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Polícia abre fogo contra trabalhadores do setor vestuário em greve no Camboja

Uma das fotos de hoje. Tirada à tarde na Veng Srey BLVD, Phnom Penh, #Camboja.
pic.twitter.com/A2Xh7nPoU9

— Ate Hoekstra (@HoekstraAte) 3 de janeiro de 2014


[Todos os links levam à páginas escritas em inglês exceto quando especificado o contrário]

Foram confirmados quatro mortos e dezenas de feridos após a polícia e o exército entrarem em confronto com trabalhadores do setor vestuário na área industrial de Phnom Penh, capital do Camboja.

Dezenas de milhares de trabalhadores do setor vestuário estão em greve desde a última semana de dezembro, após o governo recusar a demanda dos sindicatos para aumentar o salário mínimo para $160 (cerca de R$ 380). O salário mínimo atual é de apenas $80 (cerca de R$ 90) e o conselho do trabalho está disposto a conceder $15 (cerca de R$ 35) de aumento no salário base. Como os protestos se intensificaram, o governo concordou em aumentar o salário mínimo com mais $5 (cerca de R$ 12).

Mas os trabalhadores têm se mantido firmes em sua demanda pelo salário mínimo de $160. O setor de vestuário no Camboja é uma indústria que exporta $5 bilhões (cerca de R$ 12 bilhões) e emprega mais de 600.000 trabalhadores. Muitas das marcas mais famosas do mundo têm fornecedores no Camboja, país com um dos salários mínimos mais baixos na região Ásia-Pacífico.

John Vink conta o que viu na cena do confronto:

At least 3 people were shot dead and several were severely injured by hundreds of bullets fired by armed forces during a brutal crackdown in the morning of January 3rd on barricades set up by thousands of striking workers on Veng Sren road, in the industrial area of Phnom Penh. Several others were arrested and subsequently tasered, beaten up or beaten unconscious

Ao menos 3 pessoas foram mortalmente baleadas e diversas foram gravemente feridas por centenas de disparos das forças armadas durante um ataque brutal na manhã de 3 de janeiro nas barricadas feitas por milhares de trabalhadores em greve na Rua Veng Sren, na área industrial de Phnom Penh. Vários outros foram presos, levaram choques, foram espancados, alguns até ficarem inconscientes.

Muitas fotos horríveis de feridos/mortos no facebook. Parece guerra civil ao invés de repressão de #protestos. #Camboja

— Cambodia Guide (@camboguide) 3 de janeiro de 2014

A tensão aumentou ontem quando a polícia prendeu vários manifestantes, incluindo monges e ativistas de direitos humanos. Em resposta, manifestantes fizeram bloqueios nas estradas, o que a polícia tentou limpar pela manhã. Testemunhas afirmaram que a polícia usou munição letal para dispersar a manifestação.

polícia militar ocupou a rua Veng Sreng. Ao menos quatro manifestantes foram presos e um foi visto sangrando pic.twitter.com/H59wkhPdsI

— Vannarin Neou (@vannarinneou) 3 de janeiro de 2014

Licadho descreveu o confronto como o “pior caso de violência do Estado contra civis que ocorreu no Camboja em quinze anos”. Grupos de direitos humanos estão exigindo que:

…security forces must now put an immediate end to the use of live ammunition against civilians and ensure that all those injured are safely transported to hospital without delay

…forças de segurança devem parar imediatamente de usar munição letal contra civis e devem garantir que todos os feridos sejam transportados com segurança e sem demora para o hospital

Ou Virakdo do Cambodian Center for Human Rights (Centro Cambojano para os Direitos Humanos) acredita que a polícia agiu violentamente para proteger os interesses de grandes empresas:

While many of the political demonstrations which have taken place over the last few months have been met with restraint from the security forces, there is an increasingly clear link between the excessive use of force by security forces and the protection of the big business of Cambodia. Of the 25 cases where we noted excessive use of force, 21 were related to strikes by garment workers or protests over land.

Embora muitas das manifestações políticas que ocorreram nos últimos meses tenham sido reprimidas pelas forças de segurança, há uma ligação cada vez mais clara entre o uso excessivo da força pelas forças de segurança e da proteção das grandes empresas no Camboja. Dos 25 casos em que verificamos o uso excessivo da força, 21 estavam relacionados a greves ou protestos por parte dos trabalhadores do setor vestuário.

Frontline barricade pic.twitter.com/Z9jZHh3FpX

— Kevin Doyle (@doyle_kevin) January 3, 2014

Linha de frente da barricada pic.twitter.com/Z9jZHh3FpX

— Kevin Doyle (@doyle_kevin) 3 de janeiro de 2014

A Ekreach Clinic foi destruída por manifestantes após se recusar a tratar vítimas num confronto no Canadia Park pic.twitter.com/UBq0o6D62o

— Sopheak SREY (@sopheaksrey) 3 de janeiro de 2014

Trabalhadores tiveram o apoio do partido da oposição, o Cambodia National Rescue Party (Partido do Resgate Nacional do Camboja), que prometeu aumentar os salários para $160 se assumissem o poder no país.

A oposição tem promovido protestos diários, no Parque da Liberdade de Pnhom Penh, para pressionar a queda do atual governo, que tem sido acusado de manipular os resultados das eleições deste ano. O primeiro ministro Hun Sen está no poder há trinta anos, embora seu partido tenha perdido muitas cadeiras no parlamento nas eleições recentes. A oposição tem boicotado as sessões parlamentares, mesmo com 55 cadeiras.

Muitos trabalhadores aderiram às manifestações da oposição, que podem prejudicar ainda mais a administração Hun Sen. Os sindicatos se comprometeram a continuar os protestos até que sua demanda seja concedida pelo governo.

O líder da oposição Sam Rainsy anunciou sua intenção de apresentar acusações contra o governo em relação à repressão sangrenta da greve:

We will lodge a complaint to the ICC so that those criminals in power who today ordered soldiers to open fire on workers, be prosecuted.

Vamos apresentar uma queixa ao TPI [Tribunal Penal Internacioal] para que esses criminosos no poder que hoje ordenam soldados a abrir fogo contra trabalhadores sejam processados.

Por sua vez, o governo acusou a oposição de provocar a violência para conseguir a simpatia do público.

A greve dos trabalhadores de vestuário e as manifestações da oposição produziram a maior onda de manifestações nas ruas do Camboja das últimas décadas. Após a violência de hoje, é esperado que a crise política no Camboja piore.

*O Thumbnail usado é da página do Facebook do CNRP, partido de oposição do Camboja.