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Moçambique: Drogas e segredos públicos expostos no Wikileaks

As primeiras correspondências da Embaixada Americana em Maputo vazadas no Wikileaks ressuscitaram a discussão sobre o episódio do narcotráfico que agitou o país em meados de 2010, quando o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos listou o empresário moçambicano Mohamed Bachir Suleman em uma relação de barões internacionais do tráfico de droga. Os negócios do comerciante foram suspensos com o congelamento de bens em solo americano e o impedimento de transações entre ele e norte-americanos. A entrada de Suleman para a lista de apenas 87 indivíduos em todo o mundo em junho passado provocou reações em Moçambique, onde o proprietário do maior e mais novo shopping de Maputo é muito conhecido.

Maputo Shopping Center, do usuário do Flickr liam_mac_liam, com licença do CC

Na época, o blogueiro Carlos Serra observou que o episódio “tem suscitado uma grande comoção social e um permanente debate em múltiplos sectores [da sociedade]”. O rapper Azagaia inspirou-se no caso para gravar a canção “Arrrri” (já mencionado no Global Voices).

As conexões de Suleman com os poderes do partido do governo nunca foram segredo em Maputo. Segundo o blog Meditabundo:

Confesso que nao fiquei muito espantado, embora nunca tivesse colocado uma ideia semelhante na minha mente. Tem sido uma das minhas maiores preocupacoes, desvendar as (verdadeiras) fontes de rendimento dos nossos ‘empresa'rios’ mocambicanos e “ricos poli'ticos” ou “poli'ticos ricos”, como queiram.

Marcelo Mosse, diretor da ONG Centro de Integridade Pública de Moçambique (CIP), publicou um artigo no CIP Newsletter intitulado “Queda da Máscara” sobre o crescimento do narcotráfico, do crime organizado e o partido do poder. Esse artigo foi  reproduzido na internet pelo blog Parte1:

MBS [Mohamed Bachir Suleman] triunfava não com negócios limpos, mas porque estava ligado à droga. Por isso, todo o moçambicano que ouviu hoje a bombástica notícia, respira um alívio cúmplice: já sabíamos!!! Todos sabíamos, mas quem ousaria meter a mão num homem que alimentava o partidão?

No início de dezembro, quando foram publicados os primeiros telegramas da Embaixada Americana em Maputo no Wikileaks, a lembrança da “comoção” abriu uma janela para a análise da Embaixada sobre a situação do país. Os telegramas, escritos por Todd Chapman, na época encarregado de Negócios da Embaixada, revelaram que ele acreditava que Moçambique era um dos maiores pontos de entrada de narcóticos na África. Eles também alegam que a ex-Primeira Ministra Luisa Diogo estaria envolvida em corrução em alta escala.

Há muito tempo atuando como observador de Moçambique, Joseph Hanlon, citado pelo blogueiro Manoel De Araujo, observou o seguinte:

Chapman attributes accusations of corruption against Mozambican ministers to a Mozambican businessman, whose name has been deleted by Wikileaks but who can be identified because he is the owner of the only milk processing factory in Maputo.

Chapman atribui as denúncias de corrupção contra ministros moçambicanos a um empresário moçambicano, cujo nome foi suprimido pelo Wikileaks, mas que pode ser identificado por ser o dono da única fábrica de processamento de leite em Maputo.

Essa fonte, sentindo-se extremamente exposta, falou recentemente à imprensa e acusou Chapman de sacrificar a fonte para promover interesses pessoais. As acusações, no entanto, são fortes e, de alguma forma, “o prejuízo está feito”.

Porto Nacala no norte de Moçambique, junho de 2010

Enquanto isso, os documentos questionam o papel dos bancos e empresas portugueses envolvidos em corrupção e relacionados com o gerenciamento do Porto de Nacala, por onde acredita-se que os narcóticos adentrem Moçambique. Os membros da oposição no parlamento moçambicano avisam que alegações mais concretas podem estar contidas nos mais de 900 telegramas ainda não publicados.

O leitor Queface deixou um comentário no blog de Carlos Serra, Diário de um Sociológo:

[…] o que está em jogo neste processo todo não é a reputação de Moçambique, mas as pessoas que estão a frente do país. Essas sim constituem o maior perigo para nós, o povo moçambicano.

O blogueiro JPT do Ma-schamba discordou totalmente da noção de que os documentos do Wikileaks poderiam ser considerados como provas cabais, dizendo:

A reclamação da liberdade de informação é uma falsidade gigantesca. Querem saber se há corrupção em Moçambique? Investiguem. Investiguem no terreno. Querem saber se há males no mundo? Investiguem.

JPT ficou tão enfurecido com a decisão de ABM, seu parceiro de blog, de traduzir e publicar os documentos que decidiu dramaticamente deixar o blog que fundou:

As mensagens americanas vituperam o estado moçambicano. ABM, no seu propósito divulgador e denunciador, assume explicitamente o seu conteúdo como verdadeiro. Ora se assim é, se o Estado moçambicano assim o é, ABM inconsiderou os meus interesses e a minha situação pessoal, familiar e profissional, sabendo-me único residente, único trabalhador dependente aqui e conhecido como fundador do blog que ele utilizou para atacar o poder moçambicano.

E dessa forma, o canônico blog Ma-schamba acabou sendo afetado pelo efeito colateral dos prejuízos decorrentes dos “segredos públicos” expostos no Wikileaks.

O triângulo das drogas, poder e estado moçambicano mostra que a divulgação pública de “segredos”, ou versões populares destes, tem o poder de abalar a vida pública e perturbar gravemente a vida privada. E esse é apenas o começo.

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