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Brasil: Hidrelétrica de Belo Monte retorna ao foco das atenções

O governo de Dilma Rousseff mal começou e já enfrenta uma mobilização virtual, e a causa é ambiental. Em 7 de janeiro, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, falou que a licença de construção da usina hidrelétrica de Belo Monte seria “antecipada”, para que as obras fossem iniciadas em fevereiro próximo. Para o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), o ministério ainda precisa atender exigências que comprovem a viabilidade ambiental da obra. Dias depois, em 12 de janeiro, Abelardo Bayma, presidente do Ibama, pediu exoneração do cargo que ocupava desde abril de 2010, alegando motivos pessoas. O blog Político, da revista Época, publicou, no entanto, sobre o que seria o verdadeiro motivo:

Em reuniões com a diretoria da Eletronorte há dez dias, Abelardo se negou a emitir a licença definitiva para a construção da usina. Ele argumentou que o IBAMA não poderia emitir o documento porque o projeto ainda está cheio de pendências ambientais.

O blogueiro e jornalista Leonardo Sakamoto considera a usina hidrelétrica de Belo Monte, que é planejada para o rio Xingu, no estado do Pará, “talvez a mais polêmica das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)” – um dos principais programas do governo. Ele comenta o post do blog Político e critica o projeto da usina:

De qualquer forma, o ponto é o seguinte: Belo Monte será um grande gerador de impactos sociais e ambientais. Por exemplo, o Ministério Público Federal avalia em cerca de 40 mil o total de atingidos – incluindo populações tradicionais e indígenas.

Mobilização e petição virtual

Assim que surgiu esta nova polêmica para a licença da usina de Belo Monte, o site de petições online Avaaz lançou uma petição, convocando assinaturas com urgência. Em 17 de janeiro, cinco dias após a criação da petição, o Avaaz orgulhosamente tornou pública a marca de 150,000 assinaturas. Naquele momento, a petição ultrapassava a marca de 275,000 assinaturas, e isso pode ser atribuído em grande parte à mobilização no Twitter. Usuários da plataforma tuitaram diversas vezes a mesma mensagem nos últimos dias:

Assine a petição contra Belo Monte: impeça este desastre ambiental na Amazônia! http://avaaz.org/parebelomonte

Entre esses usuários, estava Andréa (@AndrelBarbour), que complementou:

Aproveitando pra ler mais sobre a questão de Belo Monte.. É importante q a gente saiba direitinho o q ta acontecendo, diz respeito a tds nós!

Cabeçalho de petição contra a hidrelétrica de Belo Monte no site Avaaz

Na contramão está o blogueiro Alexandre Porto, que escreveu o post “Eu não assino petições contra a Belo Monte“. Apesar dos impactos ambientais, ele acredita que a obra tem mais pontos a favor e que a mobilização contrária à usina seria exemplo do que chama de “ambientalismo santuarista”, mais preocupado em preservação que na realidade sócio-econômica. Em seu post, contesta cada parágrafo da petição do Avaaz:

Já os pouco mais de 500 índios, que moram a jusante da barragem principal, onde o volume de água diminuirá no período de chuva, poderão ser realocados em nova aldeia, vizinha aos canais ou ao próprio reservatório principal.

[Belo Monte] […] envolve danos sócio-ambientais é óbvio, mas em alguma medida qualquer fonte energética pede seu preço. Produzir uma média segura de 4.000 MW durante o ano, com picos de 11.000 MW, é complexo para qualquer matriz, mesmo as aparentemente mais brandas.

Infográfico com projeto de barragem e reservatório da usina, na região conhecida por Volta Grande, no rio Xingu. Imagem publicada no blog de Alexandre Porto, com fonte original no Jornal O Liberal de 03/02/2010.

Repercussões da usina de Belo Monte

Ressaltando exatamente o impacto da obra nas populações indígenas e ribeirinhas que vivem às margens do rio Xingu, Elisa Thiago escreveu em outubro de 2010 sobre a usina de Belo Monte para o Global Voices em Português. Elisa ressalta que a resistência dessas populações não é de agora:

Por trás desse discurso oficial de “normalidade” criado pelo governo, pessoas organizadas em movimentos sociais e ambientais vêm construindo, desde a década de 1970, sua própria história de resistência à construção de Belo Monte. São elas índios e ribeirinhos, cujos modos de vida e meios de sobrevivência atuais sofrerão um impacto desastroso com a construção da usina.

Ao longo de 2010, Belo Monte recebeu atenção repetidamente. Em 20 de abril de 2010, o Greenpeace Brasil realizou um incisivo ato de oposição ao projeto, quando ativistas despejaram 3 toneladas de esterco na entrada da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em Brasília, com a mensagem “Belo Monte de… problemas“.

Em setembro de 2010, o Movimento Xingu Vivo Para Sempre (MXVPS) lançou um abaixo-assinado contrário à usina, que até o momento tem mais de 5,000 assinaturas. Lançou, também, um vídeo, que desde então tem circulado na blogosfera. O vídeo mostra a simulação de como a barragem e o reservatório de água no rio Xingu afetariam a dinâmica natural da região.

Telma Monteiro, em seu blog TelmadMonteiro, divulgou, no fim de dezembro de 2010, o resultado de uma pesquisa da qual participou para as organizações Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e International Rivers. A pesquisa analisou os riscos para investidores, e o resultado que apontam se pode apreender pelo título do relatório:

O relatório “Mega-projeto, Mega-riscos” vem em bom momento, como um alerta inequívoco de que Belo Monte é ainda um mega-projeto que pode se transformar em mega-obra com mega-riscos para a sociedade.

O relatório aponta dados que atestam o prejuízo de bilhões de reais da construção usina, mesmo com a venda da energia num período de dez anos. Também aponta para a taxa reduzida de produção de energia, pois a previsão de 4,420 MW corresponde a 39% da capacidade instalada de 11,233 MW. Para se ter uma dimensão do projeto, a Belo Monte, se for construída, será a 3ª maior usina hidrelétrica do mundo em capacidade instalada, atrás de Três Gargantas, na China, e da Itaipu Binacional, compartilhada por Brasil e Paraguai.

Vale recordar que Abelardo Bayma não é o primeiro a sair em meio a pressões pela usina. O impasse sobre a viabilidade sócio-ambiental de Belo Monte é tido como o motivo da saída da ex-ministra do Meio Ambiente (e adversária de Dilma nas eleições presidenciais de 2010), Marina Silva, em 2008, e de Roberto Messias, ex-presidente do Ibama, em abril de 2010. Assim como Bayma, Messias também havia atrelado a concessão da licença de construção ao cumprimento de exigências sobre a viabilidade ambiental.

Cogitado desde 1975, o projeto da hidrelétrica foi retomado durante o governo do ex-presidente Lula e é apoiado pela presidente Dilma desde quando fazia parte da gestão anterior. Enquanto o governo se preocupa com autonomia energética, brasileiros em blogs e no Twitter atentam para os impactos sócio-ambientais da fonte de energia escolhida – Belo Monte tem se mostrado uma poderosa queda-de-braço.

23 comentários

  • ana

    Segundo o video divulgado junto à petição, a represa corre o risco de secar várias ramificações do rio xingu e alguns trechos do próximos dependendo do nível da água.
    Será?
    Em meio ao contexto de fortes crises ambientais, falta d’água em grande parte do mundo, aquecimento global, extinção, vazamentos faraonicos de petroleo.. ETC tudo deve ser minuciosamente avaliado e acho fundamental transparencia nessa discussão.

    Concordo com o João Miguel sobre o perigo na “parcialidade” dessa licitação. Certamente não vem do lado dos que estão preocupados com os impactos ambientais, mas sim com o processo de aceleração do crescimento dos lucros..

    Para terminar, achei extremamente suspeita a forma como a saída do Abelardo Bayma abriu uma grande brecha na legalização de todo esse processo…

  • Leonardo

    KKKKKKK. Pré Sal, meu brother ? Pode ser que esse hidrocarboneto que se encontra a 8.000 mt de profundidade nunca saia do papel ! Ainda estão trabalhando no aço ideal, estão estudando como construir o duto até aquela profundidade e o principal. SE O INVESTIMENTO VAI COMPENSAR. Nosso bondoso Deus queira que realmente o Pré Sal de certo.
    Respondendo tua pergunta: Hoje a energia elétrica gerada no Brasil esta interligada no SIN. Com tamanho e características que permitem considerá-lo único em âmbito mundial, o sistema de produção e transmissão de energia elétrica do Brasil é um sistema hidrotérmico de grande porte, com forte predominância de usinas hidrelétricas e com múltiplos proprietários. O Sistema Interligado Nacional é formado pelas empresas das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e parte da região Norte. Apenas 3,4% da capacidade de produção de eletricidade do país encontra-se fora do SIN, em pequenos sistemas isolados localizados principalmente na região amazônica.
    E nunca se investiu tanto em energia eólica neste pais. Ha projetos que chegam a R$1 bilhão. O problema é que o Brasil não terá energia para se desenvolver sócio e economicamente em uns 5 anos.

  • dilson almeidados sasntos

    as pessoas que sao contra a construçao da usina belo monte,nao conheçe a regiao eu conheço a area que vai ser inudada digo os nomes das pessoas que moram tanto no Rio Iriri como Xingu de Altamira ete sao feliz do Xingu e de Altamira ate o rio Bau lhes garanto que nao tem mais de cem familias morei 15 anos na regiao

  • […] GlobalVoices, 21.1.2011Brasil: Hidrelétrica de Belo Monte retorna ao foco das atenções […]

  • […] 21.1.2011Brasil: Hidrelétrica de Belo Monte retorna ao foco das atençõesO governo de Dilma Roussef mal começou e já enfrenta uma mobilização virtual, e a causa é […]

  • Mais um passo para destruir a ja’ sofrida natureza, se fosse outro governo os petistas estariam criticando, mas como o governo e’ deles tudo pode, ate’ esta barbaridade.

  • Afirmar que Belo Monte é uma obra viável, que o impacto ambiental que causará é mínimo e justificável, que trará melhorias para a região, que o fato de operar com apenas 4.000 MW, jamais atingindo a sua capacidade total a ser instalada (11.000 MW) e que se tem investidores apoiando o projeto, ele deve ser econimicamente viável!!!… Quem assim procede demonstra desconhecer o assunto ou não o pesquisou a fundo, sabem só de “ouvir falar”.

    Os investidores não terão o total do seu capital aplicado até a entrada em operação em condições rentáveis e antes disso, pelos desvios, já terão tirado, com sobras, o que investiram, deixando a bomba na mão do governo, que é um péssimo administrador. Além disso, o BNDES também vai financiar esse pessoal e, no final, quando verificarem que a obra não se justifica e não se sustenta, os investidores iniciais já terão sumido, dando lugar a outros, que vão comprar cotas a preço de banana. Sempre foi assim. Enquanto isso, a fauna e a flora já terão sido destruídas, a navegabilidade do rio afetada, populações indígenas e riberinhas removidas e adensidade demográfica da região alterada e desequilibrada.

    Saiba mais, sobre este assunto acessando a matéria “Pare Belomonte! (Ciberativismo Ecológico em Apoio à Avaaz.org) em http://debatadesvendeedivulgue.com/blog/?p=2767.

  • […] vezes fico farto disso tudo. Dilma não fala abertamente da hidrelétrica de Belo Monte, governador cearense Cid Gomes não dialoga sobre mais um centro de eventos numa […]

  • maria

    concordo com vc federal , os brasileiros sabem muito bem tomar conta da patria deles e sabem o que amazonia representa para o brasil e para o mundo que sem ela nao tem vida , para os brasileiros ela representa a vida deles e do mundo , eles tem consicencia disso e s’ao capacitados de usarem ela de acordo com o que ela representa pra eles , por tanto que a usina seja bem vinda e que traga melhor aproveitamento da amazonia para os brasileiros

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