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Eleições 2010 no Sudão: o bom, o mau e o feio

Em 11 de Abril de 2010, os cidadãos do Sudão foram às urnas pela primeira vez em 24 anos. Uma geração inteira que nasceu, cresceu, educou-se e se graduou sob um regime totalitário de governo pôde votar.

As eleições sudanesas pavimentariam a estrada para o referendo do sul do Sudão, que pode mudar as fronteiras geográficas do maior país africano para sempre.

Por favor, continue comigo para descobrir o que está acontecendo no Sudão a partir de blogueiros do País e da diáspora.

No post “Observing Sudan's elections” [Observando as eleições do Sudão, en] em seu blog, Fatma Naib diz:

The process was supposed to start from 0800am Mecca time. I arrived at a polling station in central Khartoum, where voting began more than an hour late.

But the delay did little to dim the fervour of several 60-year-old women, who were waiting eagerly for the voting process to start.

I asked some of them of how they felt. Khadija, 63, said that she was excited and this is her “right” as a Sudanese. I noticed that there were a lot of older women and soldiers who came early to cast their vote.

O processo era para ter começado às 8h, no horário de Mecca. Cheguei a um ponto de votação no centro de Cartum, onde a votação começou com uma hora de atraso.

Mas o atraso interferiu pouco no fervor de várias mulheres de 60 anos, que aguardavam ansiosas para o início do pleito.

Perguntei a alguns como se sentiam. Khadija, 63, disse que estava animada e que era seu “direito” como sudanesa. Percebi que havia muitas senhoras de idade e soldados que chegaram cedo para votar.

No entanto, ela percebeu que não havia muitos jovens sudaneses de 18 a 35 anos no ponto de votação:

I didn't see many young Sudanese in the 18-35 age group. Perhaps this will change in the coming days.

The process was observed by local and international observers. The Carter Center was there and Jimmy Carter, the former US president, came to watch the process unfold. When asked about what he thought of the polling procedures, he said that everything seemed “orderly”.

Não vi muitos jovens sudaneses da faixa de 18 a 35 anos. Talvez isso mude com os próximos dias.

O processo foi visto por observadores locais e internacionais. O Carter Center estava lá, e Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos, veio ver o desenrolar do processo. Quando indagado sobre o que ele pensava sobre os procedimentos de votação, ele dise que tudo parecia “em ordem”.

Um membro do grupo “Girifna” (em inglês, We Are Disgusted/We Had Enough, ou Estamos Enojados/Estamos Cansados em português) declarou [en]: “Votei pela primeira vez na minha vida ontem, nas primeras eleições sudanesas em 24 anos”:

I voted for the first time in my life yesterday in the first Sudanese elections in 24 years. The first vote I ever cast was in an election that is rigged and predetermined. I debated whether I should even cast it because all the opposition candidates had pulled out, and there was so much evidence of foul play during the registration period and leading up to the elections, that it seemed pointless. I voted anyway, partly because my candidate was still on the ballot despite having pulled out, and because I wanted to exercise my right to vote against President Bashir and the ruling National Congress Party (NCP).

Votei pela primeira vez na minha vida ontem, nas primeras eleições Sudanesas em 24 anos. O primeiro voto que já fiz numa eleição guarnecida e predeterminada. Pensei muito sobre votar, já que os candidatos de oposição tinham abandonado o pleito, e havia tanta evidência de corrupção no período de registro e pré-eleições que parecia sem sentido. Votei do mesmo jeito, de um lado porque meu candidato continuou na cédula, apesar da desistência, e porque eu queria exercer meu direito de votar contra o presidente Bashir e o atual Partido do Congresso Nacional [en] (NCP, da sigla em inglês).

Girifna pede para Missões de Observação pararem de dar credibilidade às eleições no Sudão:

International observer missions have so far been subject to severe government intimidation. The Sudanese government harshly criticized the Carter Center after publication of its report on March 17, 2010 which detailed significant violations in the elections process throughout all stages including fraud and repression of speech and other freedoms.  The report also described the uneven playing field for political parties and unequal access to media suggesting technical advises to enable National Election Commission (NEC) to handle the electoral process.  Since then the Sudanese government has on multiple occasions threatened all international observer groups more broadly.  On March 22President Omar al Bashir publicly threatened to cut off the noses and fingers of internationals who “intervene in internal affairs” and endorsed any delay of elections. He repeated this threat on April 5 in Jazeera State. Threats to international actors who intervene to oppose any postponement of the poll—such as for example, the United States Special Envoy— are conspicuously absent.

Missões de observadores internacionais foram alvo de forte intimidação pelo governo. O governo sudanês criticou ferozmente o Carter Center pela publicação do relatório de 17 de março de 2010 detalhando violações significativas de todas as formas no processo eleitoral, entre elas fraude e repressão à expressão e outras liberdades. O relatório também descreveu o jogo desigual para partidos políticos e limitado acesso à mídia, sugerindo ao conselho técnico da Comissão Nacional Eleitoral (CNE – ou NEC, na sigla em inglês) a administrar o processo. Desde então, o governo ameaça todos os observatórios internacionais de forma ampla, em muitas ocasiões. Em 22 de março, o presidente Omar al Bashir ameaçou publicamente de cortar nariz e dedos dos estrangeiros que “intervirem em assuntos internos” e aprovassem qualquer atraso nas eleições. Ele repetiu essa ameaça em 5 de abril no estado de Jazeera. Ameaças a atores internacionais que intervenham para opor qualquer adiamento no pleito – por exemplo, o enviado especial dos Estados Unidos – são obviamente ausentes.

No mesmo artigo, o grupo argumenta que observadores internacionais estão enfraquecendo os observadores locais:

This silent acquiescence by international observer missions in the face of increasing repression also undermines the attempts of local domestic observers to monitor the process. Today, for example, a number of local organisations, all of which have been internationally recognized as independent civil society experts, were summarily informed they would not be permitted to participate as election monitors by the NEC. The NEC refused to provide either a copy of this determination in writing or reasons for the decision. The silence is contributing to the climate of fear and insecurity which is unfolding around the elections, adding to both the apprehension and probability of violence and greater repression.

Essa aquiescência silenciosa dos observadores internacionais em face à crescente pressão também enfraquece tentativas de observadores locais para monitorar o processo. Hoje, por exemplo, um número de organizações locais, todas internacionalmente reconhecidas como observatórios civis especialistas, foram sumariamente informados que não lhes seria permitido participar como observadores eleitorais pela CNE. A CNE se recusou a providenciar cópia dessa determinação por escrito ou os motivos da decisão. O silêncio contribui para um clima de medo e insegurança que se desdobra nas eleições, somando ainda às prisões, probabilidade de violência e maior repressão.

O Sudan Tribune [en] é da opinião de que a presença de observadores internacionais no Sudão serve de interesse do Partido do Congresso Nacional (PCN – ou NCP, da sigla em inglês), atualmente no poder.

BlackKush conclui [en] que o processo inteiro está se tornando uma vergonha:

If the elctions are not going to be free and fare in the North, how will it be in the South? Is it not the same elections, same ballots and same NEC? When there are no explanations, the conspiracy theories abound and I like what I hear, because it goes with what I believe a long time ago that it is going to happen: that SPLM is handing Northern Sudan to NCP and NCP is handing Southern Sudan to the SPLM. That will be the results of the elections, each ensuring their grip in power. And the oppositions parties, they can go to hell.

The opposition have already sensed this and said the SPLM cut a deal with NCP. Are they right? Maybe. Bashir has threatened to postpone the crucial referrundum in the South in 2011 if SPLM withdraw completely from the elections aor asked for delays. For the SPLM, 2011 is much more important than the elections.

Se as eleições não forem livres e justas no norte, como serão no sul? São as mesmas eleições, as mesmas cédulas e o mesmo CNE, não são? Quando não há explicações, as teorias conspiratórias proliferam, e gosto do que escuto porque vai junto com o que acredito, há muito tempo, que vai acontecer: que o SPLM está entregando o norte do Sudão ao PCN e que o PCN está entregando o sul do Sudão ao SPLM. Esse será o resultado das eleições, cada qual reforçando seu poder. E os partidos de oposição, esses podem ir ao inferno.

A oposição já percebeu isso e disse que o SPLM costura um acordo com o PCN. Eles tem razão? Talvez. Bashir ameaçou adiar o tão crucial referendo no sul para 2011 se o SPLM deixar completamente as eleições ou pedir por adiamentos. Para o SPM, 2011 é muito mais importante que as eleições.

Finalmente, o Sudan Thinker questiona [en] o papel dos Estados Unidos nestas eleições históricas:

Why do the US envoy to Sudan and Jimmy Carter seem to express a rather optimistic, albeit cautious views about the event? Well, to answer that, one first needs to notice that the US administration took a position contrary to that of the opposition parties in Sudan.

While many in the opposition wanted the elections to be postponed, the US pressed that they should continue on time, regardless of boycotts and threats of more boycotts by the opposition. This is because America views the historic event within the bigger and more important context in which it is happening: the implementation of the Comprehensive Peace Agreement, which has milestones and a timeline designed to lead to the Southern Sudan referendum in January 2011.

Por que o enviado especial dos EUA para o Sudão e Jimmy Carter parecem passar uma visão otimista, apesar das visões cautelosas sobre o evento? Bem, para responder isso, alguém tem que perceber que a administração estadunidense tomou posição contrária à dos partidos de oposição sudaneses.

Enquanto muitos na oposição queriam que as eleições fossem adiadas, os EUA pressionaram para que fossem mantidas na data, apesar dos boicotes e ameaças a boicote da oposição. Isso é porque os Estados Undos veem o evento histórico como parte de um contexto maior e mais importante de acontecimento: a implementação do Acordo de Paz Compreensivo, que funciona como marco e linha do tempo para conduzir ao referendo do sul do Sudão, em janeiro de 2011.

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