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Fome na África Incentiva o Debate sobre Biotecnologia

Este artigo foi produzido como parte de uma série sobre Insegurança Alimentar do Pulitzer Center/Global Voices Online, que recorre a depoimentos multimídia publicados no Portal Pulitzer para a Insegurança Alimentar [en]. Compartilhe a sua história aqui.

Sunset over farmland in South Africa by Irene2005 on Flickr

Pôr-do-sol em uma fazenda na África do Sul por Irene2005 no Flickr

Enquanto na Ásia e na América Latina houve crescimento significativo na produtividade agrícola nos últimos 30 anos, a produtividade na África ficou estagnada [en] e 1 em cada 3 [en] pessoas na África Subsaariana ainda sofre de fome crônica. Muitas soluções foram propostas para ajudar a combater a fome na África mas uma delas permanece particularmente controversa: a biotecnologia.

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação estima que 1,02 bilhão de pessoas [en] no mundo não têm o suficiente para comer; mais de um quarto [en] dessas pessoas vive na África Subsaariana. As razões para a insegurança alimentar na região vão da crise econômica ao crescimento populacional. Em um blog sobre biotecnologia da Penn State University, o Dr. Terry Etherton (EUA) desenvolve um raciocínio [en] sobre esses desafios:

In sub-Saharan Africa, where more “ultrapoor” live, developing technologies to boost productivity is especially difficult because of greater threats from pests and diseases, poorer soil, and drought. In addition, Africa’s R&D [research and development] establishments are small compared to those of South Asia—half had fewer than 100 scientists in 2000. Compared to Latin America, Africa has less than half the rural roads per hectare, 1/40th the capital per farmer, and 1/50th the rural electricity supply per worker. Despite some success with maize [corn], cassava, and some horticultural crops, few African countries have experienced a Green Revolution.

Na África Subsaariana, onde mais “ultrapobres” vivem, o desenvolvimento de tecnologias para impulsionar a produtividade é particularmente difícil em razão de grandes ameaças como as pestes e doenças, o solo mais pobre e a seca. Adicionalmente, a estrutura de P&D (pesquisa e desenvolvimento) africana é menor se comparada à sul-asiática – metade tinha menos do que 100 cientistas em 2000. Na comparação com a América Latina, a África tem menos da metade das estradas rurais por hectare, 1/40 do capital por fazendeiro e 1/50 do suprimento elétrico na zona rural por trabalhador. Apesar de alguns sucessos com o milho, a mandioca e algumas safras de horticultura, poucos países africanos vivenciaram a Revolução Verde.

Em escala global, a África usa menos fertilizantes, pesticidas e sementes híbridas ou geneticamente modificadas (GM) [en] que qualquer outro continente, embora muitos especialistas sugiram [en] que organismos geneticamente modificados (OGMs) poderiam ajudar a garantir a segurança alimentar aumentando a produtividade, produzindo safras com variedades mais resistentes, aumentando o valor nutricional da safra e aprimorando sua armazenabilidade. Outros alegam que há inúmeros riscos associados à adoção de OGMs na África.

Blogueiros que acompanham o debate se perguntam, alternativamente, se a África está sendo forçada [en] a aceitar a biotecnologia, ou se os africanos estão sendo desnecessariamente amedrontados [en] por antivistas anti-OGM.

O jornalista Gregory Simpkins, em Washington (EUA), delineia [en] o debate em seu blog pessoal Africa Rising 2010:

Those who don’t trust what they see as Big Science and capitalists, believe GM agricultural products are “Frankenfood.” Those alarmed by the rise in both malnutrition and food prices see a crisis that may be alleviated by using science to jump-start the Green Revolution in Africa. The problem is that there is not enough evidence that these products are either unjustifiably dangerous or completely safe. Africa’s brain drain doesn’t make this situation any easier since many of the scientists who could ensure that their homelands don’t use unsafe agricultural products or take advantage of existing technology to prevent starvation live and work in other countries.

Aqueles que não acreditam no que encaram como a Grande Ciência e os capitalistas, creem que os produtos agrícolas geneticamente modificados são “alimentos-Frankenstein” [Frankenfood]. Já os que estão alarmados pelo aumento tanto da subnutrição quanto dos preços dos alimentos entendem tratar-se de uma crise que pode ser aliviada pelo uso da ciência para dar a partida na Revolução Verde na África. O problema é que não há evidências suficientes de que estes produtos são injustificadamente perigosos ou plenamente seguros. A fuga de cérebros na África tampouco facilita a situação uma vez que muitos dos cientistas que poderiam garantir que sua terra-natal não use produtos agrícolas inseguros ou que poderiam tirar proveito da tecnologia existente para prevenir a fome vivem e trabalham em outros países.

A resistência aos OGMs é grande. Atualmente a África do Sul é o único país do continente que aprovou o uso de sementes geneticamente modificadas para o plantio.

O repórter Philip Brasher viajou à África do Sul e ao Quênia para contar o papel da biotecnologia numa série de artigos [en] para o DesMoines Register, a serviço do Pulitzer Center for Crisis Report. Ele disse que mais de 70% [en] da colheita mais recente na África do Sul, a maior do país em décadas, é geneticamente modificada. Enquanto alguns países africanos permitiram a importação de milho GM como doação de alimentos, outros, como o Zimbábue, rejeitaram [en] esses produtos apesar da necessidade.

O governo norte-americano e companhias de biotecnologia dos Estados Unidos afirmam que os africanos deveriam abandonar sua oposição às colheitas geneticamente modificadas para ajudar a alimentar o continente. A Fundação Bill e Melinda Gates também entrou no tema ajudando a organizar a Aliança para a Revolução Verde na África (AGRA) [en] em 2006, e, mais recentemente, financiando pesquisas para a criação de um tipo de milho mais resistente à seca. Alguns especialistas em agricultura na África também estão convocando os africanos [en] para aceitarem as tecnologias agrícolas para impulsionar a produção de alimentos. O blog GMO Africa acredita [en] que os africanos deveriam aproveitar a biotecnologia:

“An open-door policy to new technologies, especially in the field of agriculture, is what Africa needs. When activists intimidate Africa, through fear, into not exploring potential benefits of GM foods, the continent suffers. They stymie a rational debate about whether GM foods have any relevance to Africa.”

Uma política de portas abertas para novas tecnologias, especialmente no campo da agricultura, é do que a África precisa. Quando os ativistas intimidam a África, pelo medo, para não explorar os potenciais benefícios dos alimentos geneticamente modificados, o continente sofre. Eles barram um debate racional sobre se o alimento geneticamente modificado tem alguma relevância para a África.

No entanto, muitos blogueiros estão fartos da ampla introdução de OGMs em um continente composto basicamente por pequenas propriedades. Um artigo no site progressista pan-africano Pambazuka News, por Nidhi Tandon, descreve [en] as preocupações:

The risks to Africa of fully adopting industrial agriculture in general and GM seeds in particular include:

- transferring its food and farming decisions to global corporations

- losing ecological and agricultural diversity as genetically modified crop varieties spread, and driving small- and medium-scale family farmers off their land because they cannot afford the expensive inputs, including genetically modified seeds, that industrial agriculture demands.”

Os riscos de a África adotar amplamente a agricultura industrial, em geral, e sementes geneticamente modificadas, em particular, incluem:

- transferir suas decisões alimentares e de cultivo para as corporações globais

- perder a diversidade ecológica e agrícola à medida em que as safras geneticamente modificadas se espalharem, expulsando pequenos e médios fazendeiros de agricultura familiar de suas terras por não poderem arcar com os caros insumos, incluindo as sementes geneticamente modificadas, que a agricultura industrial demanda.

Na própria África do Sul, as reações quanto aos OGMs permanecem divergentes [en]. No blog de uma família sul-africana que cultiva sementes “heirloom” (*) [en] e sementes de polinização aberta, chamado Livingseeds, Sean Freeman diz [en] que não há evidências suficientes para apoiar os OGMs mesmo que eles fossem “introduzidos à força para o público sul-africano”:

‘All the evidence’ shows that GMO is the best thing since sliced bread, however the problem we have is that all of the evidence is slanted and prepared by a) GMO houses b) Scientists that have their research grants supplied by GMO houses or c) Universities that are sponsored by GMO houses. All impartial evidence is wiped sorry forced sorry explained away and serious anecdotal evidence is discredited as not having any scientifically credible weight, as it’s not…… scientific. However here is some anecdotal evidence that is pretty indisputable.

‘Todas as evidências’ demonstram que o OGM é a melhor coisa desde o pão fatiado, no entanto, o problema disso é que todas as evidências são enviesadas e elaboradas por a) fabricantes de OGMs b) Cientistas financiados em suas pesquisas por fabricantes de OGMs ou c) Universidades que são patrocinadas por fabricantes de OGMs. Todas as evidências imparciais são apagadas, perdão, expulsas a força, perdão, descartadas e evidências empíricas confiáveis são desacreditadas por não terem qualquer credibilidade científica por não serem… científicas. No entanto, aqui vão algumas evidências empíricas que são incontestáveis.

Freeman faz um link para uma notícia [en] sobre falhas generalizadas em safras sul-africanas no período 2008/9 devido a um “erro de reprodução” nas sementes geneticamente modificadas vendidas pela corporação global Monsanto [en]. Uma petição online [en] iniciada pelo Centro Africano para a Biossegurança [en] afirma que a Monsanto compensou os fazendeiros comerciais que perderam a produção mas proibiu-os de falar com a mídia, e não fez nenhuma menção sobre ter compensado os fazendeiros com poucos recursos que ganharam as sementes e que também perderam sua produção.

A maioria dos especialistas em agricultura concorda que os OGMs, por si sós, não resolverão os problemas com a fome na África. Outras soluções sugeridas pelos blogueiros incluem a agricultura orgânica [en], cultivar seu próprio alimento [en] e promover a mudança social [en]. Quaisquer que sejam as soluções, em Africa Rising 2010, Simpkins argumenta [en] que nós devemos considerar abertamente todas as opções, inclusive a biotecnologia:

The behind-the-scenes debate over GM foods needs to be brought into the open and examined carefully. Promoting products that may be dangerous is unacceptable. However, in the face of growing hunger in Africa, we owe it to the hungry to explore every possibility for meeting their needs while they still live.

O debate de bastidores sobre alimentos geneticamente modificados precisa vir às claras e ser cuidadosamente examinado. Promover produtos que podem ser perigosos é inaceitável. Contudo, face à crescente fome na África, nós temos a obrigação de explorar todas as possibilidades de atender às necessidades dos famintos enquanto eles ainda estão vivos.

(*) Nota do tradutor:  a definição de heirloom é variada na internet. A tradução considerada neste artigo é: geralmente uma variedade de semente com pelo menos 40 a 50 anos de idade, que não está mais disponível comercialmente, e que foi preservada e mantidada íntegra em uma determinada região. Estas sementes também apresentam a virtude de terem sabor ou texturas superiores mas não são resistentes ou lhes falta alguma característica capaz de torná-las comercialmente viáveis. Informações do Gardening Guru [en].

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