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Relatos compartilhados: Um projeto aberto para vítimas de estupro

Je Connais un Violeur [Fr] (Eu conheço um estuprador) é um projeto criado por Pauline Arrighi [Fr]. Através de um blog participativo, um trabalho contra o estigma do estupro é desenvolvido, funcionando como um mural para que as vítimas compartilhem os próprios testemunhos de forma anônima. Confirma que muitas mulheres que foram vítimas de estupro conheciam os próprios agressores e funciona como uma plataforma de suporte e de expressão. O Rising Voices entrevistou Pauline sobre a decisão de iniciar o projeto, o sucesso e as influências que ele teve.

Através de um blog participativo, ele desenvolve um trabalho contra o estigma do estupro e funciona como um mural para que as vítimas compartilhem os próprios testemunhos de forma anônima. -> esse ele aqui tá meio estranho, já que não se refere à Pauline, mas não fica claro que se refer ao blog. Que tal construir a frase assim: “Através de um blog participativo, é desenvolvido um trabalho contra o estigma do estupro, funcionando como um mural para que as vítimas compartilhem os próprios testemunhos de forma anônima.”

Pauline Arrighi, creator of the "I know a Rapist" Project

Pauline Arrighi, criadora do projeto “Eu conheço um estuprador”

RV: Por que e quando você começou este projeto?

Muitas vítimas de estupro são desacreditadas por aqueles em torno delas. Então, muitas delas não têm força para denunciar os próprios agressores. Dessa forma, as vítimas acabam sofrendo devido a falta de reconhecimento dos outros sobre o que aconteceu. Pior, às vezes elas são acusadas de estarem mentindo – mesmo antes de haver qualquer investigação feita para provar os fatos.
Em outros casos, as vítimas ficam traumatizadas e não se dão conta de que foram estupradas. Elas encontram desculpas plausíveis para as atitudes tomadas pelos agressores e acabam mentindo para si mesmas sobre o que realmente aconteceu.
Uma das razões para a falta de credibilidade e até mesmo a hostilidade para com as vítimas de estupro se deve à falsas suposições sobre o estupro. Há muitos mitos sobre a questão, e um dos quais eu gostaria especificamente de debater é que: estupradores não são todos marginais psicopatas que pulam em cima de suas vítimas no fundo de becos escuros à noite.
Não há nenhum perfil do “estuprador” típico, a maioria deles são integrados socialmente e, mais importante, em 80% dos casos as vítimas conhecem o estuprador.
Ler os testemunhos das vítimas é algo excelente a se fazer.

Street art taken in Paris - with permission of the author

“Não importa como você se vista, não importa onde você vá, ‘sim’ significa ‘sim’ e ‘não’ significa ‘não’. Foto de arte de rua feita em Paris (publicada com a permissão do autor)

Se tentássemos descrever um estuprador típico, como é que ele seria? Louco, sexualmente frustrado, pobre, um viciado em drogas? Ou perceberíamos que ele é como qualquer outro homem? Qual seria a melhor maneira de descobrir a resposta desta pergunta do que perguntar às vítimas que expliquem?
Se uma queixa foi feita ou não, se o estuprador foi condenado ou não, deixem elas desenharem para nós um retrato desta pessoa, sob o véu do anonimato, para ambos (eu tenho muito cuidado para que nenhum retrato seja necessariamente exato e para não identificar ninguém).
Eu lancei o projeto na noite de 30 de agosto de 2013. Comecei tomando nota e reunindo relatos de pessoas à minha volta. Eu postei o link em várias mídias sociais. 48 horas mais tarde, eu tinha recebido 150 relatos adicionais…

Quantos relatos você já recebeu até agora?

“Eu conheço um estuprador” se espalhou rapidamente através do Twitter e Facebook. Eu recebi 500 histórias na primeira semana e 1200 assinantes. Depois de apenas um mês, o projeto tem agora aproximadamente 1000 relatos e o site recebeu 900.000 visitas

Como o projeto é percebido pelos leitores? Você já teve algum feedback dos colaboradores após os relatos deles?

Eu recebo um número mínimo de feedback de leitores céticos, 3 ou 4 de 1000 histórias. Por outro lado, eu também já recebi muitas palavras de agradecimento. Algumas pessoas ficam cientes das próprias experiências, após ter lido outros relatos, e elas então se tornam hábeis para designar e explicar as próprias histórias, e entender sentimentos de intranquilidade. Outros percebem que não estão sozinhos, enquanto alguns dizem se sentirem aliviados agora que a história foi exposta para outras pessoas lerem.

Algumas pessoas – que não foram vítimas – explicam que o site lhe abriu os olhos para uma realidade da qual não tinham consciência.  Por todos estes motivos, o projeto foi além de meus objetivos iniciais, e estou bem feliz com isso.

Ver as histórias publicadas também serve de catarse para algumas vítimas? Dar um testemunho pode ser parte do processo de cura da dor?

Sem dúvida. Eu já recebi muitos e-mails dizendo exatamente isso – mas eu não estou em uma posição para desenvolver o tema, não sendo uma profissional, uma psicóloga, etc.
No entanto, posso fazer referência à excelente Muriel Salmona, psiquiatra especialista em trauma e autora da obra Livre Noir des Violences Sexuelles [Fr] (Livro Negro da Violência Sexual) [as frases seguintes foram citadas no jornal francês Liberation]:

 Les victimes se disent toujours «je n’aurais pas dû faire ou dire ça.’ Elles se remettent en cause. En parler, échanger leur expérience et analyser la démarche de leur agresseur permet de remettre leur monde à l’endroit, de réaliser, enfin, que ce sont elles les victimes. C’est le premier pas vers la réparation.

As vítimas estão sempre dizendo ‘Eu não deveria ter feito isso ou dito aquilo’. [Porém] elas conseguem fazer uma reconsideração sobre isso. Falar, trocar experiências e analisar a abordagem do agressor permitem que percebam, finalmente, que elas mesmas foram as vítimas. É a primeira etapa em direção ao processo para curar a dor.

Como você seleciona as contribuições a serem publicadas? Quantas histórias não são publicados e por quê?

Como regra geral, eu apenas publico histórias que dão o perfil do agressor, como indicado na seção “sobre” do site, e se tiver sido um estupro (ignoro toque e outras tentativas). Dito isto, certos relatos não se encaixam nesta linha editorial, mas eles são publicados mesmo assim por serem emocionalmente poderosos, ou porque eles trazem um componente valioso para a reflexão sobre o estupro e as maneiras pelas quais ele é socialmente percebido.

Como administradora do site, como você gerencia a própria raiva e tristeza após ter lido todas estas histórias?

Não muito bem (sorrir).

Mas sério, com certeza ler estas histórias é obviamente difícil, e eu estou em uma posição relativamente de impotência porque há uma limitação naquilo que se possa fazer através de um site. Eu não posso substituir o trabalho de um ouvinte em uma linha direta e muito menos o de um terapeuta online.

Felizmente, às vezes, eu consigo fornecer ajuda, e eu faço parte de uma rede de mulheres que é familiar com estes problemas. Tenho sorte que minha abordagem é compreendida, e não tem sido objeto de “piadas de estupro” e outras coisas que acontecem online.

Há mais ações que possamos fazer como sociedade para ajudar a proteger vítimas?

O estupro é apenas uma manifestação da percepção e do status das mulheres na sociedade. Quando pararmos de apresentar as mulheres como sexualmente disponíveis e submissas nas propagandas, obras de ficção, e assim por diante, quando pararmos de apresentar as mulheres como objetos e homens como seres dominantes, ativos com uma necessidade sexual irreprimível (o que é absolutamente falso), o número de estupros irá diminuir consideravelmente.

Há medidas específicas que podem ser tomadas:

1) ser implacável contra aqueles que compartilham incentivos ao estupro* [Fr] e ao ódio sexista.

2) desenvolver uma estratégia para a educação emocional e sexual nas escolas e faculdades. Não podemos permitir que a indústria pornô seja a única fonte de educação sexual para os mais jovens.

Da sua perspectiva, como você analisa a evolução do tabu sobre o estupro e o impacto de um site como o seu? Há uma tendência entre estas histórias de que elas não serão necessariamente compreendidas pelos leitores comuns?

O que ocorre mais frequentemente é as vítimas terem um sentimento de culpa e vergonha. Para reforçar este quesito, uma vítima de estupro nunca é responsável pelo que aconteceu. Então, se a vítima se sentir, um papel invertido ilógico, culpada pelo que aconteceu, isso se deve também ao discurso em em torno do estupro que ela poderia ter ouvido mesmo antes de ser atacada. Se você ouviu durante todo sua juventude que pessoas foram vítimas de estupro porque mereceram … como não odiar a si mesmo se isso lhe acontecer?
Este sentimento de culpa e negação também vem da própria experiência do estupro. Em muitos relatos lemos que não apenas a integridade física é negada, como também o agressor nega a vontade da vítima, acreditando que a vítima está consentindo. “Eu sei que você gosta”, “Eu sei que você quer”… estupro não envolve apenas o corpo, mas também a mente….

O que você gostaria que mudasse do ponto de vista da política pública na abordagem deste problema ?

… Lutar contra os estereótipos de gênero na escola, com educação sexual que considere noções de respeito pela integridade e desejo do outro, lutar contra a degradante imagem das mulheres nas propagandas, filmes pornôs, internet e na sociedade em geral.

O estupro é apenas uma das manifestações da representação das mulheres e homens na sociedade, não é natural, é um fato cultural contra o qual podemos lutar. Há sociedades onde o estupro não acontece. Por que não na nossa?

* O link acima para o artigo no Le Plus narra a história de um grupo de feministas – do qual Pauline Arrighi é membro – que enviou um relatório à imprensa sobre um site, que esteve incitando homens a estuprarem pessoas com quem se relacionassem e dos grupos de amigos.

Tradução editada por Débora Medeiros como parte do projeto Global Voices Lingua