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Rússia: Antevendo a Utopia da “Democracia em Nuvem”

Cloud Democracy [ru] é o título do novo livro escrito por Leonid Volkov [ru] e Fyodor Krasheninnikov [ru], dois blogueiros políticos da região russa dos Urais. Cloud Democracy [Democracia em Nuvem, em inglês]  volta-se para um amplo contingente de leitores “que, apesar de tudo, acreditam em progresso e democracia” e revelam a visão dos autores de como um sistema de governança democrática ‘futura’ pode ser construída com a ajuda de ferramentas disponíveis on-line.

O prefácio do livro afirma [ru]:

We believe, that we witness the new era in the history of mankind – the era of limitless direct communications, which would enable the existence of fair, transparent, and just political system.

Acreditamos ser testemunhas de uma nova era na história da humanidade – a era da comunicação direta e sem limites, que poderia propiciar o nascimento de um sistema político equilibrado, transparente e justo.

O primeiro capítulo discute temas correntes da democracia (e a democracia russa, em particular), o segundo capítulo se ocupa da tecnologia e soluções tecnológicas disponíveis para a ‘cloud democracy.’

A parte mais interessante – na qual os autores propõem a configuração da utopia de governança digital – contém várias ideia-chaves:

  • Estimativa ao vivo da confiança conferida a um político. No lugar de votar a cada quatro anos para um mandato, os autores propõem a constante habilidade dos cidadãos/usuários, de “confiar” ou “não confiar” em seus políticos eleitos. Isto criaria um incentivo constante para que um político fosse eficiente e honesto.
  • Delegação de autoridade baseada em uma matriz. Um cidadão digital escolhe em quais temas colocar seu voto, dependendo da natureza do tema. Os autores fornecem um sistema pormenorizado (ainda que altamente discutível) de delegação em várias camadas.
  • Integridade compulsória. A cada novo nível adicional de autoridade, um político teria que obrigatoriamente tornar pública mais informação sobre sua pessoa, de tal forma que um político não tivesse nem a possibilidade e nem o estímulo de mentir para as pessoas.

Global Voices entrou com contato com um dos autores da Cloud Democracy, Leonid Volkov, e fez algumas perguntas a ele sobre a ideia que motivou o livro.

Leonid Volkov, Ph.D, é um político russo de  30 anos de idade, blogueiro, desenvolvedor e ativista. Desde 2009 Leonid é o representante (independente) da prefeitura de  Yekaterinburg. Com 13 anos de experiência em desenvolvimento de TI (o que resultou no lançamento, em 2010, de uma firma incubadora digital), Volkov combina a visão técnica com a visão política.

Global Voices (GV): Como surgiu a ideia do livro?

Leonid Volkov (LV): Tudo começou com o jogo  virtual eRepublik disponível on-line. Eu e o Fyodor participamos do jogo durante um ano e meio, uns dois anos atrás. Um de nossos amigos havia nos atraído para o jogo. Era um período na Rússia quando um monte de gente estava aderindo ao jogo, e a Rússia havia se tornado uma das forças políticas de liderança – era o momento da “habraboom” [uma referência ao “efeito habra,” um análogo russo ao efeito digg, quando alguém posta um link na popular comunidade TI  habrahabr.ru].  A Rússia havia reivindicado os Urais da e-Hungria, uma guerra bem sucedida com os e-EUA começava…

A razão para o sucesso do jogo é óbvia: com a ausência de política real as pessoas se voltavam para qualquer canal de escape que conseguiam encontrar. E a vida era muito ativa neste jogo, também; Fyodor publicava um jornal bastante popular enquanto que eu era um jogador constante, um fazendeiro e um soldado, e não estava, na verdade, envolvido na vida política. Mas eu estava muito interessado na observação dos processos sócio-políticos na realidade virtual.

Sendo assim, nos lembramos do eRepublic (o qual abandonamos logo depois) claramente quando iniciamos a elaboração de nosso livro – tínhamos a certeza que se descrevêssemos o modelo da e-Democracia (e então implementássemos este modelo) – as pessoas iriam usá-lo. Não me lembro muito bem quando, exatamente, a ideia do livro apareceu, foi algo por volta do outono de  2010, logo após nossa campanha mal sucedida contra a retirada das eleições diretas do prefeito de Yekaterinburg. Aí então finalmente entendemos que todas as janelas possíveis de oportunidade na política real estavam fechadas.

GV: No debate sobre o papel da internet para a mudança social, de que lado você se sente mais próximo – do “ciberpessimista” ou do “ciberotimista”?

LV: Nenhum dos dois. Somos ciberrealistas. Internet – é, antes de tudo, um meio.

GV: No final de 2010, Alexey Chadaev, tecnólogo político do partido “Rússia Unida” propôs uma “Democracia direta pela Internet.” Qual a diferença entre o seu projeto e a proposta de Chadaev?

LV: “Democracia direta pela Internet”  é algo sobre o qual não temos interesse em discutir. Isto é o extremo. O que propomos é um modelo de trabalho real, no qual a voz de todos pode ser levada a sério.

GV: As pessoas cada vez mais pensam em termos tecnológicos. “Gostar” de um político, votar on-line. Já testemunhamos algo semelhante  no Perm. É uma tendência nacional? Ou é uma tendência somente da região dos Urais? Ou é a maneira de pensar dos especialistas em TI?

LV: Tudo é muito simples – as pessoas que trabalham com TI e que estão interessadas em política gostam de aplicar tecnologia à política. Gostam de pensar como seria a mescla de política com tecnologia. Percebemos que a política contemporânea está engasgada com as tecnologias do século  XVIII: todos estes boletins em papel, urnas de votação, cartas burocráticas, etc. Tudo isto está ultrapassado. E não vemos uma razão válida, a não ser algumas tradições estranhas, de não introduzir novos métodos neste processo. Não há nada especificamente regional. Talvez seja uma questão de mais liberdade de pensamento aqui. Mas, mais importante, é a forma TI de pensar.

GV: Você menciona  DalSlovo.ru [um portal de subcontratação voluntária – crowdsourcing, em inglês – feito para seguir as promessas dos políticos e monitorar se elas são cumpridas]. É projeto seu? Se a resposta for positiva, você poderia nos contar algumas histórias de sucesso deste projeto?

LV: Sou um dos criadores do projeto e seu investidor. O sucesso do DalSlovo.ru está na sua própria existência. Em vista do fato de que não há publicidade associada a ele, ou qualquer promoção especial, o projeto cresce e a base de dados com as promessas dos políticos cresce com ele. Esperamos poder criar um projeto ao qual as pessoas darão ouvidos.

GV: Muitos projetos crowdsourcing foram lançados ultimamente. Eles exercem uma influência ou simplesmente surgem e não tem qualquer impacto sobre a sociedade?

LV: Até o momento, a massa crítica não foi atingida [por tais projetos], mas logo os projetos crowdsourcing serão muito mais influentes. A presença de tais projetos (e as histórias de sucesso atreladas a eles) faz as pessoas acreditarem que podem mudar alguma coisa. E isto envolve as pessoas em ativismo. E não há caminho de volta (ou quase não há) para ativismo social.

GV: No sistema que você descreve no livro, todos os mecanismos internos e as regras são cuidadosamente elaboradas. Mas a quem compete controlar os criadores de tal sistema?

LV: Em primeiro lugar, o código do sistema será aberto – e isto é muito importante em termos de controle. Em segundo lugar, a arquitetura do sistema será flexível, estará em constante mudança. O sistema irá fornecer aos usuários a capacidade de optar por mudança das configurações padrão.

GV: Você tem planos de traduzir o livro para o inglês?

LV: Sim.

Thumbnail image ‘King Cloud’ by Flickr user akakumo (CC BY-SA 2.0).

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