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Rússia oferece 4 milhões de rublos a quem quebrar a rede Tor

Logótipo Tor usado com permissão. Montagem de Kevin Rothrock.

Logótipo Tor usado com permissão. Montagem de Kevin Rothrock.

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O governo russo oferece quase 4 milhões de rublos (cerca de 100 mil dólares) a quem consiga criar um método fiável para desencriptar dados enviados através da rede anónima Tor. Uma crescente campanha do Kremlin contra a Internet livre, para não falar nas revelações nos Estados Unidos sobre espionagem governamental, tornaram o Tor cada vez mais atractivo para os utilizadores russos da Internet que procuram contornar a censura do estado.

Concebido há mais de uma década como projecto do Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos, o Tor converte em anónimo o tráfego da Internet, enviando-o por uma configuração única de nós conhecida como sistema de roteamento onion (cebola). Actualmente gerido por uma entidade sem fins lucrativos, o projecto continua a receber financiamento federal nos Estados Unidos mas conta com aproximadamente 4 milhões de utilizadores em todo o mundo, entre eles muitos activistas digitais com conhecimentos técnicos em países onde predominam a censura e a vigilância. Mesmo o Departamento de Estado norte-americano apoia programas que ensinam activistas políticos estrangeiros a utilizarem o Tor como protecção do olhar atento de governos autoritários.

Não é a primeira vez que o Tor enfrenta problemas na Rússia. No ano passado, a FSB, principal agência de segurança do país, pressionou a Duma (Assembleia Nacional) [ru] para proibir o Tor. Os deputados manifestaram apoio à iniciativa, mas ela nunca chegou a sair do comité.

Stanislav Sharikov, líder do Partido Pirata da Rússia, afirma que o renovado interesse do governo russo em quebrar o Tor poderá ter mais que ver com genuínos assuntos policiais do que com repressão política. O prémio de 4 milhões de rublos (quantia relativamente baixa para os padrões do sector) não está a ser oferecido pela FSB mas pelo Ministério do Interior, que de acordo com Sharikov está mais interessado em combater pornografia infantil do que dissidentes anti-Putin.

Claro que o Tor é uma tecnologia de “dupla utilização”. Proporcionando uma forma de escapar à censura e à espionagem, a rede é também utilizada por pessoas envolvidas no crime organizado, tráfico de droga e troca e venda de pornografia infantil. Documentos divulgados por Edward Snowden provam que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos tem investido uma quantidade significativa de recursos para hackear o Tor, com o intuito de recolher dados pessoais sobre os seus utilizadores.

O governo norte-americano cita precisamente estas utilizações preocupantes do Tor para justificar os seus próprios esforços de desencriptação dos dados dos utilizadores. Mas a natureza anónima da rede torna difícil conhecer exactamente quem a utiliza e para quê, a uma escala mundial.

Embora isso seja improvável, se o projecto de desencriptação da Rússia for bem-sucedido poderá pôr em perigo milhões de utilizadores da Internet cujas motivações para manter o anonimato estão longe de serem perversas.