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Brasil: Chamada para boicote ao maior jornal do país

No final de novembro, dois movimentos distintos, mas de alguma forma ligados, surgiram na blogosfera e twittosfera brasileira. Um deles convocou os blogueiros a apoiar a campanha de cancelamento em massa de assinaturas do maior jornal do país, a Folha de São Paulo e o website ligado à ele, o UOL. O segundo foi uma manifestação em frente à sede do mesmo grupo de mídia, organizado pelo “Movimento dos Sem Mídia”, capitaneado pelo blog Cidadania, contra o viés tendencioso e a constante manipulação de notícias por parte do Grupo Folha.

Tanto a campanha de boicote quanto a manifestação foram provocadas definitivamente pela mais recente tentativa do jornal de alegadamente buscar um assassinato de caráter contra o presidente brasileiro Lula da Silva, esta vez, através da publicação de um artigo de César Benjamim, um ex-aliado e atual colunista da Folha, dizendo que Lula admitiu, em 1994, ter tentado subjugar sexualmente um companheiro quando preso por crimes políticos nos anos 80 [durante uma conversa com marketeiros e aliados políticos]. Com a negação das outras pessoas presentes na suposta conversa e até mesmo aqueles que estavam presos com Lula durante a Ditadura, incluindo o suposto abusado, o autor do artigo se desculpou por qualquer ofensa e o jornal foi forçado a publicar novas histórias negando as alegações alguns dias mais tarde.

No entanto, ambos os movimentos convergiram em um grande protesto organizado através da blogosfera contra o que muitos chamam de “PIG”, um acrônimo para o Partido da Imprensa Golpista, um termo cunhado para descrever a imprensa tendenciosa brasileira que serve aos interesses políticos de grupos específicos. Os usuários do Twitter @dolphindiluna e @aritana desenvolveram selos inicialmente postados nos blogs Arlesophia, Blog do Tsavkko e Maria Frô, convidando os leitores a cancelarem suas assinaturas do grupo de mídia. Estes selos se espalharam rapidamente pela blogosfera, até o momento em que a Folha enviou um aviso ao ciberativista e blogueiro Antônio Arles, alegando uso indevido das marcas registradas do grupo.
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Arles explicou brevemente a situação e diz acreditar ter sido intimado pelo maior jornal brasileiro:

CENSURADO
Acabo de ser notificado extrajudicialmente por escritório de advocacia representando a Folha para que retirasse os selos da campanha #CancelandoFOLHA #CancelandoUOL, sob pena de processo por suposto uso indevido das marcas. Sendo assim, retirei imediatamente os referidos selos.

No momento não poderei desenvolver um post explicando melhor o caso, mas deixo aqui meu protesto por mais este ato de censura contra blogs.

Foi mesmo um ato de censura? Flávia Penido explica que usando marcas registradas, blogueiros abrem espaço para que os advogados do jornal contestem a campanha. Ela destaca a lei 9279/96:

CAPÍTULO III – DOS CRIMES CONTRA AS MARCAS

Art. 189 – Comete crime contra registro de marca quem:

I – reproduz, sem autorização do titular, no todo ou em parte, marca registrada, ou imita-a de modo que possa induzir confusão; ou
II – altera marca registrada de outrem já aposta em produto colocado no mercado.

Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.

Não tem o que espernear, certo?

Flavia Penido continua, e aponta:

No entanto, que fique claro a proibição da utilização da marca da Folha de São Paulo, não tem o condão de coibir a manifestação daqueles que pretendem boicotá-la – basta que se faça outro selo, sem usar o logo da FSP (atentando também para os crimes de injúria, calúnia, difamação – há que ser mais liso que um bagre, se é que me entendem, mas dá pra fazer, com relativa facilidade). […]

Minha questão aqui é fazer com que todos pensem nas formas de se exercer a livre opinião – e mais do que isso, fazer com que as pessoas deem o correto valor às coisas: o que é mais importante? Fazer o protesto ganhar corpo, crescer, ou ficar dando murro em ponta de faca? Sério que o logo da FSP é tão importante assim pra campanha decolar? Eu acho que não.

Antônio Arles, em foto de Aritanã Dantas.

Antônio Arles, em foto de Aritanã Dantas. Imagem sob Licença Creative Commons.

Antônio Mello, que havia acabado de cancelar sua assinatura do portal online de grupo UOL, iniciou uma nova campanha. Ele acredita que se uma grande parte da blogosfera republicar os logos banidos, a Folha não terá como notificar cada blogger e isso irá forçar o folhetim a desistir:

As publico aqui, convocando-os para que façam o download delas para seus computadores e depois subam-nas para seus blogs ou redes sociais. Eles vão ter que notificar a blogosfera toda. Assim vão aprender que os tempos mudaram e não existe mais informação de mão única.

Marco Aurélio Weissheimer se uniu à campanha e cancelou sua assinatura do jornal do grupo:

A razão: uso indevido da inteligência do assinante.

Folha publishes fake documents. Unsubscribe to it!

"A Folha falsifica documentos. Cancele!"

A decisão da Folha de notificar Arles iniciou uma reação ainda maior, e logo depois do banimento dos selos originais, muitos outros alternativos rapidamente apareceram na web. Rodrigo Vianna, do Escrevinhamentos, publicou o banner à esquerda que faz referência à uma depreciativa matéria publicada pela Folha no começo deste ano [en] contra a possível candidata presidencial Dilma Roussef, usando um e-mail spam como sua principal fonte. O blogueiro diz que sua campanha não é para o boicote da Folha, mas para parar de alimentar a sua atitude:

A “Folha” não gosta de “banner” na internet que peça cancelamento de assinaturas do jornal. O diário da família Frias tentou até intimidar um blogueiro que publicou esses “banners”.
Mas a “Folha” gosta de ficha falsa na primeira página. Ah, ficha falsa pode!!
Então, o povo da internet resolveu bolar um “banner” novo, aproveitando a ficha falsa.

Esta segunda onda de protestos online ajudaram a incentivar as pessoas a participar na manifestação de sábado, 5 de dezembro, quando dezenas tomaram as ruas de São Paulo e se reuniram em frente à sede da Folha para protestar contra a postura do jornal. Esta foi a segunda vez em menos de um ano que a blogosfera se mobilizou para demonstrar naquele local. Com o lema “É a Folha quem estupra o jornalismo “, lembro de muitas razões para a demonstração no meu próprio blog:

Foi Ditabranda, Ficha falsa da Dilma, defesa descarada do Golpe em Honduras, defesa do DemoTucanato de forma inveterada, defesa de Israel, acusações infundadas contra o governo no caso do Blecaute – que em nada lembra o apagão e racionamento de FHC -, oposição sistemática ao governo de forma burra, mentira e violenta, baseada na franca manipulação, e, agora, o golpe de misericórdia, o artigo absurdo e criminoso acusando Lula de ser estuprador ou, ao menos, de ter tentado sê-lo.

"Folha de São Paulo: Headquarters of PIG - Coupist Press". Photo by Aritanã Dantas. Used under a Creative Commons License.

"Folha de São Paulo: Sede do PIG – Partido da Imprensa Golpista". Foto de Aritanã Dantas. Uso sob Licença Creative Commons.

O organizador da demonstração de sábado, Eduardo Guimarães, a descreveu como um sucesso, com pessoas vindo dos estados de São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais:

Missão cumprida e alma lavada. Perdeu quem não veio. Foi uma festa democrática.

Ferindo o bolso

Claudinei Vieira interroga-se se a campanha poderá provocar uma verdadeira mudança de atitude no jornal, já que o boicote parece ter sido eficaz até o momento, para a Folha de prestar atenção ao que interessa:

Isso significa, portanto, de imediato, duas coisas: que uma campanha pela internet realmente está incomodando a Folha, que resolveu revidar. Opa. E de tal modo que está atacando a toda blogosfera e, de quebra, ao direito de expressão. Outro Opa. […]

Eu só fico pensando se eles realmente acreditam que essa campanha depende mesmo e somente de duas únicas imagens…

Alguns blogueiros, como Rodrigo Vianna, acreditam que ferir a mídia no bolso é a maneira mais eficaz de desacreditá-la do que participando de manifestações:

Acho que a melhor forma de atacar essa turma é no bolso. Conheço uma dúzia de pessoas que cancelaram assinatura do jornal nas últimas semanas. Deve haver muitas outras por aí. Então, sugiro uma manifestação sóbria, em loval público, para um ato coletivo de cancelamento de assinaturas. […]

Não é preciso “queimar jornal” (não gosto disso, lembra os rituais fascistas nos anos 30), nem gritar. Basta dizer: não darei mais meu dinheiro a você. Essa linguagem eles entendem.

"Don't read or subscribe to Falha". Falha is a wordplay with Folha, meaning "fail"Maurício Caleiro segue a mesma linha de pensamento, concordando que os blogueiros devem se concentrar na campanha de boicote online:

Deixar de comprar e deixar de comentar qualquer matéria da Folha: este me parece o melhor caminho para legar ao jornal a irrelevância que ele, por suas próprias ações, faz por merecer.

Maria Frô pensa que cancelar o jornal do grupo de comunicação não é suficiente. Ela publicou uma lista das empresas que anunciam no jornal e convidou os leitores a boicotá-las também:

Além de cancelar assinaturas da FOLHA/UOL, proponho que boicotemos empresas e produtos que anunciem neste grupo empresarial. Quem deseja ter sua marca assinada a um jornal que pratica anti-jornalismo não merece que os cidadãos de bem prossigam consumindo seus serviços/produtos.

Folha backed the dictatorship. Unsubscribe to it!

"a Folha apoiou a ditadura. Cancele!"

Lauro Mesquita, do blog Guaciara, diz que o grupo parece estar buscando sua própria falência:

Assinatura do Uol e da Folha não rolam mais aqui e não é só pela ameaça ao blogueiro. Se um jornal é burro assim pra tratar com a discordância, imagina o tanto que é pior a sua opinião sobre as coisas do mundo. […]

Do jeito que tá, até 2015, o grupo empresarial chega a meta da tiragem zero e seus proprietários vão gerir dois fanzines e 50% de um blog. Eu não vou sentir nenhuma saudade.

Co-autoria de Paula Góes.

3 comentários

  • Me parece que vários autores não são exatamente contra as distorções da Folha e sim contra a oposição ao governo lula.

    Eu não sou a favor do lula e também vejo coisas podres nos tucanos.

    Ao meu ver, perde em ligitimidade aqueles que são alinhados ao PT e atacam justamente o alinhamento tucano da folha.

    Não estou defendendo a Folha, o que estou falando é sobre coerencia, pois acho que se a Folha levantasse questões sobre politicos da oposição estes mesmos que agora protestão talvez não se levantassem.

    Mostrando que a questão não é sobre o combate da notícia forjada e sim do militantismo político.

    E se a questão é a militancia política então ninguém é santo…

    Volto a dizer, não defendo a posição da Folha que se comporta como qualquer veículo de mídia em massa. Mas também não vou defender um ato de militancia PTista.

    Abraços

  • […] se posicionarem contra as posições da grande mídia, como é o caso de Antônio Arles (@aarles), censurado no fim de 2009, ou o caso de Carlinhos Medeiros, censurado por criticar a opinião tendenciosa de […]

  • […] Folha de São Paulo é conhecida pela prática de censura contra seus críticos na blogosfera, não sendo esta a primeira vez em que a blogosfera se uniu […]

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