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Índia: O Que Significa Ser Indiano?

Categorias: Sul da Ásia, Índia, Etnia e Raça, Ideias, Mídia Cidadã

O que significa ser indiano? Priya Ramani é editora do Mint Lounge [1], a revista semanal de negócios do jornal Mint [2], e um artigo que ela escreveu recentemente, sobre seu sentimento de que ela não era realmente indiana, provocou um acalorado debate online.

Embora escrito com humor, desenhando estereótipos do comportamento indiano, o artigo de Ramani foi certeiro em inflamar reações fervorosas [3]:

Recently I’ve become increasingly convinced that I’m not an Indian. […] I don’t like (or understand) a single Indian soap currently on air. I never talk loudly to my maid, stockbroker or random friend during a movie. I always wait to let people exit an elevator before I enter. I don’t believe that Mumbai’s moviegoers should be forced to stand to attention every time they want to see Shrek (or anyone else) on the big screen. I don’t feel pride—only impatience that my popcorn’s getting cold—when I’m forced to listen to Lata [4]/Asha [5] do a slow-mo version of the national anthem before every single movie I watch in the city of my birth. […] I don’t think we’re the greatest people on earth. I don’t understand our sense of fake pride and nationalism. That whole chest-thumping Jai Ho [6] phase? I never got it.

Recentemente eu me tornei cada vez mais convencida de que eu não sou uma indiana. […] Eu não gosto (ou entendo) um única novela indiana no ar atualmente. Eu nunca falo em voz alta com minha empregada, corretor ou amigo aleatório durante um filme. Eu sempre espero as pessoas saírem do elevador antes de entrar. Eu não acredito que o público de Mumbai deve ser obrigado a ficar em pé cada vez que quiser ver Shrek (ou quem quer que seja) na grande tela. Eu não sinto orgulho – só impaciência que a minha pipoca está ficando fria- quando eu sou forçada a ouvir Lata [4]/Asha [5] fazer uma versão em câmera lenta do hino nacional antes de cada filme que eu assisto na minha cidade natal. […] Eu não acho que nós somos o melhor povo da terra. Eu não entendo o nosso senso de orgulho e falso nacionalismo. Aquela fase toda de Jai Ho [7] batendo no peito. Eu nunca entendi.
Flag of India [8]

Bandeira da Índia (de Wikimedia Commons)

O famoso blogueiro Greatbong escreve em resposta à declaração de Ramani de que ela não acha que os indianos são o melhor povo da terra [9]:

Absolutely we are not. No country is. Yet everyone says they are. If I had a dollar every time someone on US TV, including intellectual powerhouses like Obama and columnists of the best newspapers in the world (and no I am not referring to Fox News anchors), say “There is no doubt that America is the greatest nation of all” and similar hyperbole, I would have been able to buy myself a ticket in a major party to contest an Indian election. Similarly outrageous is the chest-thumping desi [10] patriotism that makes us go “Ooh Aaah India [11]” during a cricket match, a feel-good buzz as empty as the calories of the products of the companies who sponsor such slogans.

Claro que não somos. Nenhum país é. No entanto, todos dizem que são. Se eu ganhasse um dólar cada vez que alguém na TV dos EUA, incluindo potências intelectuais como Obama e colunistas dos melhores jornais do mundo (e não, eu não estou me referindo aos âncoras da Fox News), diz: “Não há dúvida de que a América é a maior nação de todas” e hipérboles similares, eu teria sido capaz de me comprar um lugar em um grande partido para concorrer em uma eleição indiana. Escandaloso de forma semelhante é o patriotismo de bater no peito desi [10] que nos faz dizer “Ooh Aaah India [11]”durante uma partida de críquete, um zumbido de sentir-se bem bem tão vazio quanto as calorias dos produtos das empresas que patrocinam esses slogans.

Greatbong continua:

However being proud of one’s country does not imply a belief in its “bestness” and its infallibility. As a matter of fact, patriotism lies in accepting our faults (and we have many, a few of which Ms. Ramani mentions). But that should not be taken to an extreme because then we lose sight of what it is we have got right. And once that happens, we stop working to safeguard it. When I say I am proud of being an Indian, I mean I am proud of its culture of plurality and its intrinsic tolerance of contrarianism. […] The Indian spirit of acceptance is something that is often not in evidence in some of the “freest countries of the world”. […] Unfortunately, we are marching fast down a path of competitive intolerance, one that will lead to us to become a mirror of Pakistan, characterized by bigotry of the worst kind. When and if that comes to pass, then yes I am going to raise questions about my identity as an Indian. But till that happens, it is vital, at least for me, to not only recognize what ails us but also what does not, to stay grounded between the extremes of self-flagellation and gratuitous back-slapping.

No entanto se orgulhar de seu país não implica uma crença na sua “superioridade” e sua infalibilidade. Por uma questão de fato, o patriotismo reside em aceitar nossos erros (e temos muitos, alguns dos quais  a senhorita Ramani menciona). Mas isso não deve ser levado ao extremo, porque então perdemos de vista o que é que temos direito. E uma vez que isso acontece, nós paramos de trabalhar para o proteger. Quando eu digo que tenho orgulho de ser indiano, quero dizer que estou orgulhoso de sua cultura da pluralidade e da sua intrísiseca tolerância de ser do contra. […] O espírito indiano de aceitação é algo que muitas vezes não existe em alguns dos “países mais livres”do mundo”. […] Infelizmente, estamos caminhando rapidamente para um caminho de intolerância competitiva, que vai levar-nos a nos tornar um espelho do Paquistão, que se caracteriza pelo fanatismo da pior espécie. Quando e se isso vier a acontecer, aí sim eu vou levantar questões sobre a minha identidade como indiano. Mas até que isso aconteça, é vital, pelo menos para mim, não só apenas reconhecer o que nos aflige, mas também o que não, para ficar aterrado entre os extremos de auto-flagelação gratuita e tapinhas nas costas.

Comentando sobre o post de Greatbong, Shan diz [12]:

[Ramani's] article reflects a lot of what we think, but then ruins it all by equating certain traits with “Indianness”. Indianness is something that no one, not even bigger and better philosophers and sociologists than her have been able to define. But that does not stop our lady from ranting against anything she can think of. Poor writing. Poorer thinking.

O artigo de Ramani reflete muito do que pensamos, mas estraga tudo ao igualar certos traços com a “indianidade”. Indianidade é algo que ninguém, nem mesmo melhores e maiores filósofos e sociólogos que ela foram capazes de definir. Mas isso não impede que a nossa senhora de vociferar contra qualquer coisa que ela possa pensar. Redação pobre. Pensamento mais pobre.

Outro comentarista,, liberalcynic, escreve [13]:

What bothered me most about her article is not that her whole non-Indian thesis has a flimsy leg to stand on, but the tone of the whole article. So much condescension!

O que mais me incomodou sobre o artigo dela não é que toda a sua tese de não-indianos é muito frágil, mas o tom do artigo inteiro. Tanta condescendência!

Arindam comenta de forma raivosa [14]:

I don’t know what kind of delusions some money, a western education and sheer good luck can bring to people. The real irony is that they talk about India and its people – of whom they are only ashamed if anything. I hear the same foolishly condescending tone in Priya Ramani’s diatribe. Unbelievably, these people don’t stop short of anything – having to stand up for the National Anthem, much less take pride in it, is a big pain in their bacon-puffed bottoms. Their tolerance for another Indian is zero, but they’d go drooling after a foreign guest at a club dinner wagging their tails behind them. The very perspective of the stereotypical Indian that Priya Ramani has is a western one, she is an unabashed western apologist – and she lies through her teeth when she says that white is not her favourite color of skin.

Eu não sei que tipo de ilusões algum dinheiro, uma educação ocidental e de pura boa sorte podem trazer para as pessoas. A ironia real é que eles falam sobre a Índia e seu povo – dos quais eles apenas sentem vergonha, se muito. Eu ouvi o mesmo tom tolamente condescendente na diatribe de Priya Ramani. Por incrível que pareça, essas pessoas não param por nada – tendo de ficar em pé para o Hino Nacional, muito menos que sentir orgulho nisto, [sentem como se fosse] uma grande dor em suas partes inferiores inchadas de [comer] bacon. Sua tolerância por outro indiano é zero, mas eles vão babar frente a um convidado estrangeiro em um jantar do clube abanando o rabo atrás deles. A perspectiva do estereótipo indiano que Priya Ramani tem é a ocidental, ela é uma ousada apologista ocidental – e ela mente compulsivamente quando ela diz que não é branca a sua cor favorita de pele.

A blogueira Manasa Malipeddi, em Bangalore, pensa que o artigo de Priya Ramani é brilhante, mas ela examina alguns pontos feitos [15] por Ramani:

None of the things she wrote, mean that she is not Indian. […] We aren't the greatest people in the world. True, only a zealot would say otherwise. She never understood Indians’ sense of (fake) pride, as she puts it, during the “Jai Ho” phase. Agree Jai Ho wasn't A. R. Rahman's [16] best. I'd also like to say that Slumdog Millionaire [17] isn't an Indian movie, but a movie about India made by a foreigner, and we need not feel proud that it won Oscars. But aren't we happy that A. R. Rahman, with that song, has catapulted Indian contemporary music (the kind I think the author likes since she doesn't like Lata's slow version of the national anthem) on to the world stage? Why shouldn't that make us happy, and proud? […] The author has harped on the stereotype that outsiders have about Indians, and tried to fit herself in it. She didn't fit in. Doesn't mean she's not Indian.

Nenhuma das coisas que ela escreveu significa que ela não seja indiana. […] Nós não somos o melhor povo do mundo. É verdade, só um fanático diria o contrário. Ela nunca entendeu o sentimento indiano de (falso)orgulho, como ela diz, durante a fase “Jai Ho”. Concordo, Jai Ho não foi o melhor de A. R. Rahman [16]. Eu também gostaria de dizer que Slumdog Millionaire [Quem Quer Ser um Milionário] não é um filme indiano, mas um filme sobre a Índia feita por um estrangeiro, e não precisamos nos sentir orgulhoso [por] que [o filme] ganhou Oscares. Mas não estamos felizes que AR Rahman, com essa canção, tenha catapultado a música indiana contemporânea (do tipo que eu acho que a autora gosta, já que ela não gosta da versão lenta de Lata do hino nacional) no palco do mundo? Por que não deveria nos fazer felizes e orgulhosos? […] A autora e deteve longa e tediosamente sobre o estereótipo que os estrangeiros têm sobre os indianos, e tentou encaixar-se nele. Ela não se encaixava. Não significa que ela não seja indiana.

O blogueiro Raj, em Chennai, suspeita de patriotismos em geral [18]:

I agree with her about the chest-thumping and the constant proclamation of patriotism that we keep indulging in. When Sachin [19] scores runs, he is not doing it for himself, but is sweating it out for his motherland. When Amitabh [20] is acting, the last thought on his mind is money; he is working for the greater glory of the country and to keep the country’s flag flying high. Every morning these guys wake up and feel the need to say something profoundly patriotic on their blogs or tweets. (“My caste? I am an Indian.”) As Shaw [21] put it, patriotism is the unreasonable belief that your country is the best merely because you were born in it. Being born in India was a random genetic event. Just accept it as a fact and move on. You don’t have to be proud of it, nor have to regret it.

Concordo com ela sobre o “bater no peito” e a constante proclamação de patriotismo que continuamos a tolerar. Quando Sachin [19] marca corridas [Pontuação de críquete – nota GV], ele não está fazendo isso para si mesmo, mas está suando pela sua pátria. Quando Amitabh [20] está atuando, o último pensamento em sua mente é o dinheiro; ele está trabalhando para a maior glória do país e para manter a bandeira do país voando alto. Todas as manhãs, esses caras acordam e sentem a necessidade de dizer algo profundamente patriota em seus blogs ou tweets. (“Minha casta? Eu sou indiano.”) Como Shaw [21] coloca, o patriotismo é a crença irracional de que o seu país é o melhor só porque você nasceu nele. Ter nascido na Índia foi um evento aleatório genético. Basta aceitá-lo como um fato e seguir em frente. Você não tem que se orgulhar, nem tem que se arrepender.