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Cuba: Ciberguerra? Vídeo inicia debate, raiva e ceticismo

Um vídeo publicado no Vimeo no dia primeiro de fevereiro mostra 52 minutos de uma apresentação sobre novas tecnologias da informação e comunicação (NTICs) e uma “ciberguerra” supostamente travada em Cuba pelo governo dos Estados Unidos e ONGs americanas. O homem que faz a apresentação foi identificado como Eduardo Fontes Suárez, uma autoridade em cibersegurança do Ministério do Interior de Cuba (MININT). Os primeiros relatórios qualificaram o vídeo governamental como material que ‘vazou’, mas blogueiros (da ilha e de fora dela) questionam tal afirmação.

La ciber policia en Cuba por Coral Negro no Vimeo.

Publicado por Coral Negro, dono de uma conta no Vimeo que não dispõe de informação alguma, e nem tampouco publicou mais material, o vídeo foi a fagulha para um debate internacional sobre sua origem e seu conteúdo. Uma transcrição do vídeo original pode ser encontrada em Café Fuerte [es], e sua tradução para o inglês em Translating Cuba [en]. A apresentação dá descrições detalhadas dos esforços do governo norte-americano para estabelecer pontos de conexão sem-fio não-autorizada na ilha com a ajuda de dissidentes e representantes de ONGs americanas, principalmente do Instituto Internacional Republicano (IRI – International Republican Institute). Fontes dá indícios de que Alan Gross – um trabalhador da Agência para Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID – United States Agency for International Development) que está preso desde dezembro de 2009 por distribuir ilegalmente equipamento de tecnologia da informação para cubanos – estaria envolvido com o projeto de Washington para estabelecer os pontos de acesso.

Ele descreve blogueiros como Yoani Sánchez [en] como contrarrevolucionários que, com a ajuda dos governos da Espanha de dos EUA, tentam usar as novas tecnologias para dar a partida na revolta popular contra o governo de Castro. Ele também discute os últimos planos do governo cubano para o uso de NTICs na ilha, e os benefícios de algumas delas, comentando o uso do Twitter por Hugo Chávez como ferramenta política.

Penúltimos Días [es], um blog com foco em Cuba, radicado na Espanha, republicou o vídeo, e logo depois um antigo colega de escola (e atualmente exilado) reconheceu Fontes. Em seguida, publicou fotografias dele quando adolescente, no final da década de 1980. Em blogs de comunidades de exilados cubanos, como em Babalú [es], os leitores pareciam se divertir ridicularizando Fontes, chamando-o de “cíberesbirro” ou “ciberignorante”. A página do perfil de Fontes no Facebook foi desativada desde sua identificação no Penúltimos Días. Sua conta do Twitter continua ativa, mas ele não tuitou nada desde dezembro de 2010.

Está claro que Fontes é realmente uma autoridade da Inteligência cubana. O que permanece incerto é se a apresentação é de sua autoria e se o vazamento é “verdadeiro”.

Regina Coyula, uma ex-agente da unidade de contrainteligência no MININT que agora é autora de La Mala Letra [es] acredita que o vídeo seja autêntico, e negou a acusação de outro blogueiro alegando que ela própria teria tornado o vídeo público. Ela argumenta que o vídeo contém muita informação a respeito do poder das NTICs para que seja falso e escreve:

[L]a conferencia [es] un tanto didáctica. Así me entero de unidades satelitales wi-fi de alta velocidad como parte de un módulo que incluye blackberries y notebooks destinadas a blogueros…y contrarrevolucionarios tradicionales; me entero de que a través de ese servicio cualquier persona de pronto pudiera tener en su pc el mensaje de estás conectado; [Fontes] reconoce que es peligroso que la gente se conecte por la libre, y admite que nadie beneficiado va a quejarse ni a averiguar.

A conferência [é] um tanto didática. Então, fico sabendo de unidades satélites wi-fi em alta velocidade como parte de um módulo que inclui blackberries e notebooks destinadas a blogueiros… e contrarrevolucionários tradicionais; fico sabendo que por meio desse serviços qualquer pessoa pode ter de imediato em seu computador a mensagem você está online; [Fontes] reconhece que é perigoso que as pessoas se conectem de forma livre, e admite que ninguém que seja beneficiado vai se queixar ou apurar [os fatos].

Yoani Sánchez [es] estava inequivocadamente certa de que muito do que Fontes disse não era verdade. Mas questionou se era ele, ou alguém acima dele, o responsável por tal desinformação.

¿Usted es de los que fabrica las mentiras o de los que se cree las mentiras? Me gustaría hacerle esta  pregunta al ponente que despliega una complicada teoría de la conspiración en este video. Si se trata de alguien que sólo transmite un mensaje, entonces la respuesta es sencilla: la falsedad se cuece más arriba y él es apenas un emisario. Pero me temo que parte de lo que expone frente a esos adustos militares –que exhiben una constelación de estrellas en sus uniformes– es de su propia cosecha, se ha gestado en su interior.

Você é daqueles que fabricam as mentiras ou daqueles que acreditam nas mentiras? Gostaria de fazer esta pergunta ao relator que desdobra uma complicada teoria da conspiração neste vídeo. Caso se trate de alguém que só transmite uma mensagem, então a resposta é simples: a falsidade vem mais de cima ele é apenas um correspondente. Mas temo que parte do que é exposto frente a esses militares austeros – que exibem uma constelação de estrelas em seus uniformes – é de sua autoria, que prosperou em seu interior.

Sánchez também assinalou que a descrição de Fontes para plataformas de mídias sociais refletiam um conhecimento limitado de seus usos. Reinaldo Escobar (blogueiro em Desde Aquí [es]), escreveu em um artigo para o Diario de Cuba [es] que o conteúdo da apresentação deve ter sido fabricado. Ele se referiu especificamente ao julgamento de Fontes que blogueiros como Yoani Sánchez (esposa de Escobar) foram criados e financiados pelo governo dos EUA.

Si [Fontes] miente por iniciativa propia de presentarse como…imprescindible ante sus jefes, o si miente cumpliendo estrictas orientaciones de una mano tenebrosa, eso no puedo saberlo. Pero sé que miente. Me consta. La blogosfera alternativa cubana no es una creación del imperialismo norteamericano sino fruto de una conjunción de factores entre los que se destacan el fracaso del sistema socialista, la inconformidad ciudadana, especialmente entre los más jóvenes, y el desarrollo de la tecnología a nivel mundial.

Se [Fontes] mente por iniciativa própria de se apresentar como… imprescindível ante seus chefes, ou se mente cumprindo orientações estritas de uma mão tenebrosa, isso não posso saber. Mas sei que mente. Consta-me. A blogosfera cubana alternativa não é uma criação do imperialismo norte-americano, senão fruto de uma conjunção de fatores entre os quais destaco o fracasso do sistema socialista, a discordância cidadã, especialmente entre os mais jovens e o desenvolvimento da tecnologia em âmbito mundial.

Phil Peters, do The Cuban Triangle [en], acredita que o vídeo foi criado e distribuído intencionalmente (sob o disfarce de ‘vazamento’) para dar uma mensagem. Ele argumenta que, ao contrário do que normalmente acontece com uma informação que vazou, o vídeo parece ter sido editado completamente e estava visivelmente desprovido de informação que poderia causar dano ao governo cubano.

There is nothing in the briefing that is remotely inconvenient to the Cuban government; nothing that compromises an operation or breaks an important secret…[M]uch of the video conveys messages that Havana would probably want to present to international audiences. The cachet of a “leak” from the heart of a communist security apparatus ensures that those messages fly farther and wider than would words on paper.

Não há nada nessa instrução que seja remotamente inconveniente para o governo cubano; nada que comprometa uma operação ou revele um segredo importante… A maior parte do vídeo exprime mensagens que Havana provavelmente quer apresentar para o público internacional. O cachê de “vazamento” do núcleo do aparato de segurança comunista garante que essas mensagens voem mais longe e mais largo do que palavras no papel.

Se o vídeo é ou não “real”, autoridades dos EUA e o IRI negaram veemente as afirmações de Fontes [en] sobre pontos de conexões sem-fio. Mas independente de ser completamente verdade ou não, a mensagem que Fontes comunica aqui está evidentemente alinhada com as diretivas políticas recentes das NTICs do governo cubano, que tem se focado na “ciberguerra” contra os Estados Unidos.

Coincidência?

A romancista e blogueira cubana Zoe Valdés [es], que atualmente vive em Paris, compartilha da opinião de Peters. Não é coincidência, sugere, que o vídeo tenha vindo à tona durante o ápice da revolta popular no Egito, dado o papel crítico das redes sociais e das NTICs no movimento. Notícias vindas do Cairo levaram muitos jornalistas [en] e blogueiros [es] a se questionarem se, dado o número crescente de NTICs em Cuba, o Parque Central poderia se tornar a próxima praça Tahrir.

Valdés também indica “Por un levantamiento popular en Cuba” [es], um grupo do Facebook criado na semana passada por membros da comunidade de exilados cubanos na Espanha, encorajando cubanos a seguirem o exemplo do Egito e se levantarem contra o governo de Castro.

Mesmo sendo preocupante, ela escreve que acredita que o governo cubano escolhe condenar publicamente blogueiros por que são alvos fáceis.

[E]llos prefieren a disidentes cibernéticos …frente a justicieros callejeros que podrían multiplicarse por miles en mínimo tiempo. Los primeros no son considerados peligrosos, los segundos sí, y mucho. La propia Yoani Sánchez ha declarado que su blog no se ve en Cuba,* así que muy poca gente lee sus crónicas dentro de la isla.

[…]

Ese video, entonces, forma parte de la nueva estrategia del raulismo light, ignorar a los que son realmente dañinos a la dictadura ha sido siempre la elección de los castristas. Ellos saben que mencionar es reconocer, y que ignorar es desaparecer, fulminar, borrar.

Eles preferem dissidentes cibernéticos… a justiceiros nas ruas que poderiam se multiplicar por milhares em pouco tempo. Os primeiros não são considerados perigosos, os segundos sim, e muito. A própria Yoani Sánchez declarou que seu blog não é acessado em Cuba*, assim pouquíssimas pessoas lêem suas crônicas dentro da ilha.

[…]

Esse vídeo, então, faz parte da nova estratégia do raulismo light, ignorar aqueles que realmente causam danos à ditadura tem sido sempre a escolha dos castristas. Eles sabem que mencionar é reconhecer, e que ignorar é desaparecer, fulminar, apagar.

Sua afirmação sobre “raulismo light” faz bem em elucidar complexidades importantes em como a Inteligência do Estado cubano funciona. Mas Valdés sugere que há uma clara distinção entre dissidentes no espaço virtual e no espaço real, a poderosa presença online dos grupos dissidentes como os movimentos Damas de Blanco e OZT Yo Rechazo refutam isso – eles demonstram como esta distinção cresce cada vez mais indistinta, senão indecifrável.

Em suma, parece que quer seja “real” ou não a apresentação, quer seja ou não um vazamento real, o vídeo (caso não inteiramente verdadeiro) dá ao mundo uma janela rara e intimidadora para dentro do pensamento e diálogo sobre NTICs e blogs que está acontecendo na Inteligência cubana. Por mais que esteja incerta de suas origens, ela possui informação valiosa para todos aqueles que apostam no futuro das NTICs em Cuba.

*O blog de Yoani Sánchez se tornou acessível em Cuba no dia 8 de fevereiro de 2011. A cobertura segue no Global Voices durante as próximas semanas.

3 comentários

  • ZOG

    Curiosas as diferenças de tratamento neste blog: o povo dos países africanos e do O.Médio, são tratados como manifestantes pródemocracia…já no caso cubano, são contra-revolucionários. A ditadura castrista é melhor que a ditadura dos outros! Parece marketing de produto japonês: os nossos são melhores…..Parcial e ideologicamente guiado: instrumento de desinformação: lamentável. AT. ZOG

    • Caro ZOG,

      não damos tratamento diferenciado entre povos – quaisquer que sejam as religiões, raças, ideologias, etc envolvidas. O GlobalVoices é um site com o objetivo de traduzir conteúdo e, como tradutores, reportamos aquilo que os blogueiros estão falando em outras línguas. O mundo árabe e os países africanos costumam ganhar mais destaque por aqui por que há pouca cobertura sobre essas regiões na mídia de massa. O importante é termos opiniões diversificadas para entender todos os lados dos eventos – seja ele de qualquer natureza, desde revoltas populares a manifestações artísticas; desde mundanças numa lei a iniciativas cidadãs.

  • […] This post was mentioned on Twitter by Diego Casaes and Raphael Tsavkko, GV Lusofonia. GV Lusofonia said: Cuba: Ciberguerra? Vídeo inicia debate, raiva e ceticismo: Um vídeo publicado no Vimeo no dia primeiro de… http://bit.ly/f2pfxn #gvopt […]

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