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Demissões na revista Caros Amigos expõem precarização da mídia no Brasil

No dia 8 de março foi publicada no Facebook pelos jornalistas da Revista Caros Amigos a notícia de que a redação de uma das publicações de esquerda mais importantes do Brasil entrava em greve por tempo indeterminado contra o que chamaram de precarização do trabalho.

Fundada em abril 1997 por um grupo de jornalistas, publicitários, escritores e intelectuais, a revista, hoje dirigida por Wagner Nabuco, contava com onze jornalistas e designers fixos e diversos colaboradores e teria a redação reduzida pela metade, assim como seus salários:

Nós, integrantes da equipe de redação da revista Caros Amigos, responsáveis diretos pela publicação da edição mensal, o site Caros Amigos e as edições especiais e encartes da Editora Casa Amarela, denunciamos a crescente precarização das nossas condições de trabalho, seja pela ausência de registro na carteira profissional, o não recolhimento das contribuições FGTS [Fundo de Garantia do Tempo de Serviço] e do INSS [Instituto Nacional da Segurança Social] e, agora, o agravamento da situação pela ameaça concreta de corte da folha salarial em 50%, com a demissão de boa parte da equipe.

Imagem retirada do perfil do facebook dos demitidos da Caros Amigos. Uso livre.

Imagem retirada do perfil do facebook dos demitidos da Caros Amigos. Uso livre.

Desde o dia 4 de março, quando avisados por Nabuco de suas intenções de precarizar ainda mais a situação dos trabalhadores da revista, tentava-se negociar uma saída para se evitar a greve, porém sem sucesso.

Imediatamente após o anúncio da greve, a Chapa 2 “Sindicato é pra lutar!”, de oposição à atual gestão do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, reproduziu a nota dos trabalhadores em greve e prestou solidariedade.

No dia 11 de março, os trabalhadores foram convocados para uma reunião e foram informados que, devido à “quebra de confiança” estavam todos demitidos, uma flagrante violação do direito constitucional à greve no país. O jornalista André Deak esteve entre os primeiros a divulgar a notícia no Facebook, reproduzindo carta da equipe de redação:

(…) lamentamos a decisão da Direção. Consideramos a precarização do trabalho e a atitude unilateral como passos para trás no fortalecimento do projeto editorial da revista, que sempre se colocou como uma publicação independente, de jornalismo crítico e de qualidade, apoiando por diversas vezes, inclusive, a luta de trabalhadores de outras áreas contra a precarização no mercado de trabalho.

O diretor da revista, Wagner Nabuco tentou se justificar em artigo para o jornal Brasil de Fato, reproduzido pelo blog Vi o Mundo, no qual ele afirma que tomou a decisão em meio a uma crise financeira da revista, sem maiores explicações sobre as demissões ou a precarização pretendida:

Ressalto que nessas reuniões mostrei todos os números da editora, sua movimentação financeira e o prejuízo mensal que a revista vem acumulando pois, mesmo com os milhares de leitores, as receitas de publicidade são pequenas (e agora com mais restrições da SECOM/PR [Secretaria de Comunicação da Presidência da República]), todo o mercado de circulação – bancas e assinaturas – está em queda, os custos vem aumentando acima da inflação, e não podemos repassar para o preço de capa. Essa situação atingiu duramente os veículos alternativos e contra hegemônicos, que tiveram que fazer ajustes para continuar suas operações e produzir um jornalismo crítico e independente.

A jornalista Gabriela Moncau, uma das demitidas, desabafou em entrevista para a oposição sindical:

É triste ver tamanha incoerência em um veículo que cumpre o papel de crítica e contra-hegemonia em um cenário estarrecedor de concentração dos meios de comunicação. Entendemos a importância que a Caros Amigos tem e, claro, por isso muitas vezes nos submetemos a condições que em outros veículos não nos submeteríamos. Mas era o nosso trabalho, não a nossa militância. Até quando patrões de instituições de esquerda utilizarão a “militância” dos que ali trabalham para fechar os olhos às condições precárias a que estes são submetidos?

Uma crise mais ampla

Para o jornalista Rodrigo Vianna, do blog Escrevinhador, a situação na Caros Amigos expõe “a precariedade e a falta de recursos que afetam vários sites e publicações”:

De maneira crescente, empresas de comunicação (inclusive na “grande imprensa”) precarizam o trabalho do jornalista, que de funcionário passa a ser um “colaborador fixo” ou “prestador de serviços” para que as empresas cortem os gastos com impostos e contribuições trabalhistas. Há anos a situação é denunciada por entidades da categoria, mas com poucas vitórias.

Vianna ainda discorre sobre o fechamento de diversos jornais no Brasil ou a decisão de outros de aderir exclusivamente à plataformas online em meio à crise e termina fazendo uma crítica ao governo da presidente Dilma Rousseff cuja SECOM mantém pesada concentração de verbas oficiais de publicidade “nas mãos de poucos”:

Age, assim, na contramão das políticas adotadas por democracias ocidentais que destinam parte da verba para “fundos de democratização da mídia”; e parece mais preocupado em não criar “zonas de atrito” com meia dúzia de famílias que, donas de revistas e jornais conservadores, se esbaldam com a verba de publicidade oficial.

A Agência Carta Maior, veículo alternativo de esquerda, considera que a origem do problema está na “asfixia financeira, decorrente das decisões do governo federal de suprimir publicidade de utilidade pública nos veículos da mídia alternativa”.

Imagem retirada do perfil do facebook de Jornalistas Freelas. Uso livre.

Imagem retirada do perfil do facebook de Jornalistas Freelas. Uso livre.

O jornalista Leonardo Sakamoto concorda mas vai além e culpa também a desunião de jornalistas e pouca ação de sindicatos do setor no combate à precarização. Ele ainda faz uma previsão sombria:

Talvez o futuro seja um misto de tudo isso, emprego CLT [com carteira assinada], frilas, empreendedores individuais ou coletivos, pessoas produzindo conteúdo em redes, ONGs, enfim. Mas, hoje, o que me preocupa são os viventes e suas contas a pagar.

O que estou pedindo? Jornalistas do mundo, uni-vos? Que tamancos sejam jogados nas prensas dos jornais? Nem… isso seria muito brega. Ou melhor, kitsch. O que gostaria de lembrar é que as coisas vão mudar cada vez mais rápido. E temos duas opções: encarar isso sozinhos ou juntos, lutando contra a indiferença.

Enquanto que uns como o jornalista e cartunista Gilberto Maringoni, no Facebook, lembram que, apesar de tudo, o editor Wagner Nabuco não deveria ser demonizado “como se ele fosse inteiramente responsável pela dramática situação da revista”, outros como o jornalista Julio Delmanto, no blog Passa Palavra, pedem boicote à revista.

Os onze trabalhadores demitidos são Alexandre Bazzan, Caio Zinet, Cecília Luedemann, Débora Prado, Eliane Parmezani, Gabriela Moncau, Gilberto Breyne, Otávio Nagoya, Paula Salati, Ricardo Palamartchuk e Hamilton Octavio de Souza. Este último deixou no Facebook uma mensagem em que demonstra esperança e informa que o ânimo dos demitidos era o melhor, pois sabiam ter feito a coisa certa:

Ser demitido por defender condições dignas de trabalho e fazer greve, aos 64 anos de idade, só pode ser a glória.
Ser demitido por ficar ao lado de jovens trabalhadores dispostos ao sacrifício por um mundo mais justo e igualitário, não tem preço.

 

  • Jonas_Caldwell

    O Maringoni faz o que a galera do PSOL faz sempre: tenta pôr a culpa em Dilma e no PT. Eles, que propõem greves por tempo indeterminado no serviço público, não aguentam uma greve e demitem … se dizem independentes mas querem verbinha pública. Assim eu também monto revista e jornal. Pede pra o partido dele fazer um fundo de greve, pra essas eventualidades! A verba publicitária hoje é muito, mas muito mais pulverizada do que já foi no passado e ele sabe disso. A revista cai de pau no governo petista o tem po todo, por razões basicamente ideológicas, e quer verbinha pública? Maneiro!

  • Jonas_Caldwell

    O que Maringoni dizia antes:
    “Fenômeno curioso: as chamadas Organizações Não-Governamentais cada vez mais dependem de recursos governamentais. Embora existam ONGs sérias, é impossível dissociar crescimento do setor à terceirização e à privatização do Estado.” — Gilberto Maringoni

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