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Beijo leva duas jovens à prisão durante culto religioso no Brasil

Categorias: América Latina, Brasil, Direitos LGBT, Liberdade de Expressão, Mídia Cidadã, Mulheres e Gênero, Religião

Duas jovens foram presas arbitrariamente [1], por ordem do pastor Marco Feliciano, depois de se darem um beijo durante o evento evangélico Glorifica Litoral, na cidade de São Sebastião, norte do estado de São Paulo, no último domingo, 15 de setembro.

Beijo que provocou a prisão de duas jovens. Foto: Reprodução You Tube

Beijo que provocou a prisão de duas jovens. Foto: Reprodução YouTube [2]

Feliciano, que também é deputado federal e presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara [3], parou com o show que fazia no evento para pedir que a Guarda Municipal e os policiais militares presentes, prendessem as duas garotas. “Aquelas duas meninas têm que sair daqui algemadas. Não adianta fugir, a guarda civil está indo até aí. Isso aqui não é a casa da mãe Joana, é a casa de Deus”, disse [4] ao microfone.

Segundo relatos de pessoas presentes no evento, enquanto as meninas eram levadas, o pastor seguiu incitando o público [5] de 70 mil pessoas contra elas.

As duas jovens, Yunka Mihura, de 20 anos, e Joana Palhares, de 18, foram encaminhadas por agentes da Guarda Civil Municipal à delegacia do 1º Distrito Policial de São Sebastião, onde o delegado presente registrou a ocorrência para averiguação. As namoradas alegaram que outros casais heterossexuais também estavam trocando beijos durante o evento, e que foram agredidas fisicamente pelos policiais [6].

Ao blog iGay [7], elas declararam que já havia se beijado outras vezes durante o evento, e que ninguém pareceu se importar. Yunka relatou:

O evento era público, pago com o nossos impostos. Aquele palco, aquele microfone, tudo tinha dinheiro público. Também era um espaço aberto, na Rua da praia. Estar ali era direito nosso.

Para o advogado das jovens, Daniel Galani, houve um conflito de liberdades durante o episódio:

A comunidade "Moça, você é machista" publicou imagem questionando o ato que levou à prisão das jovens. Foto: Reprodução Facebook

A comunidade “Moça, você é machista [8]” publicou imagem questionando o ato que levou à prisão das jovens. Foto: Facebook [9]

A gente vê que foi uma situação que fugiu completamente ao controle. A gente sabe que existiam dois direitos em conflito: um é a liberdade de expressão e o outro a liberdade do ato religioso. Os dois direitos são constitucionais e estão previstos para que as pessoas possam fazê-los.

Em declarações [1] à Revista Fórum, o diretor da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo, Martim de Almeida Sampaio, considerou a prisão “ilegal” e acrescentou que as jovens “poderiam ter dado voz de prisão ao pastor por abuso de autoridade”, caso tivessem conhecimento sobre o Código Penal.

Sem dar entrevistas à imprensa, Feliciano utilizou sua conta no Twitter [10] para falar sobre o episódio, citando o Código Penal Brasileiro como justificativa de sua ação:

A rede social foi utilizada também para manifestação de usuários contra a atitude do pastor. Marcelo Gerald [14], ativista dos direitos LGBT, associou o ocorrido com o fanatismo religioso:

e pontuou

O deputado federal Jean Wyllys [17], advogado dos direitos LGBTs e um dos maiores opositores de Feliciano na Câmara e na Comissão de Direitos Humanos, foi agredido em sua conta por diversos usuários. Ele considerou a prisão das jovens um ato arbitrário e indagou:

Durante a semana, a produtora WAPTV Comunicação [21], contratada pela organização do Glorifica Litoral, que tem entre seus clientes os pastores Marco Feliciano e Silas Malafaia [22] – apontado pela revista Forbes [23] como um dos pastores mais ricos do Brasil – divulgou um vídeo em defesa do pastor:

Depois de ficar conhecido graças a declarações polêmicas e racistas [24], Feliciano é contestado por boa parte da classe política brasileira desde o início de seu mandato na presidência da Comissão de Direitos Humanos. No início do mês, a OAB [25] já havia anunciado que vai pedir, juntamente com mais de 20 entidades ligadas aos direitos humanos, a cassação de Feliciano e do também deputado Jair Bolsonaro [26], por incitarem crimes de ódio.

Segundo a prefeitura de São Sebastião, o caso vai ser apurado pela corregedoria da Guarda Civil Municipal.