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Vídeo: Grito das ruas de São Paulo em meio à violência policial

O quinto protesto contra o aumento da tarifa do transporte público de R3,00 para R$3,20 na cidade de São Paulo está marcado para acontecer nesta segunda-feira, dia 17 de junho. O quarto protesto que ocorreu na quinta-feira, 13 de junho de 2013, teve cerca de 20 mil pessoas que se depararam com balas de borracha, bombas de efeito moral e gás lacrimogênio utilizadas pela força policial.

O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo divulgou uma lista ainda incompleta com o nome de 3 jornalistas detidos e 14 agredidos pela polícia. Entre eles o repórter fotográfico Sérgio Silva, da Futura Press, que corre o risco de perder a visão de um olho e Giuliana Vallone da Folha de São Paulo que teve hemorragia em um dos olhos por causa de uma pancada. Giuliana relata o que ocorreu com ela no Facebook:

Sobre o aconteceu: já tinha saído da zona de conflito principal –na Consolação (bairro), em que já havia sido ameaçada por um policial por estar filmando a violência– quando fui atingida. Estava na (rua) Augusta com pouquíssimos manifestantes na rua. Tentei ajudar uma mulher perdida no meio do caos e coloquei ela dentro de um estacionamento. O Choque (polícia) havia voltado ao caminhão que os transportava. Fui checar se tinham ido embora quando eles desceram de novo. Não vi nenhuma manifestação violenta ao meu redor, não me manifestei de nenhuma forma contra os policiais, estava usando a identificação da Folha e nem sequer estava gravando a cena. Vi o policial mirar em mim e no querido colega Leandro Machado e atirar. Tomei um tiro na cara. O médico disse que os meus óculos possivelmente salvaram meu olho.

Polícia atira contra manifestantes em São Paulo. Foto de Raphael Tsavkko Garcia, sob licença CC

Polícia atira contra manifestantes em São Paulo/ Foto: Raphael Tsavkko Garcia/Creative Commons 2.0

Pessoas que gravavam cenas da ação policial do sétimo andar de um prédio foram atingidas por bombas jogadas pela própria polícia como indica vídeo compartilhado pelo canal olhetodos no Youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=zNmMvnDhG2U

Mesmo após a manifestação, pessoas foram agredidas por policiais apenas por estarem sentadas em um bar. O usuário do Youtube Denis Giacobelis postou vídeo que mostra um grupo de manifestantes ser atacado pela Polícia Militar apenas por ter gritado a frase “Sem Violência” em coro na Avenida Paulista:

O usuário do Youtube Caio Amaral Falcão postou vídeo em que mostra a Polícia Militar atirando e prendendo uma professora na Rua Augusta:

Estado e polícia que ferem o cidadão
Balas usadas pela polícia/Movimento Passe Livre

Balas usadas pela Polícia Militar contra manifestantes em São Paulo /Rafael Ribeiro/Facebook

O jornalista Rafael Bueno enfatizou que o tipo de munição utilizada pela Polícia Militar tem sido inapropriada no Facebook dele:

Mais uma prova da farsa provocada pela PM ontem: a munição utilizada pela corporação para reprimir a manifestação e intimidar a imprensa. Na foto, dois exemplos de munição menos que letal antidistúrbio que são compradas pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo para a PM. A da esquerda é a antimotim, indicada para distúrbios à curta distância. Ou seja, até 5 metros, ideal para a situação ocorrida lá pelo fato dela apenas servir para provocar barulho e ter índice baixíssimo de letalidade…. A corporação, no entanto, usou a da direita, para disparos a partir de longas distâncias. A menos de 50 metros, tem a mesma energia de uma munição ponto 22 letal para pistola. Em nenhuma foto divulgada ou publicada os policiais estão a mais de 50 metros, além de estarem apontando justamente para regiões vitais. O impacto nelas (cabeça, peito e traqueia) pode matar

 

O vídeo abaixo publicado pelo canal Senhor VeTudo no Youtube mostra um policial quebrando o vidro do próprio carro da polícia o que poderia ser atribuído como crime de vandalismo contra os manifestantes:

O jornalista Luiz Carlos Azenha chega a comparar a ação policial de hoje com a dos tempos da Ditadura Militar (1964-1985):

O Estado não pode torturar, bater ou barbarizar, como fez nos tempos da ditadura militar.

Jovens podem agir de forma irresponsável. O Estado, com o monopólio da violência, não.

Infelizmente, ontem (dia 13 de junho) vimos o Estado agir como um jovem irresponsável, disparando bombas, atacando jornalistas e barbarizando transeuntes.

 

Enquanto o governador de são Paulo, Geraldo Alckmin se limitou a defender as ações violentas da Polícia Militar, o prefeito da cidade, Fernando Haddad, apoiou a violência policial inicialmente para depois recuar e afirmar que irá negociar com os manifestantes. O professor Gilberto Maringoni criticou a posição do prefeito, dizendo que ele irá manter o reajuste. O ex-ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi chamou a violência contra os manifestantes nas rua de São Paulo de “tortura”.

Muito mais do que 0,20 centavos
Um casal se abraça perto de uma das várias barricadas de lixo pegando fogo espalhadas pelo entorno da Avenida Paulista. Foto de Raphael Tsavkko Garcia, sob licença CC

Um casal se abraça perto de uma das barricadas de lixo pegando fogo espalhadas pela Avenida Paulista/ Foto: Raphael Tsavkko Garcia/ Creative Commons 2.0

As manifestações organizadas pelo Movimento Passe Livre objetivam não apenas impedir o aumento de 20 centavos na passagem como também discutir um novo projeto para a cidade que considere o direito de ir e vir, a questão da mobilidade urbana e alternativas do então chamado transporte público.

A jornalista Mariana Vedder comentou sobre o assunto no blog dela:

Estado retirando aos poucos cada liberdade conquistada com muita luta, lavada pelo sangue de tantos. Não são 20 centavos, é a sua liberdade que está em jogo. Lute por ela!

 

O jornalista Eduardo Roberto escreveu na Revista Vice sobre o desejo político da juventude paulistana:

O que está em jogo, de verdade, é a própria configuração social dessa São Paulo que emerge de um limbo político, criado por gestões apáticas e que pouco ou nada fizeram para entender como a cidade se sente. O que essas manifestações querem é muito mais do que a reversão do aumento das tarifas de ônibus, ou o passe livre. A juventude quer é provar, com ferro e fogo, a sua própria existência na São Paulo do futuro.