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Nada pode parar a Revolta do Vinagre no Brasil, nem mesmo a FIFA

Protesto Rio Janeiro

Protesto no Rio de Janeiro em 17 de junho de 2013, pelo usuário do Twitter Bruno Érnica (@brunoernica)

Enquanto o Taiti marcava um gol histórico [en] contra a Nigéria dentro de um estádio reformado especialmente para a Copa das Confederações [en] da FIFA, a Polícia Militar brasileira lançava gás lacrimogêneo de dentro de um helicóptero sobre manifestantes em protesto contra o aumento de passagens de ônibus em Belo Horizonte.

Simultaneamente, cerca de 60.000 manifestantes reuniam-se na cidade de São Paulo e encabeçavam os protestos que ocorreram em outras 10 capitais de estados brasileiros em 17 de junho de 2013, como parte do quinto ato convocado pelo Movimento Passe Livre São Paulo, um grupo que se opõe ao aumento das passagens de ônibus no Brasil.

Os protestos, que tiveram início em São Paulo, espalharam-se pelo país e estão sendo chamados de “Revolta do Vinagre” desde que manifestantes usaram pedaços de pano molhados em vinagre para se proteger contra a dura ação policial em dispersá-los com gás lacrimogêneo no dia 13 de junho.

Desde o ano passado, diversos protestos foram organizados contra a inflação do valor de passagem de ônibus e contra o inadequado transporte público no país, contudo estes últimos protestos apresentam mais coordenação e força. Com o início da Copa das Confederações [en]nesta semana, evento que antecipa a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, manifestantes estão indo às ruas para mostrar [en] sua insatisfação com a infraestrutura do país e com a vasta quantia de dinheiro público gasta em megaeventos esportivos.

Protesto no Rio - Revolta do Vinagre

Manifestantes dão flores a policiais fora do Estádio do Maracanã no Rio de Janeiro, em 16 de junho. Foto por Vik Birkbeck publicada no Facebook, usada com permissão.

Desafiando a grande mídia

Manifestantes têm usado mídias sociais para mudar o discurso da grande mídia, que os retratou inicialmente como “vândalos” e só depois como “manifestantes”. Em um texto espirituoso, Lelê Teles criticou a maneira como a “velha mídia” tenta influenciar as reações do público.

Uma equipe da rede maior rede de televisão do país, a TV Globo foi vaiada por manifestantes em São Paulo e em seguida expulsa do protesto.

Uma campanha foi lançada com celebridades que exibiam olhos roxos para homenagear uma jornalista ferida durante os protestos. A campanha visava recuperar a confiança do público.

Figuras populares da mídia também aderiram ao movimento. O compositor e cantor Leoni compartilhou um vídeo no canal oficial do Youtube com uma gravação dos protestos.

Articulação dos protestos

As mídias sociais têm sido extensamente usadas para disseminar informações sobre os atos. No Facebook, pessoas de pelo menos 30 cidades brasileiras aderiram aos chamados de protesto. Alexandre Rosas, coordenador de uma empresa de marketing de guerrilha chamada Remix Social Ideas publicou uma página com pontos-chave para o evento de 17 de junho. A lista foi compartilhada quase 30.000 vezes a partir da página Anonymous Brasil e 17.000 vezes do perfil de Rosas no Facebook, onde ele escreveu:

TUDO que você precisa saber sobre a manifestação desta segunda-feira no Largo da Batata e tinha preguiça de procurar. Alguém fez essa compilação completíssima, não sei quem foi, mas agradeço. REPASSEM:

1 – Como protestar e ajudar de casa
2 – Como se comportar no protesto
3 – Orientacões Jurídicas
4 – Evento Oficial e contato com a Coordenação
5 – Material e Suporte Técnico
6 – Como lidar com gás lacrimogêneo e bombas
7 – Primeiros Socorros (pré-durante-pós)
8 – Eventos no Brasil.
9 – Eventos no Mundo.
10 – Ajuda internacional

Na sua página do Facebook, o cartunista brasileiro Laerte pediu que as pessoas mundo afora organizassem protestos no dia 18 de junho, em solidariedade aos brasileiros. A lista de cidades que se aderiram aos protestos pode ser vista em sua página:

“Baderneiros” de todo mundo organizam para incentivar “baderneiros” Brasileiros.

Nessa segunda-feira, 17 de Junho de 2013, o Brasil vai parar pra arrumar a casa. E nessa terça-feira, 18 de Junho de 2013, o mundo também vai parar com MANIFESTAÇÕES INTERNACIONAIS EM SOLIDARIEDADE ao Brasil…

As hashtags #passelivre e #MOBajuda foram usadas no Facebook e em outras plataformas de mídia social para os protestos. Em caso de emergência, o advogado Igor Santos explicou como usá-las para compartilhar um comentário na página MobilizadosSP:

Galera, estamos montando um grupo que irá monitorar as redes sociais durante o protesto na segunda-feira.
O intuito é ajudar os manifestantes que precisarem de alguma coisa, informações sobre os pontos sem conflito potencial, e rotas livres, socorro aos que estiverem feridos ou que precisarem de um abrigo por qualquer motivo.
A tag será #MOBAjuda é uma tag de EMERGÊNCIA! Portanto, só usem durante a manifestação para este fim!

Foto de protesto em São Paulo, dia 17 de junho de 2013, pela usuária do Twitter Maíra Kubík Mano

Foto de protesto em São Paulo, dia 17 de junho de 2013, pela usuária do Twitter Maíra Kubík Mano (@mairakubik)

Brasileiros têm usado diversas hashtags para os protestos no Twitter. O que começou com pimentavsvinagre dia 13 de junho, foi depois ampliado para outras frases, como #AbaixoRedeGloboPovoNaoébobo (em referência à rede de televisão Globo), e a #HACKEIAG1 como forma de criticar a cobertura dos protestos pela empresa online G1, do mesmo grupo da TV Globo. Recentemente, as hashtags #VEMPRARUAPVH, #ProtestoRJ #ProtestoSP são as mais usadas.

A adolescente Juliana M.D.V. (@JulianaMDV) diz:

@JulianaMDV: O gás que os policiais usavam tava vencido, pq acharam que o povo ia continuar cego, surdo e mudo #AbaixoRedeGloboPovoNaoébobo <ahref=”https://twitter.com/search?q=%23VEMPRARUAPVH&src=hash”>#VEMPRARUAPVH

A usuária do Twitter Lize Pereira (@Lizersp) ressalta:

@Lizersp: Essa #redeglobo deixa a copa pra la! Me conte mais sobre o protesto!! #AbaixoRedeGloboPovoNaoéBobo

O perfil falso do bilionário brasileiro Eike Batista (@EikeBatiiista) disse, ironicamente:

@EikeBatiiista: Brasil ja tem um estadio de 1° mundo, agora só falta construir um pais em volta dele #HACKEIAG1 #VEMPRARUAPVH #AbaixoRedeGloboPovoNaoébobo

Cartaz no Rio - Revolta do Vinagre

“Copa FIFA = R$ 33 bilhões, Olimpíadas = R$ 26 bilhões, Corrupção = R$ 50 bilhões, Salário mínimo = R$ 678. E você acha que é por R$ 0,20?” Manifestante no entorno do Estádio do Maracanã, em 16 de junho de 2013. Foto por Vik Birkbeck no Facebook, usada com permissão.

No domingo, contudo, a hashtag que despontou nos Trending Topics do Brasil era #todarevolucaocomecacomumafaisca, que alguns ainda usam para se referir ao encadeamento de protestos. O usuário do Twitter Galdino Toscano(@galdinotoscano) publicou uma imagem, dizendo:

@galdinotoscano: Vem pra rua, porque a rua é a maior arquibancada do Brasil! #TodaRevoluçaoComeçaComUmaFaísca pic.twitter.com/9CTYvifGXS

A usuária do Twitter Maris Juana (@Ishouldrink) disse:

@Ishouldrink:
Hoje é dia de sair de branco pelas ruas da sua cidade, vamos lutar pelo futuro da nossa nação, juntos. #TodaRevoluçaoComeçaComUmaFaísca

O usuário do Twitter Bruno Érnica (@brunoernica) publicou uma foto dia 17 de junho, dizendo:

@brunoernica: GENTE, olha esse reflexo na fachada de um prédio na manifestação do Rio, no centro da cidade! #ProtestoRJ pic.twitter.com/ledJTQJZ4P

Protests in Curitiba city (State of Paraná). From Busao Curitiba's Facebook Page. June 17, 2013.

Foto de protesto em Curitiba, estado do Paraná, do página do Facebook Busão Curitiba, de 17 de junho de 2013.

Raiz dos protestos

A Relatora Especial das Nações Unidas para moradia adequada, Raquel Rolnik, destacou em seu blog que o sistema de transporte público do Brasil é ineficiente porque é controlado por um oligopólio com consentimento das forças locais dos municípios:

É importante lembrar, aliás, que, historicamente, em muitas cidades do país, concessionárias de ônibus têm envolvimento com práticas de cartelização, de desvios de recursos, de controle político de câmaras municipais etc….

Engana-se quem pensa que as pessoas estão nas ruas de São Paulo protestando por causa de 20 centavos. As pessoas estão hoje nas ruas dizendo algo muito parecido com o que a população de Istambul está clamando na Praça Taksim: estão falando do direito à cidade, do direito de se manifestar sobre as decisões relacionadas ao lugar onde vivem.

André Araújo compartilha pensamentos similares no blog do jornalista Luis Nassif:

O setor de ônibus municipais é fechado em um pequeno grupo de empresários antiquados e acostumados a um casamento com a baixa política municipal, aliança que vem desde os anos 40.

Se o Movimento Passe Livre quer realmente uma solução melhor para o setor o caminho e acabar com esse conluio viciado entre prefeitos e câmaras com os empresários de ônibus. Isso é o que está por debaixo dos panos, é porisso que o setor não se renova, usa ônibus com carrocerias de caminhão, serviços ruins, explora motoristas e cobradores, tem manutenção péssima…

Protestos ocorreram em Belém, Fortaleza, Maceió, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Este post foi escrito em colaboração com Danielle Martins, Luis Henrique, Debora Baldelli e Juan .