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VÍDEO: Narrativas do centro do Porto expostas no “Museu do Resgate”

O que importa é resgatar! Resgatar testemunhos de histórias antigas, pessoas que sejam importantes na tua vida, momentos caseiros e familiares, acontecimentos na rua. Tudo o que vai para além das pedras e muros do Centro Histórico. Os jogos de cartas e dominó nos jardins, as boladas dos miúdos nas praças, as conversas à janela, os mergulhos no rio, as discussões dos adultos sobre política ou as vontades de mudar o mundo. Para teres uma ideia, vai ver os vídeos fixes que já foram resgatados.

“O que importa é resgatar! Resgatar testemunhos de histórias antigas, pessoas que sejam importantes na tua vida, momentos caseiros e familiares, acontecimentos na rua. Tudo o que vai para além das pedras e muros do Centro Histórico. Os jogos de cartas e dominó nos jardins, as boladas dos miúdos nas praças, as conversas à janela, os mergulhos no rio, as discussões dos adultos sobre política ou as vontades de mudar o mundo.” Foto: mosaico de vídeos no site museudoresgate.org

Documentar em vídeo o legado das culturas locais no Centro Histórico do Porto é aquilo que o Museu do Resgate propõe: um “espaço online que tem como objectivo agregar vídeos caseiros, domésticos, mundanos, realizados de uma forma amadora” e que capturem a essência do dia a dia naquela área da cidade, classificada como Património Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1996. 

O criador deste repositório digital, Daniel Brandão, investigador no doutoramento em Media Digitais da Universidade do Porto em parceria [en] com a Universidade do Texas em Austin, explica em entrevista ao Global Voices, que esta “metáfora de museu” pode ser “simultaneamente, um espaço para a expressão, criação ou denúncia dos cidadãos”. E porque precisam as histórias do centro do Porto de ser resgatadas?

São várias as razões que têm feito com que este universo narrativo do Centro Histórico do Porto se encontre escondido. Por um lado, a baixa densidade populacional das principais freguesias, bem como o envelhecimento dos moradores, têm contribuído para a dispersão das próprias comunidades e uma perda das muitas memórias que já não passam entre gerações. Por outro lado, estas pessoas que moram no Centro Histórico do Porto não têm um fácil acesso às ferramentas de registo digital ou têm pouco hábito de fazer vídeos caseiros e partilhar. Aliás, pelo que me tenho apercebido ao longo deste projecto, em Portugal não temos muito o hábito de partilhar online os nossos momentos caseiros registados em vídeo, ao contrário do que acontece noutros países.

Contrariando essa tendência, o Museu do Resgate convida moradores e visitantes destas freguesias a partilharem o seu olhar sobre o local. Desde que o projecto foi criado, em Junho de 2012, já foram “resgatados” mais de 900 vídeos, todos eles em bruto, por editar, “e realizados por variadíssimas pessoas com diferentes capacidades técnicas, e, muitas vezes, sem uma pretensão estética ou narrativa a priori”.

Dentro da amálgama de registos em vídeo que o Museu do Resgate agrega, Daniel considera que surgem muitos retratos interessantes, “ou porque nos trazem recordações, ou porque têm histórias agarradas, ou porque exemplificam diferentes estéticas, pontos de vista ou formas de expressão”. Ele denota ainda a diferença entre os olhares de quem lá mora e de quem visita:

a tendência de quem visita é registar de uma forma não participante, mantendo alguma distância em relação ao que estão a filmar, enquanto quem é das freguesias, muitas vezes interage com as pessoas ou então demonstra uma relação mais afectiva com aquilo que está a filmar, recorrendo, por exemplo, à narração.

Museu do Resgate - Lobo do Mar

Ao centro, um dos muitos personagens do Centro Histórico do Porto que foram capturados em vídeo, o piloto do Lobo do Mar, fotografa a própria projeção numa das sessões “Video Juke Box” organizadas pelo Museu do Resgate para a apresentação do projecto em tascos e cafés locais do centro do Porto. Veja o vídeo abaixo.

Criar novas narrativas

Para além de agregar e expôr “vídeos perdidos no tempo e no espaço” que resultam do “crescimento de um vasto arquivo audiovisual disperso e desestruturado em plataformas online como o YouTube”, o Museu, enquanto “projecto agregador e estruturante deste tipo de registos”, pretende ainda “oferecer-lhes novos sentidos e valores quando reinterpretados e colocados numa sequência, por forma a produzir novas narrativas”. 

Foi esse o mote de uma oficina [en] de duas tardes organizada pelo Museu do Resgate no âmbito do Future Places no início de Novembro, um festival anual dedicado aos meios digitais no Porto que foi reinventado este ano como “medialab para a cidadania“.

Com o objectivo de “provocar a criação de leituras, narrativas utilizando os vídeos do arquivo do museu como matéria-prima”, a proposta da oficina era dar novos sentidos a alguns dos registos expostos no museu:

procuramos perceber de que modo é que esta documentação amadora participativa pode ser valorizada, estruturada, adquirir sentido e o que poderá estar a faltar para que isso aconteça, mais uma vez, com a ajuda dos cidadãos.

Adoptando a ferramenta de edição online do YouTube, onde todos os vídeos estão disponibilizados sob uma licença Creative Commons (e portanto reutilizáveis por qualquer utilizador da plataforma), os participantes deveriam construir novas sequências narrativas a partir dos vídeos em bruto.

Partindo por exemplo de uma sequência de vídeos que registou um grupo de mulheres a jogar às cartas ao ar livre no bairro da Sé (ver parte umdoistrêsquatrocincoseis), criou-se o vídeo abaixo com a ferramenta do Youtube, dando destaque ao calão típico portuense, às conversas paralelas que ouvimos no fundo, e ao isolamento do enquadramento que valoriza os movimentos rápidos das mãos das jogadoras: