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Brasil: Índio, Internet e Interculturalidade

Surui woman

Photo by flickr user Lorena Medeiros, published under an Attribution-ShareAlike 2.0 Generic Creative Commons License

A noção presente no imaginário popular brasileiro de que o índio deixa de ser índio no momento que adota costumes e tecnologias de herança ocidental é contraposta pela prática, cada vez mais difundida nas aldeias indígenas, de utilizar ferramentas de tecnologia de informação exatamente com o intuito de tornar mais eficiente a defesa do estilo de vida e da cultura indígenas.

No Taqui Pra Ti, encontramos um artigo do Prof. José Bessa Freire, coordenador do Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ) e pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO). Nele, o autor discute a apropriação indígena dos  veículos de mídia cidadã disponíveis na Internet e a utilização de conteúdos multimída com o intuito de promover a socialização, reivindicar direitos e afirmar a identidade indígena no ciberespaço:

No Brasil, índios de diferentes línguas e etnias foram estimulados a usar a Internet por organizações governamentais e não governamentais. Embora a situação ainda seja bastante precária, inúmeras das 2.698 escolas indígenas existentes nas aldeias, frequentadas por mais de duzentos mil alunos, foram dotadas de computadores. Ali onde isso não foi possível, os computadores dos postos de saúde da Funasa foram disponibilizados dentro dos Pontos de Cultura no Programa Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão.

Com o aumento de acesso a computadores, os primeiros sítios indígenas na Internet surgiram em 2001. Segundo Eliete Pereira, do Centro de Pesquisa Atopos, da Escola de Comunicação e Artes/Universidade de São Paulo, a presença indígena na net ainda é bastante irregular. No mapeamento  que fez da participação indígena na Internet, Eliete encontrou três tipos de sítios: os sítios pessoais, os sítios de etnias e os sítios de organizações indígenas.

Os usuários de sítios pessoais utilizam a Internet de forma inovadora para mostrar a produção indígena individual. Nesta categoria, encontramos o sítio, por exemplo, do escritor Daniel Munduruku e da escritora Eliane Potiguara que apresentam os seus livros e dialogam com seus leitores. Também nesta categoria, vamos encontrar os blogs de grandes líderes indígenas como Ailton Krenak.

Já os sítios de diferentes etnias indígenas são criados com o intuito de alcançar uma maior visibilidade indígena no cenário nacional e internacional por meio da divulgação da arte, do artesanato, dos padrões gráficos, das narrativas e da língua de cada etnia. É o caso dos Baniwa, dos Ashaninka e de tantos outros que, após terem participado, em 2005 no Rio de Janeiro, das discussões sobre o acesso indígena à tecnologia da informação e à internet, assim como do lançamento do Portal Rede Povos da Floresta, passaram a fazer uso dessas ferramentas digitais como parte de projetos educacionais de base intercultural com o apoio do Ministério da Educação e Cultura (MEC) e de ONGs como, por exemplo, o Instituto Socioambiental.

Por fim, os sítios de diferentes organizações indígenas são mantidos na rede por instituições representativas de diferentes etnias cuja abrangência pode ser local, regional ou nacional e que estão associadas à conquista por direitos pela terra, pela educação bilíngue e pela saúde da população indígena. Esses sítios constituem-se em ferramentas de reivindicação e ação política. É o caso, por exemplo, do portal da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB, do Indios Online ou o da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro - FOIRN.

Os Suruí,  as tecnologias de informação e a Floresta Amazônica

Um caso bem sucedido de ação política  focada no uso de tecnologias digitais está sendo desenvolvida por iniciativa de Almir Narayamoga Suruí [en], Chefe da tribo Gamebey dos índios Suruí que vivem na aldeia indígena Sete de Setembro no Estado de Rondônia, Brasil. Para este povo, a floresta sempre teve um papel importante, tanto do ponto de vista cultural como econômico, razão pela qual a tribo, liderada por Almir, está engajada no reflorestamento e no combate ao desmatamento da terra de seus ancestrais por meio do uso de ferramentas como o Google Earth e o GPS.

Numa primeira consulta ao Google Earth em 2007,  Almir procurou localizar sua aldeia na imagem gerada pelo satélite. Foi quando notou, de imediato, o quanto o território de seu povo estava ameaçado pela ação deletéria das madereiras na retirada de árvores do entorno. Mas, ao mesmo tempo que se preocupou com o que viu, percebeu também que a  solução poderia estar alí mesmo,  no uso da Internet para dar visibilidade e força à cultura  Suruí.


Imagens das terras dos Surui como aparecem no Google Earth

Uma parceria entre a Google Outreach – o braço social da Google – e a associação indígena Metareilá foi, na seqüência, firmada em 2008. Primeiro fruto desta parceria, o dito “mapa cultural” foi colocado à disposição dos internautas no Google Earth, inclusive os internautas Suruí. Com a assistência técnica da ACT-Brasil, a elaboração do mapa foi feita a partir das informações colhidas junto aos anciãos e estudiosos Suruí conhecedores da história e das características do território tribal.

Para Almir, a relação que os Suruí têm desenvolvido com a Internet, esta “ferramenta dos brancos”, é uma tentativa inovadora de fazer com que o “contato” reforce – ao invés de corromper – a cultura e o modo de vida nativos. No caso dos Suruí, o primeiro contato com a cultura e a sociedade de herança européia, ocidental, ocorreu em setembro de 1969:

[Há] apenas 40 anos os primeiros homens brancos penetraram em nossa floresta. Cheios de esperança, recebemos estes visitantes com a intenção de estabelecer relações de paz com o mundo externo. Contudo, nossa esperança para o futuro se deparou com imensa tragédia. Apenas dois anos depois do primeiro contato, a população Suruí diminuiu de 5.000 pessoas para 290. Além de muita gente nossa morrer devido a doenças novas para nós, nossa cultura foi ameaçada de extinção por causa da morte de nossos anciãos. Aos 17 anos, assumi o papel de chefe. Hoje, busco apoio do mundo externo, com esperança renovada.

De acordo com a ONG Aquaverde os Suruí têm sido “precursores” e “exemplo” para os outros povos indígenas de luta eficiente contra as invasões e a destruição de suas terras, mas

[e]ste sucesso ainda é frágil e ameaçado, precisa se consolidar, mas o desmatamento não progride mais nas terras Suruí. Infelizmente, várias áreas foram profundamente afetadas pela falta da floresta. No entanto, os Suruí conseguiram se libertar da dependência dos madeireiros, voltar às suas atividades tradicionais e desenvolver novas, tais como: piscicultura, cafeicultura e artesanato.

Uma segunda iniciativa originada na parceria foi o treinamento de informática para aproximadamente 20 índios realizado na sede da associação em Cacoal. Já o terceiro passo dará início ao estágio mais ambicioso da “parceria” pelo uso dos recursos da Internet: o combate ao desmatamento da reserva Sete de Setembro, em tempo real. Para isso, os Suruí poderão contar com aparelhos smartphones equipados com o sistema operacional Android, da Google, que lhes permitirá flagrar cenas de desmatamento em tempo real, postar as imagens na Internet e enviá-las para o mundo e para as autoridades competentes.

A noção de perda da identidade indígena como resultado da adoção de tecnologias digitais perde, portanto, sua força original.  Ao contrário – o que os Suruí pretendem é potencializar o direito de preservar, o mais intacto possível, sua relação com a terra e a cultura herdadas de seus ancestrais.

Veja o vídeo: Trading Bows and Arrows for Laptops

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