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Avaliação de riscos: o que a técnica de controle de mosquito transmissor da dengue representa às populações no Brasil

Rapaz solta mosquitos transgênicos em Mandacaru. Foto: Coletivo Nigéria/Agência Pública

Rapaz solta mosquitos transgênicos na cidade de Mandacaru. Foto: Coletivo Nigéria/Agência Pública

A reportagem do Coletivo Nigéria foi publicada originalmente no site da Agência Pública, em 8 de outubro de 2013. O Global Voices reproduz o artigo em três partes. Leia também a primeira parte. 

Apesar da campanha de comunicação da organização social Moscamed, com os testes realizados no interior da Bahia e relatados na primeira parte desta reportagem, a ONG britânica GeneWatch aponta uma série de problemas no processo brasileiro. O principal deles, o fato do relatório de avaliação de riscos sobre o experimento não ter sido disponibilizado ao público antes do início das liberações dos testes. A pedido dos responsáveis pelo Programa Aedes Transgênico, o processo encaminhado à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio, órgão encarregado de autorizar ou não tais experimentos) foi considerado confidencial. A diretora executiva da ONG, Helen Wallace, comentou em entrevista:

Nós achamos que a Oxitec deve ter o consentimento plenamente informado da população local, isso significa que as pessoas precisam concordar com o experimento. Mas para isso elas precisam também ser informadas sobre os riscos, assim como você seria se estivesse sendo usado para testar um novo medicamento contra o câncer ou qualquer outro tipo de tratamento.

Especialista nos riscos e na ética envolvida nesse tipo de experimento, Helen publicou este ano o relatório Genetically Modified Mosquitoes: Ongoing Concerns (“Mosquitos Geneticamente Modificados: atuais preocupações”), que elenca em 13 capítulos o que considera riscos potenciais não considerados antes de se autorizar a liberação dos mosquitos transgênicos. 

O documento também aponta falhas na condução dos experimentos pela Oxitec. Por exemplo, após dois anos das liberações nas Ilhas Cayman, apenas os resultados de um pequeno teste haviam aparecido numa publicação científica. No começo de 2011, a empresa submeteu os resultados do maior experimento nas Ilhas à revista Science, mas o artigo não foi publicado. Apenas em setembro do ano passado o texto apareceu em outra revista, a Nature Biotechnology, publicado como “correspondência” – o que significa que não passou pela revisão de outros cientistas, apenas pela checagem do próprio editor da publicação.

Helen Walace, diretora da ONG inglesa GeneWatch, critica a técnica utilizada. Foto: Coletivo Nigéria/ Agência Pública

Helen Walace, diretora da ONG inglesa GeneWatch, critica a técnica utilizada. Foto: Coletivo Nigéria/ Agência Pública

Para Helen Wallace, a ausência de revisão crítica dos pares científicos põe o experimento da Oxitec sob suspeita. Mesmo assim, a análise do artigo, segundo o documento, sugere que a empresa precisou aumentar a proporção de liberação de mosquitos transgênicos e concentrá-los em uma pequena área para que atingisse os resultados esperados. O mesmo teria acontecido no Brasil, em Itaberaba. Os resultados do teste no Brasil também ainda não foram publicados pela Moscamed. O gerente do projeto, Danilo Carvalho, informou que um dos artigos já foi submetido a uma publicação e outro está em fase final de escrita.

Outro dos riscos apontados pelo documento está no uso comum do antibiótico tetraciclina. O medicamento é responsável por reverter o gene letal e garantir em laboratório a sobrevivência do mosquito geneticamente modificado, que do contrário não chegaria à fase adulta. Esta é a diferença vital entre a sorte dos mosquitos reproduzidos em laboratório e a de suas crias, geradas no meio ambiente a partir de fêmeas selvagens – sem o antibiótico, estão condenados à morte prematura.

A tetraciclina é comumente empregada nas indústrias da pecuária e da aquicultura, que despejam no meio ambiente grandes quantidades da substância através de seus efluentes. O antibiótico também é largamente usado na medicina e na veterinária. Ou seja, ovos e larvas geneticamente modificados poderiam entrar em contato com o antibiótico mesmo em ambientes não controlados e assim sobreviverem. Ao longo do tempo, a resistência dos mosquitos transgênicos ao gene letal poderia neutralizar seu efeito e, por fim, teríamos uma nova espécie geneticamente modificada adaptada ao meio ambiente.

A hipótese é tratada com ceticismo pela Oxitec, que minimiza a possibilidade disto acontecer no mundo real. No entanto, documento confidencial tornado público mostra que a hipótese se mostrou, por acaso, real nos testes de pesquisador parceiro da empresa. Ao estranhar uma taxa de sobrevivência das larvas sem tetraciclina de 15% – bem maior que os usuais 3% contatos pelos experimentos da empresa –, os cientistas da Oxitec descobriram que a ração de gato com a qual seus parceiros estavam alimentando os mosquitos guardava resquícios do antibiótico, que é rotineiramente usado para tratar galinhas destinadas à ração animal.

Mosquito Aedes Aegipty, transmissor da dengue. Foto: Coletivo Nigéria/Agência Pública

Mosquito Aedes Aegipty, transmissor da dengue. Foto: Coletivo Nigéria/Agência Pública

O relatório da GeneWatch chama atenção para a presença comum do antibiótico em dejetos humanos e animais, assim como em sistemas de esgotamento doméstico, a exemplo de fossas sépticas. Isto caracterizaria um risco potencial, já que vários estudos constataram a capacidade do Aedes aegypti se reproduzir em águas contaminadas – apesar de isso ainda não ser o mais comum, nem acontecer ainda em Juazeiro, segundo a Secretaria de Saúde do município.

Além disso, há preocupações quanto a taxa de liberação de fêmeas transgênicas. O processo de separação das pupas (último estágio antes da vida adulta) é feito de forma manual, com a ajuda de um aparelho que reparte os gêneros pelo tamanho (a fêmea é ligeiramente maior). Uma taxa de 3% de fêmeas pode escapar neste processo, ganhando a liberdade e aumentando os riscos envolvidos. Por último, os experimentos ainda não verificaram se a redução na população de mosquitos incide diretamente na transmissão da dengue.

Todas as críticas são rebatidas pela Oxitec e pela Moscamed, que dizem manter um rigoroso controle de qualidade – como o monitoramento constante da taxa de liberação de fêmeas e da taxa de sobrevivências das larvas sem tetraciclina. Desta forma, qualquer sinal de mutação do mosquito seria detectado a tempo de se suspender o programa. Ao final de aproximadamente um mês, todos os insetos liberados estariam mortos. Os mosquitos, segundo as instituições responsáveis, também não passam os genes modificados mesmo que alguma fêmea desgarrada pique um ser humano.