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Moçambique: Partido actualmente no poder já tem seu candidato para as eleições gerais

Na preparação das eleições gerais em Moçambique marcadas para 15 de Outubro de 2014, o partido no poder, Frelimo, escolheu no dia 1 de Março o candidato a Presidente da República, Filipe Nyussi.

Desde a independência do país, em 1975, a histórica Frente de Libertação de Moçambique esteve sempre no poder. Tendo em conta que nunca outro partido chegou lá, muitos apontam Filipe Nyussi já como “o próximo presidente” [en] do país. Mas a sua escolha dividiu opiniões.

A indicação dos pré-candidatos ocorreu em Dezembro de 2013, através da Comissão Política do partido que anunciou os nomes de Alberto Vaquina, actual Primeiro Ministro, José Pacheco, actual Ministro da Agricultura, e Filipe Nyussi, actual Ministro da Defesa. Daí surgiram vários debates dentro e fora da Frelimo, principalmente sobre o fraco capital político dos três pré-candidatos, considerados aliados do actual Presidente da República e do partido. Dentro da Frelimo essa contestação fez-se pública através de uma carta de impugnação aos três candidatos propostos pela Comissão Política pelos veteranos e fundadores do partido no poder, dentre eles Graça Machel, viúva do primeiro presidente de Moçambique independente, Samora Machel, e Pascoal Mucumbi, antigo primeiro ministro:

Uma escolha que sirva a paz e o País

Os membros da Frelimo estão preocupados com a situação do seu Partido porque estão conscientes do papel que o seu Partido deve desempenhar para bem e no interesse da sociedade. Os interesses do Partido são os dos seus ideais e do Povo. Não são interesses de pessoas, grupos de pessoas ou de membros individuais do Partido. Um partido só merece governar na medida em que respeita os interesses do Povo.
Assim, na escolha do candidato da Frelimo às eleições presidenciais não é apenas assunto eleitoral do Partido, devendo ser conduzido de forma a consagrar a melhor escolha para o País. Em princípio, a estrita observância, na letra e no espírito, das normas pertinentes inscritas nos estatutos sobre esta matéria, garante a escolha mais correcta, mais justa e mais consensual. Pelo contrário, a sua inobservância ou violação, fará o Partido resvalar para uma situação de caos e confusão, de fragilidade e de ilegitimidade, pondo em causa a sua própria razão de existir.

Por via dessa reclamação fizeram emergir mais dois pré-candidatos: os antigos primeiros ministros Luísa Diogo e Aires Ali. Acabaram por ser derrotados pelo actual candidato Filipe Nyussi na última reunião de quadros de decisão do partido, o Comité Central, que foi relatado no Twitter através da hastag #CCFRELIMO.

Perfil do candidato

Nyussi após a eleição do Comité Central da Frelimo. Primeira foto partilhada na nova página de Facebook do candidato.

Nyussi após a eleição do Comité Central da Frelimo. Primeira foto partilhada na nova página de Facebook do candidato.

Filho de pais combatentes na luta de libertação nacional, Nyussi é natural de Mueda, Cabo Delga­do, e pertence à etnia Macon­de, um grupo com forte influência dentro do partido Frelimo, o que pode ter favorecido a sua eleição. É formado em engenharia mecânica e em gestão, e é o primeiro candidato da Frelimo da região norte do país.

O sociólogo Carlos Serra, no seu blogue Diário de um Sociólogo, diz que o candidato presidencial da Frelimo é conotado no país sob três perspectivas diferentes. Serra aponta que “diversos jornais digitais, blogues e redes sociais” consideram-no “o candidato [do actual Presidente] Guebuza”, outros descrevem-no como o “arauto da guerra”, fazendo menção a declarações do partido da oposição Renamo. E ainda há quem esteja a promovê-lo como “o candidato do povo”, especialmente a imprensa alinhada com o poder, diz Serra, indicando uma notícia publicada no Jornal de “Notícias” a 3 de Março, “a seis colunas na primeira página, acompanhada de uma enorme fotografia de Nyussi”.

Sobre a conotação com a guerra, sendo Ministro da Defesa, Nyussi enfrenta o desafio de manter a paz e o calar das armas  nos confrontos que se desenrolam desde 2013 entre as forças governamentais e a Renamo na zona centro de Moçambique.

Talvez por esse motivo a oposição e muito cidadãos, como Edson Almeida, num comentário no Facebook a uma publicação feita pelo @Verdade, consideram que a confirmação de Filipe Nyussi como candidato é:

Uma excelente notícia para a oposição! Temo que o país caminhe para uma guerra sangrenta após as eleições de Outubro…

Nyussi encabeça um negócio de compra de equipamento militar avaliado em 850 milhões de dólares, ao qual Beto Tembe, em comentário à mesma publicação de @Verdade, faz menção:

Nao queremos um presidente que venha para continuar com a guerra. este senhor comprou armamento como nenhum outro havia comprado. nao podemos entregar este pais aos senhores de guerra. nao queremos uma Somalia aqui. 

Ainda no blogue Diário de um Sociólogo, Carlos Serra levanta uma série de questões em volta de como “poderá [Nyussi] distinguir-se das anteriores presidências em caso de vitória nas eleições marcadas para Outubro”:

quais os grupos sociais que a linha nyussiana apoiará em caso de vitória presidencial? Terá em conta interesses empresariais estratégicos? Serão os já existentes? Serão outros? Entrará em conflito? Adaptar-se-á? Fará da exportação de matérias-primas a coluna vertebral do seu programa de governação ou procurará, antes, criar uma indústria nacional monitorada por uma burguesia moçambicana criadora, forte e patriota? (…) Será um presidente-aspirina ou presidente-antibiótico? Resgatará uma linha samoriana de transformação das relações sociais ou abandoná-la-á definitivamente? Será um presidente subserviente à presidência política guebuziana na perspectica do duplo poder ou saberá dar autonomia à sua presidência? Que tipo de presidência? Resgatará uma linha samoriana de independência social ou abandoná-la-á definitivamente? E a nível das relações internacionais, que alianças fará, que parceiros escolherá? Finalmente: será um presidente que decalca o passado deixa-andar ou um presidente criador de um futuro verdamente social?

Num outro post no Diário de um Sociólogo, são apresentadas as reações de comentadores populares no país, como Sónia Ribeiro que diz:

Primeiro do que tudo, deixem-me observar que vocês estão a falar da eleição do candidato Nyussi como se o país fosse unicamente a Frelimo e tudo se resumisse à escolha do seu candidato presidencial. Não estais conscientes desse notável imperialismo de opinião? Em segundo lugar e como consequência lógica, queria perguntar-vos por que não falais de Daviz Simango [líder do MDM] e de Afonso Dhlakama [líder da Renamo] com a mesma oportunidade…presidencial. 

Texto ao qual um leitor de nome nachingweya comenta:

Seja quem for o próximo Presidente faria um grande serviço a Nação se aplicasse pelo menos 55% das mais valias provenientes da exploração dos recursos naturais na EDUCAÇÃO. Desde ao ensino pre-escolar até as universidades com absoluto enfoque na qualidade. Os moçambicanos são único recurso renovável realmente durável e exclusivamente moçambicano.