Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

Porquê que as mulheres não podem conduzir? Clérigo saudita revela descoberta científica inédita

[Não perca hoje, 4 de Outubro de 2013, o debate em directo GV Face: Saudi Women Will Drive – Meet the Activists Defying the Ban (As mulheres sauditas irão conduzir: Conheça as activistas que desafiam a proibição). O Google Hangout começa às 19 horas (UTC).]

"Deus não disse que eu não posso conduzir," lê-se neste cartaz publicado na conta de Flickr de We The Woman N7nu.

“Deus não disse que eu não posso conduzir,” lê-se neste cartaz publicado na conta de Flickr de We The Woman N7nu.

Na Arábia Saudita, as mulheres estão proibidas de conduzir. Enquanto que mais de 11.000 mulheres estão a desafiar a proibição através de uma petição online [en], um homem erudito finalmente apareceu com uma explicação científica sobre o motivo pelo qual é na verdade melhor que as mulheres não conduzam.

Numa entrevista ao jornal saudita Sabq, o xeique Saleh al-Lehaydan, consultor judicial e psicológico na Associação de Psicologia do Golfo, revelou dados inéditos sobre a ciência reprodutiva [ar]:

وتابع: “إلى جانب أن المرأة إذا قادت السيارة لغير الضرورة – كما تقدم – قد يؤثر ذلك عكسياً على الناحية الفسيولوجية؛ فإن علم الطب الوظيفي الفسيولوجي قد درس هذه الناحية بأنه يؤثر تلقائياً على المبايض، ويؤثر على دفع الحوض إلى أعلى؛ لذلك نجد غالب اللاتي يقدن السيارات بشكل مستمر يأتي أطفالهن مصابين بنوع من الخلل الإكلينيكي المتفاوت لدرجات عدة”.

Ele acrescentou: “Para além disso, se a mulher conduzisse sem necessidade, isso poderia afectar negativamente o seu estado psicológico; na ciência da fisiologia funcional este assunto já tem sido estudado e isso afecta os ovários naturalmente, havendo um deslocamento da pélvis para cima, por isso consideramos que a maioria daquelas que conduzem carros acabam por dar à luz crianças com níveis variados de disfunção clínica.”

O anúncio do xeique Lehaydan é incrivelmente oportuno: activistas sauditas estão a fazer uma campanha que pretende marcar o dia 26 de Outubro como data em que as mulheres vão sair à rua e conduzir. O seu aviso tenta persuadir as mulheres a “esperarem e considerarem os (pontos) negativos” de uma actividade que tantos danos causa, e soma-se a vozes preocupadas de outros cautelosos cidadãos sauditas [ar]:

Aqueles que estão a convocar um protesto pelas mulheres na condução para 26 de Outubro são de uma tribo que foi amamentada pelo ocidente e cresceram grandes e gordos ao beberem desse leite. Agora estão a seguir o ocidente e a tentar americanizar a nossa sociedade.

As “Mãos estrangeiras”, uma tónica favorita no Médio Oriente quando o assunto se resume às violações institucionalizadas dos direitos humanos, não são as únicas culpadas de fomentar uma oposição perigosa à proibição de longa duração:

Deus sê grande, o secularismo e o xiismo estão de um lado da barricada a convocar as mulheres a conduzirem. Isto prova que o assunto é planeado e apoiado por [algumas] nações. 

Eman al-Nafjan twitou uma fotografia do apocalipse que aí vem:

Um saudita misógino fez este poster que mostra como as mulheres na condução levarão ao comunismo, drogas, liberalismo… pic.twitter.com/xjBe44oObr

(O slogan diz: “Eles querem que elas conduzam para que ela seja conduzida.”)

A descoberta científica inédita do xeique al-Lehaydan não podia passar despercebida. No Twitter a hashtag, #قيادة_المرأة_تؤثر_على_المبايض_والحوض, que significa “mulheres na condução afecta ovários e pélvis”, foi lançada e tornou-se viral com muitas reacções ao conhecimento científico de al-Lehaydan:

Que mentalidade que temos :/ Há pessoas que já foram ao espaço e vocês ainda proíbem as mulheres de conduzir Idiotas
Quando a idiotice casa com o dogma na capela das tradições medievais, este é o seu filho pródigo.
é em momentos como este que compreendo porque é que as pessoas cometem suicídio
Por favor respeitem o nosso intelecto. Se não querem que conduzamos, pelo menos inventem boas e razoáveis desculpas.

Tais declarações não desencadearam críticas afiadas e sarcasmo agudo somente nas mulheres:

Depois de longos ensaios clínicos e psicológicos, os académicos descobriram finalmente porque é que as mulheres não conseguem estacionar em paralelo… ovários.
O que é isto? Falei com a minha médica e ela disse “Que tipo de ignorância é esta? Estas palavras não têm nada a ver com Medicina, seja a partir de onde for!
Os Clérigos Sauditas Dizem Merdas Maradas #NãoÉnotícia

O ilustre cientista e crítico religioso Richard Dawkins fez a seguinte observação:

Porque é que as mulheres sauditas não hão-de conduzir? A condução prejudica os seus ovários e pélvis. http://t.co/r1BnHWrLDC Oh, estou a VER… não é religião mas CIÊNCIA.

A quem o utilizador Twitter @Seeektrooof comentou:

Foi assim que eles perceberam.

Sarcasmo à parte, o desafio à proibição de condução na Arábia Saudita é uma batalha que já vai longa. O primeiro protestos em oposição à proibição aconteceu em Novembro de 1990 [en] quando 47 mulheres conduziram pela capital do país, Riyadh. Não só foram detidas, como também muitas foram castigadas com proibição de deslocações e suspensas do trabalho. Maio de 2011 marcou um ponto de viragem no movimento de protesto contra a proibição de condução das mulheres no Reino, depois da activista dos direitos das mulheres saudita Manal al-Sharif ter sido presa após carregar um vídeo para o YouTube no qual ela aparecia a conduzir.

Ela ficou na prisão durante mais de uma semana, tornando-se uma heroína para muitas mulheres na Arábia Saudita e no Médio Oriente. Em Junho de 2011, inúmeras mulheres sauditas por todo o Reino seguiram o exemplo lançado por Manal al-Sharif e participaram na campanha “Women2Drive” (Mulheres a conduzir) desafiando a proibição e ao conduzirem pelas ruas. 

Na verdade, a proibição das mulheres na condução não está escrita em nenhuma parte da legislação oficial do Reino. Adicionalmente, o chefe da polícia religiosa da Arábia Saudita disse que “a chária islâmica não tem texto algum proibindo a condução por mulheres”, destacando que desde que foi apontado como líder da Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, a polícia religiosa não tem perseguido ou impedido mulheres que conduzam. A proibição é, portanto, inteiramente baseada nos hábitos conservadores do país.

Desde então, tem vindo a crescer uma mobilização para reverter a proibição opressiva e multiplicaram-se os actos ousados ​​de desobediência civil. Juntamente com alguns posicionamentos nos principais meios de comunicação da Arábia Saudita, a campanha do 26 de outubro tem conseguido um apoio incrível de muitas das figuras públicas proeminentes do país. A notável Madeha Al-Ajroush que dirigiu, tanto em 1990 e em junho de 2011, diz:

Sim, vou voltar a conduzir a 26 de Outubro

Através da hashtag #أنا_رجل_مؤيد (“Sou um apoiante masculino”), os homens também começaram a demonstrar publicamente o seu apoio:

[hashtag] Sou um apoiante masculino [de] [hashtag] mulheres na condução a 26 de Outubro. [Hashtag] Envia um tweet com uma foto. 

[hashtag] I am a male supporter [of] [hashtag] women driving on October 26. [Hashtag] Tweet Using a Photograph.

O papel que o homem mostra diz [ar]:

Estou farto de trabalhar como motorista das minhas seis irmãs.

Como disse Manal al-Sharif quando foi premiado por “dissidência criativa” no Fórum da Liberdade de Oslo: “A chuva começa com uma única gota.” Parece que o céu sobre a Arábia Saudita está coberto de nuvens.

Leila Nachawati contribuiu para este artigo.