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Brasil em reverberação: extraindo significados da Revolta do Vinagre

Este post faz parte da nossa cobertura especial Revolta do Vinagre.

Nuvem de tags referentes ao protesto de 17 de junho, em São Paulo-SP. Imagem utilizada com permissão.

Nuvem de tags referentes ao protesto de 17 de junho, em São Paulo-SP. Imagem utilizada com permissão.

A ideia de redes sociais como espaços de reverberação das pautas relevantes para a população e como esfera de debates, ganharam corpo com os movimentos de junho e julho de 2013 no Brasil.

Para tentar entender as manifestações que ocorriam ao vivo, nas ruas e nas mídias sociais, a Análise de Redes Sociais (ARS), ferramenta de trabalho de profissionais como Raquel Recuero e outros especialistas, foi intensamente utilizada.

Passado algum tempo, chega o momento de tentar extrair novos significados do que passou, e buscar entender como isso afeta o futuro e a dinâmica da sociedade brasileira. Na entrevista a seguir, a professora Recuero nos ajuda a explorar essas inquietações.

Global Voices (GV): Com os protestos e o uso intensivo de ferramentas sociais, a mídia cidadã brasileira subiu um degrau em seu processo de amadurecimento?

Raquel Recuero (RR): A mim parece que há um maior contato com informações que normalmente as pessoas não teriam, especialmente no caso do Brasil. Com as conexões dos sites de rede social, as pessoas passam a ter mais contato (e contato mais rápido) com informações, opiniões diferentes, discussões e etc. Essa pluralidade discursiva tem efeitos interessantes, como aumentar os debates entre as pessoas e fazer com que pensem em coisas que de outra forma não teriam pensado. Há também um maior conhecimento sendo construído e uma maior cobrança.

Costumo dizer que, no tempo em que era aluna da faculdade de Direito, poucos de nós conheciam nominalmente os ministros do STF [Supremo Tribunal Federal]. Eram informações distantes, que pouco discutíamos. Hoje você vê discussões a respeito das posições desses ministros, seus julgamentos e a crítica e o elogio nessas ferramentas, inclusive por cidadãos que não têm qualquer contato com o meio jurídico. Isso é muito interessante e me faz pensar muito no processo de democratização do Brasil. Claro que não são todos, mas essas discussões acontecem e perpassam redes sociais diferentes, de classes sociais diferentes e idade diferente (especialmente no Facebook, onde há uma maior inclusão). Não chamaria isso de amadurecimento, mas acho que há um crescimento sim.

Dinâmica de uma hashtag: a #vemprarua em imagens

Gif animado montado a partir de imagens publicadas no artigo – “Dinâmica de uma hashtag: a #vemprarua em imagens”. Imagens utilizadas com permissão.

GV: Como isso afeta o futuro daquilo que profissionais com você, Raquel Recuero, faz?

RR: Em termos de sala de aula me traz pessoas mais críticas e mais acostumadas a conhecer o mundo ao seu redor. Em termos de pesquisa, é muito relevante perceber os efeitos dessas mídias na sociedade brasileira, especialmente no que diz respeito às novas articulações e às conversações que as geram.

GV: O que o movimento de junho representou para a Análise de Redes Sociais?

RR: Acho que é oportunidade de observar conversações e informações em movimento, circulando pela rede e relacionar isso com a articulação das pessoas. Essa movimentação que aconteceu principalmente através da mediação do computador, deixa rastros e permite que se recuperem os dados e se possa entender o que aconteceu, onde houve disputa de discursos, como as pessoas se articularam, que tipo de contaponto aconteceu e como as pessoas atuam na rede, criando conexões e mobilizando outros nós. A mídia social possibilita essas novas articulações. Também possibilita que discursos diferentes tenham contato mais próximos com as pessoas e que as informações cheguem mais longe. Acho que isso é muito relevante, pois vivemos em uma sociedade que está sendo transformada por essas informações e conversações.

GV: Poderia comentar um pouco sobre a leitura que faz da sociedade brasileira a partir das evidências que recolhe na sua análise de dados das redes sociais?

RR: Uma das primeiras evidências é que há uma influência das conversações na mídia social nos comportamentos coletivos. Embora a gente ainda não consiga dimensionar, podemos ver que existe. Sites de rede social estão tornando as pessoas muito interconectadas, o que faz com que as informações circulem mais e mais rápido. Com isso, há contato maior com grupos, informações e discursos diferentes, que normalmente não teríamos.

Esses discursos têm impactos, pois nos sacodem, nos estimulam a considerar pontos de vista que não consideraríamos de outra forma. Além disso, há um potencial mobilizador muito grande, em cima dessas informações. […]

Em todas as vezes que faço análise de algum tema, vejo uma pluralidade de pessoas envolvida na conversação, vejo debates e discussões (por vezes acaloradíssimas). E ainda que nem todos participem, essas discussões ficam visíveis, chegam a outros. Enfim, acho que podemos dizer que há efeitos muito interessantes de articulação, mobilização e influência dessas mídias na sociedade e que esses efeitos ainda estão sendo construídos. Os protestos demonstram um pouco esse poder de mobilização, de forma pungente, mas com a questão política e de organização ainda difusa.

Incômodos que ecoam em múltiplas redes. "A escalada dos protestos no Brasil". Análise de redes sociais por Raquel Recuero. Imagem utilizada com permissão.

Incômodos que ecoam em múltiplas redes. “A escalada dos protestos no Brasil”. Análise de redes sociais por Raquel Recuero. Imagem utilizada com permissão.

GV: Considera que essa análise a partir das conversações online pode dar pistas sobre incômodos da sociedade em geral em determinados eventos, ou essa amostra não deixa de ser limitada e não representativa para além do mundo online?

RR: Pode sim, e creio que os protestos dimensionam bem isso. No caso do Brasil, temos uma fatia expressiva da sociedade participando das mídias sociais (facebook, especialmente). Essa fatia representa jovens e adultos (e também crianças e adolescentes) das mais variadas classes sociais (e não apenas A e B, como muitos acreditam).

Além disso, aquilo que circula na rede também circula offline porque as pessoas não limitam suas interações ao espaço online. Elas saem dali e vão falar para seus amigos, conhecidos, parentes e etc. Por isso essas mobilizações conseguiram articular tanta gente. Nos nossos dados temos registro de mais de 450 protestos que aconteceram no Brasil, mobilizando milhares de pessoas em todas as regiões e em mais de 300 cidades de dimensões diferentes (tanto cidades grandes como cidades pequenas). Analisar essas conversações, portanto, pode dar sim dimensões relevantes sobre a sociedade brasileira, seus hábitos, os discursos que permeiam esses grupos e seus impactos no offline.

Só para dar um exemplo, em 2011 fizemos (eu e um grupo de alunos e professores das universidades locais) o mapeamento e análise dos dados das eleições na cidade, com o projeto “Monitor das Eleições“. Os dados deram pistas muito importante das discussões que aconteciam entre as pessoas e sua influência nos candidatos. Quando observamos os gráficos, há uma clara correlação com o próprio andamento e resultado das eleições tanto no primeiro quanto no segundo turno. Essas evidências nos fazem considerar que essas conversações não restringem sua influência ao espaço online, mas são trazidas para outros espaços e influenciam outras pessoas também.

Os caminhos da mídia cidadã pós junho de 2013 parecem impor novos desafios para o jornalismo tradicional. Haverá espaço para diálogo?

Raquel Recuero é também jornalista e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica de Pelotas. Acompanhe análises de redes sociais no seu blog