu não só ao governo, mas à “realeza” que existe dentro da mídia.

Enquanto damos tanta atenção ao drama político no Paquistão, que atenção temos dado aos deslocados? Perguntemos isso a nós mesmos, aos nossos governantes e aos nossos partidos políticos. 

Segundo Faizan Lakhani, alguns pais até começaram a colocar em suas crianças o nome dos campos de refugiados.

O campo de refugiados onde na semana passada nasceu “Azb Khan” se chama “Azb Khan Enclosure”

Memeabad, uma página de humor satírico do Facebook, com mais de 64.000 seguidores, anunciou em uma postagem:

JUST IN: Boy born in the IDP camps of Bannu. Parents named him Azb ‘Stop fucking ignoring us we're suffering for you people’ Khan.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS: Nasceu um menino nos campos de refugiados de Bannu. Seus pais o chamaram de Azb ‘Pare de nos ignorar, porque estamos sofrendo’ Khan.

Na página Memebad, e por toda a Internet, a mensagem que se tenta passar com tanta raiva e frustração é que os paquistaneses tratam com uma terrível indiferença o sofrimento de seus compatriotas.

Fakhr-e-Alam, uma importante figura na indústria de entretenimento do Paquistão, expressou seu desapontamento com a maneira como o país lida com seus refugiados.

Nas últimas 2 semanas não ouvi nada sobre refugiados, Zarb-e-Azb, agressões da Índia, assassinato de minorias, lei e ordem, etc de nenhum líder.

Compreensivelmente, as comunidades deslocadas estão desapontadas com as medidas do governo. Apesar dos inerentes perigos à vida no Waziristão do Norte, muitos deslocados pedem ao governo que apresente uma data oficial para o fim da operação Zarb-e-Azb, para que eles possam finalmente retornar aos seus lares e encontrar um pouco de alívio.

Tradução editada por Lú Sampaio como parte do projecto Global Voices Lingua