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Lutar não é crime: Ativistas são presos “preventivamente” no Rio por protestar contra Copa do Mundo ao estilo Minority Report

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Imagem de uso livre.

No começo da manhã do dia 12 de julho, 28 ativistas contrários à realização da Copa do Mundo no Brasil foram presos “preventivamente” na cidade do Rio de Janeiro suspeitos de praticar atos violentos e sendo acusados de “formação de quadrilha armada” baseado em provas forjadas. No total estão presas 37 pessoas, algumas acusadas de “ligação” com os ativistas. O perfil da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, no Facebook, explica:

Na manhã de hoje, 12 de julho de 2014, em torno de 60 sessenta mandados de prisão temporária, impondo cinco dias de detenção, estão sendo cumpridos pela Polícia Civil do Rio de Janeiro contra manifestantes e participantes dos protestos do último ano. Até o momento, já foram efetuadas aproximadamente 20 prisões. Os mandados foram expedidos desde quinta-feira e cumpridos neste sábado, dia anterior a final da Copa do Mundo, para quando há um grande ato de rua marcado. Detidos e detidas, incluindo duas mães, estão sendo encaminhados para a “Cidade da Polícia”. Chegando na caçamba de camburões e sendo retirados sob a mira de fuzis.

Segundo o professor Pablo Ortellado, “entre os presos confirmados, [estão] professores, midialivristas e ativistas anti-Copa” que podem ficar presos por até 5 dias preventivamente. O clima entre ativistas dos direitos humanos é de revolta, como expressa o professor Giuseppe Cocco:

60 prisões preventivas e arbitrárias no Rio de Janeiro para “alemão: ver a final desse vexame da Copa que não aconteceu…
Espalhem por ai …mundo afora a política da coalização PT-PSDB-PMDB-PSB etc. etc.
Tudo isso para a final das finais, a copa das copas…ou seja o VEXAME DOS VEXAMES …
Em outubro vamos lembrar !

O perfil do jornal alternativo A Nova Democracia explicou, no Facebook, a operação da polícia:

Os ativistas foram alvo de uma verdadeira operação de guerra envolvendo ao menos 150 policiais. Os agentes chegaram nos locais de busca encapuzados e fortemente armados. Na DRCI [Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática, zona norte do Rio], a equipe de AND acaba de ser proibida de participar da coletiva de imprensa para a qual somente as equipes do monopólio da imprensa tiveram o acesso autorizado. […] Parentes e amigos dos presos estão sendo ameaçados e intimidados dentro da delegacia e Advogados do Povo já denunciam várias violações de prerrogativa.

Esta ação repressiva da polícia do Rio de Janeiro se insere na tentativa do Estado brasileiro de desmobilizar as manifestações convocadas para o jogo final da Copa do Mundo, no Maracanã. Os alvos são, em geral, lideranças ou figuras que tiveram destaque durante manifestações anteriores e que participaram dos grandes protestos que sacudiram o país em junho de 2013. O Global Voices denunciou em junho deste ano outra rodada de prisões contra ativistas antes mesmo de protestos começarem. A ativista Renata Gomes foi direta:

Mandado de prisão temporária é o ESCÂNDALO DOS ESCÂNDALOS!!! Para impedir que as pessoas se manifestem amanhã!!! Alguém encomende o corpo da democracia brasileira, porque ela já morreu!!!

Imagem de uso livre do jornal alternativo Vírus Planetário

Imagem de uso livre do jornal alternativo Vírus Planetário

O professor Eduardo Viveiros de Castro, citando uma amiga, denunciou o esquema de guerra e a perseguição aos ativistas:

“A policia esta com mandados de prisão indo na casa de educadores, manifestantes com alegações mentirosas e variadas (sequestro, vandalismo, crime de internet).. estão t[am]b[em] seguindo pessoas na rua através de grampo no celular e prendendo… não se sabe o numero de militantes, mas não para de chegar gente na cidade da policia…”

O deputado federal e ativista Jean Wyllys classificou de “surreal” a ação:

Militantes, ativistas sociais e cidadãos e cidadãs que participaram de protestos no último ano estão sendo presos sem qualquer motivo, tendo suas casas invadidas pela Polícia Civil e levados sob a mira de fuzis, […]  por supostos crimes que, supostamente, poderiam, talvez, vir a cometer no futuro! É surreal!

Os ativistas presos foram levados para a chamada Cidade da Polícia e lá, segundo a ativista Maristela Grynberg, membros de veículos alternativos de mídia foram impedidos de acompanhar as prisões e garantir a integridade física dos detidos.

Foto de

Foto da ativista Eloisa Santiago, usada com permissão.

A tradutora Marcia Frazão denunciou em sua página do Facebook a prisão de sua amiga Eloisa Samy Santiago, “minha amiga, militante dos Direitos Humanos, advogada de manifestantes”. Márcia ainda criticou o Partido dos Trabalhadores pelo que ela chamou de prisões políticas:

Eu, que fui petista pela minha vida inteira (hoje já não sou mais), que cheguei a não votar no meu pai para votar num candidato do PT, nunca pensei que viveria um dia em que veria Presos Políticos em plena gestão de seu governo…

A Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência foi direta em explicar as razões para as prisões arbitrárias no Rio de Janeiro:

O objetivo imediato dessa ação, tão ilegal e arbitrária como várias outras que acontecem no país desde os protestos que começaram em junho do ano passado, parece ser intimidar e amedrontar as pessoas dispostas a participar dos protestos que estão sendo convocados para amanhã, durante a partida final da Copa do Mundo, no Maracanã. Para isso, está sendo utilizada a legislação de exceção aprovada aos níveis federal e estadual desde o ano passado.

Luiz Eduardo Soares, um dos maiores especialistas em segurança pública do Brasil, concorda:

A manobra visa evitar manifestações na final da Copa. Arrogância, incompetência e corrupção degradaram nosso futebol e estão arruinando as instituições que se pretendiam democráticas. É hora de denunciar e resistir.

O cineasta Fernando Marés (@roteirodecinema) denunciou a decisão do juiz da 27ª Vara Criminal do Rio:

O coletivo Rio na Rua denunciou em seu site um dos casos mais estranho de toda a operação policial, chamada de Firewall 2, em que uma das duas menores apreendidas foi responsabilizada pela posse de uma arma pertencente ao seu pai encontrada na casa em que estava. A jovem de 16 anos foi considerada dona da casa e esta arma é uma das bases para a acusação de “formação de quadrilha armada”.

Por fim, o ativista Caio Almendra resumiu a situação:

Ativistas suspeitos de serem capazes de um dia, em algum momento, por alguma razão ainda não estabelecida, cometer atos violentos são detidos sem acusação clara, direito a advogado, com flagrantes forjados.

Viva o estado de direito!

Eis a lista dos presos políticos e foragidos até o momento. Nela conta como foragido o nome de Luis Rendeiro que, pelo Facebook, enviou mensagem ao jornal A Nova Democracia:

“Olá galera… aqui é o Luiz tbm fui muito conhecido como GameOver… só pra dar a notícia… a Polícia está me caçando!!!! estão me intimidando e fazendo acusações esdrúxulas do tipo “Ele não ia explodir o maracanã hoje?” essa frase foi dita a minha esposa que estava junto ao meu filho de 3 anos de idade junto com sua avó que está com a saúde extremamente debilitada devido a polícia ja ter ido lá no inicio da copa… estou sendo acusado de estar foragido e de estar envolvido com uma ameaça de bomba no estádio do Maracanã! estou tentando arduamente me levantar após meses seguidos de luta… estou tentando equilibrar a minha família que ficou completamente abalada devido a minha atitude de me manifestar e lutar pelos meus direitos e pelos direitos dos demais cidadãos desse País!

Um tuitaço com a tag #PresosdaCopa chegou ao topo dos trending topics brasileiro no começo da noite de 12 de julho.