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Portugal: Parva e à Rasca – Geração Mobilizada

Estão abertas as hostes. Dia 12 de Março de 2011, em várias cidades do país e  junto às representações portuguesas em vários pontos da União Europeia, os jovens saem às ruas. O Protesto da Geração à Rasca é, segundo a organização, um “protesto apartidário, laico e pacífico, que pretende reforçar a democracia participativa no país”. Surgiu como evento espontâneo no Facebook e, em menos de um mês, acolheu mais de 50.000 intenções de participação:

Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal. Protestamos:
– Pelo direito ao emprego! Pelo direito à educação!
– Pela melhoria das condições de trabalho e o fim da precariedade!
– Pelo reconhecimento das qualificações, competência e experiência, espelhado em salários e contratos dignos!

Cartaz do Protesto da Geração À Rasca no evento criado no Facebook

Cartaz do Protesto da Geração À Rasca no evento criado no Facebook

Sub-emprego em contexto

Em Dezembro do ano passado, a emissora TSF Rádio Notícias divulgou um conjunto de dados fornecidos pelo INE (Instituto Nacional de Estatística) que indicava “que mais de 300 mil jovens portugueses não têm qualquer actividade”. No seu website, a mesma emissora dizia, a 24 de Fevereiro deste ano que “23 por cento dos jovens estão no desemprego, 720 mil tem contratos a termo, e há ainda registo de um aumento de 14 por cento de recibos verdes nos últimos três meses”.

No blog Epígrafe, Ricardo Salabert, do Movimento FERVE (Fartos d'Estes Recibos Verdes), explica este tipo de vínculo ao mercado de trabalho:

Os recibos verdes são um modelo de facturação aplicável aos trabalhadores independentes, i.e., às pessoas que prestam serviços ocasionais para entidades várias (empresas ou particulares). São exemplo disso os médicos, os arquitectos (entre outros) que podem passar recibos verdes aos seus clientes, não tendo de se estabelecer como empresa.

Cresce assim a fatia dos trabalhadores que não têm qualquer tipo de protecção social (na doença, na gravidez, na morte de familiares), sem direito a férias ou a outros tipos de subsídio, e que podem ser dispensados pela entidade patronal a qualquer momento, uma vez que, por lei, não têm vínculo à empresa. São dezenas de milhares de Portugueses, de todas as gerações, com o estatuto de “falsos recibos-verdes”, a prestar serviços a empresas com as mesmas condições de um suposto Contrato de Trabalho, conforme dispostas no Código do Trabalho (artº 12), que os mantém “precários”.

Música: combustível para a acção

Há quem lhes chame a Geração Nem-Nem, como explica Rui Rocha, no blog Delito de Opinião:

Nem estudam, nem trabalham. (…) Tipicamente, esta é uma geração potencialmente melhor preparada do que as que a precederam e, aparentemente, muito segura de si. São, todavia, presa fácil da degradação do mercado laboral e não conseguem encontrar uma saída airosa, nem combater este estado de coisas. Os sociólogos identificam uma característica muito comum neste grupo: a inexistência de qualquer projecto de vida. As manifestações mais evidentes são a apatia e a indolência.

No entanto, já no fim de Janeiro, o grupo musical Deolinda apresentava na sua tournée um tema inédito que veio agitar os ânimos e dar nome e voz àquela que passou a ser, a partir de então, conhecida como Geração Parva.

Sou da geração sem remuneração
E nem me incomoda esta condição
Que parva que eu sou!
Porque isto está mau e vai continuar
Já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar…

Sátira ao artigo de Isabel Stilwell e aos jornalistas estagiários. Retirada da página Facebook  "artº 21" (o nome refere-se ao mesmo artigo da Constituição, que contempla o direito à resistência)

Sátira ao artigo de Isabel Stilwell, na página Facebook “artº 21″ (artigo da Constituição que contempla o direito à resistência)

De forma espontânea, a música dos Deolinda, com um crescente número de 340.000 visualizações no Youtube, transformou-se num hino à “geração (agora) parva”.

Poucos dias depois, o editorial de um jornal diário de distribuição gratuita em Portugal, pela voz da sua directora, Isabel Stilwell, dizia que “se estudaram e são escravos, são parvos de facto. Parvos porque gastaram o dinheiro dos pais e o dos nossos impostos a estudar para não aprender nada”. Em resposta recebeu milhares de comentários multiplicados pelas várias redes sociais.

O hino tornou-se assim na pólvora que acendeu o rastilho de todos os que se sentem pagadores dos erros cometidos pela geração sua antecessora.

Muitos problemas, poucas soluções

A verdade é que se o acender deste fósforo uniu alguns em lutas comuns, afastou outros tantos e levantou o véu sobre outras lutas e questões que tinham estado, até então, em estado de semi-latência.

Enquanto o blog O Jumento reflecte sobre a solidariedade inter-geracional (ou a ausência dela), Helena Matos, no blog Blasfémias, questiona a legitimidade desta geração de reclamar para si os mesmos direitos dos pais:

Preparam-se agora os ditos membros da geração à rasca não para exigir que os mais velhos mudem de vida mas sim que também eles possam manter esse tipo de vida. Quem vier depois que se amanhe. A prosseguirmos, dentro de alguns anos, assistiremos a protestos de gerações que se dirão bem pior do que à rasca.

Luis Novaes Tito lança o apelo a favor da alteração do status quo, no blog A Barbearia do Senhor Luis, fazendo porém uma advertência, no que diz respeito ao conflito de gerações:

Concordo que, em vez de chorarem pelos cantos embalados pelo faducho do “já não posso mais”, vão para a rua gritar que é tempo de mudar, antes que os mandem embalar a trouxa e zarpar.

Entre posts e comentários, editoriais e artigos de opinião e nos media tradicionais, há também quem vá tentando puxar a sociedade para o cerne do problema: as causas e as soluções (sendo que as primeiras conseguem, como habitual, maior consensualidade do que as segundas). Alarga-se então o debate ao papel do Estado, e do legislador, e também da própria instituição Universidade e Ensino Superior.

E assim vai Portugal, “país de brandos costumes”, cujo cesto do conformismo pode ter enchido de vez. Longe de encontrar uma plataforma de concertação entre classe política, sociedade civil e a própria da Geração visada, o movimento difundiu-se e cresceu, contra ventos e marés, e procura, agora, o caminho para a maturidade. Atravessará a sua primeira grande prova no dia 12 de Março e, dada a fragilidade da contagem de dados através das redes sociais, só nesse dia saberemos a verdadeira dimensão da vontade que tem esta Geração para mudar um País. Aguardamos. Ansiosamente.

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