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Brasil: Sobre o significado de “minoria com complexo de maioria”

pbarbosa

Charge por Paulo Barbosa.

Os políticos brasileiros, mesmo desacreditados como são, de vez em quando soltam frases fantásticas que, se não os redimem de suas negligências políticas e abusos de poder, fazem história ao instigar a população e ajudar o povo brasileiro a entender a si mesmo e como que, por conseqüência, esses cidadãos conseguiram chegar aos mais altos postos políticos do país.

Foi assim no caso do ex-Governador de São Paulo Cláudio Lembo (então membro do extinto PFL, Partido da Frente Liberal) que, em 2006, após os ataques da facção criminosa PCC à cidade de São Paulo [en], diagnosticou a violência no Estado de São Paulo como sendo culpa da “elite branca.” Ele, branco e rico, fez um mea-culpa acusatório: “Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações.”

Na época, Fabio Marton em Not Tupy registrou o status adquirido por Cláudio Lembo com essa declaraçãoirônica:

Eis o exemplo acabado de um homem que não revela cedo a que veio ao mundo. Lembo perseverou e esperou até os 72 anos, quando teve a oportunidade de dar sua contribuição definitiva, a que certamente o marcará na posteridade, pela qual o Brasil e os brasileiros com ele ficarão em dívida.

Foto por Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Foto por Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Na semana passada, foi a vez do senador Renan Calheiros (que em 2007 teve de renunciar à Presidência do Senado em meio a acusações da ex-amante e mãe de sua filha bastarda que, logo depois da crise, posou para a revista masculina Playboy) se perpetuar na história com uma frase marcante que tornou a crise política entorno das denúncias de corrupção contra o Presidente do Senado José Sarney mais emocionante do que a novela das oito. Em discussão com o senador Tasso Jereissati, várias acusações foram proferidas, e algumas refletem o nível do Senado brasileiro atualmente.

O blogueiro Leandro Prudêncio fez uma seleção da transcrição disponibilizada no Estadão Oline, versão para a web de um dos jornais que mais circulam no país, que contextualiza a “pérola” de Renan:

Renan Calheiros: “A respeito da manifestação do senador Tasso Jereissati. Essas crises acontecem por isso, porque é a minoria com complexo de maioria…”

Tasso Jereissati: Que me desculpe senador Renan. Senador Renan, não aponte esse dedo sujo pra cima de mim! Não aponte esse dedo sujo pra cima de mim! Estou cansado de suas ameaças”

Renan:“Esse dedo sujo infelizmente é o de Vossa Excelência. São os dedos dos jatinhos que o Senado pagou”

Tasso: “Pelo menos era com meu dinheiro. O jato é meu, não é dos seus empreiteiros.

Renan: “O dinheiro é seu?”

Tasso: “É meu, é meu, é meu, é meu! Eu tenho pra falar, tá?

(Fora do microfone) Renan: Coronel…

Tasso: Eu, coronel? Cangaceiro, cangaceiro de terceira categoria…”.

Renan: “O senhor é coronel!” – Baixa o microfone e diz: “Seu merda” (relato dos senadores próximos a Renan)

Renan: “Você é minoria com complexo de maioria. Me respeite”

Confira a cena no YouTube:

“Minoria com complexo de maioria” foi a frase que ressoou pelos escritórios e bares de todo o país, assim como pela blogosfera, tornando-se um ditado popular instantâneo; mas o que exatamente a frase significa e porquê fez tanto sucesso? No contexto estrito em que foi dita, seu significado foi o de menosprezar a oposição do PSDB, visto que Renan, sendo um dos líderes do rolo compressor governista (PT e aliados) apóia a permanência de José Sarney – considerado um dos últimos “coronéis” na Presidência do Senado. O Global Voices já discutiu [en] manifestações contra o presidente do Senado José Sarney.

Os blogueiros que interpretaram a frase neste sentido restrito, a debateram de forma bastante crítica. No blog O Que Estamos Fazendo? foi dito:

O que gerou a manifestação de Renan? A divergência. E olha que a oposição no Brasil é quase inexistente. Se sofre de algum complexo, é de inferioridade. Vive escondida, com medo de cumprir seu papel de… oposição, como fazia o PT quando era minoria…

Então, se mesmo com uma oposição omissa o senador Calheiros disse o que disse, qual é o seu desejo? Se divergir, se exercer o papel de oposição significa ter “complexo de maioria”, o que deseja Calheiros?

Algumas hipóteses:

- Deseja que os congressistas da “minoria” recebam seus salários, mas não apareçam no congresso para encher o saco. Que fiquem em suas casas, em verdadeiras licenças remuneradas, como um bom funcionário fantasma nomeado por ato secreto;

- Deseja que os congressistas da “minoria” mudem de lado e migrem para a “maioria”, dando uma banana para seus eleitores tão logo assumam seus cargos;

- Deseja que os políticos da “minoria” sejam declarados inelegíveis, uma vez que somente a “maioria” deve possuir representação política na democracia de Renan.

O blogueiro PlunkPlakZum levantou a mesma questão, destacando os desafios do amadurecimento da democracia brasileira:

Contudo, é fundamental considerar que o pensamento democrático brasileiro pode, por caminhos próprios, por vida própria, nem sempre estar em tudo representado pela maioria. Isso porque as relações político-partidárias necessariamente não representam por si só as idéias, ideologias e posições do povo. Tanto é que há até divergência entre partidos ou grupos de partidos. Também por isso é que se busca apoio político. Existe, sim, uma minoria que, por casualidade, pode representar a maioria sem voz que espera, do lado de fora do Senado, as deliberações dos senadores.

Portanto, antes de enxotar essa minoria de dentro do Senado como se fosse cão pequeno, examine-se se ela não faz coro com a vontade de uma maioria atenta que, do lado de fora do Senado, são brasileiros de voz e vez, ao menos em época de eleição.

No entanto, foi no seu sentido mais amplo que a frase de Renan Calheiros ressoou fortemente e foi isso que muitos blogueiros captaram.

Um artigo escrito pelo jornalista agora independente, mas que antes trabalhou para boa parte dos canais de comunicação brasileiros, teve particular êxito, tendo sido replicado em vários outros blogs, inclusive em um blog dedicado à Ministra da Casa Civil: Dilma Roussef. Paulo Henrique Amorim buscou responder à pergunta: Porque o PSDB, segundo Renan Calheiros, é “a minoria com complexo de maioria” da seguinte forma:

Porque os tucanos – em que o peso de São Paulo é predominante – pensam que são melhores que os outros.

Porque os tucanos – e subsidiariamente sua linha auxiliar, os Demos – são mais ricos.

E terceiro, porque os Demo-tucanos controlam o PiG (*).

Isso deu a eles a sensação de maioria, especialmente porque o Presidente da República foi um metalúrgico – e é nordestino!

A percepção de que controlar o PiG (*) resolvia o problema começa a se esfacelar.
E não só porque a Internet e os blogs adquiriram a relevância que tem no Brasil.
Em boa parte por causa da falencia do PiG (*). Mas, também, porque houve uma super-utilização do poder do PiG (*).

Pig: Partido da Imprensa Golpista.

Ou seja, similarmente à frase de Cláudio Lembo, a frase de Renan agradou porque ela ironizou a “elite branca paulistana” e atribuiu a ela a culpa por todos os males do país (Amorim chega a se referir aos tucanos como os “demos”), priorizando o seu domínio dos meios de comunicação do país etc.

Esta é uma questão brasileira de longo prazo que foi recentemente bem colocada pelo blog Bueno Muy Bueno, quando Fernando Henrique Cardoso, carioca, ex-presidente da República e cacique do PSDB, declarou que São Paulo estava sub-representado em Brasília:

Divergência número 2: São Paulo não está sub-representado em nada.
São Paulo está sobre-representado na Federação.
E é por isso que deveria haver uma re-pactuação da Federação brasileira.
Os presidentes da República saem de São Paulo.
Os Ministros da Fazenda saem de São Paulo.
Os Ministros da Indústria saem de São Paulo.
Os tributos são feitos de forma a aprofundar a hegemonia de São Paulo.
Os Ministros da Agricultura saem de São Paulo.
O Ministro da Educação é de São Paulo.
O Ministro da Defesa é gaúcho, mas seus parceiros políticos estratégicos? José Serra e Fernando Henrique Cardoso ? São de São Paulo.
Dos três únicos jornais brasileiros, dois são de São Paulo…Em São Paulo estão todas as revistas semanais de informação.
O Ibope é medido só em São Paulo e as redes de televisão trabalham para São Paulo.
Os dois principais partidos do país ? PSDB e PT ? são de São Paulo.
As lutas internas do PT e do PSDB conduzem a política brasileira.
O candidato do PSDB à presidência da República é de São Paulo: José Serra,na verdade, já eleito de ante-mão, como se sabe.
A elite branca do grande governador Cláudio Lembo é de São Paulo.
A elite branca de São Paulo, se pudesse, faria como os amigos do Berlusconi do Norte da Itália e mandava o resto do Brasil, do Rio (inclusive) para cima, para a África.
Em São Paulo fica o templo da elite branca, a Daslu.
O movimento Cansei é uma obra-prima da criatividade paulista.
O jornalismo esportivo brasileiro só trata do Corinthians.

Esse ressentimento é curioso, porque apesar do Estado de São Paulo ter o maior PIB e população do Brasil, além de sediar a metrópole mais multiétnica e transbrasileira do país, o histórico de presidentes paulistas é bastante limitada. Além de o Presidente Lula, que está no poder faz quase oito anos, ser Pernambucano, desde o início das eleições diretas no Brasil, incluindo o período de oitos anos em que Fernando Henrique Cardoso, carioca, esteve no poder, todos os outros presidentes eram de outros estados: Tancredo Neves era mineiro, José Sarney que é Maranhense, Itamar Franco, mineiro, Fernando Collor de Mello, que é Alagoano, Itamar Franco, mineiro. Ou seja, é no mínimo bastante diversa a presença na Presidência. O Senado Brasileiro, tem representação igual para cada Estado.

Além disso, é curioso que a “questão paulista” tenha surgido a partir da discussão entre Renan e Tasso, porque tanto o alagoano Renan Calheiros, quando o Cearense Tasso Jereissati, apesar de ser do PSBD, são nordestinos. Será o seu fenótipo (branco e gorducho) e estilo de vestir (ternos bem-cortados) que o fazem parecer um paulista?

O blog Perereca da Vizinha parece interpretar os eventos por esse lado:

Nem quando está fora do poder, consegue descer do salto, para buscar, enfim, aquilo que lhe faz mais falta: o apoio da sociedade civil organizada.

O autismo de que padece o partido o impede de ver que as casas parlamentares são, apenas, uma frente de batalha. Aquela em que se pode, é verdade, andar enfatiotado.

Nas baixadas, nas periferias repletas de lama e poeira, onde inexiste o mínimo para a sobrevivência digna de um cidadão.

Falta aos preparadíssimos técnicos e intelectuais tucanos a necessária humildade para ir ao encontro do povo onde o povo está.

Ao analisamos o linguajar da briga entre Renan e Tasso, percebemos que a briga foi cunhada em termos essencialmente nordestinos, em algum momento Renan acusando Tasso de ser um “coronel de merda” e Tasso rebatendo que seu acusador fosse “um cangaceiro de terceira categoria.”

Claramente, para ambos, um ideal de vida seria ser UM GRANDE CORONEL, a antítese do que ambos acusaram um ao outro de ser. Talvez, ambos sonhassem ser como aquele que precipitou essa briga toda, que é José Sarney, o notório dono do Estado da Maranhão, apesar de haver blogs como o A Velha Debaixo da Cama dedicados à desconstrução desse fato:

Como tenho dito aqui, os maranhenses estão carecas de saber do que eles são capazes, afinal, eles se dizem donos do Maranhão, não é? Mas o povo não aceita mais esse título, pelo menos os que conheço e escuto.

O “ser minoria” na concepção do Senador Renan Calheiros, ao que parece, mais do que “ser paulista” foi usado como sinônimo de alguém que quer pensar um Senado e um Brasil além das falcatruas e negociatas que ainda caracterizam o Senado Brasileiro no momento atual. A pretensão de ser “melhor do que os outros” incomoda porque para Renan Calheiros, representante de uma tradição de corruptos que se safaram de punição por ter os colegas de “rabo preso”, o bom seria todo mundo permanecer igual, ou seja, junto com a maioria corrupta.

Pizza em Brasília, por Sandra Carvalho

Pizza em Brasília? Por Sandra Carvalho

É sabido que todos os preconceitos, seja de classe, de fenótipo ou de nacionalidade, estão sempre a serviço de interesses mais profundos. O preconceito empolga alguns porque ele simplifica e generaliza as questões em pauta, o que é mais fácil do que analisar detalhadamente uma situação e desvendar os interesses que eles encobrem. Talvez, se o eleitor brasileiro aprendesse a votar com a cabeça e não com a emoção, muitas vezes contaminada pelo preconceito, não teríamos hoje um Senado decadente e uma classe política tão desacreditada.

Este artigo é uma versão extendida do original, e direcionada especificamente para o Global Voices em Português.

5 comentários

  • Danilo Nogueira

    Desculpe, mas Fernando Henrique é carioca, não paulista. Janio era de Mato Grosso; Washington Luiz era fluminense, como se dizia na época. O último presidente que SP deu ao país foi Rodrigues Alves, cujo mandato terminou em 2006. Foi reeleito, mas a gripe espanhola o levou antes da posse.

    A grandeza de SP está em que recebemo de braços abertos quem vem aqui procurar a sorte e por isso tantos brasileiros de fora vêm procurar o sucesso em terra paulista. Por isso, temos quatro “presidentes paulistas” nascidos fora daqui.

    Falam mal de nós e eu já fui insultado fora daqui pelo crime de ser paulista — mas quando precisam de ajuda, sabem em que porta bater. Faz parte.

  • Deborah, primeiro que nós do not tupy somos um só. Segundo que a citação foi irônica, não sei se você percebeu.

  • […] pela qual o Brasil e os brasileiros com ele ficarão em dívida. … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

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