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Brasil: Escritores e poetas indígenas na blogosfera

Há dentre os índios blogueiros do Brasil um grupo especial de escritora e poetas indígenas. Apesar de alguns antropólogos e lingüistas desacreditarem da noção de literatura indígena, traçando a origem deste conceito à cultura ocidental, particularmente a partir de Aristóteles, alguns índios brasileiros de origem ameríndia, apesar de também mestiça, se auto-declara como escritores da literatura indígena. Não só isso, mas estão publicando livros, tendo suas obras traduzidas para diversas línguas e blogando muito!

Foto de Daniel Munduruku

Foto de Daniel Munduruku

O maior expoente desde movimento de literatura indígena é Daniel Munduruku, escritor indígena originário da Amazônia e residente em São Paulo, com mais de 30 livros publicados e diretor do Inbrapi, entidade criada em 2001 com o objetivo de defender os conhecimentos tradicionais indígenas da biopirataria e exploração por terceiros. Daniel tem um website bilíngüe dedicado ao seu trabalho literário, na maior parte infanto-juvenil, mas no seu blog ele aproveita para chamar atenção para notícias importantes para os povos indígenas e apoiar causas que o inspiram. Por exemplo, neste Dia Internacional da Mulher, Daniel fez uma bela declamação em prosa para as companheiras:

Penso compulsivamente nas mulheres. Não se trata de um olhar desejoso, mas corajoso.
Corajoso porque, confesso, morro de inveja delas: da coragem, da obstinação, da intuição, do olhar sempre distante e sempre presente; da fortaleza e da fraqueza que revelam.
Sei que poderão pensar que isso é humano, presente em homens e mulheres. Eu discordo. Conheço o masculino, convivo com ele em mim e sei que por mais esforço que faça percebo um lobo faminto, sem escrúpulos e sem medida.
Acho que o homem masculino devia ouvir mais as mulheres. É claro eu alguns dirão que elas falam demais. Isso também é justo e certo, mas talvez falem muito por terem sido ouvidas tão pouco em passado recente e terem, por isso, que gritar para se fazerem ouvidas. Por isso tenho a impressão que nós homens, precisamos exercitar o sagrado direito de fazer silêncio, ouvir, ouvir e ouvir.
Outros oponentes dessa teoria dirão que, assim, viraremos mulheres. Rebato o argumento dizendo: é disso que estou falando!
Ao menos hoje temos que calar para deixar nossa intuição falar. E minha intuição diz que preciso sentir a dor do outro pra compreendê- lo em sua dimensão humana.
Hoje quero ficar assim, miudinho, pequenininho, quietinho só para ver a magnitude do ser – mulher falar coisas que preciso ouvir.

Falando em mulheres, o movimento da literatura indígena é magnificamente bem representado por Eliane Potiguara, escritora, professora e ativista indígena que em 2005 foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz (Projeto Mil Mulheres do Mundo). Eliane, cuja origem é paraibana mas vive no Rio de Janeiro, tem um website próprio, aonde divulga sua obra literária, mas também mantém o blog como parte de seu trabalho na rede GRUMIN de Mulheres Indígenas, da qual é fundadora e coordenadora. O blog é um instrumento de comunicação para as mulheres indígenas e traz um misto de literatura, oportunidades e chama atenção para episódios relevantes da luta das mulheres indígenas.

Recentemente, Eliane postou um belo texto sobre a literatura dos excluídos que expôs em um evento:

A literatura dos excluídos ainda é uma pele de Boto que foi destruído ao longo dos séculos e que está esquecido e abandonado no fundo dos rios a precisar renascer_ ardentemente_ com a força da alma da natureza e humana. Mas essa natureza está envolta nas amarras dos séculos de dor, do obscurantismo, dos grandes enigmas e contradições da própria existência, do divino e do amor. A literatura ainda é um segmento cultural e político que não consegue chegar na totalidade das camadas menos privilegiadas social e economicamente do Brasil e do mundo.

Esse Boto Literário precisa ser salpicado com as lágrimas emocionadas da Natureza, muitas desvairadas lágrimas. Aí sim, essas feridas do mundo­_ que as mulheres indígenas as eternizaram com seus beijos de cura, bálsamos históricos, histórias não contadas e adormecidas no fundo do rio ou dos oceanos, essas sim, _ serão eternamente curadas, assim como o Boto literário.

O mais recente livro de Eliane Potiguara

O mais recente livro publicado por Eliane Potiguara

Outro escritor indígena muito atuante é Olivio Jekupe que tem uma trajetória de vida incrível, tendo superado diversos obstáculos para conseguir cursar filosofia e firmar-se como escritor que hoje é, com diversos livros publicados e traduções para o italiano. Olivio traz fortemente a questão de sua origem mestiça, o que é a realidade de muitos índios brasileiros:

O mestiço é o mais discriminado nesse país, pois tanto eu quanto muitos no Brasil sofrem. Sei que sou mestiço e não tenho culpa de ser, e a miscigenação existe desde a chegada dos portugueses, não sou o primeiro índio não puro e não serei o último. Mesmo não sendo índio puro, quero dizer que tenho orgulho de ser o que sou e não podemos ter vergonha, meso que a sociedade nos discriminem.

No seu blog, Olívio traz matérias sobre sua literatura indígena, por exemplo, a interessante história da origem indigena do Saci, personagem do folclore brasileiro consagrado por Monteiro Lobato como um negro perneta, e informa que o verdadeiro Saci tem duas pernas!

Imagem do Saci Pererê de Monteiro Lobato. Imagem de André Koehne sob licença do Creative Commons

Imagem do Saci Pererê de Monteiro Lobato. Imagem de André Koehne sob licença do Creative Commons

Não sei se já ouviram falar que o Saci na verdade é um personagem indígena e que tem duas pernas, é provável que não ouviram ainda, pois eu fui o primeiro que escreveu dois livros que fala sobre esse personagem, tenho dois livros com o título – Ajuda do Saci, da Editora DCL, e o outro que se chama – O Saci Verdadeiro, da Editora UEL. Nos meus livros eu tento mostrar que o personagem tem duas pernas e é um índio, diferente da visão de Monteiro Lobato.
E sei que já tem documentários sobre esse tema, e muitas matérias que falei para jornalistas, e até teses de mestrado sobre o tema, como fez a escritora Graça Graúna onde ela fala do meu livro, O Saci Verdadeiro.
É importante que todos possam conhecer esse personagem onde tento mostrar o que nas Aldeias Guarani é comum ouvir sobre ele.
Sei que um dia minhas histórias serão tão conhecida que serei convidado para dar palestras em vários cantos do Brasil, de Norte a Sul do Brasil.

Olívio menciona Graça Graúna que é outra escritora indígena, poetisa, da região Nordeste do Brasil, de origem do Rio Grande do Norte mas residente em Pernambuco, tão ativa na vida quanto na blogsfera. Seu blog é premiado, muito visitado e traz um misto de notícias sobre literatura indígena e maravilhosos trechos de sua poesia. Dentre tantas, colhi uma poesia para vocês saborearem, que é também flor:

aos poetas Carlos e Sônia Brandão

… que Ñanderu* acolha
as pedras da nossa canção.
Que seja pedra enquanto leveza
o sinal: sem poesia os tempos não existirão
Graça Graúna, Nordeste do Brasil, 12 de março de 2009.

* Ñanderu em guarani, significa Nosso Pai; o Grande Espírito, o Criador.

Para quem quiser conhecer mais sobre literatura indígena, vale visitar o blog do NEARIN, Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas do INBRAPI. O blog é organizado com o objetivo de oferecer um espaço para o debate de idéias em torno da literatura e arte indígena. Traz uma diversidade de notícias sobre o tema, relatando eventos ocorridos em várias partes do país e também uma lista de autores e livros de literatura indígena. Para quem estiver em São Paulo neste dia 19 de Abril, Dia do Índio, vale a pena conferir o I Sarau das Poéticas Indígenas, na Casa das Rosas, Av. Paulista, 37, a partir de 15 hs.

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Convite para o I Sarau das Poéticas Indígenas.

Ao final deste fascinante tour à volta da blogosfera indígena brasileira, vale perguntar: Resta alguma dúvida a respeito da existência de uma literatura indígena legítima no Brasil?

No primeiro artigo desta série, nós introduzimos a blogosfera indígena brasileira. No próximo, vocês irão descobrir como os povos indígenas brasileiros vem usando a blogosfera para lutar por seus direitos.

23 comentários

  • Debora: parabens pelos artigos. Neste abril indígena a sociedade pode perceber um pouco o nosso papel história, a nossa história, que em geral os jornais não contam. Muito grata pela divulgação dos saberes ancestrais. Em tempo, gostaria de fazer uma pequena retificação: a referência que faço à obra do escritor Olivio Jekupe não está na minha tese de Doutorado intitulada “Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasl”, que defendi na UFPE, em 2003.

  • Debora: parabens pelos artigos. Neste abril indígena a sociedade pode perceber um pouco o nosso papel na história, a nossa história, que em geral os jornais não contam. Muito grata pela divulgação dos saberes ancestrais. Em tempo, gostaria de fazer uma pequena retificação: a referência que faço à obra do escritor Olivio Jekupe está na minha tese de Doutorado intitulada “Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasl”, que defendi na UFPE, em 2003.

    • Lobo Jr.

      Sobre a escravização dos índios, conforme descrito no livro de Eduardo Galeano, “Veias Abertas da América Latina”…

      Alguns teólogos protestaram e a escravização dos índios foi formalmente proibida ao nascer do século XVI. Na realidade, não foi proibida, mas abençoada: antes de cada entrada militar, os Capitães de Conquista deviam ler para os índios, sem intérprete mas diante de um escrivão público, um extenso e retórico Requerimiento que os exortava a se converterem à santa fé católica:

      “Senão o fizerdes, ou nisto puserdes maliciosamente dilação, certifico-vos que com a ajuda de Deus eu entrarei poderosamente contra vós e vos farei guerra por todas as partes e maneira que puder, e vos sujeitarei ao jugo e obediência da Igreja e de Sua Majestade e tomarei vossas mulheres e filhos e vos farei escravos, e como tais vos venderei, e disporei de vós como Sua Majestade mandar, e tomarei vossos bens e vos farei todos os males e danos que puder…”

      A América era o vasto império do diabo, de redenção impossível ou duvidosa, mas a fanática missão contra a heresia dos nativos confundia-se com a febre que provocava, nas hostes da conquista, o brilho dos tesouros do Novo Mundo. Bernal Díaz del Castillo, fiel companheiro de Fernão Cortez na conquista do México, escreve que chegaram à América “para servir a Deus e a Sua Majestade e também por haver riquezas”.

      Opinião pessoal: não podemos, por honestidade intelectual, deixar de observar que ao tempo desta narrativa muitos povos pré-colombianos praticavam rituais de sacrifício humano no alto de pirâmides (Maias e Astecas); sendo que o “canibalismo” era praticado rotineiramente no Brasil indígena, não para saciar a fome, mas para adquirir as qualidades inerentes do inimigo derrotado, numa última homenagem o reconhecimento definitivo das qualidades do guerreiro capturado, que seria compartilhado entre os vencedores. Muitos europeus foram devorados quando não conseguiam controlar a ocupação dos territórios. Os portugueses aceitavam, batizavam e criavam com disciplina e amor seus filhos bastardos gerados com as belas indias ou formosas negras e foram infinitamente humanos com os indígenas, se comparados aos sanguinários espanhois da época da conquista.

      Para download do livro em português:
      Eduardo Galeano – Veias Abertas da América Latina.pdf

      http://www.4shared.com/file/17504593/c9589299/Eduardo_Galeano_-_Veias_Abertas_da_Amrica_Latina.html?s=1

      • Antônio Pereira

        O Patriarca dos Mamelucos…

        Não se sabe se João Ramalho era náufrago ou degredado. Sabe-se apenas que estava no Brasil desde pelo menos 1508. Como Caramuru, Ramalho se tornara genro do maior líder guerreiro da região. De fato, entre suas muitas concubinas, a principal era Bartira, ou M’boy (“Flor de Árvore”, em tupi), filha de Tibiriçá, chefe dos índios guaianás e futuro aliado dos portugueses.

        Martim Afonso e João Ramalho se encontraram no verão de 1532, em São Vicente. Mas Ramalho não vivia à beira-mar: havia pelo menos duas décadas, ele se instalara no topo do planalto, acima da serra do Mar, nas proximidades da atual cidade de Santo André, a cerca de 100 km da costa. Dali, ele dirigia o tráfico de escravos do interior para o litoral. Foi Ramalho quem conduziu Martim Afonso serra acima, pela trilha escabrosa do Paranapiacaba (“lugar do qual se vê o mar”), caminho cujo traçado era similar ao da atual via Anchieta, a estrada que liga Santos a São Paulo. Ramalho era o senhor de todo aquele vasto e ainda desconhecido território, onde, por causa dele, os portugueses iriam se instalar poucos anos mais tarde.

        Existem várias lendas em torno dessa figura enigmática. O que se pode dizer com certeza é que João RamaIho era venerado, temido e respeitado pelos nativos. De acordo com depoimentos posteriores, ele podia “arregimentar cinco mil índios, enquanto o rei de Portugal só ajuntaria dois mil”. O cálculo foi feito pelo aventureiro alemão Ulrich Schmidel, que em 1553 trilhou o Peabiru (estrada selvagem) desde Assunção, no Paraguai, até São Vicente. Ao passar por Santo André, achou-a com o “aspecto de um covil de bandidos” e ficou aliviado ao saber que “Johanes Reimellc” não estava lá, mas no sertão, escravizando índios.
        Se João Ramalho infundia terror em homens como Schmidel, é fácil supor o que acharam dele os jesuítas que chegaram em seguida. Em carta escrita em agosto de 1553, o padre Nóbrega diria que a vida de Ramalho era “uma petra scandali para nós” (…) Tem muitas mulheres e ele e seus filhos andam com as irmãs (de suas esposas) e têm filhos delas. “Vão à guerra com os índios e suas festas são de índios, e assim vivem, andando nus como os mesmos índios”.

        Apesar das declarações de Nóbrega, Ramalho não havia virado índio. Tornou-se, isso sim, o patriarca dos mamelucos, o primeiro branco do Brasil a gerar uma dezena de filhos mestiços – os mesmos que, anos mais tarde, iriam compor o grosso do contingente das bandeiras paulistas e que revelariam violência inigualável na escravização dos indígenas do sertão.

        O fato de João Ramalho viver “amancebado” com Bartira levaria o jesuíta Simão de Lucena a excomungá-lo em 1550. Mas, em 1553, Nóbrega percebeu que seria impossível levar adiante a obra de catequese sem o aval de Ramalho e passou a se empenhar pessoalmente para que ele casasse com Bartira. O casamento enfim se realizou e Bartira foi batizada com o nome de Isabel. Em julho de 1553, o governador-geral Tomé de Sousa nomeou Ramalho capitão-mor da vila de Santo André. Ao escrever para o rei, Sousa diria que Ramalho tinha “tantos filhos, netos e bisnetos que não ouso dizer a Vossa Alteza. Ele tem mais de 70 anos, mas caminha nove léguas (54 km) antes de jantar e não tem um só fio branco na cabeça nem no rosto”.

        Em 1560, por ordem de Mem de Sá, terceiro governador-geral, Ramalho se transferiu de Santo André para São Paulo– e, dois anos depois, salvou a cidade de um ataque dos Carijó. Em 1564, recusou o cargo de vereador. Quatro anos depois, o jesuíta Baltasar Fernandes diria que Ramalho tinha “quase 100 anos, estando entre os índios e vivendo não sei de que maneira, e não querendo nada de nossa ajuda nem mistérios”. Fernandes relatava também um acidente sofrido pelo patriarca, em andanças pelo sertão, afirmando que “sua hora cedo virá”. Mas João Ramalho só morreu em 1580, com mais de 95 anos de idade. Graças à sua liderança e aliança com os índios, graças ao seu conhecimento das trilhas que percorriam o planalto e graças ao rendoso tráfico de escravos que ele inaugurara, São Vicente e São Paulo acabaram se tornando as mais importantes cidades do sul do Brasil.

        O processo de inserção de João Ramalho na história do Brasil se iniciou depois de seu encontro com Martin Afonso, no verão de 1532. As relações entre o capitão-mor e o patriarca dos mamelucos foram frutíferas e respeitosas. Há indícios de que Martim Afonso conversava, negociava e se aconselhava constantemente com João Ramalho.
        Tempo para isso não lhe faltou, pois Martim Afonso permaneceu em São Vicente até maio de 1533. Completados 18 meses desde a partida de Pero Lobo, o capitão-mor desistiu de esperá-lo e partiu para Portugal, não sem antes fazer de João Ramalho “guarda-mor da Borda do Campo” e determinar que só ele poderia “resgatar” (negociar) com os índios. Como o Bacharel de Cananéia, RamaIho também recebeu vasta sesmaria.

        Coleção Terra Brasilis – Volume II, Náufragos, Traficantes e Degredados [Eduardo Bueno]

        Para download (sem formatação adequada!)
        Eduardo_Bueno_Naufragos,_traficantes_e_degredados.pdf

        http://www.4shared.com/file/25027518/b7fbbaee/Eduardo_Bueno___Naufragos_traficantes_e_degredados.html?s=1

        A Viagem Do Descobrimento – Eduardo Bueno.pdf
        Capitaes Do Brasil – Eduardo Bueno.pdf
        http://www.4shared.com/network/search.jsp

      • Lobo Jr.

        Leis de Burgos…(a regulamentação da escravidão indígena)

        As leis nunca foram aplicadas de fato, e pouco foi mudado na Nova Espanha por estas leis.

        “Encomenderos” (homens encarregados de cuidar dos indígenas)

        A “encomienda” era uma forma de trabalho compulsório indígena, realizado nas zonas rurais, no qual a força de trabalho era trocada pela catequese.

        • O documento conhecido em espanhol como as Leyes de Burgos (Leis de Burgos) foi promulgado em 27 de dezembro de 1512 em Burgos, na Espanha. Foi a primeira codificação de leis regendo o comportamento dos colonos espanhóis na América, especialmente no que dizia respeito aos índios nativos. Ele enumerava diversas leis para o governo dos povos indígenas do Novo Mundo recém-descoberto; elas proibiam o maltrato dos nativos e apoiava sua conversão ao catolicismo. O motivo de sua criação foi o problema legal que havia surgido com a conquista e colonização das Índias, onde a lei espanhola não era aplicada. As leis nunca foram aplicadas de fato, e pouco foi mudado na Nova Espanha por estas leis.

        O escopo destas leis estava restrito originalmente à ilha de Hispaniola, mas foi estendido posteriormente a Porto Rico e Jamaica. Estas leis autorizavam e legalizavam a prática colonial de se criar “encomiendas”, onde índios eram agrupados para trabalhar para senhores coloniais, limitando o tamanho destes estabelecimentos a um mínimo de 40 e um máximo de 150 pessoas. Elas também estabeleciam, no entanto, um regime de trabalho minuciosamente regulado, o salário, as provisões, o alojamento, a higiene e o cuidado pelos índios num espírito razoavelmente humanitário. Mulheres com mais de quatro meses de gravidez eram dispensadas do trabalho.

        Sumário

        1. Os índios devem ser removidos de suas terras e colocados em encomiendas. Para cada cinquenta índios, quatro alojamentos devem ser construídos (de 9 por 4,5 metros). Esta terra não poderá ser tirada deles, já que eles foram retirados de suas terras originais. Suas terras originais deverão ser queimadas para que eles não possam retornar a elas. Os indios plantarão toda a comida. Durante as estações apropriadas, os encomenderos (homens encarregados de cuidar dos indígenas) farão com que os índios plantem milho e criem as galinhas.
        2. Os índios deverão deixar suas terras voluntariamente para vir às encomiendas, para que não tenham que sofrer por serem retirados dali à força.
        3. O cidadão para quem os índios forem dados deverá erguer uma estrutura que será usada como igreja. Na igreja deverá haver um retrato de Nossa Senhora e um sino para chamar os índios às orações. A pessoa que os tiver na encomienda deverá ir com eles á igreja todas as noites e se assegurar de que eles façam o sinal da cruz e cantem diversos hinos. Se um índio não vier à igreja, não poderá descansar no dia seguinte.
        4. Para se certificar de que os índios estão aprendendo o cristianismo corretamente, eles deverão ser testados a cada duas semanas e ensinados aquilo que não souberem pelo encomendero. Ele deverá lhes ensinar os Dez Mandamentos, os Sete Pecados Capitais, e os Artigos de Fé. Qualquer encomendero que não souber os mesmos será multado em seis pesos de ouro.
        5. Uma igreja deverá ser construída a uma distância igual a todas as propriedades. Aos domingos, a missa será observada e uma festa será celebrada. Se o encomendero não trouxer seus índios será multado em dez pesos de ouro.
        6. Se a igreja for muito longe, outra deverá ser construída.
        7. Os padres que coletam o dízimo das propriedades deverão ter padres permanentemente nas igrejas das mesmas propriedades.
        8. Igrejas deverão ser construídas nas minas para que os índios trabalhando ali possam ir à missa nos domingos.
        9. Quem quer que tenha cinquenta índios deverá escolher um garoto que o encomendero julgue capaz para aprender a ler, escrever, e a importância do catolicismo. O garoto deverá então ensinar os outros índios porque os índios aceitarão com mais disposição o que o garoto disser do que o que os espanhóis disserem. Se o encomendero tiver cem índios, dois garotos deverão ser escolhidos. A fé deverá estar incutida em suas cabeças para que as almas dos índios sejam salvos.
        10. Se um índio adoecer perto de onde haja um padre, o padre deverá ir a ele e recitar o Credo e outras coisas proveitosas da fé católica. O índio deverá se confessar sem que se cobre uma taxa por isso. Se o índio morrer, deverá ser enterrado com uma cruz próximo à igreja. Se ele não for enterrado, o seu encomendero deverá pagar uma multa de quatro pesos de ouro.
        11. Os índios não deverão ser usados como bestas para transportar coisas para os outros índios nas minas.
        12. Todos os habitantes espanhóis que tenham índios nas encomiendas deverão batizar as suas crianças em até uma semana depois de seu nascimento.
        13. Depois que os índios tenham sido levados às propriedades, o ouro deverá ser procurado da seguinte maneira: os índios das encomiendas deverão procurar por ouro durante cinco meses por ano e ao final deste período poderá descansar por quarenta dias. Durante os quarenta dias estes índios não poderão ser empregados, a menos que sejam escravos e aceitem trabalhar nas plantações. Durante os quarenta dias, os índios serão instruídos ainda mais na fé, já que possuirão mais tempo para aprendê-la.
        14. Os índios poderão executar suas danças sagradas.
        15. Todos os cidadãos que possuírem índios deverão alimentar-lhes com pão, mandioca, pimentões, e nos domingos com carne. Para cada ofensa, uma multa de dois pesos de ouro deverá ser paga.
        16. De acordo com o catolicismo, os índios não poderão ter mais que uma esposa ao mesmo tempo e não poderão abandonar as suas esposas.
        17. Os filhos dos chefes das ilhas que tiverem menos de treze anos de idade deverão ser dados aos frades para que possam aprender a ler, escrever, e outras coisas sobre o catolicismo. Quando os filhos atingirem a idade de dezenove anos, deverão retornar à encomienda e ensinar os outros.
        18. Mulheres grávidas não deverão ser mandadas às minas ou trabalhar nas plantações. Deverão ser mantidas na propriedade e fazer tarefas caseiras, como cozinhar e tecer. Depois que a criança nascer, ela poderá cuidar dela até que tenha três anos de idade; depois deste período, ela deverá retornar às minas e suas outras tarefas.
        19. Os índios não deverão dormir no chão. Cada encomendero deverá prover redes a seus índios.
        20. Os índios deverão receber um peso de ouro por ano para pagar pelas roupas.
        21. Os índios não poderão mudar de senhores. Um encomendero não poderá empregar ou alojar um índio que pertença a outro encomendero.
        22. Os caciques poderão ter dois índios para executar tarefas pessoais para cada quarenta de seus súditos. Visitantes nas propriedades deverão tratar bem os índios e ensinar-lhes o que souber sobre o catolicismo.
        23. Inspetores oficiais deverão manter registros das atividades e dos tratamentos dos índios nas encomiendas. Deverão manter a contagem da população e de quanto ouro vem sendo minado.
        24. Os índios não deverão ser abusados fisica ou verbalmente por quaisquer motivos.
        25. Os índios não deverão ser usados no comércio privado ou para qualquer outro interesse econômico.
        26. Os encomenderos que tenham seus índios trabalhando em minas distantes deverão combinar esforços com outras propriedades para prover comida aos seus índios.
        27. Índios de outras terras deverão também aprender as coisas da fé católica. Deverão ser tratados com bondade, a menos que sejam escravos.
        28. Se um encomendero morrer, seu sucessor assumirá o controle dos índios.
        29. Dois inspetores deverão ser apontados para cada propriedade.
        30. Os inspetores deverão ser escolhidos pelo almirante, pelos juízes e pelos oficiais. Estas pessoas deverão ser compensadas com índios das encomiendas.
        31. As aldeias deverão ser inspecionadas duas vezes por ano, uma no início do ano e outra no verão.
        32. Se houver um índio fugitivo, os inspetores não poderão aprisioná-lo. Eles deverão ser dados a um homem de boa consciência que encontrará o seu encomendero.
        33. Todos os inspetores deverão ter uma cópia das Leis de Burgos, assinada pelo governador.
        34. Os inspetores deverão ser providos com residências.
        35. Uma pessoa não deverá ter mais do que cento e cinquenta índios e menos do que quarenta índios em uma encomienda ao mesmo tempo.

        Algumas emendas foram feitas às Leis de Burgos no dia 28 de julho de 1513:

        1. Mulheres índias casadas com homens índios não devem ser forçadas a servir com seus maridos nas minas ou em qualquer outro lugar a menos que por sua própria vontade ou a menos que seus maridos queiram levá-las.
        2. Crianças índias não deverão fazer o serviço de adultos até atingirem os catorze anos. Até então deverão fazer tarefas de criança, como coser ou trabalhar na propriedade de seus pais.
        3. Mulheres índias solteiras que estiverem sob a autoridade de seus pais deverão trabalhar com eles em suas terras. Aquelas que não estiverem sob a autoridade de seus pais deverão ser mantidas à parte para que não se prostituam.
        4. Depois de dois anos de serviço os índios estão livres para irem embora. A esta altura estarão civilizados e serão cristãos, captos para governarem a si mesmos.

        As Leis de Burgos nada fizeram para salvar os nativos de Hispaniola; os índios americanos ainda estavam sendo explorados pesadamente. Isto incomodou a consciência de Bartolomé de Las Casas, um antigo encomendero que se arrependeu e passou o resto de sua vida trabalhando para trazer a liberdade de volta para os índios. Ele escreveu: “Que tipo de doutrina pode ser ensinada por leigos iletrados e mundanos, que na grande parte mal sabem fazer o sinal da cruz, para infiéis que ainda têm de aprender os primeiros princípios da fé cristã?”

        Las Casas acreditava que o Novo Mundo havia sido concedido a Espanha e Portugal unicamente para que os pagãos fossem convertidos. Os índios, ele acreditava, não deveriam ser usados para outros propósitos, e especialmente não para lucro. A única solução era a de remover os colonos espanhóis do meio dos índios, com a exceção dos missionários que traziam a mensagem de Cristo.
        http://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_de_Burgos

  • Oi Débora

    muito legal seu texto! A edição de abril da Revista da Cultura traz na matéria de capa a literatura indigena.

    depois dê uma olhada!

    http://cultura.updateordie.com/literatura/2009/04/06/tupi-or-not-tupi/

    abs,

    • Oi Kelly, Valeu a dica, passei por lá e deixei um post. Adorei a matéria. Espero te ver no I Sarau das Poéticas Indigenas este domingo, para comemorarmos juntas o Dia do Indio. Abraços, Deborah

  • […] indígena, traçando a origem deste conceito à cultura ocidental, … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  • Aurileny Aury Tabajara

    sabemos que a luta indigena no Brasil tem tido alguns avanços nem tanto como nós mulheres indigenas sonhamos,ainda presenciamos mulheres indigenas sendo maltratada por maridos,mulheres indigenas na rua pedindo esmola,sendo explorada sexualmente em fim…más o que me deixa um pouco contente é que nós mulheres indigenas temos uma energia poderosa e não desistimos facil de nosso objetivos se ninguem escuta na oralidade colocamos o nosso sentimento no papel e nada melhor do que atravez da poesia.Eu tenho um poema que fala o seguinte:

    Sou uma jovem batalhadora
    tenho um sonho de mulher
    mulher índia mulher negra
    mulher que o homem não quer
    mulher que estar sempre lutando
    o objetivo buscando
    sem esperar por seu josé.

    mulher índia um exemplo
    forte na educação
    culturamente sensivel
    informada na atuação
    mulher que transmite alegria
    qualidade e sabedoria
    e aos filhos dedicação.

    mulher mãe mulher rainha
    há mulher descriminada
    mulher aprendendo a ler
    para ser valorizada
    mulher firme e forte na luta
    mulher é mulher não é disputa
    mulher em tudo organizada.

    mulher atriz, mulher real
    mulher índia e escritora
    mulher ética e transparente
    inteligente mulher doutora
    independente da profissão
    ou da especialização
    mulher é sempre educadora.

    Aqui escrevi um pouquinho do trabalho em poesia que tenho sobre a mulher,escrevi tambem sobre a vida do indio da cidade,história de minha aldeia educação indigena.Tenho um trabalho que foi feito pela SEDUC Secretaria de Educação do Ceara.(magisterio em versos e poesia) que todas as escolas indigenas do ceara tem esse livro.e tenho varios outros trabalhos na poesia é só mandar o tema.

  • Aurileny Aury Tabajara

    Quero parabenizar a Deborah por esse lindo trabalho.

  • Lobo Jr.

    Chocolate, a bebida dos deuses!

    Os astecas acreditavam que o deus Quetzalcoátil trouxera sementes de cacau do céu e as dera de presente para os seres humanos. Sabe-se que as árvores de cacau existem há mais de 4 mil anos atrás. Espalhadas por aves e macacos. Em 1502, Cristóvão Colombo foi o primeiro europeu a experimentar o cacau. Quem ficou de fato impressionado com a beberagem foi Hernán Cortés, ou Hernando Cortés: 17 anos depois de Colombo, foi recebido pelos astecas com uma taça de chocolate (chocolate é consumido durante cerimônia em ilustração extraída de códice asteca). Curiosamente os espanhóis chegaram à atual Vera Cruz na data marcada pelo calendário asteca como a provável do retorno de Quetzalcóatil. O povo festejou a chegada de Cortés como este retorno e Montezum II , o imperador da época, ofereceu-lhe um grande banquete. Logo após o banquete, serviu em xícaras de ouro a mistura de chocolate frio, espumante, misturado com mel, especiarias e baunilha. Dizia que quem tomasse o chocolate, teria força, vigor e também compartilharia um pouco da sabedoria do deus.

    Os Astecas, foram um dos povos mais civilizados e poderosos da América pré-colombiana. Ocuparam como se autodenominaram os habitantes do Vale do México (em uma ilha do Lago Texcoco), vieram para essa região, depois de uma longa e lenta migração. Chegaram de um lugar chamado Aztlán, situado no sudoeste do atual Estados unidos, onde viviam como tribos guerreiras nômades. Desde a Era Cristã, existiam civilizações urbanas, sedentárias e agrícolas na região a exemplo dos toltecas.
    Os últimos a chegar ao refinado mundo do planalto mexicano foram os astecas sedentarizaram-se e mesclaram-se com os toltecas e a partir da aliança feita entre as cidades de Texcoco e Tlacopan, surgiu o “Império Asteca”, tendo como centro a cidade asteca de Tenochtitlán. Cada uma das cidades-estados possuía o seu próprio rei, mas os astecas tinham o comando militar na época em que ocorreu a ocupação espanhola, o imenso império só reconhecia um chefe: Montezuma, o imperador asteca.

    http://www.historiadomundo.com.br/asteca/bebida-deuses/

    Hernán Cortés, ou Hernando Cortés

    Líder militar e aventureiro espanhol (1485-2/12/1547). Hernán Cortés, ou Hernando Cortés, nasce em Medellín. Aos 19 anos, viaja para a ilha de Hispaniola, hoje dividida entre o Haiti e a República Dominicana.

    Em 1511 participa da conquista de Cuba, onde seria oficial do Tesouro. Cheio de prestígio, é nomeado capitão-geral da expedição espanhola de conquista do México. Parte em 1519 com 11 navios e mais de 508 soldados. Desembarca na península de Yucatán, onde funda a cidade de Veracruz, apossando-se do Reino de Tlaxcala.

    Após várias batalhas, toma Tenochtitlan, atual Cidade do México, capital mexicana. Aprisiona e mata o imperador Montezuma e o chefe supremo Guatemotzin, destruindo o Império Asteca. Em 1523 é nomeado governador-geral do território da Nova Espanha.

    Três anos depois, liquida os remanescentes do povo maia ainda estabelecidos em Yucatán. Em 1528, contudo, é destituído do cargo porque a corte, em Madri, considera excessiva a sua ambição. Mesmo assim, recebe do imperador espanhol Carlos V o título de marquês de Oaxaca. Volta ao México em 1530, descobre as costas baixas da Califórnia (1536) e, em 1540, retorna à Espanha. Morre em Castilleja de la Cuesta, perto de Sevilha, pobre e esquecido.

  • Lobo Jr.

    Editora Madras lança no Brasil “Pizarro – O conquistador dos Incas”
    Quarta,13 de Julho de 2005

    Madras Editora lança no Brasil o livro “Pizarro – O conquistador dos Incas”, já disponível nas melhores livrarias do Brasil. No dia 18 de junho de 1977, quatro trabalhadores, encarregados da restauração da cripta da Catedral de Lima, descobriram, em uma das paredes, um caixão de metal que guardava um crânio e ossos de um homem.

    Junto a fragmentos de uma espada e de um par de esporas de prata. o caixão trazia o emblema esotérico de uma estrela de seis pontas, envolta por quatro círculos concêntricos, e as palavras : “Esta é a cabeça do Lorde Marquês Dom Francisco Pizarro, que descobriu e conquistou esses reinos do Peru e que os incorporou à Coroa Real de Castela”.

    Por quase quatro séculos e meio após sua morte em seu palácio em Lima, os restos do Conquistador do Império Inca permaneceram escondidos do mundo, seu nome esquecido durante a evolução da América do Sul, do colonialismo independência, e na posição do estado. Francisco Pizarro é possivelmente uma das figuras mais insultadas na História mundial.

    Sua memória ficou marcada pelo estigma do passado colonial da Espanha, inspirada tanto pela crueldade de seus conquistadores quanto pela inveja de seus vizinhos europeus, cuja própria colonização posterior não seria menos sanguinária, e cujos motivos econômicos não se mostraram dissimilares. A história, a parte e a lenda, porém, retrataram uma imagem romântica de sua vítima, o Imperador Inca Atahualpa, cuja execução fora por ele ordenada em Cajamarca e que foi, na realidade, um homem de igual brutalidade e ambição.

    Em termos morais, Pizarro não foi melhor nem pior que qualquer outro comandante militar europeu contemporâneo, que tirava seu sustento por meio do trabalho ao seu soberano com saques e a venda de prisioneiros e escravos.

    Da mesma forma, os métodos de guerra por ele empregados não eram mais sangrentos do que o de qualquer outro nativo americano de sua época ou de um guerreiro inca, cujos exércitos, em menos de cem anos, subjugaram os Andes. O que fez dele uma pessoa excepcional foi a habilidade de consolidar sua conquista em termos políticos, fundando um império cuja riqueza iria moldar o curso da História mundial, e cuja morte nas mãos de seus conterrâneos foi o sacrifício pago por seu empenho.

    Pizarro não era um cartógrafo estudado como Colombo, nem um nobre aventureiro como Hernán Cortez, o conquistador do México. O analfabeto filho pródigo de um capitão de exército de Extremadura, por cerca de trinta anos, ganhou a vida como senhor de escravos e fronteiriço nos antigos assentamentos do Caribe e da América Central : conhecido como “as Índias” por causa da crença errônea de Colombo de que fazia parte do continente da Índia, seus nativos também eram chamados por esse nome.

    Muito pouco se sabe daqueles primeiros anos, com exceção do que o cronista Gonzalo Fernandéz de Oviedo registra em algumas de suas referências, quando Pizarro estava a serviço do velho governador da Nicarágua, Pedro Arias Dávila.

    A conquista de Pizarro do império inca, porém, acontece muito tempo depois, quase meio século após Colombo ter chegado ao Novo Mundo, em um tempo no qual o domínio espanhol das ilhas do Caribe e da América Central já estava bem estabelecido, cerca de dez anos depois da conquista do México.

    Esta é a história do empenho e coragem de um homem que levou à descoberta a à conquista de uma das maiores civilizações do Novo Mundo, acompanhado por não mais de 200 voluntários pouco armados e que, contra todas as expectativas, derrotou o poder dos incas. É também a história do comprometimento do povo inca dominado na conclusão da conquista de Pizarro e da sucessão de seu irmão mais jovem, Gonzalo, como governador de sua colônia, que criou o primeiro Estado independente nas Américas: um legado que alicerçou as fundações da atual América do Sul hispânica.

    http://www.db.com.br/noticias/?49724

  • Lobo Jr.

    Peru: civilização inca e seu massacre

    A guia responde:

    – Não há mais incas, somos todos andinos.

    Eu perguntava pelo destino dos 6 milhões de incas que habitavam Cusco, a capital do Império Inca – cujo nome quer dizer, literalmente, “umbigo do mundo”, – quando chegaram os colonizadores espanhóis.

    Eles eram cerca de 6 milhões, tinham uma das civilizações mais avançadas do mundo na época. Foram dizimados. Em 5 anos estavam reduzidos a 1,6 milhões, escravizados. Todos os que compunham a elite – política, religiosa, científica, cultural, militar -, uns 300 mil, foram liquidados em pouco tempo, cortando as possibilidades de sobrevivência daquela civilização.

    Todos os conhecimentos acumulados em astronomia, em arqueologia, em culinária, em religião, em agricultura, foram liquidados.

    Como se fica sabendo perto dali, em Machupicchu – “Montanha Velha”, – os incas sabiam da circulação da terra em torno do sol, antes de Galileu. Muitos viviam mais de 100 anos, a ponto de que a Universidade de Machupicchu tinha professores de 120 anos.

    Em Machupicchu viviam uns 600 ou 700 indígenas, até que um antropólogo norte-americano, Hiram Bingham, “descobriu” a cidade em 1911, levado por um menino que vivia no local. Quando os espanhóis tomaram Cusco, o chefe inca retirou-se para Machupicchu, reuniu todo o ouro e a prata e, para não entregá-la para os colonizadores, fugiu na direção da Amazônia. Daí nasceu o mito de Eldorado, que seria a cidade fundada e construída só de ouro e prata. O chefe inca conseguiu matar ao chefe dos colonizadores, Francisco Pizarro, em um combate.

    Como reação recente ao papel de Pizarro, sua estátua foi retirada da principal praça de Lima e deixada em um parque central. Quanto ao antropólogo dos EUA, sob acusações de que teria roubado lingotes de ouro remanescentes e de que não foi o “descobridor” de Machupicchu, como confirma livro de seu filho, baseado em seus próprios diários. A luta dos habitantes locais agora é tirar-lhe esse título falso e atribuí-lo aos indígenas que já viviam em Machupicchu quando ele chegou, especialmente a Agustín Lizárraga, que em 1900 já havia chegado a Machupicchu, mas também a seus conterrâneos Melchior Arteaga, Justo Ochoa, Gabino Sanchez e Enrique Palma.

    Pela destruição causada por aqueles de quem é descendente o rei da Espanha – que, talvez pelas tragédias que produziram entre nós, quer que nos calemos -, é difícil imaginar o que seria o Peru de hoje – assim como a Bolívia, o Equador, a Guatemala, o México, o Chile, a Colômbia, entre outros de nossos países, se os povos originários não tivessem sido destruídos e, com eles, suas civilizações, suas culturas, suas formas de vida. Teríamos uma América Latina ainda mais diversificada e relações de igualdade com os países europeus, caso estes não tivessem se enriquecido com os massacres que promoveram na colonização.

    Aliás, como deveríamos chamar à destruição das civilizações originais e à escravidão desses povos e dos negros, trazidos à força da África, para ser escravos e produzir riquezas para as potências européias? Massacres? Limpezas étnicas? Crimes contra a humanidade? Foi com esses banhos de sangue que o capitalismo chegou às Américas, trazido pelos colonizadores europeus. Esses mesmos que gostaríamos que nos calássemos sobre as barbaridades que eles cometeram contra nossas civilizações.

    (blog do Emir)

    Emir Sader, Filósofo, cientista político e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Laboratório de Políticas Públicas.

    http://www.adital.com.br/Site/noticia.asp?lang=PT&cod=31406

  • Lobo Jr.

    (correção necessária)

    “Aliás, como deveríamos chamar à destruição das civilizações originais e à escravidão desses povos e dos negros, trazidos à força da África, para serem escravos e produzir riquezas para as potências européias? Massacres? Limpezas étnicas? Crimes contra a humanidade?” Foi com esses banhos de sangue que o imperialismo chegou às Américas, trazido pelos colonizadores europeus. Esses mesmos que gostaríamos que nos calássemos sobre as barbaridades que eles cometeram contra nossas civilizações.

    Opinião pessoal: não podemos, por honestidade intelectual, deixar de observar que ao tempo desta narrativa muitos povos pré-colombianos praticavam rituais de sacrifício humano no alto de pirâmides (Maias e Astecas); sendo que o “canibalismo” era praticado rotineiramente no Brasil indígena, não para saciar a fome, mas para adquirir as qualidades inerentes do inimigo derrotado, numa última homenagem o reconhecimento definitivo das qualidades do guerreiro capturado, que seria compartilhado entre os vencedores. Muitos europeus foram devorados quando não conseguiam controlar a ocupação dos territórios. Os portugueses aceitavam, batizavam e criavam com disciplina e amor seus filhos bastardos gerados com as belas indias ou formosas negras e foram infinitamente humanos com os indígenas, se comparados aos sanguinários espanhois da época da conquista.

    • Antônio Pereira

      O CARAMURU

      No dia 13 de março de 1531, os navios de Martim Afonso chegaram à baía de Todos os Santos, local bem conhecido pelos portugueses. Lá, a expedição encontrou um náufrago que vivia há mais de 20 anos no Brasil. Os índios o chamavam de Caramuru e ele iria se tornar uma figura-chave na história colonial do Brasil. O Caramuru estava casado com a índia Paraguaçu – com a qual tinha vários filhos. Paraguaçu era filha do principal chefe guerreiro da região e, graças ao casamento, Caramuru havia adquirido posição proeminente entre os Tupinambá da Bahia.

      O lugar de destaque e o respeito dos Tupinambá por Caramuru se manteriam por muito tempo. Tanto é que, 18 anos mais tarde, foi graças à sua presença – e às boas relações que ele mantinha com os nativos – que Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral do Brasil, decidiu se instalar justamente na Bahia e fundar ali, em maio de 1549, a primeira capital do Brasil, Salvador.

      Não se sabe exatamente quando o navio do Caramuru naufragou na Bahia. De acordo com seu próprio relato, o naufrágio se dera em 1509 ou 1510. Aparentemente, apenas ele sobreviveu do desastre que vitimou toda a tripulação. Os fatos que se seguiram ao naufrágio seriam envoltos em lenda depois que frei José de Santa Rita Durão escreveu o poema épico Caramuru, em 1781. Muitas das informações referentes à vida e à obra do
      misterioso náufrago foram extraídas dessa obra de ficção, e, a partir de então – e até hoje tratadas como fatos históricos.

      O Caramuru se chamava Diogo Álvares Correia e nascera em Viana, norte de Portugal. A própria origem do apelido foi romantizada por Santa Rita Durão. Segundo o frei, “Caramuru” queria dizer “Dragão Saído do Mar” ou “Homem do Trovão”. O real significado da palavra, porém, parece ser “moréia”, espécie de enguia, peixe elétrico que dá “choque”. Ao ser visto pelos nativos, entre as rochas, após o naufrágio, Diogo Correia teria disparado seu mosquete para o ar, apavorando os indígenas. “Como a moréia é um peixe comprido e fino como a espingarda, e faz estremecer e fere, assim os nativos batizaram seu portador”, escreveu o historiador Francisco Varnhagen em 1854. Outros pesquisadores, porém, acham que a palavra provém de “caray-muru”, que significa “homem branco molhado”.

      Antes da chegada de Martim Afonso, Caramuru já socorrera espanhóis e franceses e até tinha sido levado para a França, onde se casou oficialmente com Paraguaçu, batizada de Catarina, em homenagem à madrinha, Catarina des Granhes, mulher do navegador Jacques Cartier. Cinco anos após o encontro com Martim Afonso, Caramuru foi feito cavaleiro real de Portugal, graças à ajuda que prestou ao primeiro donatário da capitania
      da Bahia, Francisco Pereira Coutinho.

      Apesar de seu poder e de sua amizade com os nativos, Caramuru não conseguiu impedir a revolta dos Tupinambá contra os colonos escravagistas, que vieram com Francisco Pereira Coutinho. Esse conflito eclodiu por volta de 1545, e nele foi morto o próprio donatário. Poupado do massacre, Caramuru prestaria grande auxílio ao governador Tomé de Sousa, de 1549 até 1553. Ele morreu com quase 70 anos, em 5 de outubro de 1557.

      Em meados de março de 1531, depois de considerar as nativas da Bahia “tão formosas quanto as mais belas moças da Rua Nova, de Lisboa”, Martim Afonso partiu para o Rio de Janeiro. Na bela Guanabara, decidiu descansar a tropa e consertar os navios. Na atual Praia do Flamengo, fundou uma pequena vila, cercada por uma paliçada, com “uma casa forte”, uma ferraria e um estaleiro. Ali, enquanto Henrique Montes era encarregado de obter mantimentos para a viagem ao rio da Prata – suficientes para 300 homens durante um ano, o capitão ordenou a construção de dois bergantins de 15 bancos cada um.

      Coleção Terra Brasilis – Volume II, Náufragos, Traficantes e Degredados [Eduardo Bueno]

      Para download (sem formatação adequada!)
      Eduardo_Bueno_Naufragos,_traficantes_e_degredados.pdf

      http://www.4shared.com/file/25027518/b7fbbaee/Eduardo_Bueno___Naufragos_traficantes_e_degredados.html?s=1

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