Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

Brasil: país elege primeira mulher como presidente

Dilma Rousseff, ex-guerilheira marxista que foi presa e torturada durante a ditadura militar do Brasil se tornou a primeira líder mulher do país, ganhando 56% do total de votos válidos contra 44% de seu rival José Serra. Rousseff, 62 anos, protegida do presidente atual, Lula, prometeu seguir os passos de seu predecessor e erradicar a pobreza extrema do Brasil, um dos países mais desiguais do planeta. Clamando para a nação em um comício de vitória na capital Brasília, Rousseff disse [en]:

We cannot rest while Brazilians are going hungry, while families are living in the streets, while poor children are abandoned to their own fates and while crack and crack dens rule.

Não podemos descansar enquanto os brasileiros têm fome, enquanto famílias estão vivendo nas ruas, enquanto crianças pobres são abandonadas ao destino e enquanto imperam o crack e as bocas de fumo.

Ela proclamou sua vitória como uma demonstração do progresso democrático no Brasil, e complementou:

Eu gostaria muito que os pais e as mães das meninas pudessem olhar hoje nos olhos delas, e dizer, “sim, a mulher pode.”

Os mapas de votação mostraram uma clara divisão entre o norte e o sul. Dilma teve uma vitória esmagadora no nordeste empobrecido do Brazil, assim como em boa parte da região da Amazônia, enquanto os ganhos de Serra em seu estado, São Paulo, foram bastante fortes.

Dilma Rousseff em seu discurso de vitória na capital Brasília. Imagem da Rede Brasil Atual no Flickr. Usada sob uma licença Creative Commons CC-BY-SA

A blogosfera brasileira explodiu em júbilo com a notícia. O blogueiro político Eduardo Guimãraes escreveu uma breve nota no Blog da Cidadania:

Não devo escrever muito. O momento é de os democratas comemorarem a vitoria da verdade sobre a mentira, da democracia sobre os vassalos da ditadura militar que ameaçaram retomar o poder por meio de um homem sem caráter, capaz de tudo para atingir objetivos pessoais. Haverá muito, muito tempo para analisar o novo Brasil que não pára de surgir no horizonte. Agora é hora de comemorar. Comemore, pois. Escreva aqui o que quiser. O blog é seu. Você merece por ajudar este espaço a travar o bom combate com seu apoio, com sua leitura, sua repercussão. Viva Lula! Viva Dilma! Viva a Democracia! Viva a verdade! Viva o Brasil!

No blog Escrevinhador, Rodrigo Vianna fala que a vitória de Dilma era esperada há muito tempo, e vai permitir que o governo continue os sucessos de Lula em ampliar a inclusão social, criando programas de bem-estar, reduzindo a pobreza, fortalecendo as relações diplomáticas regionais e internacionais, e estendendo as parcerias com movimentos sociais e sindicatos. Lançando-se sobre as táticas empregadas pela direita brasileira, Vianna complementa que a vitória de Dilma simbolizou a derrota de preconceitos e do ódio. Ele escreve:

Dilma significa a vitória de um projeto generoso, e o enterro de uma determinada oposição.

O portal de esquerda Vermelho também listou outros “perdedores”, incluindo a altamente concentrada mídia de massa, cujo monopólio de notícias eleitorais foi desafiado por blogueiros e iniciativas cidadãs, tal como o 48 Horas Democracia, que proveu cobertura alternativa ao vivo das eleições. O que se seguiu durante a campanha presidencial foi uma guerra midiática e alinhada politicamente entre ambos:

Os meios de comunicação monopolizados por um minúsculo grupo de famílias capitalistas (Marinho, Civita, Frias e Mesquita) estão entre os grandes derrotados deste pleito. Com o destaque das Organizações Globo e da editora Abril, que transformou a revista Veja num mal disfarçado panfleto da campanha tucana, a mídia escancarou o apoio ao candidato da direita e em certo momento passou a ditar a agenda da campanha. Deixou cair a máscara do pluralismo e da imparcialidade. A verdade saiu arranhada nesta mídia. Apesar do segundo turno, o povo não se deixou enganar e impôs nova derrota à mídia…Tudo isto deve servir de lição ao novo governo, que pode pautar um debate mais sério e sereno sobre as propostas da Primeira Conferência Nacional da Comunicação (Confecon).

Abraçar mais meios de comunicação alternativos (como foi proposto na Confecom) e continuar a democratização do sistema midiático do Brasil, diz Vianna, restará como um dos desafios-chave da Dilma. Outros acreditam que ela vai lutar para se libertar da sombra de seu predecessor e mentor, Lula. O blogueiro eleitoral e político Alexandre Campbell escreve:

Em 2003, Lula sucedeu um adversário que deixou o cargo com os índices de popularidade aos frangalhos. Por isso, a comparação de Lula com os tempos de FHC foi sempre benéfica ao atual presidente. Dilma, ao contrário, sucederá um aliado, que deixou o cargo com alta popularidade. Não poderá culpar Lula pelos problemas que vier a encontrar e, ao mesmo tempo, não adiantará apenas dar continuidade aos seus avanços.

Militantes celebram a vitória de Dilma. Foto por Marcello Casal Jr/ABr, no Flickr do Jornal Correio Regional. Usada sob uma licença Creative Commons CC-BY-NC.

Enquanto isso, a questão sobre ter uma mulher no poder no Brasil foi inevitavelmente levantada. Dilma raramente se mostrou de forma explícita enquanto uma mulher para presidente, ao invés disso priorizou a redução da pobreza no lugar das questões de gênero. Mas os grupos femininos aplaudiram sua vitória como um grande sucesso para o país no qual mulheres são frequentemente excluídas do processo de tomada de decisões, e esperam que isso dê forças à criação de políticas públicas para as mulheres. Na semana passada, a ativista veterana dos direitos das mulheres, Rachel Moreno, também ponderou o assunto, convidando as feministas à olharem além do debate sobre a descriminalização do aborto que desfigurou o segundo turno das eleições presidenciais. Para Moreno, Dilma acredita:

Na ampliação do espaço e atendimento das reivindicações dos negros; na inclusão social através da política de estímulo ao consumo e criação de empregos; na Bolsa Família, na realização de Conferências da Mulher e na inclusão de nossas reivindicações nas políticas de governo.

Mas, continua Moreno:

Hoje, temos ainda a reivindicar mais creches e escolas em período integral para as crianças, maior qualidade do ensino e mais funcionários nas escolas, com a devida valorização salarial e de formação dos professores. Temos a reivindicar a equiparação salarial das mulheres; o acesso maior e a efetiva equidade no mercado de trabalho; a Reforma Política que nos dê condições de igualdade, uma imagem respeitosa, diversa e plural na mídia; etc. etc. etc.

Maíra Kubík Mano, escrevendo no blog feminista Viva Mulher, também enfatizou a importância simbólica de uma mulher liderar o país, dada a fraca participação de mulheres na política nacional brasileira. Entretanto, também se referindo à horrível natureza do recente debate sobre o aborto, ela nos lembra que “Dilma não é sinônimo de um governo que apoie as agendas feministas”:

Na verdade, se pensarmos no quão conservador se tornou o debate em torno dessa questão [o aborto], não seria exagero dizer que o cenário piorou para as pautas historicamente ligadas ao feminismo. E, para além de ações isoladas, principalmente da Secretaria de Políticas para as Mulheres, o governo Dilma dificilmente contribuirá para reverter isso.

Na mesma linha de pensamento da própria Dilma, Vianna escreve:

É importante eleger uma mulher – sim! Importantíssimo, e nos próximos dias poderemos avaliar isso melhor. Mas Dilma não é simplesmente “mulher”. É uma brasileira que ousou lutar contra a ditadura, em organizações clandestinas. Isso a velha elite não perdoa. É uma marca tão forte quanto os quatro dedos do operário que nunca será aceito na velha turma.

Construindo sobre o progresso de Lula, Dilma Rousseff certamente simboliza uma nova era para um país cujo crescimento faz o Ocidente sentir inveja. Os desafios que se posicionam diante dela não são pequenos: ela prometeu remover 20 milhões de brasileiros da pobreza, enquanto o país continua envolvido por números drásticos de criminalidade, nomeando apenas alguns dos desafios. Mas com a maioria desse gigante sul-americano apoiando ela, o futuro somente parece brilhante.

Inicie uma conversa

Colaboradores, favor realizar Entrar »

Por uma boa conversa...

  • Por favor, trate as outras pessoas com respeito. Trate como deseja ser tratado. Comentários que contenham mensagens de ódio, linguagem inadequada ou ataques pessoais não serão aprovados. Seja razoável.