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Por que a revolução da Ucrânia não chegará à Rússia?

An anonymous image comparing the Ukrainian way of protesting on the left, and Russian on the right. (Reference to "Scretum Revolt")

Uma imagem anônima compara a maneira ucraniana de protestar, à esquerda, e a russa, à direita.

Os protestos pela adesão da Ucrânia à União Europeia [en] tornaram-se violentos com o conflito entre manifestantes e policiais no dia 1º de dezembro de 2013, resultando em ataques a prédios adminstrativos no centro de Kiev. Um pouco antes, no dia 30 de novembro, Berkut, a tropa de choque ucraniana, usou de violência para dispersar um protesto pacífico, intensificando assim o movimento. A leste da fronteira, blogueiros russos acompanham com grande interesse o desenrolar da situação, embora ainda haja pouco consenso sobre as implicações dos protestos para o próprio movimento de oposição da Rússia.

Manifestante armado com uma corrente ataca a polícia em Kiev.

A maioria concorda que as táticas brutas da polícia (que de acordo [ru] com Konstantin Yankauskas, vereador de Moscou, seriam no “estilo putinista”) foram responsáveis por indignar a população da Ucrânia a ponto dela começar a protestar. Em sua página do Facebook, o jornalista Yury Saprykin explicou [ru] que os ucranianos talvez sejam especialmente sensíveis a violência deste tipo:

[…] ничего подобного разгону митингующих наподобие вчерашнего или прорыву омоновских цепей с булыжниками и арматурой типа сегодняшнего не происходило там ни разу. […] именно поэтому ночной разгон майдана воспринимается как точка невозврата и нечто абсолютно непростительное.

[…] Nunca se viu por lá nada parecido com a dispersão dos protestos de ontem, ou com o rompimento de fileiras da tropa de choque a pedras e vergalhões hoje. […] é justamente por isso que a dispersão noturna dos protestos é vista como um caminho sem volta e algo totalmente imperdoável.

Irek Murtazin, blogueiro da oposição, acredita [ru] que toda essa vontade de protestar contra o governo reflita negativamente na oposição russa, afinal de contas, depois da dispersão violenta da multidão durante os protestos do dia 6 de maio de 2012 em Moscou, demorou uma semana inteira para que uma marcha em protesto fosse organizada, enquanto os ucranianos saíram às ruas no dia seguinte. Será que os russos estão simplesmente mais acostumados com violência policial?

Enquanto isso, os líderes do movimento na Ucrânia chamaram os protestos e as pedras atiradas na polícia de “provocação”, o que foi comentado pelo ativista russo Roman Dobrokhotov:

É muito bom que Klitchko e o resto dos organizadores considerem pedras atiradas contra policiais como uma provocação. Não é um bom sinal.

Tais opiniões, porém, suscitam ainda mais comparações desfavoráveis com os protestos na Rússia. Kirill Shulika escreveu [ru], mais do que aborrecido, sobre membros da oposição receosos de empregar meios violentos para enfrentar o Kremlin:

Провокаторы у них были в Бирюлево, провокаторы в Киеве… Они просто не представляют, что народ можно достать так, что он возьмет трактор и пойдет штурмовать АП, несмотря на силы правопорядка с оружием, шумовые гранаты и слезоточивый газ.

Achavam que haviam provocadores em Biryulyovo, agora há provocadores em Kiev… Simplesmente não conseguem imaginar a possibilidade de incitar as pessoas a ponto delas tomarem um trator e invadirem a sede do governo, sem se importarem com a manutenção da ordem pública por meio de armas, granadas e gás lacrimogênio.

A publicação nacionalista Sputnik & Pogrom parece concordar [ru]. Para ela, a razão pela qual os protestos na Ucrânia tiveram mais sucesso do que os da Rússia é o fato de que os ucranianos apoiam nacionalistas radiciais que estão à frente dos confrontos físicos contra a polícia. Na Rússia, porém, os liberais “paz-e-amor” têm tanto medo de associarem-se a nacionalistas que acabam não fazendo bom uso deles.

Blogs hostis à oposição ucraniana afirmam que há muita informação falsa sobre a real magnitude dos protestos. Por exemplo, algumas fontes afirmam [ru] que 1.6 milhões de pessoas compareceram ao protesto no centro de Kiev. O número realmente chama a atenção, até que se percebe que ele pode ter sido totalmente manipulado: nem mesmo os partidos da oposição chegam a confirmar mais de meio milhão de manifestantes, enquanto testemunhas oculares, como a foto-blogueira Ilya Varlamov [ru], estimam que o número total chegue a perto dos 100 mil. De fato, uma foto que circula na internet russa pretendendo mostrar a real dimensão da multidão foi, aparentemente, tirada em 2004 [ru].

Foto da Praça da Independência de Kiev em 2004 usada para demonstrar a magnitude dos protestos.

 

Marcha testemunhada no dia 1º de dezembro, postada no twitter por @camerakid

Independentemente do sucesso dos protestos na Ucrânia, muitos prevêem um endurecimento do controle do governo na Rússia. O jornalista Yuri Saprykin foi particularmente severo [ru] sobre o potencial abalo reacionário:

Дико сочувствую всем киевским товарищам – при этом понятно, что в случае победы евромайдана опасения, что после Олимпиады в России начнется полный и окончательный трендец, можно переводить в разряд медицинского факта. Если в результате предыдущего майдана были созданы движение Наши и прочая суверенная сурковщина, а под впечатлением от арабской весны случился третий срок, то о гипотетических последствиях нынешней победы даже не хочется думать.

Sinto muito pelos nossos amigos de Kiev, mas por outro lado, é claro que se os “proeuropeístas” vencerem, a preocupação de que a Rússia pós-olímpica se torne um inferno pode ser vista como um fato iminente. Se como resultado de revoluções anteriores na Ucrânia temos movimentos como o NASHI [movimento de juventude pró-Putin], e como resultado da primavera árabe temos o terceiro mandato [de Putin], então eu nem quero pensar nos efeitos hipotéticos dessa vitória.

Se as últimas notícias [ru] mostrando que o presidente da Ucrânia Yanukovich está começando a concordar com as reivindicações dos manifestantes forem verdadeiras, a oposição na Rússia tem muito do que se preocupar.