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Brasil: Processos levam popular blog político a fechar

A Nova Corja, um dos símbolos de jornalismo independente e investigativo da blogosfera brasileira, publicou seu post de despedida. Em 6 de agosto, Rodrigo Alvares, o último do grupo a continuar tocando o blog, anunciou sua decisão de fechar o A Nova Corja por causa de compromissos profissionais e falta de tempo para continuar postando o tanto quanto gostaria.

No decorrer dos últimos cinco anos em que esteve online, A Nova Corja se destacou por causa da cobertura de escândalos que assolam o governo do Rio Grande do Sul, denúncias estas que agora levam o Ministério Público Federal daquele estado a investigar a governadora Yeda Crusius por improbidade administrativa. O Nova Corja era também conhecido pelo seu senso de humor ácido e pela sua oposição aberta ao PT, embora ao mesmo tempo o blog fosse também acusado por seus muitos inimigos de apoiar o mesmo partido.

O último post conta, até o momento da publicação desse artigo, com quase 300 comentários. De acordo com Rodrigo Alvares, os arquivos do blog continuarão online como um testemunho de sua luta contra a corrupção:

Espero que o A Nova Corja permaneça como registro da demência que assola não só o governo Yeda, mas a política gaúcha e brasileira. As eleições do ano que vem serão as mais importantes desde 1989, e boa parte da bandalha praticada por eles ultimamente está nos arquivos do blog.

ABRA$$O

Design by Cristiano Zanella

Design Leandro Demori. Fonte: blog do Cristiano Zanella

Lúcia Freitas lembra que o Nova Corja foi o único blog brasileiro a ser convidado para a Cúpula do G-20 em Londres no último mês de abril. Ela se mostra bastante preocupada com a pouca repercussão que a notícia parece ter causado na blogosfera, já que apenas alguns posts em blogs e no Twitter podem ser encontrados online:

Não houve proteção da comunidade, blogagem coletiva, indignação. Passou batido.

Bad, bad bloggers

Um mergulho no silêncio de jornalismo bem-feito, claro, contundente. Derrubado por uma sequência de processos na justiça que dão dores de cabeça incuráveis a cidadãos no exercício do seu direito à livre expressão.

Este tipo de silêncio é péssimo para todos nós.

Eu, como blogueira E jornalista, fico com vergonha, vergonha, vergonha. Primeiro de mim, por não ter lido os feeds por dois dias e não ter visto tamanho absurdo. Segundo de meus vizinhos de rede, que se reúnem tão facilmente para o #lingerieday, mas não se preocupam nem por um instante com as questões mais profundas que nos cercam e atingem.

Enquanto a maior parte da blogosfera permanece em silêncio ou nem soube do fechamento do A Nova Corja, um blogueiro celebra a notícia: Polibio Braga, um dos incomodados a processar os autores do blog, ficou contente por ter ajudado a acabar com mais um blog, tendo feito o mesmo há alguns anos, ao processar o Tomando na Cuia (agora disponível em novo endereço). Dessa segunda vez, no entanto, o Nova Corja ganhou o caso e o processo foi indeferido por inépcia. Ainda assim, Polibio Braga comemora:

A remessa dos dois blogs para o aterro sanitário virtual da Web, é uma homenagem do editor a todos os jornalistas caluniados por grupos iguais de delinqüentes políticos petistas. Além da família comum, os editores dos dois blogs escondiam-se sob pseudônimos e alojamentos em provedores fora do país que acolhem todo gênero de bandidos.

Por causa de seu trabalho investigativo, muitas vezes dando furos na imprensa convencional, o Nova Corja sofreu três processos em seus cinco anos de existência, e alguns dos blogueiros e suas famílias chegaram a ser ameaçados. De acordo com Marcelo Träsel, um dos ex-colaboradores do blog, a grande motivação por trás do fechamento do A Nova Corja foi o desânimo causado pelo conjunto de processos, mas não necessariamente porque os blogueiros têm medo de suas consequências:

O problema é que eles custam dinheiro, mesmo quando o juiz decide a seu favor, e, principalmente, tomam muito tempo. Todos os membros atuais e antigos da Corja têm empregos e famílias para cuidar. O jornalismo político era algo como uma prestação de serviços à sociedade, um voluntariado. Quando os poderosos foram perturbados e resolveram se aproveitar do Judiciário para tentar calar a Corja, porém, a sociedade mostrou-se incapaz de ajudar. O tempo livre antes dedicado ao jornalismo passou a ser dedicado a defender-se da litigância de má-fé. Algumas famílias até mesmo sofreram ameaças.

Träsel, que chama a notícia de um prego no caixão da democracia, segue falando da necessidade de se criar no Brasil uma organização semelhante à Electronic Frontier Foundation [en], grupo que defende a liberdade online de cidadãos americanos:

Algumas lições importantes podem ser tiradas desse caso. Primeiro, percebe-se que o bom jornalismo ainda faz diferença. A luz do dia incomoda aos poderosos e, no contexto da comunicação em rede mediada por computador, está ao alcance de qualquer cidadão expor os fatos ao sol. É o que chamo de webjornalismo cidadão, uma prática cada vez mais incensada como panacéia para os problemas do jornalismo. Pois bem, esse caso mostra os limites do webjornalismo cidadão.

Expostos ao sol, os políticos e sua entourage costumam sentir-se acuados e apelam ao Judiciário para tentar calar seus inimigos. Não precisam nem mesmo vencer um processo: os trâmites legais em si mesmos já têm um enorme poder disruptivo sobre o trabalho de pessoas que não vivem para a política e precisam se dedicar à vida real. Repórteres funcionários de empresas de comunicação podem contar com o setor jurídico para defendê-los nestes processos e seguir com sua rotina produtiva. Também não precisam pagar os custos judiciais. Repórteres amadores ou sem apoio institucional, por outro lado, são alvos fáceis para a intimidação jurídica.

Maurício Caleiro complementa, dizendo que poderosos que há décadas usufruem do silêncio cúmplice da grande imprensa estão por traz do fechamento de blogs. Ele faz um chamamento para ação:

Portanto, se nada for for feito para garantir ao menos a certeza de defesa jurídica, a blogosfera política independente e crítica – que, diante dessas circunstâncias, tende a encolher – vai repetir o que acontece no universo do grande capital que tanto critica: blogueiros que são suportados por portais ou que, devido a alta audiência e longevidade na rede, já constituiram suas próprias redes informais de proteção jurídicas, tendem a sobreviver; a massa de neófitos e de independentes que lutam para conquistar um espaço ficará jogada aos tubarões da litigância. Portanto, é preciso reagir. E já.

Para obter mais informações sobre recentes ataques à liberdade de expressão no Brasil, leia os artigos do Global Voices a seguir:

Brasil: Processos tentam calar jornalista premiado

Brasil: Decisões judiciais, ameaça crescente à liberdade online

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