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Ruanda: Blogando De Dentro do Ruanda: Uma Conversa Com Graham Holiday

Graham Holliday é um bloguer premiado, formador freelance de comunicação social e correspondente estrangeiro. O seu material de notícias e fotojornalismo pode ser visto nos blogues Noodlepie [en] e Kigali Wire [en].

P: O seu blogue Kigali Wire é uma fonte de informação popular no Ruanda; pode contar-nos como tudo começou? E alguma coisa sobre si próprio? 

Comecei a organizar o blogue Kigali Wire em Junho de 2009 quando soube que iria mudar-me para o Ruanda. O objectivo principal era agregar notícias interessantes do Ruanda, publicar material original e distribuí-lo utilizando ferramentas gratuitas.

Os modelos de publicação e distribuição  têm como base o trabalho que desenvolvi como editor da Digital Media e como formador de jornalismo para o Frontline Club situado em Londres. Queria usar ferramentas gratuitas o máximo que pudesse.

 Só paguei pelo tema do WordPress. Inicialmente, utilizei o WPNewspaper. Passei a usar mais tarde o Graphpaperpress quando percebi claramente que queria-me concentrar mais na fotografia.

A minha esperança era e ainda é que o Kigali Wire sirva de modelo para outras pessoas para que possam saber como publicar e distribuir notícias online a baixo custo.

Como complemento queria mostrar com a máxima transparência possível, como tinha feito o site e todo o pensamento envolvido para a sua criação. Como resultado, documentei todo o processo do site  Kigali Backwire [en] e acrescentava ocasionalmente pensamentos e ideias ao Kigali Wire Roughbook [en].

Quanto a mim, comecei a escrever em blogues há aproximadamente dez anos. Vivi no Vietname durante dez anos e escrevia maioritariamente sobre  comida de rua no meu blogue noodlepie [en].

Tenho trabalhado em blogues e em jornalismo online desde sempre. Continuo a escrever para o BBC College of Journalism [en] e para o site Current Intelligence [en], assim como para o Kigali Wire.

P: Escreve que o seu blogue é uma “experiência de media social”, qual é o estado da media social no Ruanda? 

O Ruanda em si é muito pequeno. A penetração da internet é muito baixa atingindo cerca de 3% da população [en].

Existem outros factores de limitação; falta electricidade em muitas partes do Ruanda, há cortes frequentes de energia, além disso a Internet é bastante cara, lenta e incerta.

O governo Ruandês, alguns expatriados e ONGs são provalvemente os participantes mais activos entre meios como blogues, Facebook e Twitter. Conheço alguns Ruandenses que estão no Twitter mas posso contá-los pelos dedos da mão. O Facebook é o mais popular.

A diáspora e vários comentaristas no exterior são bem mais activos. Alguns deles escrevem em Kinyarwanda.

P: O Ruanda tem enfatizado o papel que a Internet pode jogar em relação ao desenvolvimento no entanto o país foi criticado em várias ocasiões por prejudicar a imprensa livre. Qual é o estatuto da censura no país?

A censura no Ruanda não existe em papel. Contudo, é claro que a auto-censura é umg grande problema no seio da comunicação social Ruandense. Não existem praticamente vozes críticas na comunicação social, pelo menos não na comunicação social em inglês.

No entanto, os meios de comunicação em língua Kinyarwanda são bastante mais livres. Infelizmente a maior parte é composta por rumores, fofocas, citações inventadas, deixando de lado a ética que compõe o jornalismo. Dito isto, independente da pobre qualidade dos meios de comunicação social em Kinyarwanda é difícil tolerar a terrível sentença decretada recentemente contra as duas jornalistas Umurabyo [en].

Paralelamente, a proibição de seis meses dos jornais Umuseo e de Umuvuzgizi em Abril do ano passado  [en] passou dos limites. Embora a proibição tenha sido retirada em Setembro de 2010, os jornais ainda não voltaram a circular pelas ruas de Kigali.   O jornal Umusingi está também sob ameaça. 

P: De que forma isto afecta a comunidade blogueira?

Tanto quanto sei, a comunidade blogueira, tal como é, consiste na sua maioria em expatriados. Muitos deles parecem estar de passagem, ficam no país durante um ano ou mais e depois vão-se embora. Por isso, há pouco ou nenhum efeito. É raro encontrar bloguers dentro do Ruanda que escrevam sobre estes assuntos.


P: Existem outros desafios que tenha experienciado enquanto bloguer ou que os bloguers Ruandenses enfrentam no geral? 

Apenas os cortes de energia e a Internet lenta. Ás vezes é tão lenta que dá-se uma interrupção de uma semana ou mais.

P: O que considera ser o motor de sucesso para a sua experiência com blogues? Por exemplo, algumas pessoas afirmaram que o seu blogue é o mais parecido com a imprensa livre existente no Ruanda.

Meço o sucesso do meu blogue através do número e da qualidade de ligações que estabeleço com pessoas dentro e fora do país. Encontrei-me com alguns Ruandenses fascinantes, desde apicultores a orfãos, políticos, diplomatas e jornalistas. Isto também permite que me conecte com estrangeiros interessados no Ruanda.

Inúmeros Ruandenses disseram-me que acham o site de notícias inestimável. Penso que isto acontece porque tento agregar as notícias de forma inteligente, para eliminar o que é importante num dado dia. Pode ser uma história noticiosa do jornal que serve de porta-voz ao governo ou de um blogue crítico ou ainda de um artigo publicado na media tradicional.

Tento abster-me de dar a minha opinião. Os factos e a verdade têm pouca expressão no Ruanda. Posso ter uma opinião hoje e mudar facilmente de ideias amanhã.

Penso que ter uma camada editorial é bastante importante. Confirmo sempre a fonte dos blogues ou de uma história noticiosa que considero interessante. Infelizmente existem inúmeros blogues e contas no Twitter com determinados interesses. Não é preciso muito para perceber quais são e tenho tendência para ignorá-los completamente.

Além disso, existem poucos comentaristas com voz a publicar opiniões fortes sobre o Ruanda, mas que parecem passar muito pouco tempo ou tempo algum no Ruanda. Não os leio nem faço links a partir dos seus blogues.

Independente da opinião que se possa ter do Ruanda, para se formar qualquer tipo de perspectiva inteligente é preciso que se passe imenso tempo no país a falar com os Ruandenses, a descobrir como funcionam as coisas, a observar a vida.


P: De um modo geral qual é o estatuto da blogosfera no Ruanda? Já há mais Ruandenses a blogarem? 

Como mencionei anteriormente, não reparei. Vê-se que existe uma grande concentração de Ruandenses no Facebook, vários emails com listas de debate e Igihe [en] – posso estar enganado, mas parece ser esse o caso.

Q: Você utiliza o Twitter, qual a importância deste meio para os bloguers? 

Estou no Twitter desde que começou em 2006. O Twitter evoluiu para uma plataforma de notícias totalmente nova, portanto é óbvio que tens de estar no Twitter se te interessas por notícias. 

É um bom instrumento de distribuição, mas uso-o principalmente para monitorar e envolver-me com as pessoas.

De vez em quando, ao executar pesquisas avançadas sobre palavras-chave deparo-me com histórias das quais não teria conhecimento se não fosse isso.

O Twitter provou ser bastante útil como sistema de alarme durante os ataques com granadas que sofremos em Kigali no decorrer do ano passado. Nem toda a informação é verdadeira mas é um belo ponto de partida desde que mantenhas algum cepticismo no que toca a supostas informações autênticas que possam sair no Twitter. 

Na noite da última granada lançada no final de Janeiro de 2011, estava a jantar com a minha família no centro de Kigali. Não tivemos consciência do ataque enquanto estávamos na rua. Ao chegarmos a casa, olhei para o Twitter e vi uma série de tweets mencionando a possibilidade de ataque uma hora antes. No entanto havia poucos detalhes sobre a hora e o local do ataque e se alguém tinha sido ferido.

Fiz alguns telefonemas para uma série de fontes confiáveis e comecei a tuitar imediatamente pedaços importantes de informação e tentei anular rumores. Depois passei algum tempo a falar com as pessoas, a monitorar as agências de notícias para escrever um post curto para o blogue resumindo o que tinha descoberto [en].

Suspeito que o Twitter pode tornar-se cada vez mais importante assim que a Internet passar a ser mais acessível, confiável e generalizada.


P: Foram utilizados outros métodos de informação durante o genocídio de 1994 no Ruanda para incitar o ódio étnico? Acha que os blogues podem unir sociedades?

 

Receio que essa pergunta seja demasiado grande e idealista para mim…:-) Pergunte-me novamente quando é que os Ruandenses vão ter acesso a um fornecimento de energia seguro, a saber utilizar computadores e Internet e a darem-se ao luxo de utilizarem a Internet…as coisas parecem-me um bocado distantes, mas estamos à espera.

P: O que acha que será o legado do seu blogue?

Espero descobrir um Ruandense que possa tomar conta do blogue. Se encontrar a pessoa certa, o Kigali Wire será uma torre de notícias e uma fonte de informação que eu apenas iniciei.

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