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Outra vez, disparo de um policial militar acaba provocando morte “acidental” no Brasil

A atriz e produtora cultural Luana Barbosa, morta durante uma blitz da polícia militar. Foto: Reprodução Facebook

A atriz e produtora cultural Luana Barbosa, morta durante uma blitz da polícia militar. Foto: Reprodução Facebook

Fazia apenas um dia que Luana Barbosa tinha 25 anos, quando ela e o namorado passaram por uma blitz da polícia militar em Presidente Prudente, interior de São Paulo. O policial que os abordou tinha 23 anos de corporação. Segundo ele, o casal furou um bloqueio da polícia e, por isso, ele teve de sacar sua arma. O disparo, que de acordo com o depoimento do policial foi acidental, atravessou o tórax de Luana. 

A atriz e produtora cultural estava a poucas horas da festa para comemorar seu aniversário mas não resistiu aos ferimentos e morreu a caminho do hospital. O policial foi encaminhado ao presídio onde deve responder por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. O caso, no entanto, volta para a tão discutida pauta da violência e muitas vezes despreparo em abordagens da polícia militar:

No último ano, especialmente depois do desaparecimento do pedreiro Amarildo, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, muitas histórias de acidentes começaram a surgir. São casos que levam a questionar se o treinamento militar, que forma a polícia das ruas, faz homens mais preparados para o confronto do que para abordagem.

Outras mortes

Em outubro de 2013, um disparo acidental saído da arma de um policial militar também causou a morte do jovem Douglas Martins Rodrigues, de 17 anos. Douglas foi atingido com um tiro no peito quando conversava com o irmão e o pai de um amigo na calçada, no final de um domingo. Em depoimento, o policial disse que a arma bateu na porta do carro e disparou sozinha. 

Em março de 2014, a morte de outro Douglas, um dançarino, no morro do Pavão-Pavãozinho no Rio de Janeiro, supostamente pelas mãos da polícia militar, também gerou protestos. 

Moradores acusam policiais de terem matado o dançarino. Segundo eles, houve um tiroteio na madrugada de ontem entre PMs (policiais militares) e traficantes. Douglas teria pulado um muro da creche para fugir do confronto e despencado de uma altura de sete metros. Mas familiares acreditam que o dançarino tenha sido agredido por PMs durante a confusão.

O caso da morte do Douglas de São Paulo ganhou espaço na mídia pelas manifestações que gerou, alguns moradores do bairro onde ele vivia chegaram a atear fogo em ônibus como protesto. O caso da morte do Douglas do Rio de Janeiro foi contado e debatido por ele fazer parte do elenco de um programa de televisão na maior rede do país, além do protesto realizado pedindo justiça ter terminado em duas mortes. Nos dois casos, a mídia foi pautada por pressão da sociedade civil. 

A militarização ideológica

A despedida dos amigos e da família de Lua, como Luana era conhecida, foi um cortejo de palhaços. Ela, no caixão, também estava com o nariz pintado de vermelho. No desabafo de um dos amigos, o ator Tiago Munhoz, em entrevista ao site Ponte, ficou a questão:

não havia nenhuma denúncia, nem ocorrência que pudesse colocar a polícia em alerta e fazê-la reagir dessa forma truculenta. Isso demonstra um despreparo sem tamanho. Foi uma morte banal, um absurdo. Cabe a mim usar a arte para discutir o que aconteceu. Não sei o que posso fazer, mas eu vou fazer as pessoas refletirem.

Discutir despreparo envolve discutir o sistema do policiamento militar. No entanto, como lembra Maria Lucia Karam, em um artigo publicado no blog Abordagem Policial, falar sobre desmilitarização não se restringe apenas às polícias:

Sem o fim do paradigma bélico que dita a atuação do sistema penal, qualquer proposta de desmilitarização das atividades policiais será inútil.

Karam explica que as funções de uma segurança pública militarizada são “radicalmente diversas” à natureza civil, de defesa da sociedade e seus cidadãos. E conclui:

Não são apenas as polícias que precisam ser desmilitarizadas. Muito antes disso, é preciso afastar a ‘militarização ideológica da segurança pública”, amplamente tolerada e apoiada até mesmo por muitos dos que hoje falam em desmilitarização. A necessária desmilitarização pressupõe uma nova concepção das ideias de segurança e atuação policial que, afastando o dominante paradigma bélico, resgate a ideia do policial como agente da paz, cujas tarefas primordiais sejam a de proteger e prestar serviços aos cidadãos.

Ao ver a morte de Luana se somar a uma lista de acidentes, para quem fica, resta apenas fazer com que não tenha sido em vão. E seguir buscando o debate capaz de reavaliar a maneira como são as coisas.