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“Elysium”: um olhar sobre atuais políticas norte-americanas de imigração

Elysium”, filme ambientado no ano de 2155, estrelando Matt Damon, Jodie Foster e o brasileiro Wagner Moura, trata de abordar o sistema de saúde dos Estados Unidos, mas também oferece um olhar sobre a situação da imigração no país, no caso de que uma reforma abrangente [en] venha a se concretizar – pelo menos parcialmente. [Aviso: Este artigo pode conter spoilers.]

O filme, dirigido por Neill Blomkamp, se passa em um espaço dominado por tecnologia de última geração chamado Elysium, em um planeta Terra superpovoado e devastado.

Matt Damon in his leading role on "Elysium." Photo taken from YouTube.

Matt Damon como o protagonista de “Elysium”. Foto: YouTube.

O foco central do filme é a história de Max (Damon), um ex-condenado, cujas deploráveis condições de saúde o obrigam a buscar os serviços de um líder político marginal (Moura), que também quer colocar as mãos nos excepcionais recursos  de saúde de Elysium, em busca de cura para os habitantes doentes da Terra. No entanto, eles têm de enfrentar Delacourt (Foster), a corrupta Secretária de Defesa de Elysium, que continua incansavelmente proibindo a entrada de habitantes (ou, como o filme os chama, “ilegais”) em Elysium, a todo custo.

Logo no início do filme, uma espaçonave, que transporta um grande número de imigrantes tentando entrar em Elysium, é derrubada sem dó por Delacourt. Embora não da mesma forma, o rígido cumprimento das leis foi um elemento importante na aprovação da lei S.744 [en], em 27 de junho de 2013, assim como um meio de deter o fluxo de imigração na fronteira.

Conforme o filme vai acontecendo, pode-se pensar que a razão principal para que os “ilegais” queiram fugir do planeta Terra, em busca de uma vida mais confortável em Elysium, é similar aos motivos que levam muitos imigrantes a cruzar a fronteira para encontrar uma vida melhor nos Estados Unidos (claro, os EUA sendo “Elysium” para todos aqueles imigrantes esperançosos de fora do país).

A película também mostra que imigrantes vão para Elysium para ter acesso a melhores condições de saúde, no entanto eles precisam se tornar cidadãos do satélite para que possam desfrutar disso. Na vida real, muitos imigrantes não-documentados enfrentam o mesmo problema, já que não têm acesso ao sistema de saúde.

Antes de entrar no campo de discussão da imigração, blogs como ThinkProgress [en] dizem que Elysium deixa a desejar na hora de explicar por que o sistema de saúde no satélite espacial é melhor que o da Terra:

But Elysium falls apart the more you think about it–and fails in its mission to speak truth to power–because of its inability to explain a simple question: why is health care scarce on Earth in the world of Elysium? The movie shows us many ways that life in Elysium is more comfortable and satisfying than life on earth, but Blomkamp focuses his camera narrowly on people on Earth who want to get to Elysium mainly for access to medical pods that can cure even grave illnesses with a single, quick scan.

Mas Elysium cai por terra quanto mais você pensa sobre ele – e falha em sua missão de revelar a verdade sobre  o poder – graças a sua inabilidade em explicar uma simples questão: por que o sistema de saúde é escasso na Terra no mundo de Elysium? O filme nos mostra de diversas maneiras como a vida em Elysium é mais confortável e satisfatória que na Terra, mas Blomkamp foca sua câmera estritamente nas pessoas da Terra que querem ir para Elysium, principalmente para ter acesso aos recursos médicos capazes de curar até a mais grave das doenças, com um simples e rápido exame.

O texto continua:

“And at the conclusion of the movie, they get it. After Spider and Max download a program into the Elysium mainframe that makes everyone on Earth a citizen, and thus able to be scanned by the devices, shuttles full of the pods take off for Earth where people of all races, genders, and creeds flock to make use of them. It’s not as if there’s a medical device scarcity. There could be other reasons that health care is restricted, but it’s not particularly made clear in the movie what those motives might be.”

E, na conclusão do filme, eles conseguem. Depois de Spider e Max fazerem download de um programa dentro do mainframe de Elysium, que transforma todas as pessoas da Terra em cidadãos, podendo, assim, ser examinados pelas máquinas, naves repletas de cápsulas partem rumo à Terra, onde pessoas de todas as raças, gêneros e credos se agrupam para utilizá-las. Não é como se houvesse uma escassez de equipamentos médicos. Poderiam haver outras razões porquê tratamento de saúde é restrito, mas não fica especificamente explicado no filme quais poderiam ser estas razões.

Aplicando o último parágrafo à realidade, alguém poderia afirmar que a legalização do status de imigração de 11 milhões de pessoas nos Estados Unidos pode garantir uma melhor qualidade de vida para as mesmas, como nota o Centro de Políticas de Imigração [en]:

Including legal immigrants in the health care system not only strengthens the system, but is a critical part of their integration into U.S. society. In addition to working, paying taxes, and learning English, legal immigrants should be able to pay their fair share and have affordable health care like everyone else.

Incluir imigrantes legalizados no sistema de saúde pode não apenas fortalecer o sistema, mas é parte essencial para sua integração na sociedade dos EUA. Além de trabalhar, pagar impostos, e aprender inglês, imigrantes legais deveriam ser capazes de pagar pela parte que lhes cabe e ter tratamento de saúde acessível, como todo mundo.

Quando perguntado se o filme mostra como serão as condições humanas em 140 anos, Blomkamp respondeu: “Não, não, não. Isso não é ficção científica. Isso é o presente. Isso é o agora”. Em termos de imigração, Blomkamp pode não estar tão longe da verdade.

O filme abre com o jovem Max sonhando com uma vida em Elysium, enquanto sua enfermeira cuidadora explica para ele que sua vida foi destinada a um propósito maior – tudo isso falado em espanhol.

Elysium retrata os Estados Unidos como um país tomado por latinos, cuja língua de jure é o espanhol, onde placas e sinais em escritórios e fábricas contêm grandes letreiros escritos em espanhol, e policiais são tratados como “Policía”.

Muitos especialistas consideram que até o ano 2050, a comunidade hispânica e outras comunidades de cor se tornarão grupo majoritário nos EUA, ou seja, não teremos de esperar até o ano de 2154 para ver isso se tornar realidade. Talvez, ao abrir um caminho para a cidadania a todos os esperançosos residentes dos Estados Unidos, ao invés de ver um planeta Terra sombrio (ou, neste caso, os próprios EUA), testemunharemos algo bom nos próximos anos.

Por fim, uma coisa que podemos retirar do filme é que nenhuma sociedade, por mais perfeita que pretenda ser, pode fechar os olhos aos seus habitantes e suas necessidades – e, abordar o caso da imigração é o primeiro passo em direção à compreensão das histórias humanas.

Tradução editada por Débora Medeiros como parte do projeto Global Voices Lingua