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Egito: Assédio Sexual como uma Arma contra os Dissidentes?

Este artigo é parte de nossa cobertura especial da Revolução no Egito em 2011.

O dia 8 de junho foi a “Sexta-feira da Determinação” em Cairo, e as pessoas se reuniram [en] na Praça Tahrir para protestar contra os vereditos do julgamento do ex-presidente Mubarak [en]. Poucos ficaram para o protesto contra o assédio sexual [en] que começaria às 18h, um claro levante contra o crescente número de casos de assédio sexual [en] sofridos por manifestantes mulheres.

O blogueiro Mina Naguib fez uma breve síntese [en] dos slogans entoados no protesto:

“صوت المرأة مش عورة ، صوت المرأة ثورة ثورة” – Women’s voice isn’t a sin, Women’s voice is a revolution.

“التحرش مش هيفيدك .. جرب تانى هقطع إيدك” – Sexual harassment won’t benefit you, try again and I’ll cut off your hand.

“إبعت هات متحرشين .. مش هنطاطى ولا هنلين” – Bring more harassers, we won’t bow or soften”

A voz das mulheres não é um pecado, a voz das mulheres é uma revolução.

Assédio sexual não trará benefícios, tente novamente e eu cortarei sua mão.

Tragam mais molestadores, nós não nos curvaremos nem amoleceremos.

Pouco depois do início do encontro pacífico, manifestantes foram violentamente atacados [en] por uma horda de centenas de homens. Uma onda de reações indignadas e preocupadas surgiu após o anúncio do ataque e não parou até que tudo tivesse terminado:

@Psypherize: The ‪#EndSH‬ march was attacked. We acted. Now its over. End of story. ‪#Tahrir‬

A marcha pelo fim dos assédios sexuais foi atacada. Nós agimos. Agora acabou. Fim de história. #Tahrir

@Zeyadsalem: I am really saddened by the news about attacking the march against sexual harassment at ‪#Tahrir‬

Estou muito triste com as notícias sobre o ataque à marcha contra o assédio sexual na Praça Tahrir.

@MoeSolitary: It bugs them that the people are in power when it comes to Tahrir premises, it KILLs them that WOMEN are in power today. ‪#Tahrir‬

Alguns se incomodam com o fato do poder estar nas mãos das pessoas quando falamos das premissas de Tahrir, alguns se ENFURECEM que as MULHERES estejam no poder hoje.

@sotsoy: Why is there a need to attack and violate women? I really don't get it. parents obviously didn't raise them right.

Por que há uma necessidade de atacar e violentar mulheres? Eu realmente não entendo. Seus pais obviamente não os criaram bem.

@Reem_Abdellatif: I've literally heard men look at women protesters & say: “What do they want? F***ing stay at home. They deserve to be broken” ‪#Egypt‬ ‪#Endsh‬

Eu literalmente ouvi homens olharem para as mulheres e dizere,: “O que elas querem? Fiquem em casa, p***. Elas merecem ser machucadas”

@SameralAtrush: Utterly disgusting scenes on Talat Harb off tahrir, women has to be protected inside small clothes store, then spirited into cab

Cenas incrivelmente nojentas em Talat Harb, próximo a Tahrir. Mulheres tiveram que se proteger em pequenas lojas de roupas, para então entrarem sorrateiramente em táxis.

As reações durante e depois da situação caótica reviveram as dolorosas questões acerca do assédio sexual no Egito:

@spelllz: 96.7% of Egyptian women & 86.9% of foreign women – didnt seek police assistance because because no one would help them ‪#EndSH‬

96,7% das mulheres egípcias e 86,9% de mulheres estrangeiras não procuram ajuda policial, porque ninguém as ajudaria. #FimAoAssedio

@spelllz: 62.4% of the males confirmed that they have perpetrated and/or continue to perpetrate one or more of the forms of harassment ‪#EndSH‬

64,2% dos homens confirmaram que já cometeram e/ou continuam cometendo uma ou mais formas de assédio

@spelllz: 49.8% being ogling women's bodies, 27.7% whistling and shouting comments, 15.9% shouting sexually explicit comments, ‪#EndSH‬

49,8% sendo homens olhando descaradamente para os corpos das mulheres, 27,7% assobiando e fazendo comentários em voz alta, 15,9% fazendo comentários sexualmente explícitos

@spelllz: 15.4% phone harassment, 13.4% unwanted touching of women’s bodies, 12.2% following and stalking, 4.3% exposed or pointed out his penis ‪#EndSH‬

15,4% abusos por telefone, 13,4% tocando corpos de mulheres sem consentimento, 12,2% perseguição, 4,3% exposição do pênis

Desta vez, no entanto, as reações também foram fortemente influenciadas pelo contexto político. O número de incidentes parece estar se elevando [ar] nos últimos meses, e muitas organizações de direitos humanos têm expressado grande preocupação [ar] quanto a esses casos de violência, que podem estar afetando a participação de mulheres nas atividades políticas do país.

O centro de estudos feministas Nazra nota [ar]:

تعرب المنظمات الموقعة أدناه عن قلقها البالغ من ارتفاع وتيرة التحرش الجنسي والعنف ضد المتظاهرات في ميدان التحرير والشوارع المحيطة به منذ اندلاع موجة الاحتجاجات الأخيرة في أعقاب إعلان الحكم في قضية مبارك يوم السبت الثاني من يونيو 2012. ويأتي القلق من معدلات العنف غير المسبوقة، والتي أجمع شهود العيان على حدوثها، دافعا البعض إلى الاعتقاد أنها ممارسات عمدية لإقصاء النساء من محيط التظاهر والاحتجاج.

As organizações citadas expressam sua grande preocupação quanto aos níveis de assédios sexuais e violência contra mulheres que protestam na Praça Tahrir e nas ruas adjacentes desde o início da recente onda de protestos que seguiram o veredito do caso Mubarak no sábado, 2 de junho de 2012. Estamos preocupados com os níveis sem precedentes de violência, que podem levar alguns a crer que tais práticas têm como objetivo excluir intencionalmente as mulheres dos protestos.

Tal ponto de vista tem fundamento:

@deena_adel: I'm one of the many, many females who stopped going to Tahrir almost completely because I'm too exhausted to deal with the sexual harassment

Sou uma das muitas, muitas mulheres que pararam quase completamente de ir a Tahrir, porque estou muito exausta para lidar com assédios sexuais

@MaliciaRogue: This increase in harassment & attacks on women looks like the little brother of rape during wars.Aims at destabilizing & discouraging ‪#endSh‬

Essa alta nos assédios e nos ataques a mulheres parece ser o irmão mais novo dos estupros durante guerras. Propõem-se a desestabilizar e desencorajar

@MonaBassel: What will a guy benefit when he sexually harasses a woman? It's like they are trying to break us. ‪#endSH‬ ‪#egypt‬

O que um homem tiraria de vantagem ao abusar sexualmente de uma mulher? É como se estivessem tentando nos quebrar.

Em seu blog Informed Comment, Juan Cole discute [en] essa possibilidade depois do ataque:

Pro-Shafiq ruffians have broken up news conferences and attacked a women’s conference a couple of weeks ago when I was in Cairo. That is, some activists suspect that the women were assaulted not because they are women but because they are revolutionaries continuing to threaten the prerogatives of the Mubarak elite. If women, then Coptic Christians, then other groups can be peeled off from the youth revolutionaries, they fear, the movement could be much weakened.

Criminosos pró-Shafiq têm invadido coletivas de imprensa e atacaram uma coletiva de mulheres há duas semanas quando eu estava no Cairo. Ou seja: alguns ativistas suspeitam que mulheres são atacadas não porque sejam mulheres, mas porque são revolucionárias que continuam a ameaçar as prerrogativas da elite de Mubarak. Se mulheres puderem ser descamadas da juventude revolucionária, então os cristãos copta e outros grupos também o serão – temem eles – e o movimento poderia ser muito enfraquecido.

Philip Brennan toma [en] uma posição mais firme, apoiando a ideia de que o medo dos assédios sexuais esteja sendo usado como arma contra os dissidentes:

The use of sexual assault at political protests serves two biopolitical purposes: it makes such protests a very unwelcome environment for female protesters and discourages their participation while making many male protesters feel helpless in the face of government brutality, again, in order to discourage their participation as well. It is a tactic of fear, terrorism, used by the state against its populace.

O uso dos assédios sexuais em protestos políticos serve a dois propósitos: fazem desses protestos um ambiente hostil para mulheres manifestantes e desencorajam sua participação, ao mesmo tempo em que fazem com que muitas mulheres que protestam se sintam desprotegidas face à brutalidade do governo, novamente desencorajando sua participação. É uma tática de medo, terrorismo, usada pelo Estado contra sua população.

Merna Thomas pediu cuidado:

@mernathomas: please dont dismiss the attacks on the anti-harassment protest so easily.There is no evidence tht it was hired thugs/regime tactic. ‪#endSH‬

Por favor não descartem os ataques ao protesto anti-assédio tão facilmente. Não há evidência de que tenham sido capangas pagos ou tática do regime.

Numa tentativa de prevenir que as reações pendessem para uma retórica do tipo “homens odeiam mulheres”, retórica essa que recentemente disparou um grande debate [en], o jornalista egípcio Mohammed Abdelfattah tuitou:

@mfatta7: Instead of venting your hate against an entire gender, recognize that women paid their lives across history for rights. ‪#endsh‬

Ao invés de ventilarem seu ódio contra um gênero inteiro, reconheçam que as mulheres pagaram com suas vidas por seus direitos ao longo da história.

Como apontado acima e ecoado por várias pessoas, o assédio sexual continua totalmente impune no Egito. Pior: mulheres estão sendo culpadas por serem violentadas:

@yarakhairy: i don't want to live in a country where i get blamed when someone else harasses me! ‪#endSH‬

Eu não quero viver num país onde sou culpada por alguém ter me assediado! #FimAoAssedio

Apesar de ter sido escrito antes da sexta-feira do ataque, um artigo de Mohamed Kassem intitulado “Why Do You Never Blame Me?” [en] [“Por que nunca me culpam?”] lida com essa questão com termos sombrios, virando-se para todo o país:

Dear Misr [Egypt],
[…]
I don’t consider myself a bad person; it’s how men are created, it’s inevitable and no one is in a position of changing our human nature. God molded men with a hungry appetite, so how does that make it our fault? My appetite growls, and I have everything I need in front of me, so why not give it what it asks, and why not please my needs? After all, they pretty much ask for it.
[…]
Talking about society, I remember the time our Army stomped a women and ripped her clothes off. There were plenty of protests; I didn’t quite understand why they were so angry about it though. What difference is there between the army and I? I tend to tear women’s clothes nearly everyday, no-one blames me, why do they blame the army then, for an act they silently accept from each and every one of us, every singly day?
[…]
Sometimes though, I watch irrelevant tv shows, like the one Yosra was leading role in. Portrays how much we truly are hated for attacking the vulnerable category of women. And this is where the reason I write you this letter comes. I noticed through such TV-shows/movies, and through a couple of articles I read in hidden columns in newspapers that I really am considered a bad person. I really am viewed as putrid as a speck of dirt on a crystal clear glass of cold, ice water. I don’t understand, I really am confused, and I actually sense an urge to find the answer to a question I have longing to find out through no-one but my people, my society and my leaders:
Why do you hate me, if you never blame me?

Yours,
An Ordinary-Egyptian-Rapist

Caro Egito,
[…]
Eu não me considero uma pessoa má; é como homens são criados, é inevitável e ninguém pode mudar nossa natureza. Deus moldou os homens com um apetite voraz, portanto como pode ser nossa culpa? Meu apetite ronca e eu tenho tudo de que preciso à minha frente, então por que não dar-lhe o que pede, e por que não saciar minhas necessidades? Afinal elas basicamente pedem por isso.
[…]
Falando de sociedade, eu me lembro do tempo em que nosso exército pisoteava uma mulher e arrancava sua roupa. Havia muitos protestos; porém eu não entendia muito bem por que ficavam tão nervosos com isso. Que diferença há entre o exército e eu? Eu tendo a arrancar a roupa de mulheres praticamente todos os dias e ninguém me culpa, então por que culpam o exército de um ato que elas aceitam silenciosamente de cada um de nós, todo o santo dia?
[…]
Algumas vezes, no entanto, eu assisto a programas de TV irrelevantes, como aquele em que Yosra [en] fazia o papel principal. Ele mostra como somos odiados por atacar a vulnerável categoria das mulheres. E esta é, portanto, a razão pela qual lhe escrevo esta carta. Eu percebi, através de programas de TV e filmes como esse, e através de alguns artigos que eu li em colunas escondidas nos jornais, que sou realmente considerado uma pessoa má. Sou realmente visto como um grão pútrido de sujeira numa límpida superfície de gelo. Eu não entendo… Estou realmente confuso e eu realmente me sinto compelido a encontrar a resposta para a questão que há muito tento resolver através do meu povo, da minha sociedade e de meus líderes:
Por que me odeiam, se nunca me culpam?Atenciosamente,
Um Estuprador Egípcio Qualquer

Mohammed Yahia chamou atenção para uma entrevista [vídeo, ar] na televisão em que mulheres que foram atacadas falavam de sua experiência:

@MohammedY: Dream 2 has an interview with several girls who were attacked today during the sexual harassment march. It's v disgusting #EndSH

[O canal] Dream 2 fez uma entrevista com várias garotas que foram molestadas hoje durante a marcha contra o assédio sexual. É muito nojento. #FimAoAssedio

Um pedido também foi lançado para que imagens e vídeos do ataque fossem reunidas. Enquanto isso, a organização pelos direitos humanos Nazra For Feminist Studies [“Nazra para Estudos Feministas”] possui um número de telefone que oferece apoio psicológico e ajuda às vítimas.

Leia também:

Egito: Marcha pelo Fim dos Assédios Sexuais Atacada [en]

Este artigo é parte de nossa cobertura especial da Revolução no Egito em 2011.

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