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Preferindo o “exílio” à separação, cidadãos americanos seguem seus cônjuges banidos para o exterior

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Este post faz parte da nossa série América Latina: Travessias de Emigrantes, em colaboração com o Congresso Norte-Americano sobre a América Latina (sigla NACLA, em inglês)Fiquem atentos para mais artigos e podcasts.

Viver feliz para sempre não é algo assim tão simples para estrangeiros que se casam com cidadãos americanos nos Estados Unidos e que têm um histórico de imigração complicado.

Detalhes como a maneira como chegaram aos Estados Unidos ou quanto tempo têm de permanência no país podem significar a diferença entre começar uma vida com suas novas famílias ou ter leis de imigração impedindo-os de permanecer.

Tomemos como exemplo o caso de Leo e Corin. Leo é brasileiro e Corin, uma cidadã americana. Eles se conheceram, se apaixonaram e se casaram nos Estados Unidos, mas Leo entrou no país “‘sem registro’ – em outras palavras, pelo México – há menos de 10 anos, o que resultou em quase 6 anos de ‘permanência ilegal’”, como Corin escreve no seu blog Corin no Exílio.

Corin continua explicando que “a Lei de Imigração e Nacionalidade reza que qualquer imigrante que esteja “presente de forma ilegal” nos Estados Unidos por mais de um ano é inadmissível no país pelo prazo de 10 anos, mesmo quando se case com um cidadão americano.”

Corin e Leo tinham três opções. A primeira seria fazer um requerimento de “renúncia por sofrimento”, em que “o cônjuge americano deve provar que a ausência do companheiro lhe causa um extremo sofrimento” – algo que não pode ser provado. A segunda opção seria continuar nos Estados Unidos e esperar até que haja uma reforma migratória. E a terceira opção é que ambos poderiam deixar o país e recomeçar suas vidas no exterior.

Com a opção da renúncia fora de cogitação, o casal decidiu deixar o país e retornar ao Brasil porque, como escreveu Corin, não “podia suportar o estresse de viver nos Estados Unidos sem que Leo tivesse documentos.”

Corin e Leo são apenas uma de várias famílias nessa situação.

Photo shared on Facebook by Action Family Unity

Imagem compartilhada no Facebook pela Action Family Unity

Como eles, muitos que hoje vivem fora dos Estados Unidos por causa das atuais leis de imigração começaram a fazer relatos sobre seus casos e suas vidas “no exílio” por meio de blogs.

Talvez o blog que tenha recebido a maior cobertura da mídia, ajudando a atrair atenção para esses casos, seja o A Verdadeira Dona de Casa da Ciudad Juarez.

Emily Bonderer Cruz começou seu blog em 2010, quando se mudou para o México porque seu marido “era inelegível para requerer status de legalidade nos Estados Unidos até 2020”, como ela explica em seu perfil.

Emily relata sua história, com detalhes, num post recente intitulado “Mi Casa” (Minha casa):

In 2007 my husband was given a voluntary departure by ICE [US Immigration and Customs Enforcement]. Given. Now that's a funny concept, isn't it? As if it were a gift or something. 

Em 2007, meu marido recebeu do ICE (Departamento Americano de Imigração e Controle Alfandegário) uma saída voluntária. Receber é um termo engraçado, não é mesmo? Como se tivesse sido um presente ou algo parecido.

Emily relata que entrou em estado depressivo, no qual permaneceu enquanto não soube onde estava seu marido, ou se ainda estava vivo, pois ele estava “preso em algum lugar do sistema e sem qualquer identificação, sem um número de Seguridade Social. É como se ele fosse apenas um fantasma, mais um imigrante perdido em algum lugar intermediário.” Ela continua:

When he finally called me from a pay phone in Nogales [Mexico], it was as if a huge weight has been lifted from my shoulders. He was alive. He was back on the map. He was going to be okay. I scrounged up just enough money for a bus ticket back to Parral, and for a brief moment, all was right in the world. I knew he was safe. It was in that moment that I also knew I had done the right thing and that this man was the love of my life. This is when my life was forever changed, because I knew that sooner or later, a change was gonna come.

I would be moving to Mexico. 

Quando ele finalmente me ligou de um telefone público em Nogales (México), era como se um enorme peso tivesse sido tirado de sobre meus ombros. Ele estava vivo. Estava no mapa, novamente. Ele ia ficar bem. Eu arrumei dinheiro suficiente para pagar uma passagem de ônibus de volta a Parral e, por um breve momento, tudo estava certo no mundo. Eu sabia que ele estava fora de perigo. Foi também naquele momento que eu soube ter feito a coisa certa e que esse homem era o amor da minha vida. Foi então que minha vida mudou para sempre, porque eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ia acontecer uma mudança.  Estaria me mudando para o México.

O blog de Emily lista vários blogs de famílias que se mudaram dos Estados Unidos por causa das leis de imigração. Um desses blogs é o Destino: Paraíso, no qual Amy escreve sobre sua vida com seu marido Carlos e com seus dois filhos na Coréia do Sul.

Num post intutlado “Por quê?”, Amy explica que Carlos foi forçado pelos pais, ainda adolescente, a se mudar do México para os Estados Unidos. Carlos cursou o ensino médio e universidade nos Estados Unidos e, depois de quatro anos e meio de namoro, ele se casou com Amy, uma cidadã americana.

Amy explica que Carlos estava “cansado de viver na marginalidade, nos Estados Unidos” e então eles decidiram se mudar para o norte do México.

Em outubro de 2008, eles receberam uma notificação do Consulado dos Estados Unidos em Ciudad Juarez explicando que Carlos não era elegível para pedir um visto como marido de Amy para viver nos Estados Unidos.

Pior, Carlos também não era elegível para a renúncia por sofrimento, pois, depois que chegou aos Estados Unidos pela primeira vez, ele foi levado de volta ao México e de lá forçado por um dos pais a entrar novamente nos Estados Unidos “usando a certidão de nascimento de um parente americano, em vez do visto de visitante que já possuía”, explica Amy. “Sob a lei de imigração – INA 212 A 6 C ii, para ser mais específica – , a falsa alegação de cidadania americana resulta num banimento vitalício, sem direito à renúncia.”

Com a ajuda de seu advogado, Amy e Carlos tentaram encontrar uma solução durante três anos e meio, vivendo todo esse tempo separados. Finalmente, em 2011, Amy e Carlos mudaram-se de seus respectivos países e se dirigiram para a Coréia do Sul.

Amy diz que, com as reformas propostas recentemente, “parece que agora eles vão começar a olhar com mais profundidade para as especificidades dos casos em que o imigrante ainda era menor de idade na época e isso parece promissor para a nossa família.”

Em fevereiro deste ano, Amy também escreveu um post comovente sobre sua situação e como essa situação se relaciona com a atual Reforma de Imigração Abrangente. No post, intitulado “Ninguém divide o que Deus uniu”, Amy abre um link para uma petição no site Change.org, a qual pede que o presidente Barack Obama “traga para casa as famílias americanas vivendo em exílio”:

American citizen spouses of immigrants with immigration bars have three choices: break up their families, move abroad with no safety net and attempt to ‘get in line,’ or live unlawfully with their spouses in the US. We should not be forced to make these choices. 

Cidadãos americanos que são cônjuges de imigrantes com restrições imigratórias possuem três opções: abrir mão das suas famílias, mudar-se para o exterior sem uma rede de segurança na tentativa de “se adaptarem” ou viver ilegalmente com seus cônjuges nos EUA. Nós não devemos ser forçados a fazer essas escolhas.

A petição foi iniciada pela Ação pela Unidade da Família (Act4Fams, na sigla em inglês), Ação pela Unidade da Família (Act4Fams, na sigla em inglês), um grupo de voluntários que busca conscientizar o público sobre este assunto. A página do grupo no Facebook, que tem mais histórias como essas, posta atualizações sobre as mudanças em curso na lei de imigração que podem afetar famílias como as de Corin, Amy e Emily.

Na blogosfera, há também histórias de famílias que conseguiram voltar para os Estados Unidos após anos de luta contra duras leis de imigração. Para Giselle Stern Hernández e seu marido mexicano, “a justiça foi restabelecida”, como ela escreve, em junho de 2013, após 12 anos desde a segunda deportação do marido.

Giselle, uma escritora e artista méxico-americana, mantém o blog A Esposa do Deportado “para explorar temas da vida de esposa de um homem deportado através de uma lente multifacetada e intersetorial.” Giselle também apresenta um show de uma mulher só com o mesmo título, nos Estados Unidos e no México. Você pode ver o trailer do show dela aqui:

Mas, se a reforma da imigração for aprovada, muitas famílias talvez não tenham que esperar tanto tempo quanto Giselle e seu marido para regularizarem seus status imigratórios e viverem juntos nos Estados Unidos.

No início deste ano, o Centro de Promoção da Integridade Pública relatou o seguinte sobre o projeto de lei de imigração do Senado:

calls for giving immigration judges and other officials more discretion to consider the pain and suffering that a loved one’s separation causes U.S. citizens and legal immigrants […] The proposal says judges who review cases can decline to order an immigrant, with some criminal exceptions, to be ‘removed, deported or excluded’ if it would be ‘against the public interest or would result in hardship to the alien’s United States citizen or permanent resident’ spouse or children. 

há um clamor para que seja dada – aos juízes de imigração e a outros funcionários – mais discricionariedade quando se consideram a dor e o sofrimento de cidadãos americanos e imigrantes legais causados pela separação de um ente querido […] A proposta diz que os juízes analisando casos podem se recusar a pedir que um imigrante, com algumas exceções criminais , seja “removido, deportado ou excluído”, caso seja “contra o interesse público ou resulte em dificuldades para o cidadão estrangeiro nos Estados Unidos ou residente permanente” cônjuge ou filhos.

Famílias afetadas por leis atuais de imigração criaram uma comunidade de apoio on-line através de blogs e redes sociais, onde também aumentam a conscientização sobre a sua situação e pressionam os legisladores dos EUA a incluir suas famílias na tão esperada reforma da imigração.

Tradução editada por Débora Medeiros como parte do projeto Global Voices Lingua