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Rússia: Desastre em Usina de Fukushima Inicia Debate sobre Energia Nuclear

Este post é parte de nossa cobertura especial do Terremoto no Japão 2011.

O desastre natural desencadeado no Japão após o terremoto de magnitude 8,9 na sexta-feira, 11 de março de 2011, é atualmente um dos tópicos mais discutidos na blogosfera russa. Um dos impactos mais preocupantes do terremoto e do subsequente tsunami são os efeitos na usina nuclear de Fukushima, onde ainda não está claro se os engenheiros conseguiram evitar um grande vazamento.

Além de compartilhar vídeos chocantes do tsunami, causado pelo terremoto, varrendo as ruas das cidades costeiras do Japão e de prestar atenção aos relatos de tuiteiros russos no Japão [en], os blogueiros russos têm discutido a questão da energia nuclear à medida em que o desastre de Fukushima se desenrola a cada hora.

Usina Nuclear Fukushima Dai Ichi, no Japão, danificada pelo terremoto e pelo tsunami. Foto por www.digitalglobe.com.

Usina Nuclear Fukushima Dai Ichi, no Japão, danificada pelo terremoto e pelo tsunami. Foto por www.digitalglobe.com.

O legado nuclear soviético

A União Soviética, predecessora política da Rússia, foi o primeiro país do mundo a desenvolver um reator de energia nuclear em 1954. Em 1986, a União Soviética sofreu a maior explosão e o maior vazamento nucleares da história na cidade de Chernobyl, agora localizada na Ucrânia, resultando em mais de 4.000 mortes e o deslocamento de 336.000 pessoas.

Depois do colapso da União Soviética em 1991, a herança do desastre de Chernobyl foi compartilhada por Rússia, Ucrânia e Bielorrúsia, sendo o último o mais afetado (cerca de 25 porcento de seu território [pt]).

Após o episódio de Chernobyl, o desenvolvimento de novas usinas nucleares na Rússia diminuiu até meados dos anos 2000, quando o governo decidiu aumentar a participação da energia nuclear na matriz energética do país.

Em 2010, usinas nucleares eram responsáveis por 17 porcento [ru] do total de produção de energia da Rússia, e, em março de 2010, o Primeiro Ministro russo Vladimir Putin anunciou [ru] a intenção de aumentar essa participação para entre 20 e 30 por cento.

Reações a Fukushima

O desastre de Fukushima (veja a linha do tempo [en]) não levou a nenhuma mudança de posição na política nuclear russa. Uma recente declaração de Putin estabelece [ru] que “a Rússia não alterará seus planos de energia nuclear por conta do desastre no Japão.”

Mapa da poluição nuclear (Césio-137) na Europa, em 1996 (dez anos após o desastre de Chernobyl). Cortesia de Chernobyl.in.ua

Mapa da poluição nuclear (Césio-137) na Europa, em 1996 (dez anos após o desastre de Chernobyl). Cortesia de Chernobyl.in.ua

Depois da primeira explosão de Fukushima, no dia 12 de março de 2011, Vladimir Milov, um especialista em energia e político de oposição, escreveu [ru]:

“Атомщики привычно щеголяют цифрами про вероятность крупной аварии как “десять в минус седьмой” или хотя бы в минус пятой степени. Но вероятность – это математическая величина, а реальные аварии в реальной жизни происходят чаще, чем в математических расчетах. Оно может 100 лет быть безопасным, но потом как обанет один раз – будет достаточно. Убежден, что человечество в ближайшей перспективе ждет как минимум одна крупная атомная авария. С последствиями.”

Это цитата из моего поста, написанного два с половиной года назад.

[…] Для справки: порядка 20% атомных реакторов в мире работают в сейсмически опасных зонах.

[…] В общем, делайте выводы, господа. Да, специально для атомных хомячков, которые сейчас сюда неизбежно прибегут: не надо здесь ля-ля про “обратно в пещеру” и “альтернативная энергетика дорогая”. Пещера и альтернативная энергетика здесь ни при чем. Газ, газ и еще раз газ. Его запасов в мире будет достаточно для покрытия потребления, даже если газом полностью заместить такой маргинальный (менее 6% мирового потребления первичных энергоресурсов) и опасный источник энергии, как “мирный атом”.

“Especialistas em energia nuclear geralmente mostram dados de que a probabilidade de um grande acidente é de 0,0000001 ou pelo menos 0,000001 para um. Mas a probabilidade é um valor matemático, enquanto que acidentes reais acontecem mais frequentemente que os cálculos preveem. Ela [a energia nuclear] pode permanecer segura por 100 anos mas daí vai nos atingir um dia – e uma vez será o bastante. Estou convencido, a humanidade enfrentará pelo menos um grande desastre nuclear no futuro próximo. E haverá consequências.”

Isto vem de um post meu, escrito há dois anos e meio.

[…] E, apenas para constar: 20 por cento dos reatores nucleares em funcionamento atualmente estão em zonas sísmicas ativas.

[…] Então, tirem suas conclusões, leitores. Especialmente os trolls (ou “ogros”) que imediatamente vão reagir: não tagarelem sobre “voltarmos para as cavernas” e “energias alternativas são caras”. [Vida nas] Cavernas e energias alternativas não têm nada a ver com isso. Gás natural, gás e mais uma vez – gás. Há gás o bastante no mundo para cobrir o consumo de energia e substituir essa fonte de energia tão marginal (menos de 6 por cento do consumo mundial de energia primária) e perigosa quanto o “pacífico átomo” [energia nuclear].

Firewind8220 se opõe [ru] a essa opinião:

[…] Сколько можно считать – КПД ядерной реакции и химической отличаются в ТЫСЯЧИ раз. Атомная энергетика выгодна, безопасна, перспективна. Если бы взорвался газовоз с жидким газом, который везет 300К жидкого газа, Хиросима бы позавидовала последствиям. После сегодняшней аварии резервные дизель генераторы перенесут в более защищенные герметичные боксы. А вот куда вы перенесете емкости с газом в сотни тысяч кубометров, это еще вопрос. […] Да, кстати, а вы представляете каковы бы были последствия, если на месте атомных станций там бы стояли газовые или нефтяные? Пример мексиканского залива и 1 млн тонн нефти в океане ни чему не учит? Сколько тысяч людей от последствий такого разлива умрут не скажите? А с газом не намного все проще и безопаснее. Так что нее надо паники – учимся на ошибках своих и чужих. Атомной промышленности быть.

[…] Quantas vezes teremos que contar – a eficiência das reações nucleares é milhares de vezes maior que a das reações químicas. A energia nuclear é lucrativa, segura e tem perspectivas. Se um tanque com 300.000 toneladas de gás de nitrogênio líquido explodisse, Hiroshima invejaria as consequências. Depois do acidente de hoje [em Fukushima], geradores fixos a diesel agora serão postos em caixas mais seguras e hermeticamente fechadas. Ao passo de ser incerto como garantir a segurança de centenas de milhares de metros cúbicos de gás. […] E, aliás, você pode imaginar as consequências se houvesse um [desastre] em usinas de gás e petróleo, ao invés de nucleares? O exemplo do [desastre do] Golfo do México e um milhão de toneladas de óleo derramado não nos ensinou nada? Quantas pessoas morreriam de um desastre como esse? Com gás não é muito mais simples nem seguro. Então, não entre em pânico – nós deveríamos aprender com nossos próprios erros e com os erros dos outros. A energia nuclear ainda deveria existir.

Oleg Kozyrev, que já visitou territórios poluídos por radiação próximos a Chernobyl, escreveu [ru]:

Япония — из тех стран, которым действительно трудно или даже невозможно было обойтись без ядерной энергии. Но недавние события показали, что угроза от атомных станций может быть сравнимой с угрозой от цунами и землетрясений. Если японцы смогут развязать эту энергетическую удавку на своей шее, то может быть их решения помогут и всему человечеству.

Я не являюсь противником ядерной энергии. Но в то же время понимаю, что бесконечно закрывать глаза на угрозы, от этого вида электроэнергетики исходящие, больше нельзя. Задайте себе один простой вопрос – насколько мы уверены в безопасности наших, российских электростанций. Еще раз, говорю не в мантрах российских атомщиков, а именно о реальном положении дел.

O Japão é um daqueles países que não conseguem se manter sem a energia nuclear. Mas os últimos eventos mostraram que o perigo das usinas nucleares pode ser comparável aos perigos de tsunamis e terremotos. Se os japoneses puderem afrouxar essa amarra energética de seus pescoços, então talvez suas soluções poderão ajudar a humanidade em geral.

Não sou contra a energia nuclear. Mas ao mesmo tempo penso que é impossível continuarmos de olhos fechados para as ameaças desse tipo de energia. Proponham-se uma questão simples – quão seguros nos sentimos quanto às nossas usinas elétricas [nucleares] russas? Novamente, não estou falando de mantras de especialistas nucleares russos, mas da situação real.

Bquark comentou [ru]:

А как обойтись при нынешнем адском уровне потребления энергии без ядерных станций? Если от них отказаться, но уровень потребления будет тот же, то придется задействовать угольную и гидроэнергетику в такой степени, что последствия будут печальными (они уже печальные).

Проблема в потреблении, а не виде энергии.

А еще в том, что большинство думает, что каждая станция это потенциальный Чернобыль.
Но это ведь не так? Водо-водяные реакторы в принципе не могут так взрываться как Чернобыль.

Como você evitaria a utilização de usinas nucleares, dado que há uma demanda tão alta pelo consumo de energia? Se você evitar de usar a energia nuclear, o nível de consumo será o mesmo, então você terá que usar tanta energia baseada em carvão e hidrelétricas que as consequências seriam ruins (elas já são ruins).

O problema é o nível de consumo e não o tipo de energia.

E, além disso, o problema é que a maioria pensa que cada usina é uma Chernobyl em potencial. Mas não é diferente? Reatores de água fervente (“BWR”, ou Boiling Water Reactors, em inglês) não explodem do mesmo jeito que Chernobyl.

Por fim, Igor Podgorny, famoso foto-blogueiro e ativista do Greenpeace, apontou [ru] um aspecto diferente do problema: os planos russos de construir usinas nucleares flutuantes (a primeira foi finalizada [en] em julho de 2010) em sua reagião costeira do Pacífico, zona sísmica e de tsunamis. Enquanto isso, a região russa de Kamchatka, onde a usina flutuante deverá ser construída, detém as melhores condições para a produção de energia geotérmica.

Monitorando a situação

Agora, os russos, juntamente com o resto do mundo, estão acompanhando de perto à situação na usina elétrica de Fukushima. Diferentemente dos blogueiros moscovitas, as pessoas do leste do país estão mais focados na existência de uma ‘nuvem de detritos nucleares” e, caso exista, se ela chegará até elas ou não.

Internautas em Vladivostok, a maior cidade russa próxima do Japão, escreveram aproximadamente 2.000 comentários [ru] em resposta a um único artigo sobre a explosão de Fukushima, postando na internet dados sobre radiação captados por dosímetros [en] de radiação pessoais em diferentes partes da cidade. Membros dos fóruns online de Kamchatka [ru] e Sakhalin [ru] fizeram o mesmo. Até o momento, uma observação foi feita: o nível de radiação está normal.

Independentemente do impacto de Fukushima atingir o território russo ou não, o problema da energia nuclear permanece aberto. O tópico é complexo e sem solução simples, mesmo assim blogueiros, jornalistas e cientistas estão ávidos para passar horas discutindo o assunto.

Mas estarão o governo e o parlamento russos tão entusiasmados em participar do debate?

Este post é parte de nossa cobertura especial do Terremoto no Japão 2011.

2 comentários

  • renato buso

    Por que não utilizam o N2 nitrogênio liquido para resfriarem os reatores aquecidos
    das usinas nucleares do Japão?
    Alem de ser mais eficiente que a agua do mar, o nitrogênio evapora e não vai contaminar quando efluir para o solo e/ou esgotos levando a radioatidade pra
    bem longe, no caso da água.

    Renato

    • Renato,

      Não sou físico, mas acredito que justamente pelo fato do nitrogênio evaporar é que ele não seja usado para esse tipo de resfriamento. Talvez o coeficiente calorífico do nitrogênio seja menor que o da água, o que quer dizer que é necessária uma quantidade menor de calor para elevar a temperatura de um grama da substância em 1ºC. Logo o nitrogênio absorveria muito menos calor por massa utilizada, sendo menos eficiente no resfriamento, apesar de aparentemente ser eficiente enquanto uma substância muito fria quando líquida.

      Ademais também creio que a água talvez não seja o maior problema, uma vez que os resíduos gerados no próprio núcleo do reator (os subprodutos do decaimento nuclear) sejam também radioativos e bastante danosos.

      Recomendo a leitura deste artigo, que apresenta uma solução interessante: http://pt.globalvoicesonline.org/2011/03/18/eua-blogs-de-ciencia-explicam-fukushima/

      Abraços!

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