Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

Brasil: Massa Crítica: Acidente ou Homicídio?

Cartaz de divulgação do Massa Crítica. No website: "Juntos por um trânsito mais humano,  por cidades mais bonitas e alegres, por um mundo mais respirável: somos todos parte da Massa Crítica".

Cartaz de divulgação do Massa Crítica. No website: "Juntos por um trânsito mais humano, por cidades mais bonitas e alegres, por um mundo mais respirável: somos todos parte da Massa Crítica".

O Massa Crítica é um evento que acontece em mais de 300 cidades pelo mundo, quando dezenas, centenas ou milhares de ciclistas ocupam o seu espaço nas ruas, com o objetivo de incentivar o uso da bicicleta como transporte preferencial da população em oposição às alternativas motorizadas e poluentes.

Toda última sexta-feira do mês, na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, dezenas de ciclistas se reúnem para pedalar pelas ruas da cidade, porém no dia 25 de fevereiro aconteceu uma tragédia, conta Guilherme Valadares, do blog Papo de Homem:

Você está dentro de um Golf preto, em Porto Alegre. À sua frente, um grupo com dezenas de ciclistas bloqueia a passagem.

Estão pedalando em menor velocidade. Aparentemente, alguma passeata ou movimento. Apressado, buzina e pede passagem. Insiste. Não consegue abrir caminho. Após três quarteirões, resolve desacelerar e tomar distância dos ciclistas. Tomar um caminho alternativo, talvez?

Não, em pleno surto psicótico, decide pisar fundo e ATROPELAR TODOS.

arte: tncbaggins

Cristina Rodrigues, do blog Somos Andando, descreve o “acidente”:

Irritado, o dono do Golf preto acelerou e “varreu a rua”, como disse uma das participantes. Às 19h12min, jogou o carro para cima da marcha. Alguns ciclistas foram diretamente atingidos, outros se machucaram pela reação em cadeia: uma bicicleta foi derrubando outra.

Este vídeo, da usuária do Youtube praqmelissa, com legendas em inglês, mostra o momento do “acidente” [update: o vídeo em questão foi retirado do ar. Substituímos o mesmo por um vídeo parecido, do usuário eddddddy]:

http://www.youtube.com/watch?v=8H4mfB1tRPM

Acidente ou Homicídio?

Eram cerca de 100 ciclistas participando, e doze foram atropelados, 8 deles tiveram lesões e foram encaminhados para o hospital. O delegado responsável pela investigação, Gilberto Almeida Montenegro, foi duramente criticado pelos internautas por culpar os ciclistas pelo “acidente”, os acusando de atrapalhar o tráfego e de cometer “erro grave” ao não avisar às autoridades que iriam pedalar.

No Twitter, a revolta contra a atitude do Delegado e contra o motorista foi imensa:

@JessyAntonielle: se foi “sem intenção de matar” pq Ricardo José Neif ABANDONOU o seu carro após o incidente? #massacriticapoa

@MarceloBranco: Del. Montenegro: Q foco na investigação einh? O crime NÃO foi cometido p ciclista. Alvará p pedalar? http://glo.bo/dQ1nEk #massacriticapoa

@luciouberdan: Será q o delegado Gilberto Almeida Montenegro d @policiacivilrs não entende q bicicleta é veículo, portanto ela é trânsito #MassaCriticaPOA

@tuliovianna :Polícia investiga atropelamento de ciclistas : http://is.gd/f3mrHo Lesões culposas?! Fala sério! Isso é tentativa de homicídio doloso!

Não faltaram críticas à cobertura da mídia local, que tratou o caso como um mero acidente de trânsito. Lucio Uberdan, no blog Brasil Autogestionário, comenta:

Um movimento que propõe a substituição do uso do automóvel pela bicicleta acaba sendo, neste contexto, uma “ação de inconsequentes”, “quixotes” enfrentando “moinhos de vento” e portanto, nada mais lógico de “acabar com a palhaçada” (talvez este tenha sido não só o pensamento do motorista que causou o acidente, mas de muitos leitores de jornal).

Diz Marcelo, no blog do grupo Massa Crítica:

Na esquina da José do Patrocínio com a Luiz Afonso, a Massa Crítica de Porto Alegre sofreu uma tentativa de ASSASSINATO, e não se iluda quando ler ACIDENTE na RBS e afins.

Bicicletas destruídas espalhadas pelo chão. Foto de Lucas Valente, usada com permissão do autor

Reportagem de Igor Natusch, do blog Sul21, demonstra que o atropelamento foi proposital. Segundo o depoimento de um dos primeiros ciclistas a ser atropelado, Helton Scheer de Moraes, reproduzido pelo blog do grupo Massa Crítica:

  • O motorista não raspou em ninguém: ele empurrou, de propósito, um ciclista/bicicleta, com seu carro, de forma ameaçadora, no mínimo uma vez logo antes do atropelamento em massa. (…)
  • Os outros não o fecharam causando o atropelamento. Ele já estava “fechado” desde o início da manifestação, ou seja, há pelo menos uns 500 metros, simplesmente pelo fato de que as bicicletas estavam circulando na pista toda, como é próprio da Massa Crítica.
  • O que CAUSOU o atropelamento foi a aceleração do veículo, de propósito, contra o grupo de ciclistas. Não houve um momento em que o atropelamento aconteceu, houve o momento em que ele começou, porque – isso eu VI E VIVI (porque fui praticamente o primeiro a ser atropelado) – logo depois de me atingir, ele levou um BOM TEMPO para percorrer um BOM TRECHO atropelando consecutivamente dezenas de bicicletas, sem desviar e sem diminuir a velocidade, de maneira muito semelhante à de uma colheitadeira em meio ao milharal, com a diferença de que, felizmente, as bicicletas e os ciclistas foram lançados para cima e para os lados, e não para baixo do carro. De novo: NÃO FOI UM ACIDENTE! FOI TENTATIVA DE HOMICÍDIO!

Este vídeo, gravado pelo usuário do Youtube guilhermeschroder mostra os feridos após serem atropelados:

O nome do agressor é Ricardo José Neis, 47 anos, que alegou ter sido ameaçado e atacado pelos ciclistas e que acelerou o carro para salvar a si e a a seu filho de 15 anos, que estava com ele.

O Ministério Público do Rio Grande do Sul irá processá-lo por “tentativa de homicídio qualificado, por ter sido por motivo fútil e por recurso que dificultou a defesa das vítimas”. Ricardo Neis tem histórico de andar na contramão, por calçadas e de ser extremamente agressivo.

Charge de Kayser.

Cíntia Barenho finaliza:

Enfim, minha solidariedade e minha indignação a todos e todas que estavam no massa crítica de ontem e foram brutalmente feridos. […] Vida longa a todos aqueles que buscam uma melhor qualidade de vida e  alternativas  sustentáveis de mobilidade urbana! Vida curta a todos os senhores do volantes… criminosos no trânsito!

Lucas Valente postou na sua página do Facebook várias fotos das bicicletas destruídas e de feridos. As hashtags #MassaCritica, #MassaCriticaPOA e #naofoiacidente estão sendo usadas para divulgar as novidades sobre o caso. A hashtag #MontenegroFacts foi também criada para criticar a atitude do delegado responsável de criminalizar os ciclistas.

7 comentários

  • Acidente? Magina, acho que nem eu bêbado seria capaz de cometer uma atrocidade tão grande. Foi, infelizmente, trágico para todos que estavão lá, mas o que nos conforta, entre tantas grosserias, é que ninguém saiu ferido.

    Sorte de todos, porque a pancada que o carro deu não foi fraca não!

    • diego

      “ninguém saiu ferido”?!
      Amigo, teve gente com braço quebrado, outros com perna quebrada e um com traumatismo craniano. Imagina só o estado deles se tivessem se ferido.

  • saludos desde chile y lamentable lo que les paso por culpa de un condustor irresponsable por una ciudad sin contaminacion la bicicleta es la sulucion

  • diego

    Na matéria há uma incorreção. O sobrenome do motorista criminoso é NEIS, não Neif.

  • Gramo

    E vamos completar 1 ano ….

    Todos convocados a participar do Fórum Mundial da Bicicleta
    http://forummundialdabici.com/noticias/1o-forum-mundial-da-bicicleta-sera-na-usina-do-gasometro

    Apoiem, participem fazendo sugestões.

  • Edgar Rocha

    Não sabia que o posicionamento do delegado a favor do motorista. É ridículo isto! Acho sintomático que autoridades se posicionem “a priori” sempre a favor do lado agressor. O uso da ‘legalidade’ para justificar atitudes absurdas virou praxe em todo o poder repressivo dos Estados. A lei não é evocada a partir de princípios, mas a partir de prerrogativas, de jurisprudências, relativizando os atos ilícitos e transferindo as responsabilidades sobre o ato no sentido de anular os princípios morais e éticos que geram indignação na sociedade. É como disse um psicopata que conheci há algum tempo: “se te roubo, não é culpa minha, porque sou ladrão. É isto que faço. A culpa é tua que é otário e me deixa roubar você”. A culpa sobre um crime, é dividida descaradamente com a vítima. Ficar do lado agressor garante uma série de possibilidades. Quem erra paga pra se livrar da lei; não reage contra os agentes que o indiciaram; cria-se um vínculo de dependência entre ambas as partes (se é que já não haja. A maldita frase: aos amigos tudo, aos inimigos, a lei). Proteger a quem foi agredido é oneroso, não garante benefícios pessoais, já que é um direito da vítima, e ainda pressupõe conflito contra o agressor. Gente de bem não fala em “dar um pipoco” na cabeça do delegado se ele o prender. Fica aguardando as instâncias legais agirem. Sinto que cada vez mais a indignação contra as ações covardes dos agentes do Estado possa levar ao colapso institucional. Nesta história toda, é a democracia e o Estado de Direito que correm riscos. Clamores por autoritarismo começam a surgir, tolerância a exageros tornam-se frequentes… Enquanto isto, agentes de Segurança continuam a dar declarações, transferindo a prerrogativa de garantir a segurança ao cidadão. Sempre tem um sargento, um coronel na TV, orientando as pessoas pra “evitarem certos pontos das cidades, não andarem pelas ruas em determinado horário, zelarem por seus pertences”, etc. Se te roubarem, se te atropelarem, como já foi dito, a culpa é tua, que é otário!

Junte-se à conversa

Colaboradores, favor realizar Entrar »

Por uma boa conversa...

  • Por favor, trate as outras pessoas com respeito. Trate como deseja ser tratado. Comentários que contenham mensagens de ódio, linguagem inadequada ou ataques pessoais não serão aprovados. Seja razoável.