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Brasil: Cultura, poesia e direitos indígenas na blogosfera

O Brasil possui um dos mais impressionantes mosaicos de povos indígenas do mundo, e esta riqueza cultural está começando a aparecer na blogosfera brasileira.

Foto por Tatiana_Reis na área de inclusão digital do Campus Party 2009

Foto por Tatiana_Reis na área de inclusão digital do Campus Party 2009

A mais de 500 anos atrás, antes da colonização européia, o Brasil era inteiramente habitado por uma grande diversidade de grupos indígenas, estimados pela FUNAI em contarem entre 1 e 10 milhões de indivíduos. A denominação “índio” foi dada aos habitantes nativos do lugar por conta de um equívoco dos colonizadores, que acreditavam ter chegado á Índia. Hoje, há por volta de 460.000 índios no Brasil, pertencentes a por volta de 225 diferentes grupos étnicos, vivendo em áreas protegidas, e mais algo entre 100 e 190 mil índios vivendo em áreas rurais ou urbanas. Eles constituem aproximadamente 0.25% da população brasileira e falam por volta de 200 línguas diferentes, embora muitos deles sejam bilíngues. Além destes, há ainda por volta de 63 grupos indígenas que nunca fizeram contato com o mundo exterior e são considerados “povos isolados” (FUNAI, 2009).

Embora a maioria das áreas indígenas sejam localizadas em áreas rurais remotas e não tenham acesso fácil a meios de comunicação como o telefone e a internet, a ascensão de associações regionais indígenas fortes como a COIAB, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, e de redes de nível nacional como a Rede dos Povos das Florestas, encabeçada pelo líder indígena Ailton Krenak, encorajou grupos e indivíduos indígenas a blogar para o mundo. Algumas vezes eles contam com uma pequena ajuda de amigos, apoiadores da causa indígena, para cruzar o abismo tecnológico.

Dois dos mais famosos líderes indígenas do Brasil estão blogando.

Desde 2008, Marcos Terena, do Estado do Mato Grosso do Sul, que descreve a si mesmo como um guerreiro do Povo Terena, vem usando sua escrita, seu pensamento e suas habilidades de comunicação como armas para defender seu povo e as causas indígenas no século 21. Em seu blogue, Terena comenta sobre eventos nacionais e chama nossa atençao para eventos que são relevantes para a causa indígena.

Foto de Valter Campanato de Marcos Terena na Conferência Regional das Américas. Creative Commons.

Foto de Valter Campanato de Marcos Terena na Conferência Regional das Américas. Creative Commons.

Recentemente, Terena publicou uma crônica sobre um suposto episódio onde uma pessoa branca (ou “homem branco”, como as tribos geralmente chamam os não-índios) teria sido devorada por índios do Norte Brasileiro, relatado pela imprensa nacional:

Nos ultimos tempos, o colonizador acostumado a trabalhar com a imagem do mito, do herói e de tantas simbologias, criou a lenda de dificil comprovação, de que um padre de nome Sardinha teria sido devorado pelos Tupinambas… E agora, com os irmãos Kulina.
Como diria o velho sábio Jeca Tatu, tem arguma coisa errada nesse causo ou essa história tá mal contada.
Como a piola sempre arrebenta do lado mais fraco, então nós daqui do sul, do centro oeste e de outras regiões acostumados com churrascos, farofa, beiju, mandioca, banana e até mesmo guaraná, ficamos pensando:qual o significado dessa história de comer o homem branco? vale a pena? Saborear com gosto ou com raiva?
Porque… engolir sapo em nome da civilização moderna, nós indigenas já fizemos isso varias vezes. E não é mole, não!!!!
Pensem nisso Canibais, reflitam e lembrem-se: contra má digestão, chá de boldo!!!!

Ailton Krenak, outro importante líder do povo Krenak do estado de Minas Gerais, conta com o apoio de um colega chamado Hanny para publicar em seu blogue todos os artigos jornalísticos publicados sobre ele desde 2007. Os tópicos são principalmente eventos políticos e culturais. O blogue trouxe recentemente imagens da participação de Ailton em um festival indígena devotado para a água, que aconteceu no festival FestiVelhas, e onde ele falou sobre a preservação ambiental na cultura indígena:

Ainda reunidos em círculos ou em duas filas, os presentes cantavam, dançavam e ouviam as explicações de Ailton. “É preciso entrar em sintonia com a natureza e ouvir o que as águas tem as nos dizer”, diz ele sobre a relação que os homens devem manter com ambiente.

Foto: Dois jovens índios nadando no rio, por Deborah Icamiaba

Foto: Dois jovens índios nadando no rio, por Deborah Icamiaba

Há iniciativas coletivas interessantes protagonizadas por índios jovens acontecendo na blogosfera

A Associação AJI, Ação de Jovens Indígenas, reúne índios das etnicidades Kaiowá, Terena e Nandeva localizados em Dourados, no Estado do Mato Grosso do Sul. Eles realizam uma série de atividades direcionadas à integração das comunidades, incluindo um jornal local que informa local e externamente sobre o dia a dia e os desafios enfrentados pelos povos indígenas. Desde 2006 eles também estão blogando. Embora eles vez ou outra façam referências a artigos de agências de notícias, muitos de seus artigos são escritos por jovens indígenas locais.

Um interessante exemplo disso foi a forma como eles coletaram opiniões de índios locais sobre as acusações feitas por homens brancos da região de que “os índios recebiam vários benefícios, mas não pagavam impostos ou taxas”, como podemos ver neste post:

O índio kaiowá Euzébio Garcia, morador da aldeia Bororó, fazia economia há algum tempo para comprar uma moto. Com o acerto do pagamento da usina, ele conseguiu completar e fez a compra em dezembro de 2008. Euzébio investiu R$ 3 mil à vista. Esse é apenas um exemplo de como os indígenas da Reserva de Dourados têm aplicado seu dinheiro. Os salários dos trabalhadores das usinas e da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), os benefícios e os programas sociais geram renda para os índios e se convertem em lucro para o comércio de Dourados. A população indígena contribui e muito com a economia da cidade de Dourados.

Os índios Pataxó que vivem no Sul do Estado da Bahia criaram um blog dedicado ao Projeto Social de Ecoturismo chamado Reserva da Jaqueira:

foto: Índio Pataxó conduzindo turistas nos arredores da Reserva da Jaqueira, por Deborah Icamiaba

foto: Índio Pataxó conduzindo turistas nos arredores da Reserva da Jaqueira, por Deborah Icamiaba

Desde 2008, o blogue vem sendo movimentado por Aricema Pataxó, uma jovem índia Pataxó que está estudando jornalismo na Universidade Federal da Bahia. Embora o blogue tenha como principal objetivo disseminar o projeto para seus visitantes, ele traz também interessantes imagens e explicações sobre a cultura Pataxó, como por exemplo neste post sobre a importância da pintura corporal:

foto: Índio Pataxó se pintando, na Reserva Jaqueira, por Deborah Icamiaba

foto: Índio Pataxó se pintando, na Reserva Jaqueira, por Deborah Icamiaba

A pintura corporal é um bem cultural de grande valor para nós Pataxó. Ela representa parte de nossa história, sentimentos do cotidiano e os bens sagrados. Usamos a pintura corporal em festas tradicionais na Aldeia como em ritos de casamento, nascimento, comemorações, dança, luta, sedução, luto, proteção, etc. Temos pintura para o rosto, braço, costas e até mesmo para as pernas. Usamos pinturas específicas para homens e mulheres casados e solteiros. As pinturas têm diversidade de tamanho e significados.

O blog Criança do Futuro: Wakopunska Karipuna vem sendo mantido desde 2007 por uma pessoa com um perfil muito interessante, na busca de tentar ajudar na compreensão de como são os índios brasileiros hoje:

Sou um mestiço brasileiro. Pareço branco, mas não sou caucasiano. Tenho sangue karipuna, dos karipunas do Rio Jamary, hoje quase extintos nos sertões do Guaporé. O resto de minha origem (portugueses do Ceará, holandeses do Sergipe, espanhóis do Pantanal, alemães do Paraná e italianos do Rio Grande do Sul) pouco me explica. Sou brasileiro dos quatro costados e, mais que isso, um hominídeo do continente Amarakka. Estrangeiro em minha própria terra, quero poder falar a língua universal da Paz, e ter como repousar minha cabeça: por isso escrevo nessa areia e nessa arena virtual.

Seu blogue oferece alguns relatos fascinantes de alguém que vive na fronteira entre o Brasil (no Estado do Acre) e o Peru (Cuzco) e que realmente conhece a realidade da vida indígena no Amazonas. Em um post recente, ele fala do problema do alcoolismo entre os índios de sua região:

Quando estive certa ocasião por ser nomeado chefe de posto indígena da Fundação Nacional do Índio, em 1993, um dos antigos funcionários da Funai em Rio Branco já me advertia que para uma boa convivência com os índios eu devia fazer vista grossa para o problema do alcoolismo, ou estaria me expondo a criar inimizades entre os lideranças ou até mesmo a ser vitimado por algum deles. Essa incapacidade da Funai em lidar com o assunto se extende também às organizações que se dedicam a apoiar as populações indígenas, as quais se engajaram a partir dos anos 70 na luta pela demarcação de terras e na formação de lideranças e entretanto jamais se esforçaram por tratar essa espinhosa questão que representa um grave problema de saúde…Alcoolismo e aculturação andam de mãos dadas na Amazônia, e tanto é a aculturação que leva ao alcoolismo quanto o alcoolismo que conduz à aculturação, isso deve ser deixado bem claro.

Por fim, nós também encontramos na rede algumas interessantes iniciativas blogueiras de linguistas e antropólogos que escrevem sobre as tribos com as quais trabalharam.

No blogue Maxacali, o estudante de linguística Charles Bicalho manteve um registro entre 2006 e 2007 de imagens e aspectos interessantes da cultura Maxacali, como por exemplo sua trajetória histórica:

Os Maxakali surpreendem por ainda preservarem língua, religião, costumes e outros aspectos tradicionais de sua cultura como nenhum outro grupo. Pouco mais de mil pessoas, sendo a maioria da população de crianças, falam a língua maxakali, do tronco lingüístico macro-gê, família maxakali. Vivem em reserva no Vale do Mucuri, Nordeste do Estado. Povo tradicionalmente seminômade, caçador e coletor, é comum alguns grupos de poucos indivíduos abandonarem a reserva para longas peregrinações, muitas vezes chegando até Governador Valadares, distante mais de 300 km. Seus ancestrais costumavam vagar por uma extensa área que abrange, além do Nordeste de Minas, o Sul da Bahia e o Norte do Espírito Santo. Após o contato com o colonizador europeu e a conseqüente diminuição de seu território, acabaram, enfim, confinados em reserva.

Bicalho também publico algumas incríveis traduções para o português de alguns cânticos tradicionais da ritualística Maxakali e explora algumas questões sobre a poesia indígena, que será o tema do outro artigo desta trilogia. Abaixo, um exemplo:

O texto a seguir é um yãmîy maxakali, canto ritual do tatu. O autor é Damazinho Maxakali, aluno do Curso de Formação de Professores Indígenas de MG.

KOXUT
Koxut hãmkox hu kopa moyõn
Koxut yã hãmkox kopa tokpep
Koxut ãpnîy yîta yãy hi hu xit hã yãy hi
Koxut tute komîy mahã xi kohot xi puxõõy
Koxut yã hãmtup tu yãy hi xi ãpnîy hã
Puxi. Ûkux.
Ûgãxet ax Namãyiy Maxakani.

O TATU
O tatu dorme dentro do buraco
O tatu dá cria dentro do buraco
O tatu sai à noite pra andar e pra comer
O tatu come batata, mandioca e minhoca
O tatu anda de dia e de noite
Chega. Acabou.
Meu nome é Damazinho Maxakali.

Foto: Uma mulher índia trabalhando, por Deborah Icamiaba

Foto: Uma mulher índia trabalhando, por Deborah Icamiaba

Para uma listagem cuidadosa de todos os blogues e sites indígenas do Brasil, visite o blogue criado por Glaucia Paschoal com o intento específico de disseminar estas fontes para o propósito de servirem como fontes de pesquisa ou simples aquisição de conhecimento sobre os povos indígenas. Sua busca é fortalecer os meios pelos quais as comunidades indígenas expressam sua cultura e seus movimentos políticos na Internet.

No próximo artigo desta série, você encontrará os escritores e poetas indígenas que usam seus blogues para se expressarem. E no último artigo você verá como os índios brasileiros estão blogando em busca de seus direitos.

11 comentários

  • […] primeiro artigo desta série, nós introduzimos a blogosfera indígena brasileira. No próximo, vocês irão descobrir como os povos indígenas brasileiros vem usando a blogosfera […]

  • Gostaria de ser o que o homem branco as vezes me chaman. de inguinorante. selvargen .bicho do mato. sujos. imundos as vezes de maconhero. preguisozos. bugres e ivasores . Mas eu simplesmente um indio terena . Oro por esta alma inocente que não tem culpa porque a minha nação esta assim .Gastaria de poder senta com essas pessoas e mostra oque o Grande criado nos deu e poder compartilha junto a ele e chamar de meu IRMÃO KOLINÃ TERENA

  • […] a água, que aconteceu no festival FestiVelhas, e onde ele falou sobre a … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  • […] entre 1 e 10 milhões de indivíduos. A denominação “índio” foi … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  • Malinali

    Vixi!!! Mas os índios são mesmo pessoas lindas!!!! Tanto por dentro quanto por fora!! Veja só esse aí acima se pintando, que espetáculo de homem!!!
    “Se Deus quiser,
    Um dia eu quero ser índio..” Já dizia Rita Lee e com razão!!
    Índios: sua inteligência, beleza e sabedoria ultrapassam o conhecimento que temos, vocês são seres superiores, seres encantados…

    • frambell

      O comentário acima é pertinente. Ainda que os indios estejam em grande parte contaminados pela chamada cultura branca, eles são muito menos susceptíveis à mudanças que outras raças chamadas “civilizadas”. A pureza tão comum ao índio é uma das suas fortes marcas culturais, fruto de milhares de anos de ensinamento e da prática de geração a geração. Graças a preocupação dos mais velho em disseminar tal cultura é manifestada com energia. Diferentemente, nós, os chamados brancos, além de culturalmente volúveis, somos dominados pelo tolo complexo de superioridade que, na verdade, só existe nas culturas consumistas que pregam o consumo desenfreado, cujo pano de fundo são conceitos de filosofias pobres, do mal, que pregam o dinheiro e o consumo como a “coroação da civilição moderna”. Sem tal condição, o destino será a exclusão.
      Dogmas idiotas como este não só corroem a autoestima, como atacam culturas de princípios, arraigadas a dezenas de séculos, mas, principalmente, disseminam a loucura entre as pessoas, criando a intolerârncia e aprofundando as divisões entre as culturas milenares, venham elas de onde vierem. Ao condenar as desigualdades como um defeito, em nome de uma modernidade burra, que não passa de um culto à futilidade consumista, a beleza superficial e ao indiferentismo, estão obrigando às pessoas menos atentas a aderir ao emburrecimento pessoal, a jogar na lata do lixo princípios como respeito mutuo, eliminando a noção de comportamento ético. Além de abrir um largo caminho para a tragédia dos vicios e da violência.
      Frambell Carvalho

  • gostaria que divulgasse que nos aqui nos sul guarani terena kaigang gostariamos de participa dos eventos . pra nos divulgar o tradição do RS pois estamos esquecidos pelas altoridade daqui . Pois nos tambem temos o direito de mostra a nossa tradição. não temos apoio de niguein .temos direito igual aos outros indios tambem informação 53.91444059 kolinã terena

  • estudante

    sera q alguem pode fazer um resuma desses artigos to precisando muito

  • Obrigado por divulgar o trabalho do blog Karipuna Waköpünska e sucesso para as iniciativas dos parentes. Aqui no Acre a Comissão Pró-Ìndio em parceria com o CDI está levndo a informática às aldeias, e esperamos ver em breve tanto a comunicação entre aldeias facilitada pelo uso dos computadores (abandonando os velhos rádios da FUNASA de difícil manutenção e uso) como também seu comércio de artesanato e, portanto, suas atividades de resgate cultural nas aldeias mais expostas ao contato possibilitadas pelo diálogo na própria língua com aldeias mais protegidas. Abraços!

  • Global Voices em Português » Brasil: Cultura, poesia e direitos indígenas na blogosfera…

    A mais de 500 anos atrás, antes da colonização européia, o Brasil era inteiramente habitado por uma grande diversidade de grupos indígenas, estimados pela FUNAI em contarem entre 1 e 10 milhões de indivíduos. A denominação “índio” foi dada aos habitant…

  • O ventre vem de todos os cantos por onde passeia e canta a Ará
    com a nobre intenção de salvar o que resta do filhos da floresta,
    dos rios e dos mares… Então, agora, o mais importante é sempre resistir…

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