Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

Bastidores Fanzine: os “vários Moçambiques” espelhados numa publicação alternativa

Bastidores Fanzine é o primeiro fanzine moçambicano.

Bastidores Fanzine é o primeiro fanzine moçambicano.

Este artigo, escrito por Filipa Pontes, foi publicado originalmente no Buala a 5 de Abril de 2014.

Bastidores Fanzine é um projecto para uma publicação alternativa, lançado em Maputo por um grupo de jovens criativos de raízes e áreas profissionais diversas. O objectivo é criar um espaço livre, de divulgação de ideias sobre o contexto social, cultural e ambiental de Moçambique propondo desafiar os limites da imaginação e permitindo diferentes abordagens e perspectivas.

A sua estreia deu-se em Fevereiro de 2012, na C.A.S.A. Amarela, uma casa em processo de demolição que foi cedida para a produção do primeiro número, sob o tema “Transporte”. Acompanhando o lançamento do fanzine, inaugurou-se uma exposição no mesmo espaço, ocupando toda a casa e ainda uma festa de comemoração.

A segunda edição foi produzida em Maio de 2012 com o tema “Lixo” e teve o apoio da ENAV (Escola Nacional de Artes Visuais). A equipa Bastidores, em colaboração com os alunos da escola, ocupou a galeria durante dez dias para produzir o fanzine, montar uma exposição sobre o tema “Lixo”. Foi também organizado um programa de workshops e sessões de cinema, relacionados com o tema: reciclagem.

posição na galeria da Escola Nacional de Artes Visuais em Maputo. Foto de Jorge Fernandes

Exposição na galeria da Escola Nacional de Artes Visuais em Maputo. Foto de Jorge Fernandes

A mais recente edição tem como tema “Moçambiques: uma sociedade, várias realidades”, foi lançada a 12 de Março de 2014 na galeria da ENAV em Maputo sob coordenação de Filipa Pontes e Nuno Fulane. Esta terceira edição foi também produzida em residência artística na ENAV envolvendo os alunos daquela escola.

Artistas, poetas, escritores, sociólogos, antropólogos e outros pensadores foram desafiados a enviar obras (imagem ou texto) sobre os “vários Moçambiques”, com o objectivo de produzir uma publicação e uma exposição que espelhasse estas realidades.

A exposição integrou as obras originais dos artistas e autores envolvidos e esteve patente até ao dia 28 de Março.

O incentivo à criatividade e à liberdade de expressão característicos do fanzine possibilitou boas surpresas: o fotógrafo Mário Macilau participou com dois poemas. Pessoas da área das ciências sociais enviaram resumos das suas pesquisas espelhadas em imagens criativas e textos poéticos. Mia Couto interessou-se pelo tema e escreveu algumas palavras sobre o projecto Bastidores. Os artistas Gemuce, Butcheca, Filipe Branquinho, Walter Zand, Jorge Fernandes, João Roxo, Sandra Pizura, Filipa Pontes, Ruth Bañon  e Alejandro Levacov criaram obras especialmente para este projecto.

A contrabaixista Linda Paulino enviou duas peças de improvisação musical sobre o tema “Moçambiques”. Outros tantos tal como a rapper Iveth, ou os artistas Victor Sousa, Jorge Dias, David Mbomzo, Vasco Manhiça, Falcão, Nuno Fulane, Edwin Filipe, Muzilene ou Julia Barata enviaram obras de outros tempos mas que agora recriam sentido porque “falam” sobre essas várias realidades de Moçambique.

Numa grande diversidade de material criativo, a terceira edição de Bastidores Fanzine conta com 43 participantes.

A quarta edição de Bastidores Fanzine não vai tardar em acontecer e entretanto já se sentem movimentos para a criação de outros fanzines na capital moçambicana.

Inauguração da exposição dia 12 de Março 2014. Foto de Yassmin Forte

Inauguração da exposição dia 12 de Março 2014. Foto de Yassmin Forte

Como nasce uma fanzine

A ideia de impulsionar a produção de fanzines em Moçambique surgiu em 2011, quando um grupo de moçambicanos que viveu na Europa e alguns estrangeiros a viver na capital, manifestaram interesse em criar uma publicação alternativa e independente envolvendo jovens artistas. Depois de conhecer a Escola Nacional de Artes Visuais e o potencial criativo dos jovens estudantes, mais estimulados para desenvolver técnicas plásticas do que para uma visão crítica através da sua expressividade, surgiu a vontade de lhes propor desafios e publicar os resultados num fanzine.

'Moçambiques, uma sociedade, várias realidades'. Imagem da esquerda de Alejandro Levacov e da direita de Jorge Fernandes

‘Moçambiques, uma sociedade, várias realidades’. Imagem da esquerda de Alejandro Levacov e da direita de Jorge Fernandes

Foi assim que no início de 2012 o colectivo foi criado e, juntamente com alunos da ENAV, se produziu o primeiro Bastidores Fanzine. O projecto Bastidores Fanzine cria as suas edições de uma forma não regrada. Quando existe vontade e disponibilidade surge mais uma publicação e o colectivo é formado por pessoas interessadas que livremente se juntam para trabalhar. 

O projecto é uma iniciativa sem fins lucrativos, conta com o apoio da ENAV e algumas instituições culturais que fornecem os recursos para poder produzir os exemplares.

'Moçambiques, uma sociedade, várias realidades'. Imagem da esquerda de Gemuce e texto de Mia Couto

‘Moçambiques, uma sociedade, várias realidades’. Imagem da esquerda de Gemuce e texto de Mia Couto

Os fanzines são publicações independentes criadas por grupos de pessoas interessadas em divulgar informação específica, produzidos a baixo custo e pequenas tiragens. Desde os anos 80 são publicados um pouco por todo o mundo. Na actual disseminação de informação através da internet muitos dos fanzines passaram a ser digitais, no entanto, grupos com interesse em divulgar informação e ideias próprias e sem vontade de participar na comunicação massificada, alimentam o mundo dos fanzines em papel em pleno séc XXI.

Em Moçambique, o acesso à internet ainda enfrenta dificuldades e consequentemente a divulgação de informação através da web não é muito comum. Na capital, apesar de ser mais fácil o acesso às redes sociais digitais, a internet ainda não é vista como meio de pesquisa e disseminação de ideias. Neste sentido, o facto de fazer existir a possibilidade de que um grupo minoritário possa lançar uma publicação independente e a baixo custo é no mínimo um incentivo ao desenvolvimento da liberdade de expressão.

Antes do aparecimento de Bastidores Fanzine pouca gente em Maputo, (e não é arriscado dizer em Moçambique) tinha ouvido falar sobre os fanzines.

Hoje em dia uma grande parte dos jovens relacionados com o mundo da arte e cultura (o que engloba gente de todas as camadas sociais) já conhece o termo ou já ouviu falar, e existe já um conjunto de interessados em produzir novos fanzines, de e para Moçambique.

A mais recente edição está à venda na Escola Nacional de Artes Visuais em Maputo e disponível para consulta na biblioteca do Instituto Camões e Escola Portuguesa de Moçambique.

Em Portugal, Bastidores Fanzine está representado na Uzine Fanzineteca em Coimbra e no Atelier de Arte e Expressão em Caldas da Rainha. Brevemente chegará a outras partes de Portugal e outros países do mundo.

Bastidores Fanzine tem uma página no Facebook onde são actualizadas as actividades do colectivo. A equipa pode ser contactada através do correio electrónico bastidoresfanzine.mz@gmail.com