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Brasil: Blogueiros Reagem ao Acordo Nuclear Irã-Brasil-Turquia

Em 17 de maio, o Irã anunciou um novo acordo com o Brasil e a Turquia sobre o enriquecimento de urânio incluído no programa nuclear do país. Por várias semanas, os EUA tentaram de forma infrutífera negociar um acordo similar enquanto pressionava o Irã a modificar suas políticas sobre os relatórios de enriquecimento de urânio e atividades de re-processamento para a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

O acordo dita que o Irã deve enviar 1.2 toneladas de urânio à Turquia, que irá enriquecê-lo à 20% para fins médicos, e que o Brasil, como mediador, deverá garantir que o acordo seja respeitado. O presidente Brasileiro, Lula, e o Primeiro Ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, viajaram à Teerã para convencer o presidente Mahmoud Ahmadinejad a aceitar o acordo como última chance de evitar as sanções na ONU sugeridas na Cúpula de Segurança Nuclear, em abril.

Instalação Nuclear de Natanz no Irã. Foto de Hamed Saber. Sob licença CC

Grande parte das críticas trazidas pela blogosfera brasileira tratam não da opção brasileira em si – ainda que alguns blogueiros tenham criticado e considerado a posição do presidente Lula amadora – mas principalmente [tratam] do papel dos EUA e da ONU, assim como se é possível ou não confiar no Irã.  De qualquer forma, a idéia principal por detrás dos argumentos não é nova.

Como Dolphindiluna, do blog Mobilização BR, declarou:

O acordo assinado pelo Irã e intermediado por Brasil e Turquia não difere muito daquele apresentado pelo grupo dos 5+1 – Estados Unidos, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha – no final do ano passado e mediado pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica).

A blogueira brasileira Maria Frô tem uma opinião forte sobre o assunto e descreve o acordo assinado por Irã, Brasil e turquia como…

[…] a maior vitória diplomática dos últimos tempos

Até agora os EUA não renunciaram ao direito de propor sanções no Conselho de Segurança da ONU e, por isto, é alvo de muita crítica por parte dos blogueiros brasileiros que majoritariamente discordam de que a imposição de sanções fará qualquer diferença, e consideram que os EUA simplesmente querem assumir a ONU. Como o blog Polivocidade acrescenta:

Várias ocasiões na história nos remetem ao despeito, e ao mesmo tempo ao grande mando que os EUA exercem sobre a ONU. Basta lembrar aqui a total indiferença da ONU a respeito da invasão dos EUA ao Iraque, e tantas outras medidas econômicas que constrangem e prejudicam a soberania de outros países no mundo, realizadas pelos EUA, onde a ONU não faz valer sua autoridade institucional.

Os net-cidadãos também extendem seu ceticismo às intenções do Irã e na saúde do acordo.  Gustavo Chacra em seu blog De Beirute à Nova York, escreve:

Alguns dizem que o objetivo de Teerã é ir empurrando com a barriga a questão nuclear até atingir a capacidade de produzir um armamento, sem necessariamente fabricá-lo. Eu tendo a concordar com esta teoria. O mesmo ocorreu com a Coréia do Norte. Mas, desde ontem, Brasil e Turquia passaram ser fiscais.

Photo by Acewill. Under CC

Radio Active by Acewill, used under CC

Sobre o papel do Brasil, o professor José Flavio Sombra Saraiva escreve para o blog Mundorama e acredita que o Brasil não deveria se meter no meio de tal problema:

O nó não se desata. E o Brasil se meteu no meio dos interesses cruciais dos gigantes, ambiciosos na conservação do controle tecnológico do ciclo nuclear completo. É poder a ser conservado. Valeu o esforço da diplomacia nacional em seus propósitos de diálogo. Mas o mundo é bem mais complexo que o voluntarismo da política externa do Brasil no capítulo nuclear, embora em outras áreas tenha obtido avanços relevantes nos últimos anos.

Andre Kenji do blog Dissidência também critica o papel brasileiro no conflito, que ele considera como talvez uma simples oportunidade para um “teatrinho diplomático”:

Certo, há o Brasil. O país tem um poderio militar fraco, não muito melhor ao do Irã e nunca conseguiu ter uma força diplomática forte nas pendengas envolvendo seus próprios vizinhos. Mas sempre se enxergou como uma espécie de Estados Unidos tropical, e certamente precisava exercitar isso de alguma forma. Certo? Então, nada melhor que um teatrinho diplomático.

Chico Barreira, em um longo post entitulado ‘O Impasse Ecológico‘, no blog Novas Ideias, relaciona a questão à própria soberania do país, dizendo que o Brasil está defendendo sua própria indústria nuclear:

Logo, ao defender o direto do Irã e de qualquer outro pais  de acesso à tecnologias nucleares, o Brasil defende essencialmente os seus interesses estratégicos e comerciais. Isto, pela boa razão de que possuímos mais de cinqüenta por cento das reservas  naturais de urânio do Planeta e estamos em vias de ingressa no seleto grupo de apenas seis países que controlam o  processo integral de enriquecimento do  desse minério.

Finalmente, Leandro Fortes, do blog Brasília, eu vi, analisa o papel do Presidente Lula e da diplomacia brasileira e elogia a independência e o profissionalismo do Ministro de Relações Exteriores Celso Amorim. A mídia brasileira está falando sobre a possibilidade de um Prêmio Nobel da Paz para o Presidente Lula agora que seu mandato está chegando ao fim. Leandro Fortes sarcasticamente diz [para a mídia] o que ele acredita que está por detrás de toda política externa e do próprio Nobel, marcando o esforço feito pelo governo para chegar a tal acordo:

O sucesso da diplomacia brasileira nesse episódio criou um paradigma de atuação profissional do Itamaraty até então considerado impossível. De forma pacífica e disciplinada, a operação que resultou no acordo foi conduzida com extrema leveza, a caminhar sobre os ovos de aves agourentas distintas que se odeiam desde as primeiras luzes. Incorporou à biografia de Lula essa aura dos que lutam pela paz, requisito fundamental para a seleção dos premiados do Prêmio Nobel da Paz. Mas, antes que isso aconteça, a mídia brasileira vai finalmente descobrir que o milionário Alfred Nobel inventou a dinamite.

O resultado concretamente político dessa ação no Oriente Médio, apesar da bem sucedida pressão da extrema-direita americana sobre Barack Obama a favor de sanções contra o Irã, foi a desconstrução do discurso conservador da diplomacia brasileira, todo ele montado sobre as teses de alinhamento automático aos Estados Unidos, reação acrítica de atos de barbárie cometidos por Estados ocidentais e a submissão pura e simples às regras financeiras ditadas pelas nações ricas. Nesse aspecto, a história do chanceler Celso Amorim será extremamente mais relevante do que a de seus antecessores, torcedores vibrantes pelo fracasso do ministro com ampla visibilidade nas matérias e programas de entrevista da velha mídia nacional.

Dado o acordo a que chegaram Brasil e Turquia com o Irã, o último dá passos em direção a um caminho pacífico para o conflito iminente e para alcançar um caminho diferente no confronto com as potências ocidentais. Se o Irã é digno de confiança ou não é um assunto diferente. Visto que o Brasil e outros países tem o direito de possuir armas atômicas ou mesmo energia nuclear, já é tempo de refletir sobre os requisitos para qualquer outro país com falta de recursos naturais possa diversificar suas fontes de energia, e que sanções, se alguma, devem ser impostas e por quem.

Este artigo foi revisado (em sua versão original em inglês) por Marta Cooper.

3 comentários

  • vania

    Gostaria de acompanhar os acontecimentos sobre essa delicada controvérsia.

  • FREI BETTO

    Irã: quem atira a primeira pedra?
    Frei Betto

    O presidente Lula empreendeu uma delicada operação diplomática para evitar que o Irã utilize a energia nuclear para fins bélicos. As nações mais poderosas do mundo, capitaneadas pelos EUA, logo expressaram sua indignação e discordância: como um “paiseco” como o Brasil ousa querer ditar regras na política internacional? Marx, Reich e Erich Fromm já nos haviam prevenido que preconceito de classe costuma ser um tabu arraigado. Como alguém que nasceu na cozinha tem o direito de ocupar a sala de jantar?

    Pelo critério de George Bush, lamentavelmente preservado por Obama, o Irã faz parte das nações que integram o “eixo do mal”. Não morro de amores pela terra dos aiatolás, considero o governo iraniano uma autocracia fundamentalista e discordo do modo patriarcal que o Irã trata as suas mulheres, como seres de segunda classe. Diga-se de passagem, assim também faz o Vaticano, razão pela qual as mulheres são impedidas de acesso ao sacerdócio.
    Mas não custa questionar o cinismo dos senhores do mundo com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU: por que Israel tem o direito de possuir arsenal nuclear e o Irã não? Ele jogaria uma bomba nuclear sobre outras nações? Ora, isso os EUA já fez, em 1945, sacrificando milhares de vidas inocentes em Hiroshima e Nagasaki.

    O Irã desencadearia uma guerra mundial? Ora, o Ocidente civilizado já promoveu duas, a segunda vitimando 50 milhões de pessoas. O nazismo e o fascismo surgiram no Oriente? Todos sabemos: foram criações diabólicas de dois países considerados altamente civilizados, Alemanha e Itália.

    Os árabes, ao longo de 800 anos, ocuparam a Península Ibérica. Deixaram um lastro de cultura e arte. A Europa ocupou e saqueou a África e a Ásia, e o lastro é de miséria, mortandade e extorsão. O Irã é uma ditadura? Quantas não foram implantadas na América Latina pela Casa Branca? Inclusive a do Brasil, que durou 21 anos (1964-1985). Há pouco, a Casa Branca apoiou o golpe militar que derrubou o governo democrático de Honduras.

    Fortalecido belicamente o Irã poderia ocupar países vizinhos? E o que dizer da ocupação usamericana de Porto Rico, desde 1898, e agora do Iraque e do Afeganistão? E com que direito os EUA mantêm uma base naval, transformada em cárcere clandestino de supostos terroristas, em Guantánamo, território cubano?

    Respaldado em que lei internacional os EUA implantaram 700 bases militares em países estrangeiros? Só na Itália existem 14. Na Colômbia, 5. E quantas bases militares estrangeiras há nos EUA?

    Há que admitir: o Irã não está preparado para se integrar no seio das nações civilizadas… Nações que financiam, pelo consumo, os cartéis das drogas, tratam imigrantes estrangeiros como escória da humanidade; fazem do consumismo o ideal de vida.

    E convém lembrar: fundamentalismo não é apenas uma síndrome religiosa. É, sobretudo, uma enfermidade ideológica, que nos induz a acreditar que o capitalismo é eterno, fora do mercado não há salvação e a desigualdade social é tão natural quanto o inverno e o verão.

    Lula candidato era discriminado pelo elitismo brasileiro por não dominar idiomas estrangeiros. Surpreendeu a todos por falar a linguagem dos pobres e revelar-se exímio negociador em questões internacionais.

    Sem o apoio do Brasil não avançaria essa primavera democrática que, hoje, semeia esperança de tempos melhores em toda a América Latina. Os eleitores dão as costas às velhas oligarquias políticas e escolhem governantes progressistas.
    Essa nova geopolítica latino-americana, que oficializará em 2011 a União das Nações Latino-Americanas e Caribenhas, certamente preocupa Washington. A crise financeira bate as portas das nações mais poderosas do mundo e a Europa entra num período de recessão. O livre mercado, o Estado mínimo, a moeda única (euro), a ciranda especulativa, mergulham numa crise sem precedentes.

    Tudo indica que, daqui pra frente, o mundo será diferente. Se melhor ou pior, depende do resultado do embate entre duas forças contrárias: os que pensam a partir do próprio umbigo, interessados apenas em obter fortunas, e os que buscam um projeto alternativo de sociedade, menos desigual e mais humano. É a antiética em confronto com a ética.

    Frei Betto

  • Vania, os blogs linkados neste post costumam cobrir o que acontece por lá, e estes tem links para outros também. Te indico também o meu, tsavkko.blogspot.com que, por questão de ética, não linkei no post!=)

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