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Jovem Indígena Fala sobre Amazônia e Hidrelétricas

Este artigo faz parte da nossa cobertura especial Dossiê Belo Monte.

Com o objetivo de gerar energia elétrica para consumo residencial e industrial, o governo brasileiro está dando início à construção de uma série de usinas hidrelétricas nas regiões do Pantanal e da Amazônia, tal como a usina do rio Tapajós, a usina do rio Teles Pires, entre outras. Segundo dados divulgados pelo blog do Consórcio Norte Energia, responsável pelas obras da usina de Belo Monte, o consumo de energia tem crescido no país, e a usina “é a garantia para essa demanda”, reforçando o argumento do desenvolvimento do país.

Assim como aconteceu com o projeto de Belo Monte, o projeto da usina de São Luiz do Tapajós (no rio Tapajós) e o projeto da usina de Teles Pires (no rio Teles Pires, que desemboca no rio Tapajós) têm sido questionados judicialmente por não terem adequadamente consultado as populações locais e por avaliações ambientais integradas mal conduzidas. A esses desafios, estão somados também o desmatamento e o avanço agropecuário.

Com vocês, a segunda parte da entrevista a Sany Kalapalo, jovem indígena e ativista do Xingu.

Considerando os atuais desafios, como você vislumbra o futuro das florestas e dos povos indígenas que habitam as regiões amazônicas?

Como sempre nós indígenas do Xingu falamos: “Homem Branco acha que é dono da natureza e pode fazer o que quiser com ela, mas uma hora a mãe natureza não aguentará mais e se vingará”.

O único interesse desses mega-corruptos de construir uma mega-usina como Belo Monte é dar lucro para as empresas iluminantes, ou seja os ricos ficarem mais ricos e os pobres ficarem mais pobres. Se o governo estivesse realmente interessado e preocupado com o desenvolvimento do país, implantaria redes de energia onde estão faltando e beneficiaria aquelas regiões que sofrem apagões. Nós, indígenas, não somos contra a energia em si, somos contra o projeto e a maneira como estão sendo desenvolvidas essas hidrelétricas, prejudicando o meio ambiente e os povos locais. Principalmente a hidroelétrica de Belo Monstro (Belo Monte), que afetará múltiplas famílias pobres e povos indígenas. Pra quê construir uma usina que só vai gerar eletricidade por duas estações do ano?, porque nas outras estações o rio Xingu costuma ficar na seca. Durante isso, como fica usina?? E como fica a eletricidade na sua casa ou na sua empresa?? Pense nisso. Brasil tem capacidade de gerar uma energia limpa e justa para o povo brasileiro. Sabe qual é futuro dos povos locais? Inundação, perda de casas, perda de plantações, perda de identidade, ou seja, perda de tudo e com certeza miséria na certa, e isso é o que o governo quer, [verdade] nua e crua.

Por isso que eu não chamo Belo Monte de Desenvolvimento, pois chamo de Sub-destruição ou total destruição, tanto para indígenas quanto para não indígenas, e para o meio ambiente.

Jose Carlos Arara, chefe da tribo Arara, discute o impacto negativo de Belo Monte no seu povo, que depende do rio Xingu para o seu sustento. Foto de K. L. Hoffmann copyright Demotix (13 de Agosto, 2011)

Jose Carlos Arara, chefe da tribo Arara, discute o impacto negativo de Belo Monte no seu povo, que depende do rio Xingu para o seu sustento. Foto de K. L. Hoffmann copyright Demotix (13 de Agosto, 2011)

ONGs nacionais e internacionais têm sido criticadas como representantes de “inimigos do Brasil”. Integrantes do Movimento Xingu Vivo Sempre sofreram acusações desse tipo. Quais organizações você pode destacar como realizadoras de um bom trabalho na região?

Conheço os idealizadores do Movimento Xingu Vivo para Sempre e os ativistas, inclusive são nossa principal parceria atualmente. Tenho ouvido muita coisa em relação ao Xingu Vivo. Na verdade, os governantes querem iludir e tentar persuadir o povo brasileiro dizendo que [eles] são inimigos do Brasil, e assim enxergar eles com os outros olhos, como invasores, e não levar em consideração o que eles reivindicam, que é proteger a natureza ao pedido dos índios, já que não somos ouvidos no nosso próprio país. Essa é a jogada do governo, sendo que o lobo mau de verdade são eles do Governo, que sempre querem tampar o olho do povo pra não ver o podridão que andam fazendo pelo país. E um movimento que está ativo desde o início de 2011 e que acordou Brasil para a luta de novo, em apoio ao movimento Xingu Vivo para Sempre, é o Indígenas em Ação (MIA).

Desde 2011, a mobilização e as decisões judiciais obtêm sucesso em paralisar a usina de Belo Monte, mas logo outra decisão judicial autoriza a retomada das obras. Já é hora de aceitar a construção da usina como fato dado ou ainda vale lutar?

Fico feliz que de 2011 pra cá a mobilização contra Belo Monte aumentou muito, acredito que por causa das grandes manifestações que organizamos e realizamos aqui em São Paulo pelo Movimento indígenas em Ação (MIA) com apoio do Xingu Vivo para Sempre, e por todo o Brasil, juntamente com o movimento Brasil pelas Florestas, que luta pela melhoria do novo Código Florestal. Nós indígenas estamos decididos a lutar, como sempre fizemos todo esse tempo. Se os construtores querem sangue do índio, vão ter. Se isso é o que o juiz branco quer, nos contrariar, o massacre de 512 anos vai continuar, sabe por quê? Os povos indígenas do Xingu não aceitam ser assassinos da natureza como esses governantes

No dia 20 de outubro, às 14h, está prevista uma manifestação contra a usina hidrelétrica de Belo Monte, em frente ao escritório da Organização das Nações Unidas, em São Paulo. O objetivo do ato é pedir apoio da ONU para as causas do rio Xingu.

Este artigo faz parte da nossa cobertura especial Dossiê Belo Monte.

1 comentário

  • Jacqueline Souza

    essa questão de construir usinas hidrelétricas como unica alternativa de geração de energia para o país é covardia, porque atualmente já existem outras formas de gerar energia sem degradar a natureza e a existia humana, concordo que os índios e outros grupos sociais se organizaem sim em defesa do seu habitat em plena harmonia com o meio ambiente, pois o artigo 225 em suas considerações gerais prescrreve que:Todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
    comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo
    para as presentes e futuras gerações.

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