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Rússia: “Atentado Anônimo” e “bodes-espiatórios aleatórios” do Domodedovo

No rescaldo dos atentados suicidas ao Aeroporto de Domododevo, em 24 de janeiro, que matou 35 pessoas e deixou mais de 100 feridos, alguns blogueiros russs estão novamente discutindo os sinistros padrões que se tornam cada vez mais óbvios a cada novo grande atentado terrorista na Rússia.

O usuário do LJ [LiveJournal] dolboeb colocou duas questões (ru) aos seus leitores em 25 de janeiro: “Quem deve ser responsabilizado pelo ataque terrorista no Domodedovo?” e “Quem será responsabilizado pelo ataque terrorista no Domodedovo?” Mais de 3.000 pessoas responderam até agora, e abaixo estão os resultados atuais (ru) desta enquete:

Who must be held responsible for the terror attack at Domodedovo?

The airport's managers – 941 (13.2%)

Interior Ministry's bosses – 1,944 (27.4%)

Domodedovo region's authorities – 165 (2.3%)

Police and security service officers who where on duty at the airport at the time of the attack – 1,420 (20.0%)

The country's leaders – 2,086 (29.4%)

Ramzan Kadyrov – 551 (7.8%)

***

Who will be held responsible for the terror attack at Domodedovo?

Nobody – 784 (26.5%)

Random scapegoats – 2,091 (70.7%)

Everyone who is to blame – 83 (2.8%)

Quem deve ser responsabilizado pelo ataque terrorista no Domodedovo?

O gerente do aeroporto – 941 (13.2%)

Os chefes do Ministério do Interior – 1,944 (27.4%)

Autoridades da região de Domodedovo – 165 (2.3%)

A Polícia e oficiais do serviço de segurança que estavam em serviço no aeroporto na hora do ataque – 1,420 (20.0%)

Os líderes do país – 2,086 (29.4%)

Ramzan Kadyrov – 551 (7.8%)

***

Quem será responsabilizado pelo ataque terrorista no Domodedovo?

Ninguém – 784 (26.5%)

Bodes-expiatórios aleatórios – 2,091 (70.7%)

Todos que devem ser culpados – 83 (2.8%)

@akazakov linkou (ru) para um post do usuário do LJ graf-alter, escrito logo após os ataques ao metrô de Moscou, em 29 de março de 2010:

http://bit.ly/dOZf0r – observations made after the subway blasts, nine months ago. Fits today's situation 100%, every single letter of it.

http://bit.ly/dOZf0r – observações feitas após as explosões no metrô, nove meses atrás. Adapta-se 100% à situação atual, cada letra.

Aqui está um pouco do que graf-alter escreveu (ru) em março de 2010:

Explosions in our country have a number of special features […]:

- Following a terror attack, no one claims responsibility for it, and no demands are being made. Which is very unusual compared to the practice of terror elsewhere in the world. Because we know the names of all sorts of Basque, Palestinian and other terrorist groups due to the well-established phrasing used in the news: “a blast occurred in the city of NN; terrorist group NN has claimed responsibility for it, demanding NN.” Here, bombs are anonymous.

- Investigation usually declares certain bandits already killed in the course of a “special operation” as masterminds of the explosion. […]

- Rarely, investigations of explosions reach trial stage. These trials appear very pathetic and unconvincing. The names of those who ordered [the attack] never surface, and only those who carried it out – not the principal players, though – end up being named. Information revealed during the hearing about the suspects’ contacts with the secret services is somehow never of interest to the court. As the hearing proceeds, cases against lawyers who “attempted to bribe the investigators,” etc., are being opened. […]

- Explosions usually occur during periods when the secret services’ position weakens or when they are being criticized by the public. Or before the elections.

[…]

An old, scratched vinyl record, it's making hissing sounds but continues to play.

A few dozen souls who had nothing to do with this music are off to heaven again.

Explosões em nosso país tem um número de características especiais […]:

- Na sequência de um ataque terrorista, ninguém reivindica a responsabilidade por ele, e nenhuma exigência está sendo feita. O que é muito incomum em relação à prática de terror no resto do mundo. Porque nós sabemos os nomes de todos os tipos de bascos, palestinos e outros grupos terroristas, devido ao fraseado bem estabelecido nas notícias: “Uma explosão ocorreu na cidade de NN, o grupo terrorista NN reivindicou a responsabilidade, exigindo NN. ” Aqui, atentados são anônimos.

- A investigação geralmente declara certos bandidos já mortos no decurso de uma “operação especial” como autores intelectuais da explosão. […]

- Raramente as investigações das explosões atingem a fase do julgamento. Estes julgamentos parecem muito patéticos e não convincentes. Os nomes dos mandantes [do ataque] nunca chegam à superfície, e apenas aqueles que o executaram – embora não os principais atores – acabam sendo nomeados. Informações reveladas durante a audiência sobre os contatos dos suspeitos com os serviços secretos, de algum modo, nunca são de interesse para o tribunal. à medida em que prossegue a audiência, processos contra os advogados que “tentaram subornar os investigadores”, etc, vão sendo abertos. […]

- As explosões ocorrem geralmente durante os períodos em que a posição do serviço secreto enfraquece ou quando eles estão sendo criticados pelo público. Ou antes das eleições.

[…]

Um velho e riscado disco de vinil está fazendo sons assobiados, mas continua a tocar.

Uma dúzia de almas que não tinham nada a ver com esta música foram para o céu novamente.

E aqui está um post (ru) escrito pelo mesmo blogueiro depois do atentado ao Aeroporto de Domodedovo:

[…] “God, forgive me for my personal daily contribution to the filling made of hatred that this bomb contained.”

This is how it should sound in a society of thoughtful, mature people. A utopia, of course. An ideal. […]

[…] Deus, me perdoe por minha contribuição pessoal diária para o recheio feito de ódio que esta bomba continha “.

Isto é como deve soar em uma sociedade de pessoas maduras e sérias. Uma utopia, claro. Um ideal.

Uma utopia, de fato.

Em 25 de janeiro, a usuária moscovita do LJ nataly-kuzmina re-postou [ru] um vídeo perturbador do YouToube que foi inicialmente compartilhado [ru] em 22 de janeiro pelo usuário do LJ azadovsky (que descreve a si mesmo como um moscovita e russo residente em Moscou). O vídeo mostra um pequeno garoto, que está vestindo uma camisa com os dizeres “Chechênia: Resistindo à invasão russa” (estas palavras estão escritas em turco: “Çeçenistan: Rus İşgaline Direniyor”) – e está falando com um homem adulto que não pode ser visto, dizendo que (e citado por nataly-kuzmina), entre outras coisas:

Would you like an ice cream or a gun? – A gun!
What do you need a gun for? – To kill Russians!

Você quer um sorvete ou uma arma? – Uma arma!

Para que você precisa de uma arma? – Para matar russos!

O blogueiro conclui:

[…] Is there anyone else here who still wishes to be tolerant? […]

[…] Há ainda alguém que deseja ser tolerante? […]

Em outro post pós-atentados ao Domodedovo, ela escreve [ru]:

[…] I don't want to, I'm scared to live in this country. There's nothing to lose here, except life. And it's easy to life here – the state is working hard on it […].

[…] Eu não quero, tenho medo de viver neste país. Não há nada a perder aqui, exceto a vida. E é fácil [perder] a vida aqui – o estado está trabalhando duro para isso […]

E aqui está o que a usuária do LJ z-abdullaeva – uma mulher que vive em Moscou, cujas “origens” (ru), no entanto, estão no Daguestão, e que cresceu em Grozni, na Chechênia – escreveu logo após as notícias de 24 de janeiro começarem a aparecer:

35 people [dead]

On blogs, they are talking about 70.

I'm waiting.

I don't feel like reading anything.

Our [folks from the Caucasus] will now turn out [to be responsible for the attack] again.

Suitcase – train station – Canada?

* Mood: pessimistic

35 pessoas [mortas]

Nos blogs eles estão falando de cerca de 70.

Estou esperando.

Eu não estou com vontade de ler nada.

Nosso [pessoal do Cáucaso] irá agora revelar-se [responsável pelo ataque] novamente

Mala – Estação de trem – Canadá?

* Humor: pessimista

E alguns outros comentários da mesma blogueira em um LJ de seus amigos:

z_abdullaeva:

Here they're always eager to have us, people from the Caucasus, to bear the collective responsibility…

***

greenmarine:

Tell me, how do they immediately recognize a North Caucasian appearance on a thoroughly blown-up person? He must have left a Quran with Russian translation somewhere nearby, right? And a passport with Grozny registration.

Will have to move stealthily around the city again for a while.

z_abdullaeva:

[…] I'd also like to make some noise about this issue, but I know that my fellow countrymen are capable of this. Alas. I don't have any illusions about it…

z_abdullaeva:

Aqui eles estão sempre ansiosos para que nós, pessoas do Cáucaso, assumamos a responsabilidade coletiva…

***

greenmarine:

Me diga, como eles imediatamente reconhecem uma aparência norte-caucasiana em uma pessoa completamente explodida? Ele deve ter deixado um Corão com a tradução russa em algum lugar por perto, certo? E um passaporte com registro de Grozni.

Terá que se mover furtivamente ao redor da cidade de novo por um tempo.

z_abdullaeva:

[…] Eu também gostaria de fazer algum barulho sobre este assunto, mas eu sei que meus compatriotas são capazes disso. Ai. Eu não tenho ilusões sobre isso…

Shura Burtin escreve mais (ru) sobre a questão dos “atentados anônimos” em seu blog, na revista Russkiy Reporter, explicando que agora é crucial fazer as “fazer as pessoas começarem a conversar, e não atirar” umas nas outras:

I had already expressed this seditious idea – that it's necessary to negotiate with rebel fighters. The answer was [“No”]. I feel that this is a completely irresponsible type of morality, and people who talk this way couldn't care less about those who were killed and their families. Moreover, it's nothing but a substitution of notions, because the original meaning of this principle is that the terrorists’ demands shouldn't be met – in order not to encourage new acts of terror. But the problem here is that it's been a long time since suicide bombers from the Caucasus demanded anything from us.

We should realize that a civil war has been going on for many years in our country, in the North Caucasus – almost like in Afghanistan or Iraq. And it's not a metaphor. According to the data from open sources, 1,710 people were killed and wounded in armed confrontations in 2010. And these figures have been deliberately understated […].

[…]

The Russian society has to decide what we want: war or peace. If we want peace, then the process of making peace has to begin. And there's only one way to make peace – which is to start making peace. […] The state has to stop thinking in the “us vs them” terms, it has to recognize this conflict as social insanity that has to be treated. It's important to understand that all parties in this war are Russian citizens. The reason for this war isn't the mythical international terrorism, but our own domestic conflict. This is a tragedy, a mistake, a result of the lack of dialogue and mutual understanding between segments of our society. All parties in this conflict have their own truth – and the task is to help them reach a consensus. […]

Eu já tinha expressado esta ideia sedicioss – que é necessário negociar com os rebeldes. A resposta foi [“Não”]. Eu sinto que este é um tipo completamente irresponsável de moralidade, e as pessoas que falam dessa forma não poderiam se importar menos sobre aqueles que morreram e suas famílias. Além disso, é nada mais que uma substituição de noções, porque o significado original deste princípio é que as exigências dos terroristas não devem ser cumpridas – a fim de não incentivar novos atos de terror. Mas o problema aqui é que faz  um longo tempo desde que os homens-bomba suicidas do Cáucaso exigiram algo de nós.

Devemos compreender que a guerra civil já dura há muitos anos em nosso país, no Cáucaso Norte – quase como no Afeganistão ou [no] Iraque. E não é uma metáfora. De acordo com os dados de fontes abertas, 1.710 pessoas foram mortas e feridas em confrontos armados em 2010. E estes números foram deliberadamente subestimados […].

[…]

A sociedade russa tem que decidir o que queremos: paz ou guerra. Se nós queremos a paz, então o processo de fazer a paz tem de começar. E só há uma maneira de fazer a paz – que é começar a fazer a paz. […] O Estado tem de parar de pensar nos termos do “nós contra eles”, tem de reconhecer este conflito como uma insanidade social que tem de ser tratada. É importante compreender que todas as partes envolvidas nesta guerra são cidadãs russas. A razão para esta guerra não é o mítico terrorismo internacional, mas o nosso próprio conflito interno. Esta é uma tragédia, um erro, um resultado da falta de diálogo e compreensão mútua entre os segmentos da nossa sociedade. Todas as partes neste conflito têm a sua própria verdade – e a tarefa é ajudá-los a chegar a um consenso. […]

Olga Allenova – usuária do LJ allenova, uma correspondente especial do diário Kommersant, autora de Chechnya is Close: War Through the Eyes of a Woman (A Chechênia está perto: Guerra através dos olhos de uma mulher, ru], uma coleção de reportagens de guerra (1999-2007) da região do Norte do Cáucaso – ainda não escreveu nada sobre a tragédia do Domodedovo em seu blog. Mas ela retornou de uma viagem ao Daguestão em 21 de janeiro, poucos dias antes do atentado, e postou um texto curto (ru) sobre a atmosfera opressiva lá e como as pessoas do lugar estão lidando com isso:

I'm back from Dagestan, feeling as if I was at a war – but didn't get to see the war itself. I saw people who had someone [from the family] killed. Saw machine guns in the hands of plainclothes special forces officers. I was shocked by a story told by my good acquaintance Timur: his friend Magomed's brother, a riot police officer, had been killed, and on the day his brother's body was brought home, Timur's neighbors were also awaiting a body – of the man who had killed Magomed's brother. Timur says he feels that the ring keeps narrowing, and the war is now right outside his house.

But if you are driving around the republic, everything looks quiet. People are selling things at the market, go shopping, get married, have children. Perhaps, this is the meanest type of war, when you don't see the actual threat.

What shocked me most was that people remained human even in such conditions. Hospitable, polite, well-mannered – most of the people I met were like this. Even those not very educated – village police officers, for example – but they were still very friendly.

I asked one – “How do you live here, why aren't you leaving?” (he does have a place to go). He replied: “Sooner or later we'll all die, and it's better [to die] at home while trying to do something [good], rather than somewhere far away, like a vegetable.”

There is something to learn from the Dagestanis.

Estou de volta do Daguestão, sentindo como se eu estivesse em uma guerra – mas não consegui ver a guerra em si. Eu vi pessoas que tinham alguém [da família] morto. Vi metralhadoras nas mãos de agentes à paisana das forças especiais. Fiquei chocada com uma história contada pelo meu bom conhecido Timur: seu amigo, irmão de Magomed, um oficial de polícia, tinha sido morto, e no dia em que o corpo de seu irmão havia sido trazido para casa, o vizinho de Timur também esperava por um corpo – o do homem que havia matado o irmão de Magomed.  Timur diz que sente que o círculo continua a diminuir, e a guerra está agora à porta de sua casa.

Mas se você estiver dirigindo ao redor da república, tudo parece calmo. As pessoas estão vendendo coisas no mercado, indo às compras, casando, tendo filhos. Talvez, este seja o pior tipo de guerra, quando você não vê a ameaça real.

O que mais me chocou foi que as pessoas permaneceram humanas, mesmo em tais condições. Hospitaleiras, educadas, com boas maneiras – a maioria das pessoas que eu conheci eram assim. Mesmo aqueles não muito educados – os oficiais da polícia da aldeia, por exemplo –  ainda eram muito simpáticos.

Perguntei a um – “Como você vive aqui, porque você não está indo embora?” (Ele tem um lugar para ir). Ele respondeu: “Cedo ou tarde todos nós vamos morrer, e é melhor [morrer] em casa, enquanto tentando fazer alguma coisa [boa], ao invés de em algum lugar distante, como um vegetal”.

Há algo a se aprender com os Dagestanis.

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