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Brasil: Protesto em repúdio ao uso de ditabranda pela Folha

No dia 17 de fevereiro, a Folha de São Paulo fez uma avaliação da vitória de Hugo Chávez no referendo que permite re-eleições por tempo indeterminado na Venezuela em um editorial chamado “Limites a Chávez”. No artigo, a Folha colocou Hugo Chávez, Alberto Fujimori e os ditadores militares da América do Sul nos anos 60/70 no mesmo saco. O jornal, em seguida, chamou a ditadura militar brasileira de ditabranda, sugerindo que o período que se seguiu ao golpe de estado de 1964 foi ameno. O editorial diz:

“(…) Mas, se as chamadas ‘ditabrandas’ – caso do Brasil entre 1964 e 1985 – partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça -, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente”.

Houve um grande número de reações na blogosfera em repúdio a esse editorial, uma petição juntou mais de 7.500 assinaturas em uma semana, e nesse sábado o evento foi para o mundo offline. Blogueiros de São Paulo e de outras partes do país, sendo que alguns viajaram 20 horas de ônibus para chegar lá, fizeram uma manifestação na frente da sede do jornal. O evento foi organizado no decorrer de uma semana, por meio do propaganda boca a boca. Durante as 3 horas de protesto, os manifestantes puderam blogar ao vivo diretamente do local, graças a uma rede wi-fi com infra-estrutura com base no linux e software livre. Quando o horário de início da manifestação aproximava-se, Guto Carvalho anunciou no Twitter:

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Acesse o agregador ao vivo para ver todas as reações. Um dos blogues participantes, o Economia Solidária observa a força da blogosfera:

Alguns dias atrás o google pouco acusava se pesquisado “ditabranda”, hoje já são 172.000 resultados.

Essa foi a primeira foto, tirada por gutocarvalho e publicada via TwitPic. O @joildo retuita e comenta:

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“A materialização de um protesto organizado a partir da internet”

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Cartazes com nomes e datas em que as pessoas foram assassinadas. Foto de gutocarvalho

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A base digital improvisada em uma lanchonete. Foto de gutocarvalho

A blogosfera fala – e o papo não é nada brando

Eduardo Guimarães, um dos organizadores do protesto e a mente blogueira por trás da ONG Movimento dos Sem Mídia, postou vários artigos sobre o uso do neologismo. Em um deles, ele diz que as reações dos leitores nas outras postagens fizeram com que ele se desse conta de que não foi o único a sentir um arrepio na espinha ao ler o editorial da Folha. Ele pergunta se o editorial teria sido fruto de “Saudosismo ou projeto”:

Todos nos arrepiamos porque faz sentido, ainda que inconscientemente, entender que, quando todas as opções para retomar o poder pelas vias democráticas faltam, esses que já engendraram ditaduras, defenderam-nas e com elas colaboraram, não custa muito para terem novas idéias do tipo.

Quando se fala em imprensa golpista, muitos entendem que é porque ela tentou derrubar Lula com o escândalo do mensalão, mas não é. A razão é bem outra. A razão é a de que essa imprensa já derrubou vários presidentes no decorrer da história, alguns tendo sido “derrubados” naquele sentido que os traficantes de drogas costumam dar ao abate de seus desafetos.

Muitos blogueiros publicaram a imagem abaixo, uma charge desenhada por Latuff especialmente para o protesto mostrando Vladimir Herzog morto, bebendo caipirinha. Herzog, um acadêmico e jornalista judeu, foi torturado até a morte pelo aparato repressivo do estado em 1975. Naquela época, os militares já estavam no poder há mais de dez anos. Pinto diz:

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Fixo-me na imagem. Um jornal dos que o subvencionam e já se disse “o das Diretas” logrou este impensável: subverteu um ícone dos Anos de Chumbo e o tornou objeto de escracho não contra quem o produziu, mas contra quem deveria combatê-lo antes de qualquer coisa. Compreenda-me bem. Não me incomoda o escracho em si. À memória do Vlado dano pior fizeram os milicos. Tento aceitar, embora seja difícil, que justo um jornal tenha sido a força-motriz dessa guinada semântica.

Celso Lungaretti notou que a Folha não deu a devida atenção a todas as mensagens reclamando do editorial na seção de cartas do leitor. Na primeira semana, o jornal teria dado espaço proporcional às cartas que recebeu, das quais 13% foram relacionadas ao caso “ditabranda”. Mas isso não durou até a semana seguinte:

Já na semana de 22 a 28 de fevereiro, a proporção de mensagens sobre a “ditabranda” até cresceu, para 20%. O que diminuiu foi o interesse da Folha em destacar uma discussão que se tornava cada vez mais indigesta para ela.

Portanto, dentre as 69 notas que saíram no Painel do Leitor, míseras quatro (5,8%) abordavam o assunto que, para o público do jornal, era o mais importante do período, à frente até do “Governo Lula” e da “crise econômica”, sobre os quais apenas 6,4% e 5,3% dos leitores, respectivamente, sentiram-se compelidos a escrever à Folha.

O número total de reclamações durante o período de dez dias após o 17 de fevereiro foi de 174 cartas. Apesar de não ser parte do trabalho do ombudsman analisar as opiniões publicadas nos editoriais do jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva também achou que a resposta da Folha foi inaceitável já na primeira semana:

Um editorial com referência ao regime militar brasileiro provocou cartas publicadas no “Painel do Leitor”. Resposta da Redação a duas delas na sexta foge do padrão de cordialidade que julgo essencial o jornal manter com seus leitores.

A Folha perdeu pelo menos um leitor. A atitude do jornal fez Idelber Avelar tomar a decisão de cancelar a assinatura que tinha no serviço online do grupo, o UOL. Ele também confirmou a sua tese de que os funcionários da grande imprensa não têm a menor idéia sobre a importância de seus leitores, que agora podem participar e ter uma voz. Agora que a internet é a plataforma principal para protestos, “eles seguem colocando a culpa da febre no termômetro”. Ele comenta:

Todas as fontes confirmam que o impacto do episódio fez com que se batessem muitas cabeças na redação da Folha de São Paulo. Sem saber muito bem como lidar com a grande repercussão, sem ter a dignidade de se desculpar, desprovido da transparência de repensar a sua colaboração com a ditadura, o jornal embarcou numa sequência de emendas que pioraram muito um já péssimo soneto. Publicaram umas poucas linhas de Benevides e de Comparato, sem resposta injuriosa mas sem retratação. Escalaram um colunista, Fernando Barros e Silva, para “discordar” do editorial num texto cuja ênfase maior era uma bizarra comparação entre a metáfora usada por Comparato – de que o jornal deveria se desculpar ajoelhado em praça pública – e os métodos da Revolução Cultural chinesa (haja liberdades com as metáforas alheias!). O coroamento foi um post de Marcelo Coelho que afirmava que “há pelo menos 30 anos, a Folha reprova o autoritarismo”, omitindo a simples matemática de que em 1979 a Folha já tinha 15 anos de leais serviços prestados à ditadura militar.

Sugestão de leitura

Brasil: Nunca Mais – Livro que documenta as torturas que ocorriam no Brasil na época da ditadura militar, 1964-1979, preparado secretamente pela Arquidiocese de São Paulo.

No Global Voices: Brasil: Luz nos dias de escuridão da ditadura

Atualização: 08/03/2009

Na sua edição de domingo, a Folha pediu desculpas finalmente. Eles também cobriram o protesto. Mas para Antônio Melo, ainda não é o suficiente:

A pressão fez a Folha recuar. Hoje o jornal publica nota em que o diretor de Redação e herdeiro do jornal, Otavio Frias Filho, reconhece que foi um erro chamar a ditadura brasileira de ditabranda. Menos mal. No entanto, Otavinho, como é conhecido, insiste em atropelar a realidade ao fazer interpretação literal de uma carta do professor Fábio Konder Comparato, e, pior, volta a ofender o professor e a professora Maria Victória Benevides, chamando-os de “democratas de fachada”. Com isso ele consegue corrigir-se no essencial, mas, como um legítimo neocon, cai atirando. Sua expectativa com a nota é tentar transformar o mea culpa a que se viu obrigado de uma “quase derrota” em uma “quase vitória”. Erra novamente.

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