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Itália: Macao e o Perigo da Autogestão

Este artigo faz parte da nossa cobertura especial Europa em Crise.
[Todos os links levam a páginas em italiano excepto indicação em contrário].

Nas primeiras horas da manhã de 22 de Maio de 2012, a polícia e o exército entraram no Palazzo Citterio em Milão, Itália, para pôr fim (pela segunda vez) a uma ocupação levada a cabo por cerca de 60 artistas e trabalhadores precários que fazem parte de um colectivo conhecido como “Macao”.

O grupo de arquitectos, artistas plásticos, estudantes, educadores e profissionais de comunicação, tinha ocupado o edifício do século XVI a 19 de Maio, depois de terem sido despejados da Torre Galfa, na qual tinham permanecido por 10 dias [en]. A ordem de despejo do Palazzo Citterio foi imediatamente decretada. O despejo decorreu sem violência e não houve resistência da parte dos “ocupas”.

A 5 de Maio, o colectivo deu início à ocupação da Torre Galfa, um arranha-céus de 33 andares no coração de Milão que pertence à empresa de serviços financeiros Fondiaria SAI, e que estava abandonado há 15 anos. O colectivo deu-lhe o nome Macao, um acrónimo que, segundo dizem, está aberto a interpretações, reflectindo a abertura do próprio projecto.

No primeiro dia da ocupação, foi colocada uma faixa num dos últimos andares que dizia: “Até podíamos imaginar voar”. A torre foi desocupada pela polícia a 15 de Maio e dez dos participantes foram detidos. O colectivo depois acampou em frente ao edifício durante quatro dias, até que decidiu avançar com a ocupação do Palazzo Citterio.

Assembleia pública à frente da Torre Galfa ocupada. Imagem de Macao

Assembleia pública à frente da Torre Galfa ocupada. Imagem de Macao

O objectivo de Macao é “libertar” espaços para as artes numa cidade onde são raros os espaços para a juventude e para a criatividade. Durante os dez dias que a ocupação durou, alguns dos andares do prédio foram limpos e tornados acessíveis para reuniões, assembleias, workshops e seminários. Um dos tweets do colectivo resume o seu propósito da seguinte forma:

@MacaoTwit: #MACAO non intende essere un altro centro per le arti, ma un nuovo centro per le arti : #tuttiSUmacao

Macao não pretende ser mais um centro para as artes, mas sim um novo centro artístico.

A ocupação milanesa é apenas a mais recente de uma série de ocupações que têm surgido por toda a Itália durante o último ano, incluindo o Teatro Coppola em Catania, o Teatro Garibaldi em Palermo (ambos na Sicília), o Asilo do Conhecimento em Nápoles, as Docas Sale em Veneza, o Teatro Valle e o Cinema Palazzo em Roma. Juntos, os colectivos formam a rede Lavoratori dell’Arte (Trabalhadores da Arte).

Há duas razões principais por trás das ocupações. Por um lado, o encerramento de organismos públicos tais como a ETI (Associação Italiana de Teatro) e de espaços culturais, no seguimento dos cortes ao financiamento das indústrias culturais no sector público implementados pelo governo de Berlusconi desde 2010. Por outro lado, a insegurança no trabalho que assola o sector da cultura e da comunicação, cujos trabalhadores (muitos dos quais são freelancers ou empregados com contratos de curto prazo) tendencialmente carecem de representação sindical tradicional e de acesso à segurança social.

É neste contexto que surge o movimento dos Trabalhadores da Arte, como é explicado no respectivo website [en]:

Art Workers assert that Art and Culture should obtain the status of common good. The common good is not an abstract concept but a new living form of democracy that aims to overcome the dichotomy between public and private sectors.

For this reason, we, as Art Workers, must explain the precarious conditions in which we operate with clarity. It is very important to recognize the dynamics, the ambivalence, the extent of precariousness, especially where the term seems to be devalued. Moreover, we can only field effective countermeasures by starting from a lucid diagnosis, especially when the economic crisis has implemented the severity of our condition.

Let’s say that artistic languages are a political fact and that insecurity obstructs experimentation, ambition, intelligence, radicalism and art’s global reach.

Os Trabalhadores da Arte consideram que a Arte e a Cultura devem ser reconhecidas como bem comum. O bem comum não é um conceito abstracto mas sim uma nova forma de vida em democracia que pretende ultrapassar a dicotomia entre os sectores público e privado.

Por esta razão, nós, os Trabalhadores da Arte, devemos explicar com clareza as condições precárias em que agimos. É muito importante reconhecer as dinâmicas, a ambivalência, a extensão da precariedade, especialmente quando o termo parece ter perdido significado. Para além disso, só poderemos implementar contra-medidas se partirmos de um diagnóstico lúcido, especialmente quando a crise económica estabeleceu a severidade da nossa condição.

Digamos que as linguagens artísticas são um facto político e que a insegurança impede a experimentação, a ambição, a inteligência, o radicalismo e o alcance global da arte.

À semelhança do press release [en] do Macao, que afirma:

We are the multitude of workers of the creative industries that too often has to submit to humiliating conditions to access income, with no protection and no coverage in terms of welfare and not even being considered as proper interlocutors for the current labor reform, all focused on the instrumental debate over the article 18. We were born precarious, we are the pulse of the future economy, and we will not continue to accommodate exploitation mechanisms and loss redistribution.

Somos a multidão de trabalhadores das indústrias criativas que com demasiada frequência tem de submeter-se a condições humilhantes para ter acesso a rendimentos, sem proteção alguma e sem cobertura em termos de segurança social, e sem sequer ser considerada como uma possível interlocutora da actual reforma laboral, focada no debate instrumental do artigo 18. Nascemos precários, somos o pulso da economia do futuro, e não continuaremos a aceitar os mecanismos de exploração e a perda de redistribuição.
Ocupas montam acampada perto da torre vazia e sem uso depois do despejo. Foto de Macao

Ocupas montam acampada perto da torre vazia e sem uso depois do despejo. Foto de Macao

Os Trabalhadores da Arte definem-se como cérebros em luta, não em fuga [en]. Experiências semelhantes tomaram lugar em Portugal, onde uma comunidade autogerida chamada Es.col.a foi despejada em Abril [pt]; em Espanha, no Hotel Madrid [es]; e no Reino Unido na ocupação por parte de activistas do Occupy London de um edifício vazio pertencente ao banco de investimento UBS, renomeado como Bank of Ideas(Banco de Ideias) [en].

Apesar dos despejos, os projectos têm conseguido reunir apoio do público – o que antes era impensável já que a ocupação de edifícios públicos ou privados é ainda considerada ilegal. Em Itália, a tradição de ocupar centros sociais [en] vem já desde as lutas dos anos 70, mas estas ocupações atingiram níveis recorde de apoio, incluindo por parte de figuras de alto perfil, como o laureado Nobel e satirista Dario Fo [en], e até de alguns oficiais de autoridade local.

Além disso, a página de Facebook do Macao já reuniu mais de 30.000 “likes”, enquanto as hashtags #macao e #iostoconmacao (eu estou com Macao) eram tendência no Twitter italiano no dia do despejo da Torre – com cerca de 300 pessoas que confrontavam pacificamente agentes da polícia.

O jornalista renomeado Luca de Biase opinou no seu blog:

'Give voice to art' By Claudio Chiarenza

Lo sgombero del Macao avviene in una città che non ha protetto lo spazio pubblico – fisico e culturale – dall’invasione delle recinzioni e delle privatizzazioni – fisiche e culturali. E che quindi oggi si interroga su uno spazio privato che alcuni interpreti dell’apertura pubblica volevano riconquistare.

O despejo de Macao aconteceu numa cidade que não foi capaz de proteger o espaço público – espaço físico e cultural – desde a invasão dos condomínios fechados às privatizações – físicas e culturais. Esta cidade hoje deve portanto ponderar sobre o significado de um espaço privado que alguns proponentes de uma certa interpretação do “público” querem resgatar.

Por outro lado há os que criticam o projecto pela sua frivolidade em tempos de crise, como os autores do blog Frankestanislao:

Certo i fighetti radical chic che indossano l’abito da indignati della domenica mi fanno ridere, ci sono altre priorità per cui scaldarsi!..

Os freaks to “radical chic” a brincar aos indignados só me fazem rir, há outras prioridades a tratar!…

Para outros, tais como alguns que deixaram Itália à procura de melhores oportunidades, Macao representa o símbolo de uma mudança esperada. Francesco Cingolani, um dos muitos jovens profissionais que se juntaram à “fuga de cérebros”, escreve no seu blog Immaginoteca:

Tutto questo mi fa venire voglia di tornarmene in Italia per fare una fuga di cervelli al contrario.

Tudo isto dá-me vontade de voltar a Itália para fazer uma fuga de cérebros ao contrário.

O poder local ofereceu um espaço alternativo que pode ser usado por todos como centro artístico, mas o colectivo Macao recusou a oferta. O debate ainda está aberto, e no momento de publicação deste artigo [original publicado a 22 de Maio de 2012] o colectivo continuava a realizar assembleias públicas. Para assinar petição para salvar o Macao, envie um email para “proteggiamomacao [at] gmail [dot] com”.

Este artigo faz parte da nossa cobertura especial Europa em Crise.

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