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Brasil: “Tsunami” atinge duramente cidades do Nordeste

Pelo menos 46 pessoas morreram e centenas continuam desaparecidas desde sexta-feira, 18 de junho, após inundações torrenciais que varreram os estados nordestinos de Alagoas e Pernambuco, na pior tragédia ambiental da memória da população local. Apelidadas de o “tsunami nordestino”, as enchentes foram comparadas com catástrofes similares na Ásia, como o tsunami no Oceano Índico em 2004.

São pelo menos 180 mil pessoas desalojadas pelo desastre, sendo que muitas encontraram abrigo em escolas, igrejas ou na casa de parentes. A maioria das pessoas perdeu tudo que tinha e agora depende exclusivamente de ajuda humanitária. Com a demora na chegada da assistência, muitos estão passando fome e adoecendo.

De Santana do Mundaú, uma das mais atingidas pelas chuvas em Alagoas, um repórter cidadão filmou o momento em que a enchente invadiu a cidade, na última sexta-feira. O usuário do YouTube TheWelligton1 fez as imagens de cima do telhado de sua casa:

Depois de ter perdido tudo, Teresa Aragão publicou imagens da destruição ao seu redor e celebra o fato de estar viva, sã e salva, depois da maior catástrofe que já presenciou em sua cidade natal, Palmares (Pernambuco). Ela usa o próprio blog para divulgar notícias e coordenar doações para aqueles que precisam, com especial ênfase para pessoas especiais:

A maior catástrofe que eu já presenciei aqui na minha cidade. a maior enchente de todos os tempos!!! Toda a minha família perdeu tudo!!!estamos sem roupas , documentos e sem remédios também.Graças a Deus não houve mortes na família. O desespero está grande , um verdadeiro caos de lama e amontoados,carros virados submersos…destruição total.

Branquinha, after the flood. Foto Marcelo Albuquerque, usada com permissão.

Branquinha, depois da enchente. Foto Marcelo Albuquerque, usada com permissão.

De acordo com Gilvan Júnior, caiu o equivalente a um mês de chuva em menos de uma semana – Junho é normalmente a temporada de chuvas no Brasil, mas esse nível de precipitação não havia sido previsto:

Na capital alagoana, a expectativa era que chovesse 298,3 milímetros (mm) durante todo o mês, mas até ontem (22) foram registrados de 470,2 mm. Em Recife, choveu 456,7 mm até a manhã de hoje (23), enquanto eram esperados 388,9 mm em todo o mês.

Algumas cidades menores foram quase completamente destruídas pelas enchentes, enquanto comunidades inteiras às margens dos rios Mundaú e Capibaribe, em Alagoas e Pernambuco respectivamente, foram completamente arrastadas pelas águas. Pontes quebradas e estradas inundadas deixaram muitas cidades isoladas; não há energia elétrica, água potável ou serviços telefônicos em vários locais. Lays descreve a imagem desoladora em Alagoas, incluindo a  situação em Branquinha, uma das mais pobres cidades do país, que sofreu mais de 90% de destruição. O município precisará ser reconstruído em outro local:

Em cidades como Branquinha e Quebrangulo não restou um só prédio público de pé. Não há postos de saúde, mercadinhos ou farmácias que possam dar uma ajuda emergencial à população. Essas cidades terão que ser reconstruídas por completo, visto que também nenhuma documentação restou nos cartórios de registro públicos.

Quebrangulo

"A estimativa é que 70% da Cidade de Quebrangulo, distante 115 km de Maceió, foi destruído pelas águas do rio Paraíba". Foto Marcelo Albuquerque, usada com permissão

A blogosfera ficou devastada pela notícia de enchentes dessa magnitude em uma área já castigada pela pobreza. Mas foi a informação de que as condições climáticas adversas não foram a causa principal do desastre e sim a destruição do meio-ambiente que deixou muitos enfurecidos. Alcides Faria aproveitou a oportunidade para enviar um recado para um político local que adota políticas polêmicas na área de meio-ambiente:

Como todos sabem, o ocorrido em Alagoas também está relacionado ao desmatamento e à não proteção das microbacias. A vegetação marginal de córregos, lagoas e rios é essencial para conter o assoreamento e a crescida rápida do nível das águas.

Ruas debaixo d'água em Quebrangulo, Alagoas. Foto Marcelo Albuquerque, usada com permissão.

Ruas debaixo d'água em Quebrangulo, Alagoas. Foto: Marcelo Albuquerque, sob autorização.

Muitos blogueiros publicaram informações sobre como ajudar. Redes de solidariedade começam a aparecer na internet e fora dela, como o SOS Alagoas, um site que usa o OpenStreetMaps para mapear as áreas mais afetadas e divulgar informações sobre pontos de coleta de donativos. Outros blogueiros se unem para fazer uma blogagem coletiva de emergência com o objetivo de conscientizar a população sobre a necessidade e as maneiras de ajudar os necessitados.

Décio Junior diz que as imagens da tragédia fazem com que ele se lembre do Tsunami na Indonésia e o terremoto no Haiti. No momento em que todos só pensam na Copa do Mundo na África do Sul, ele tenta capturar a atenção dos leitores para assuntos mais urgentes:

Mas não há diferença para a mãe natureza, não há hiato, não há desigualdade. A tragédia pode acontecer para John ou pra João.
E é uma pena ter que repetir esta retórica, mas preciso de alguma maneira contagiar todos os tocedores nesta corrente pelo Brasil.

Vamos juntos, tudo é um só coração, um só povo irmão. Pra frente Brasil, salve seus filhos, salve seus irmãos.

Linha férrea destruída pela enchente em Quebrangulo. Foto Marcelo Albuquerque, usada com permissão.

Linha férrea destruída pela enchente em Quebrangulo. Foto Marcelo Albuquerque, usada com permissão

Depois de alguns dias de trégua, a chuvarada que assolou a região nos últimos dias ainda não chegou ao fim, pelo menos por enquanto. De acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia, a previsão é de chuva para os próximos dias, o que poderá causar uma nova subida de rios e córregos na área e dificultar a chegada das equipes de resgate nas áreas afetadas.

As cidades alagadas ficam no nordeste do Brasil, uma região já castigada por níveis extremos de pobreza e normalmente afetada por clima extremamente árido e seca. Enchentes, no entanto, tornaram-se um desastre anual recorrente: em maio de 2009, pelo menos 44 pessoas morreram e 380 mil ficaram desabrigadas nas mesmas áreas.

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