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Brasil: Vazamento de pesticida mata 80 ton de peixes no RJ

Enquanto a atenção da maioria das pessoas no Brasil se voltava para a trágica enchente em Santa Catarina, outro desastre ambiental assolava o país, dessa vez no estado do Rio de Janeiro. Em 18 de novembro, um vazamento do fatal pesticida endosulfan [en] no Rio Pirapetinga, um afluente do Rio Paraíba do Sul, matou milhares de peixes – mais de 80 toneladas – em Resende e outras cidades vizinhas. O incidente causou ainda a interrupção do fornecimento de água em sete cidades na área. A tragédia foi maior por ter acontecido durante a temporada de reprodução de muitas espécies, algumas das quais correm risco de extinção. Cintia Sibucs diz que além de peixes, ela ficou triste em ver capivaras e até passarinho mortos:

Pela quantidade de peixes e animais mortos, pode-se dizer que será necessário uns dez anos ou mais para que toda essa vida volte ao que era antes. O produto químico Endosulfan, usado na fabricação de inseticidas, é usado pela empresa que fica em Resende. O acidente gerou ainda mais transtornos pois o serviço de água e esgoto suspendeu a captação de água por uns dias, deixando a população em alerta.

Agora, depois de tanta tristeza de ver milhares de peixes e capivaras mortas, o que resta é recolher o que restou. Desde sábado (22/11) as prefeituras de Volta Redonda e Barra Mansa estão num trabalho ininterrupto de recolhimento dos peixes, que já estava causando forte mau cheiro.

Capivara morta, foto tirada pelo professor de Engenharia Ambiental Ricardo Terra, do blog do Roberto Morais

O vazamento foi descoberto o vazamento foi descoberto a partir de investigação da Feema, alertada por uma mortandade de peixes no Rio Pirapetinga e Paraíba do Sul.. Com sede em Resende, a Servatis, empresa responsável pela fábrica de fertilizantes, confessou o vazamento de 1,5 mil litros de endosulfan e alegou que ele teria sido causado por uma falha humana ao conectar um caminhão tanque. Em uma postagem chamada “Além de morte, nenhum risco”, Vitor Menezes contesta o anúncio feito pela empresa em 19 de novembro, pouco de mais de um dia depois do acidente, alegando que a situação estaria sob controle:

A empresa Servatis, responsável pelo vazamento do pesticida endosulfan no rio Paraíba do Sul, afirmou aqui em seu site que, de acordo com a sua gerência de meio ambiente, a concentração do produto no rio havia caído a zero e não havia “mais risco à fauna”. Os peixes do post abaixo não devem ter recebido o recado.

Peixe morto, pelo professor de Engenharia Ambiental Ricardo Terra, foto do blog do Roberto Morais

Mais tarde veio a descoberta de que o vazamento do inseticida endosulfan foi maior do que os 1,5 mil litros assumidos pela Servatis. O produto foi derramado durante o descarregamento de um caminhão que tinha capacidade de 30 mil litros, mas apenas 12 mil litros, ainda assim misturados com água da chuva, foram recuperados no dique da empresa. A Servatis depois admitiu que pelo menos 8 mil litros podem ter vazado – ao contrário do que tinha sido divulgado na semana anterior. O advogado e ambientalista Luiz Felipe Muniz de Souza fala das consequências do vazamento para as comunidades locais:

Várias comunidades pesqueiras afetadas estão impedidas de trabalhar e nem sabem ao certo quando poderão retornar, pois a ação do inseticida, mesmo tão distante do ponto em que foi despejado pelos criminosos, e mesmo estando tão diluído – devido ao volume do próprio Rio Paraíba do Sul e devido ao volume d’água das intensas chuvas regionais –, continua provocando mortandade de peixes em toda a foz do Paraíba do Sul, e nas praias do município de São João da Barra e de São Francisco do Itabapoana. Os criminosos ambientais, que inicialmente se omitiram e mentiram sobre a quantidade do produto arremessado no rio, depois admitiram que foi uma quantidade 10 vezes maior do que a declarada, diante de tantos peixes mortos!

Foto do Blog do Roberto Morais

Servatis recebeu uma multa de R$ 33 milhões, da qual a empresa afirmou que pretende recorrer, e 20 dias de suspensão. As operações na fábrica foram reiniciadas hoje, 9 de dezembro, para todos os departamentos, exceto o de produção de endosulfan. reage à notícia:

Mais uma vez o poder público zomba de nós! Sem que nada tenha sido feito para minimizar os danos ao Rio Paraíba a empresa “Servatis volta a operar nesta terça-feira” (…) Em menos de um mês, desde o acidente ambiental, a auditoria realizada por empresa privada solicitada pela SEA foi rapidamente concluída, e sem que houvesse tempo hábil para a realização de uma segunda auditoria ou para que se analisasse a fundo o conteúdo do documento – medidas que poderiam dar mais garantias sobre os processos e ajustes da empresa para a segurança da população – a Servatis abre!

Uma tartaruga morta, foto do Roberto Morais

O blogue A TroLhA expressa o sentimento de que a lei ambiental brasileira tem duas caras:

O aparato de fiscalização ambiental quando se trata da persecução das medidas de controle e defeso de espécies (alías, necessárias), tem se mostrado eficiente em coibir as infrações cometidas por pescadores e populações que dependem dessa atividade, e que geralmente, ocupam os andares mais baixos da nossa pirâmide social… Por outro lado, quando se trata de estender essa eficiência aos empresários e industriais, que exploram atividades econômicas que trazem sérios riscos ao ecossistema no qual estão inseridos, nossos órgãos ambientais são de uma leniência e ineficácia vergonhosa… Direito a propriedade e a livre iniciativa não podem se sobrepor ao direito a vida…Bom, pelo menos não deveriam…

Rui Camejo nos lembra que essa não é a primeira vez que a Servatis causa prejuízos ao meio ambiente. De acordo com o blogueiro, há cerca de três anos a mesma empresa foi responsável pelo derramamento do inseticida Dimetutato. Outro blogueiro, :

E essa denúncia não deve se limitar a essa fronteira, à foz desse afluente: deve ser estendida a toda a bacia hidrográfica desse que é, seguramente, um dos mais importantes rios do Brasil, dada a sua relevância nos aspectos sociais e econômicos de toda a região que ela tão generosamente abraça.

Foto do Blog do Roberto Morais

O Rio Paraíba do Sul, que nasce da junção dos rios Paraibuna e Paraitinga, começa na Serra da Bocaina, no Estado de São Paulo e percorre 1,12 km até a foz em Atafona, ao norte do estado do Rio de Janeiro. A bacia do Rio Paraíba do Sul abarca três estados – São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – e é considerado, em tamanho, uma das maiores bacias brasileiras, cobrindo uma área aproximada de 57.000 km².

Proibido em vários países no mundo inteiro, o endosulfan é largamente usado para controlar uma grande variedade de insetos e pestes em plantações. O seu uso é proibido na Europa e a Environmental Justice Foundation [Fundação para Justiça Ambiental, en] está promovendo uma campanha para que as pessoas pressionem seus governos locais a banirem o uso de endosulfan e listarem esse produto químico na Convenção de Estocolmo, que visa a banir a produção, uso e disposição de substâncias químicas tóxicas.

Foto do Blog do Roberto Morais

24 comentários

  • Antônio Pereira

    Madrugada do dia 18 de novembro de 2008

    “MEIO AMBIENTE: Empresas clientes da Servatis não tem onde incinerar seus resíduos tóxicos.”

    Poucas semanas foram tão ruins para a Servatis, quanto a última. A empresa do setor agro-químico, responsável pelo vazamento de cerca de oito mil litros de endosulfan nas águas do Rio Pirapetinga, afluente do Rio Paraíba do Sul, foi interditada pela Feema, acabou multada em R$ 33 milhões pela Comissão Estadual de Controle Ambiental e está sendo investigada pela Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente. Tem mais. Pode ser obrigada a fechar as portas e demitir todos os seus 650 funcionários, caso não consiga reverter a multa milionária que lhe foi aplicada em medidas de compensação ambiental.

  • Antônio Pereira

    27/07/2005 –
    Nuvem química castiga bairro da zona leste de SP
    FABIO SCHIVARTCHE
    da Folha de S.Paulo

    Uma nuvem densa encobre diariamente o céu do Jardim Keralux, bairro popular no extremo leste da cidade de São Paulo onde cerca de 8.000 pessoas vivem em meio a um pólo industrial.

    Ora cinza, ora esbranquiçada, a fumaça é formada por gases tóxicos de nomes complicados, como o sulfídrico (H2S) e o dióxido de enxofre (SO2), mas que são reconhecidos em segundos pelos moradores pelo cheiro de ovo podre.

    O odor, no entanto, é o menor dos problemas. A emissão desses gases pelas fábricas, acima dos padrões seguros à saúde pública, está provocando doenças crônicas, principalmente males respiratórios nas crianças.

    Enquanto continua em andamento um inquérito civil para apurar as responsabilidades, técnicos da prefeitura paulistana investigam se a emissão de poluentes na região está relacionada à ocorrência nos bairros vizinhos de casos de gravidez em que o feto sofre de anencefalia (não tem o cérebro) –problema semelhante ao registrado nos anos 80 em Cubatão, no litoral paulista, que já foi a cidade mais poluída do mundo.

    Há ainda um problema ambiental: dejetos da maior poluidora, a Bann Química, que produz insumos para a indústria pneumática, estão indo diretamente para um afluente do rio Tietê, junto ao Parque Ecológico do Tietê. Já foram registrados episódios de morte de pássaros na região.

    Cortina de fumaça

    O posto de saúde da prefeitura no Jardim Keralux recebe em média cinco crianças por dia com problemas respiratórios, como bronquites e alergias. Até funcionários do posto sofrem com resfriados e dores de garganta constantes. “Quando eles liberam a fumaça, dá um nó na garganta”, diz a estudante Carla Rodrigues.

    Vizinha, a desempregada Crisdet Rosa dos Santos já se acostumou a levar o primo Rodrigo, de 2 anos, para fazer inalação no posto de saúde. “Tem dia que ele não para de espirrar e o peito fica que é uma chiadeira só”, conta.

    Na divisa do Keralux com o Parque Ecológico do Tietê foi instalada recentemente a USP Leste, o novo campus da Universidade de São Paulo. Dependendo da direção do vento, os alunos sentem o cheiro ruim –e ficam expostos às doenças provocadas pelos gases que saem das chaminés, alguns deles cancerígenos.

    A Folha passou a tarde de segunda-feira na região e constatou a sensação de permanente desconforto narrada pelos moradores. Mesmo tendo chovido bastante na noite anterior, a poeira incomoda muito, irritando os olhos e a garganta. Na língua, sente-se um gosto ácido.

    A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, que investiga a emissão de gases na atmosfera e a de efluentes no córrego, negocia um acordo com a Bann Química.

    Já a Cetesb, órgão ambiental do Estado, diz que já emitiu mais de 20 multas em nome da Bann desde 1989. “Eles cumpriram parte do que estava previsto, eliminando parte dos poluentes. Falta a segunda etapa”, afirma Joaquim Pereira, engenheiro da agência Tatuapé da Cetesb.

    Sobre os dejetos despejados no córrego que atinge o Tietê, ele diz que é responsabilidade da Sabesp completar a rede de tratamento de esgoto no local.

    O vereador Juscelino Gadelha (PSDB) está organizando um grupo de moradores do Jardim Keralux para tentar remover a fábrica do bairro. “A situação por lá é gravíssima”, afirma.

    Outro lado

    Advogada contratada pela Bann Química para coordenar o gerenciamento ambiental da fábrica, Márcia Buccolo afirmou à Folha que “ninguém tem culpa” pelos problemas de saúde causados no Jardim Keralux.

    “A região era um pólo industrial muito antes da urbanização do bairro. Além disso, há outras fábricas que emitem tantos poluentes quanto a nossa”, afirma.

    Segundo ela, desde 1994 a planta de Ermelino Matarazzo passa por investimentos para “mitigar os problemas ambientais”. “Num futuro próximo vamos implantar um projeto de vanguarda para que a chaminé se transforme apenas em equipamento de segurança”, diz.

    Ricardo Ferro, da Viscofan, outra empresa citada como grande poluidora do bairro, diz que estão sendo instalados equipamentos novos para reduzir a emissão de poluentes.

    http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u111400.shtml

  • Antônio Pereira

    Milhares lembram 20 anos de tragédia em Bhopal
    03 de dezembro de 2004

    Milhares de pessoas lembram hoje, na cidade indiana de Bhopal, o vigésimo aniversário do vazamento de gás tóxico que causou milhares de mortes e exigem justiça para as centenas de milhares de vítimas. O governo indiano estima que 15 mil pessoas morreram nestes 20 anos em decorrência da contaminação, mas ativistas falam em quase 33 mil vítimas no total.
    Defensores dos direitos humanos, ecologistas, milhares de sobreviventes e pessoas que apóiam os atingidos participaram hoje, de uma passeata pela cidade de Bhopal, capital do estado de Madhya Pradesh, no centro da Índia, para lembrar a catástrofe. Os manifestantes levavam retratos de muitos dos mortos na tragédia e cantavam consignas pedindo justiça e a limpeza da área, ainda contaminada. Durante a passeata, foram queimadas imagens com os símbolos da empresa americana Union Carbide, proprietária da fábrica de pesticida onde aconteceu o acidente, e da também americana Dow Chemical, que a adquiriu em 2001.

    Centenas de sobreviventes e milhares de outras pessoas participaram na noite de quinta-feira de uma vigília na qual, como a cada ano, foram acendidas velas e as vítimas de Bhopal foram lembradas.

    Vítimas não foram indenizadas
    O acidente químico, ocorrido pouco depois da meia-noite do dia 2 de dezembro de 1984, causou inicialmente a morte de 7 mil pessoas. Vinte anos depois da catástrofe, muitas das vítimas e seus familiares continuam sem receber nenhuma indenização e sem possibilidade de ter acesso a tratamentos médicos adequados.

    A empresa Union Carbide aceitou, em 1985, a “responsabilidade moral” do acidente e acordou com o Executivo indiano, sem ir a julgamento, o pagamento de US$ 470 milhões de indenização. Este dinheiro foi depositado no Banco da Reserva da Índia e somente parte dele foi utilizado para indenizar algumas das vítimas. Estas não podem entrar com uma ação contra a multinacional americana, devido ao acordo feito com o governo.

    Em outubro, o Supremo Tribunal da Índia aprovou o pagamento de parte do dinheiro restante, cerca de US$ 350 milhões, a 572 mil vítimas e familiares, uma quantia muito inferior à que exigem. Mais de 100 mil pessoas, segundo várias organizações, sofrem na atualidade de doenças crônicas, como cegueira, câncer, tuberculose, problemas respiratórios, depressão, irregularidades menstruais e problemas de articulação. Shyam Agarwal, médico que participa da campanha de ajuda às vítimas de Bhopal, disse hoje que a incidência do câncer de pulmão na região aumentou significativamente e, embora não tenham mencionado números, organizações de defesa apontaram que é quatro vezes superior à habitual.

    O médico afirmou que a companhia Dow Chemical, atual proprietária da fábrica, que está fechada, esconde informação vital para estabelecer um tratamento médico eficaz para as vítimas, como a composição exata do gás e a quantidade do mesmo. “O gás que vazou era formado por pelo menos 21 tipos de gases, dos quais até o momento só dez puderam ser identificados”, disse Agarwal, que explicou que muitos dos doentes recebem tratamento médico gratuito em um hospital local.

    Ambiente permanece contaminado
    Na segunda-feira passada, a organização não-governamental Anistia Internacional (AI) publicou um relatório que denunciava que muitas das vítimas, a maioria vivendo em extrema pobreza, ainda não receberam indenizações e que a área continua contaminada. Várias organizações e moradores da região exigem a limpeza do local e afirmam que dentro da fábrica há uma grande quantidade de produtos químicos acumulados e sem proteção, que atingem o solo e contaminam a água.

    A BBC publicou recentemente uma pesquisa que indicava que a água em Bhopal tem um nível de contaminação 500 vezes mais alto que o limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Depois destas denúncias, as autoridades de Madhya Pradesh anunciaram ontem que ordenaram uma pesquisa para determinar a quantidade de lixo tóxico que há na área e prometeu que este será um primeiro passo para uma “limpeza total”.

    A Union Carbide começou os trabalhos de limpeza do local depois do acidente, gastando cerca de US$ 2 milhões. Em 1998, o governo assumiu as responsabilidades pelas operações de limpeza.

    http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI433281-EI294,00.html

  • Antônio Pereira

    Resíduos tóxicos de Bhopal / India

    Na madrugada de 3 de Dezembro de 1984, um produto químico tóxico vazou de uma fábrica de pesticida, de propriedade da Union Carbide, na cidade de Bhopal no norte do estado de Madhya Pradesh, India.

    Cerca de 3000 pessoas morreram na noite do vazamento. Houve, pelo menos, 15.000 mortes relacionadas ao fato.

    Nos últimos 24 anos, 384 toneladas de resíduos foram deixados nas instalações da extinta fábrica – e de maneira nenhuma, não foi ainda encontrado destinação final segura.
    O mais recente revés veio quando o governo do estado vizinho Gujarat recuou de um compromisso de incinerar uma grande parte dos resíduos industriais.
    Antes disto, o ministério da Defesa da Índia recusou-se a retomar o trabalho e recomendou o Instituto Nacional de Gestão de Desastres do país como instância adequada para a limpeza do local. O instituto recusou.

    Apoio
    Em maio, a corte superior de Madhya Pradesh ordenou que 40 toneladas de resíduos fossem transportados para o estado do distrito Dhar e despejado nos aterros locais – o restante de 350 toneladas foi para ser incinerado em Gujarat.
    O governo de Gurajat autorizou, mas a empresa que foi concedida o contrato para o transporte dos resíduos recusou-se, dizendo que não tinha competências para o trabalho.
    Em seguida, a agência de controle de poluição do estado que não assumiu a responsabilidade, disse que os resíduos não poderiam atravessar a fronteira de Gujarat.

    Cemitério de produtos mortais
    Os resíduos no aterro incluem os subprodutos de Sevin, o pesticida que foi produzido na fábrica, produtos acabados não vendidos e matérias-primas.
    Especialistas dizem que a fábrica é praticamente um armazém virtual de produtos químicos mortais, incluindo chumbo, mercúrio e clorado naftaleno. Estes produtos químicos podem causar câncer – que afetam o crescimento das crianças – e pode levar a outros distúrbios no corpo humano.
    Quando a fábrica estava funcionando, os resíduos eram despejados nas lagoas de tratamento por evaporação da instalação.

    Resíduos – ameaça ambiental
    A organização não governamental (ONG), Sathyu Sarangi de Sambhavna Trust, que trabalha com as vítimas do gás, diz que os resíduos representam uma enorme ameaça ambiental.
    “É escorrer para a terra com água da chuva contínua. Ainda não há uma clara estimativa da área horizontal e vertical que foi contaminada, poços artesianos de bombas manuais, distante de 5 a 10 km da fábrica foram encontrados substâncias químicas tóxicas “, diz ele.

    Níveis alarmantes
    Sarangi diz que isso poderia afetar dezenas de milhares de famílias de classe média e pobres, que vivem em assentamentos ao redor da fábrica.
    Outro ativista Rachna Dhingra diz que o governo fechou os poços de bombas manuais na área depois de um relatório do Instituto Nacional de Engenharia Ambiental, encontrou “níveis alarmantes de toxicidade”, em amostras da água subterrânea.
    Dhingra diz que as pessoas continuam a utilizar a água de torneiras fechadas, na ausência de novas fontes de água encanada.
    Em maio de 2004, a Corte Suprema da índia ordenou que os assentamentos ao redor da fábrica recebessem água potável antes do início das monções.
    Quatro anos mais tarde, mais de 25.000 pessoas que vivem em 14 colônias ao redor da fábrica continua a beber água, que se suspeita serem tóxicas.

    Dow Chemical
    É a empresa americana que comprou Union Carbide, em 2001. A Dow diz que não é responsável pela limpeza do local, que está em terra de propriedade do governo estadual Madhya Pradesh.
    O governo federal apresentou um requerimento no tribunal local solicitando pagamento pela Dow Chemical de 230 mil dólares como adiantamento para a limpeza da área contaminada.

    Falta responsabilidade
    A agencia de controle da poluição local diz que realiza testes trimestrais sobre o solo e a água da área ao redor da fábrica, mas não há informações qual ação é tomada.
    Embora diferentes agências, empresas e governos negam que sejam responsáveis pelo tratamento dos resíduos, parece não solução à vista para a tragédia ambiental de Bhopal.

    Fonte: BBC News – 30 September 2008

    Comentário
    A tragédia de Bhopal ocorreu na madrugada de 03 de dezembro de 1984, quando 40 toneladas de gases tóxicos fatais (gases como o isocianato de metila e o hidrocianeto) vazaram na fábrica de pesticidas da empresa norte-americana Union Carbide. É o pior desastre industrial ocorrido até hoje e é um exemplo de crime corporativo. A empresa se negou a fornecer informações detalhadas sobre a natureza dos contaminantes, e, como conseqüência, os médicos não tiveram condições de tratar adequadamente as pessoas expostas.

    População expostas aos gases e mortes
    Mais de 500 mil pessoas, a sua maioria trabalhadores, foram expostas aos gases.
    O vazamento de gases inicialmente a morte de 7 mil pessoas.
    O governo indiano estima que 15 mil pessoas morreram nestes 20 anos em decorrência da contaminação, mas ativistas falam em quase 33 mil vítimas no total.
    Mais de 100 mil pessoas, segundo várias organizações, sofrem na atualidade de doenças crônicas, como cegueira, câncer, tuberculose, problemas respiratórios, depressão, irregularidades menstruais e problemas de articulação. Shyam Agarwal, médico que participa da campanha de ajuda às vítimas de Bhopal, disse que a incidência do câncer de pulmão na região aumentou significativamente e, embora não tenham mencionado números, organizações de defesa apontaram que é quatro vezes superior à habitual.

    Vítimas não foram indenizadas
    Muitas das vítimas e seus familiares continuam sem receber nenhuma indenização e sem possibilidade de ter acesso a tratamentos médicos adequados.
    A empresa Union Carbide aceitou, em 1985, a “responsabilidade moral” do acidente e acordou com o Executivo indiano, sem ir a julgamento, o pagamento de US$ 470 milhões de indenização. Este dinheiro foi depositado no Banco da Reserva da Índia e somente parte dele foi utilizado para indenizar algumas das vítimas. Estas não podem entrar com uma ação contra a multinacional americana, devido ao acordo feito com o governo.
    Em outubro de 2004, o Supremo Tribunal da Índia aprovou o pagamento de parte do dinheiro restante, cerca de US$ 350 milhões, a 572 mil vítimas e familiares, uma quantia muito inferior à que exigem.

    Limpeza do local
    A Union Carbide começou os trabalhos de limpeza do local depois do acidente, gastando cerca de US$ 2 milhões. Em 1998, o governo indiano assumiu as responsabilidades pelas operações de limpeza.

    Ambiente permanece contaminado
    A fábrica da Union Carbide em Bhopal permanece abandonada desde a explosão tóxica enquanto que resíduos perigosos e materiais contaminados ainda estão espalhados pela área, contaminando solo e águas subterrâneas, dentro e no entorno da antiga fábrica.
    A BBC publicou uma pesquisa que indicava que a água em Bhopal tem um nível de contaminação 500 vezes mais alto que o limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
    http://zonaderisco.blogspot.com/2008/10/resduos-txicos-de-bhopal.html

    Vídeo – Mostra a tragédia da população (impressionante!)
    http://zonaderisco.blogspot.com/2008/10/resduos-txicos-de-bhopal.html

  • Antônio Pereira

    Bhopal ainda é uma ferida aberta
    Por Praful Bidwai

    Nova Délhi, 12/09/2007, (IPS) – Vinte e três anos depois do pior desastre industrial da história mundial, o ocorrido em uma fabrica norte-americana de pesticidas na cidade de Bhopal, centro da Índia, ninguém se responsabiliza por limpar milhares de toneladas de tóxicos do solo e da água na região.

    A multinacional Dow Chemical agora se oferece para assumir parte do custo para limpar os arredores da fabrica, de onde vazaram gases de cianureto venenoso em dezembro de 1984, matando de imediato quatro mil pessoas.

    Em troca dessa ação, a Dow Chemical pretende se livrar das responsabilidades legais herdadas da firma proprietária da fabrica de pesticidas, a Union Carbide Corporation, que comprou em 2001. Dow Chemical exerce muita pressão, tanto sobre o governo da Índia quanto sobre o governo norte-americanao, para que Nova Délhi tome uma decisão a seu favor. Se tiver êxito em suas reclamações, a companhia pode não ser obrigada a assumir a responsabilidade de limpar o caos que a Union Carbide deixou atrás de si, e que inclui as 90 mil toneladas de químicos venenosos no solo e na água que afetaram cerca de 25 mil pessoas que vivem nas imediações da fabrica.

    Um dos argumentos da Dow Chemical junto às autoridades indianas é que pode se converter em um grande atrativo para os investidores estrangeiros se ficar livre de responsabilidades. A empresa fez sua oferta mais recente depois que poderosos funcionários da Comissão de Planejamento da Índia; o ministro das Finanças, P. Chidambaram; e o ministro de Comércio, Kamal Nath, bem como o privado Conselho Empresarial Estados Unidos-Índia se colocaram ao seu lado. A catástrofe ocorreu à meia-noite do dia 2 de dezembro de 1984, quando cerca de 27 toneladas de gás metil isocianato vazou das instalações da fabrica e cobriu a área vizinha. Esse gás era insumo do pesticida Sevin, ali produzido a um custo muito baixo desde 1969.

    O vazamento, segundo ativistas, matou pelo menos oito mil pessoas na primeira semana e afetou mais de 200 mil, entre as 15 mil que podem ter perdido a vida prematuramente nos meses seguintes. Outros milhares sofreram deficiências incuráveis e danos nos pulmões e em outros órgãos vitais. A Union Carbide as indenizou para evitar suas responsabilidades civis pela negligencia e pelo defeituoso projeto da fabrica que levaram ao acidente, pagando apenas US$ 470 milhões após um acordo considerado pelas vítimas como produto de uma injusta conspiração em 1989. Mas, mesmo a Dow Chemical ainda não se livrou de sua responsabilidade penal.

    Mas tanto a Union Carbide quanto seus diretores se negaram a serem julgados por um tribunal penal de Bhopal. Na verdade, a Dow Chemical deu refúgio a um fugitivo da lei indiana. “A oferta da Dow coloca o governo da Índia diante de uma opção crítica: ou colabora e faz um acordo com uma corporação multinacional ou se coloca ao lados das vítimas”, disse Satinath SArangi, do Grupo de Bhopal para a Informação e a Ação. Foi esta organização que em 1990 descobriu e estabeleceu a magnitude da contaminação do solo e da água subterrânea, a qual, segundo Sarangi, causou defeitos congênitos, cânceres e danos a pulmões, fígados e rins da população da área.

    O governo indiano está fortemente dividido neste caso. O Ministério de Produtos Químicos e Fertilizantes ordenou à Dow Chemical limpar o lugar e que depositasse US$ 25 milhões como pagamento inicial pela descontaminação. A sentença a este respeito encontra-se pendente. Mas o Ministério de Leis se opõe a estas ações e considera que a responsabilidade deverá ser determinada após se ler as letras pequenas do contrato pelo qual Union Carbide e Dow Chemical se fundiram em 2001. segundo as organizações das vítimas de Bhopal, a Union Carbide tergiversou os fatos ao alegar não ter responsabilidades pelas conseqüências da perda de gás.

    Na realidade, esta companhia, alguns de seus diretores (entre eles seu ex-presidente Warren Anderson) e sua subsidiaria indiana são acusados perante um tribunal penal indiano de causar mortes por negligencia. A Dow afirma que, por ser uma empresa norte-americana, não está sujeita à jurisdição dos tribunais indianos, que ainda não deram uma sentença sobre a responsabilidade da empresa. De todo modo, a justiça só lhe pediu que uma parte dos tóxicos que ficaram na superfície do lugar, cerca de 386 toneladas em um deposito, seja levada para um povoado em Gujarat para serem incineradas.

    Entretanto, a Alta Corte de Madhya Pradesh se mantém em silêncio a respeito dos passos a seguir para eliminar as oito mil toneladas de resíduos químicos que jazem debaixo da terra onde funcionava a fabrica e também as centenas de toneladas esparramadas por todo o complexo. As organizações de vítimas alegam que a incineração é um método inseguro e inadequado de eliminar esses dejetos, e que a Índia não tem a tecnologia correta para eliminar sua toxidade. Como alternativa, citam o exemplo da Unilever Corporation, empresa que em 2003 foi condenada pela Alta Corte de Madrás a levar para os Estados Unidos 230 toneladas de resíduos de mercúrio que haviam vazado em Kodaikanal, no Estado de Tamil Nadu, para descontaminá-las.

    Há dois anos, associações de vítimas, entre elas Bhopal Gás Peedit Mahila Stationery Karamchari Sangh, Bhopal Gás Peedit Mahila Purush Sangarsh Morhca e o Grupo de Bhopal para a Informação e a Ação, conseguiram que fosse anulado um contrato entre Dow Chemical e a estatal Indianoil Corporation, que envolvia a licença de uma tecnologia registrada da Union Carbide, que é 10% subsidiaria da Dow. Esta, por sua vez, negocia a venda de tecnologias de petroquímicos com a Reliance Industries Ltd. Uma das maiores empresas privadas da Índia, pertencente ao grupo Mukesh Ambani.

    “Evidentemente, todo tipo de interesse opera para ajudar a Dow Chemical a fugir à sua responsabilidade e obrigação legal de limpar a área’, disse Nityanandan Jayaraman, da Campanha Internacional para a Justiça em Bhopal. “É verdadeiramente terrível que o governo indiano deixe de pressionar, no momento em que entram no país grandes volumes de investimentos estrangeiros diretos, superiores a US$ 100 bilhões este ano”, acrescentouo. Jayaraman disse que isto deixa claro o “total servilismo de Nova Délhi em relação aos Estados Unidos e a grandes corporações multinacionais, um fenômeno evidente desde 1984”. Para este ativista, “o grande crescimento do produto interno bruto e a reivindicação por parte da Índia de seu caráter de superpotência econômica emergente não a impediram de atuar como um país de Quarto Mundo, que coloca os investimentos corporativos acima da vida e do bem-estar de seus cidadãos”.

    Se o governo sucumbe à pressão da Dow Chemical, de poderosos industriais indianos como Ratam Tata (que pressionou em nome da companhia) e de alguns de seus próprios ministros, isso somente agravará os já enormes prejuízos sofridos pelas vítimas, afirmam os ativistas. A maioria das vítimas de Bhopal recebeu menos de US$ 150 por suas enfermidades e por seu prolongado sofrimento. As famílias dos mortos obtiveram apenas US$ 5 mil. Presume-se que funcionários, políticos e intermediários corruptos desviaram boa parte das compensações.
    http://www.mwglobal.org/ipsbrasil.net/nota.php?idnews=3223

  • Antônio Pereira

    O desastre de Bhopal, ontem e hoje: um sistema de destruição em massa
    14 de Fevereiro de 2005.

    Vinte anos passaram desde o pior desastre industrial da história, um crime contra a humanidade cometido pelo capitalismo mundial. As principais vítimas foram as massas pobres da cidade indiana de Bhopal. O gás venenoso que escapou de uma fábrica de pesticidas propriedade da multinacional Union Carbide de origem norte-americana, durante a noite de 2 de Dezembro de 1984, matou imediatamente pelo menos 8000 pessoas. O número de mortos cresceu para 22.000 nos doze anos que se seguiram. A zona mais atingida foi o bairro pobre próximo da fábrica. A maioria das vítimas eram pessoas pobres da aldeia que se tinham mudado para a cidade à procura de trabalho. “Muitos – particularmente as crianças e os velhos – morreram nas suas camas quando o gás entrou nas suas casas. Outros, incluindo mulheres que agarravam os seus bebés, fugiram apenas para caírem na rua. Muitos foram encontrados depois, amontoados, doentes e agonizantes nas entradas da cidade. Manadas de bois foram mortas e cadáveres de cabras cobriam as bermas das estradas onde antes vagueavam. As folhas das árvores ficaram amarelas e enrugadas – as colheitas ficaram queimadas nos campos e foram cobertas por uma fina camada branca.” (BBC, 28 de Agosto de 2002)

    Esta é a Bhopal de hoje!

    Quando o sol se levantou por cima de Bhopal na manhã seguinte, foi anunciado que o ar estava limpo do gás. Mas a cidade manteria as consequências físicas e psicológicas dessas poucas horas horríveis durante as décadas – se não mesmo os séculos – seguintes. Gerações inteiras por nascer estão condenadas a sofrer com isso. Por outras palavras, esse não foi o fim do sofrimento para os habitantes de Bhopal mas apenas o começo.

    Os números da morte ainda hoje continuam a subir. Em média, um sobrevivente morre diariamente de causas relacionadas com o gás venenoso. Muita gente ficou cega. “Mais de 100.000 pessoas sofrem de enfermidades crónicas ou debilitantes”, relatou a Amnistia Internacional. Mais de meio milhão de pessoas foram expostas ao gás.

    “Nos becos estreitos do bairro pobre perto da fábrica onde ainda vivem milhares de vítimas do gás, fica a casa de Raisa Bi. Ela tem lutado para dar medicamentos ao seu marido doente, que sofre de agudas dores de estômago e de falta de respiração. A vida nunca mais foi a mesma para Raisa e para milhares de outras pessoas no seu bairro desde que o desastre do gás os atingiu.

    “Nagma, de 21 anos, ganha a vida para os seus pais inválidos e o seu irmão fazendo sacos de papel. Ela tinha um ano de idade naquela manhã fatal de 1984. ‘Temos pouca esperança’, disse ela.” (BBC, 3 de Dezembro de 2003)

    “A aproximar-se do seu 20º aniversário, Deepika pesa apenas 33 quilos e tem pouco mais de 1,3 metros de altura. Os seus períodos, que começaram no ano passado, são irregulares e sofre de tonturas atordoantes. Está impossibilitada de se concentrar e ainda não conseguiu acabar a escola… a história de Deepika não é atípica em Bhopal.” (Guardian, 29 de Novembro de 2004)

    “Gazmian tem 20 anos. Nasceu em pleno desastre, de onde obteve o seu nome. Vive uma vida simples no bairro pobre da colónia de Navab em Bhopal. A sua cara está cheia de acne e o seu corpo dorido quase não se pode mover… A vida de Gazmian é uma das 500.000 destruídas por esse desastre… Nunca pôde trabalhar; os seus problemas respiratórios tornam-lhe impossível fazer qualquer trabalho físico.” (Le Monde Diplomatique, Janeiro de 2005)

    Não é claro quantas mais gerações sofrerão com esse desastre, mas é claro que “estamos apenas a começar a ver os efeitos do que o gás faz ao corpo humano”, diz Satinath Sarangi, de uma ONG envolvida na distribuição de ajuda médica às vítimas.

    E como dizia uma reportagem difundida pela BBC a 2 de Dezembro de 2004: Hoje, em Bhopal, há níveis anormalmente elevados de cancro da pele, cancro pulmonar, cancro gastrointestinal, defeitos genéticos, problemas menstruais sérios e taxas de aborto sete vezes superiores à média nacional, falhas de coordenação, perda de memória, cegueira parcial, paralisia e sistemas imunes debilitados.

    Hoje em Bhopal há crianças mais pequenas com cabeças mais reduzidas. As mulheres têm uma menopausa prematura, por volta dos 30-35 anos. O número de casos de cancro e tuberculose é quatro vezes mais elevado entre as pessoas que vivem na área afectada que noutros lugares. Muitos dos bebés vítimas do gás nasceram com deformações. Diariamente, 4000 pessoas fazem fila nos hospitais de ajuda às vítimas do gás com doenças que variam de pulmões afectados a problemas graves do coração, sistemas imunes destruídos e doenças como a tuberculose. Esta é a Bhopal de hoje!

    Um acidente ou os lucros a mandar?

    A fábrica da Union Carbide em Bhopal produzia isocianato de metilo (MIC), uma combinação intermédia usada na produção do pesticida Sevin dessa empresa. O MIC é um das substâncias mais tóxicas e letais conhecidas da humanidade. A empresa sabia que o MIC era fatal se inalado.

    Segundo a reportagem da BBC, a médica da fábrica deu a conhecer as suas preocupações sobre a segurança das 20.000 pessoas que viviam perto da fábrica, depois de um trabalhador ter morrido ao inalar o MIC. Ela queria um plano de acção no caso de uma fuga e que os habitantes locais soubessem o que as substâncias químicas aí produzidas poderiam fazer. Demitiu-se quando a empresa se recusou a ouvi-la. Assim, um acidente estava à espera de acontecer quando, logo após a meia-noite de 2 de Dezembro de 1984, “um grande volume de água foi aparentemente introduzido no tanque de MIC, causando uma reacção química que forçou a válvula de escape químico a abrir, o que permitiu que o gás escapasse.” (Revista New Scientist, Dezembro de 2002) A Union Carbide sempre alegou que o escape fora o resultado de um acto deliberado de sabotagem, mas nunca foi encontrada nenhuma prova disso e as investigações sugerem o contrário.

    “A investigação da New Scientist sobre o acidente e estudos subsequentes pela empresa e pelos sindicatos mostraram que uma válvula defeituosa deixou que quase uma tonelada de água, que estava a ser usada para limpar os tubos, entrasse num tanque que continha 40 toneladas de isocianato de metilo (MIC). A reacção resultante produziu uma nuvem de gás tóxico.” Se o MIC for mantido arrefecido não é violento, mas se for misturado com água, ferve perigosamente e acabará por explodir. Esse perigo era bem conhecido. Independentemente de como aconteceu o desastre, deveria ter sido contido por medidas de segurança que são necessárias e exigidas para essas substâncias químicas mortais, desde que as vidas das pessoas não sejam comparadas às pestes a serem eliminadas pelos produtos da empresa. É verdade que foram instalados quatro sistemas de segurança diferentes para impedir a água de entrar no tanque de MIC da fábrica. Mas a investigação da New Scientist argumenta que não foi contida porque “Bhopal tinha um equipamento de emergência muito mais limitado que o da fábrica da Carbide nos EUA.” Nessa noite não funcionou nenhuma das quatro medidas de emergência.

    Um sistema de refrigeração – um sistema de arrefecimento que teria prevenido a reacção entre o MIC e a água que entrou no sistema – estava desligado. Pelo menos, teria reduzido a velocidade do processo e os trabalhadores poderiam ter cheirado a fuga e encontrado a sua fonte.

    Um segundo sistema de segurança, as “escovas de gás” que poderiam neutralizar o MIC com refrigerante cáustico, não estava em operação. Estava apenas em espera.

    Ao contrário da fábrica dos EUA, Bhopal não tinha nenhum tanque crucial de “recolha” para onde poderia ter escoado a massa de substâncias químicas que ferveram para fora do tanque de MIC. Dessa maneira, só teriam escapado os gases que poderiam ter sido queimados no exterior através de torres de labareda ou filtrados no exterior através das “escovas”.

    O terceiro dispositivo de segurança que ainda poderia ter impedido o desastre, a torre de labareda, não estava a trabalhar. Estava fechada para reparação na noite do acidente. A fábrica dos EUA tinha uma segunda, de reforço. A única “escova” de Bhopal ficou subjugado pela massa de líquidos e gases a ferver a uma taxa cem vezes superior àquela para que fora projectada.

    Os responsáveis da fábrica tinham desligado os alarmes da fábrica para não causar pânico na cidade.

    As acções da Union Carbide são um exemplo claro de como os imperialistas valorizam a vida das massas, especialmente nas nações oprimidas. Mesmo quando se trata de medidas de segurança simples e óbvias, eles têm um duplo padrão. A causa principal do desastre não foi nenhuma negligência por parte dos trabalhadores da empresa ou dos responsáveis dos níveis inferiores. Foi o projecto e os procedimentos de operação da própria fábrica, que pode ter seguido instruções da sede da Union Carbide nos EUA, e que de qualquer modo foram aprovados por eles, de acordo com um memorando de 1972 da empresa. A razão básica não foi algo impossível de prever mas todo o funcionamento demasiado previsível de um sistema movido pelo lucro, mesmo que à custa das vidas de dezenas de milhares de pessoas e da miséria de centenas de milhares. Para usar termos mais imediatos, a Union Carbide tinha estado a tentar atingir a rentabilidade à custa de medidas elementares de segurança e colocou toda a cidade em perigo desnecessário.

    Os camponeses indianos não estavam a comprar o pesticida Sevin da empresa. Uma seca tinha piorado a situação. Em apenas quatro anos, a fábrica de Bhopal passou de potencial fonte de rendimentos a encargo financeiro. A empresa instituiu um programa de corte de despesas que afectou directa ou indirectamente as medidas de segurança consideradas obrigatórias para a produção dessa mistura perigosa: “Um terço da mão-de-obra foi despedido. A produção de Sevin foi diminuída. Na unidade do MIC os sistemas de segurança foram reduzidos. As verificações de segurança passaram a ser feitas menos frequentemente. O número de supervisores foi reduzido a metade.” (Reportagem da BBC)

    Depois de uma série de acções de activistas e de uma subsequente ordem do tribunal, em Novembro de 1999 a empresa divulgou alguns memorandos internos que revelam partes da história não contada. “Segundo um memorando de 1972, se a Carbide emitisse acções suficientes para cobrir os custos estimados de 28 milhões de dólares, a posição da empresa na sua subsidiária indiana desceria abaixo dos 53 por cento. Teria reduzido o seu controlo da empresa. Para o evitar, teria de ‘reduzir o valor do investimento… para 20,6 milhões de dólares’, sendo os cortes ‘principalmente no projecto do Sevin’. Isso significava usar o que outro memorando admitia serem tecnologias não-provadas, principalmente em sistemas não directamente envolvidos no acidente. Porém, o sistema de produção do Sevin envolvido no acidente tinha tido ‘apenas um teste limitado’, dizia o memorando.” (New Scientist)

    Se este desastre pudesse ser chamado de acidente, seria um acidente que poderia ter sido prevenido com precauções muito directas – se os capitalistas pudessem ter dado menos peso ao seu lucro e um pouco mais às vidas de centenas de milhares de seres humanos que viviam perto da fábrica. Mas, apesar da sua cobiça e da sua natureza criminosa, há alguma verdade no seu argumento de não se poderia esperar que os executivos da Union Carbides agissem de outra forma – se o tivessem feito, teriam deixado de existir como capitalistas. Teriam perdido dinheiro e por isso todo o sistema teria de os castigar, desde o capital financeiro que teria enviado imediatamente a empresa para os tribunais em que poderiam ter sido julgados pela forma mais criminosa de negligência: a traição ao seu dever perante os interesses dos seus fiadores e accionistas.

    Foram os responsáveis levados à justiça?

    Usando o pretexto da sua alegação de “sabotagem”, a Union Carbide nunca assumiu a culpa do desastre. A empresa ainda hoje se recusa a participar no julgamento perante o tribunal indiano que recebeu as acusações criminais movidas contra a empresa e os seus responsáveis. Nos 20 anos que decorreram desde o desastre, nem o governo dos EUA nem o indiano obrigaram a empresa a ir a julgamento. Em vez de um tribunal que decidisse os danos que deveria indemnizar, a Union Carbide pôde negociar um acordo com o governo indiano, que supostamente representava as vítimas.

    No sistema imperialista mundial, onde os tribunais são instituídos para defender o capital, não as massas, o funcionamento da “justiça” tem sido ainda mais previsível que o próprio desastre.

    Segundo o acordo negociado em 1989, a empresa pagou 470 milhões de dólares de compensação ao governo indiano para serem distribuídos às vítimas. Mesmo que isso fosse uma compensação justa nesse momento – e não o era – milhares de pessoas mais morreram desde então e a verdadeira extensão do desastre continuou a vir à superfície. Os sobreviventes dizem que apenas receberam pouco mais de 400 dólares cada um, muito menos do que muitos tiveram que gastar em medicamentos durante as duas últimas décadas. E com isso esses criminosos alegam que compensaram os crimes que cometeram. Basta comparar isso com o caso do atentado de Lockerbie em que o governo britânico exigiu à Líbia que pagasse aos familiares cerca de 4 milhões de dólares por cada vítima. O que é que isso significa? As vidas britânicas são 10.000 vezes mais valorizadas que as das massas pobres e oprimidas da Índia.

    Um advogado poderia alegar que os pagamentos nesses dois casos se basearam nos salários vitalícios esperados dos que morreram ou, no caso de Bhopal, ficaram incapacitados. Isto apenas mostra a absurdidade de um sistema que promete igualdade perante a lei e que nada tem a ver com justiça. Os países imperialistas falam alto sobre os direitos humanos, mas o facto é que os lucros têm precedência sobre o direito das pessoas a viverem seguras em qualquer lugar, sobretudo nos países onde a opressão cria as condições para muita da riqueza da qual estes imperialistas engordam.

    O responsável pela Union Carbide, Warren Anderson, foi preso pelo governo local e acusado de homicídio quando viajou até à Índia depois do desastre de 1984. Mas, devido à pressão do governo dos EUA, foi imediatamente libertado sob fiança. Desde então que não se apresenta no tribunal. A Índia tem um tratado de extradição com os EUA, mas o governo indiano não mostrou nenhum desejo de iniciar os procedimentos de extradição contra ele. Pior, esse governo queria que a acusação de homicídio fosse reduzida a negligência. Isso teria levado o caso à mesma situação que o dos anteriores executivos indianos da Union Carbide que conseguiram reduzir as suas acusações a negligência.

    Mas em Agosto de 2002 um juiz em Bhopal rejeitou o pedido do governo. O juiz Rameshwar Kothe disse: “Sempre considerei isto um crime dentro de um crime, as movimentações para diluir o veredicto de um homem que é responsável pela morte de seis vezes mais pessoas que as que morreram no incidente do World Trade Center.” Vários dias depois desse veredicto, o grupo ecologista Greenpeace disse que os seus membros tinham descoberto que Warren Anderson vive numa zona exclusiva de Hamptons, em Long Island, Nova Iorque. As autoridades dos EUA sempre insistiram que não sabiam do paradeiro de Anderson. Um porta-voz do grupo disse: “Se o Greenpeace pode descobrir a pessoa mais procurada da Índia, acho difícil de acreditar que mais ninguém o possa ter feito.”

    Os habitantes de Bhopal alegam que o governo indiano decidiu não perseguir Andersen de modo a manter as relações EUA-Índia e reassegurar os investidores estrangeiros. Também acreditam que Deli cedeu à pressão da Dow Chemical, a empresa que passou a controlar a Union Carbide em 2001. Acreditam que o governo está desejoso de não espantar os investidores estrangeiros e dizem que é justo que Anderson, bem como o dirigente global da empresa, continuem a ser acusados de homicídio. No seu relatório sobre Bhopal, a Amnistia Internacional culpou o governo indiano por não tentar resolver os problemas de segurança da fábrica e por negociar uma indemnização “sem a participação das vítimas”.

    O governo indiano representa uma classe compradora dominante cujos interesses vitais se baseiam agora na manutenção de laços com o imperialismo norte-americano e as suas empresas multinacionais. Para eles, o capital imperialista é o próprio ar que respiram e as vidas das pessoas valem apenas o que conseguirem obter no mercado imperialista mundial.

    Os crimes do imperialismo contra a população de Bhopal naquela noite de 1984 fazem parte de um padrão continuado. Não só esse desastre, mas décadas de actividade da Union Carbide contaminaram a sua terra e água. As ruínas da fábrica com enormes quantidades de materiais tóxicos continuam a contaminar a água e o ambiente à volta do local da fábrica e a envenenar os habitantes locais. Metais pesados como o zinco, o cobre, o fósforo, o níquel e o mercúrio foram encontrados na água. A contaminação é milhares de vezes superior ao normal, mas dezenas de milhares de pessoas não têm outra alternativa senão bebê-la. Vestígios desses metais encontram-se agora no leite das mães, contaminando assim as futuras gerações. A Dow Chemical, nova proprietária da empresa, recusa a responsabilidade de a limpar. Tal limpeza sairia muito cara e necessitaria de tecnologia não disponível a toda a gente. “Tendo vendido as suas acções há muito tempo e não tendo nenhuma ligação ou autoridade sobre a fábrica, eles não podem ser neste momento considerados responsáveis”, disse o Juiz Distrital dos EUA, John F. Keenan. E acrescentou que a empresa tinha feito o suficiente e que muito tempo tinha passado. A Dow Chemical nega qualquer obrigação continuada pelo estado da fábrica de Bhopal ou para com a saúde das suas vítimas. “A Dow nunca teve nem operou nenhuma fábrica em Bhopal.” E esta é a única resposta.

    A luta do povo: os slogans e o ódio

    Por ocasião do vigésimo aniversário, houve memoriais indignados em Bhopal e noutros lugares, mesmo mais que em anos anteriores. Muitos estudantes e activistas de todo o mundo mantiveram vigílias à meia-noite e manifestações para exigir a justiça para o povo. Em Bhopal, vítimas, familiares e milhares de outras pessoas de todos os cantos da Índia marcharam pela cidade e queimaram efígies da Union Carbide e da Dow Chemical. Os manifestantes gritaram: “Morte à Dow e Morte à Union Carbide” – “Lutaremos e venceremos”. Têm marchado e manifestado em Bhopal todos os anos, a 2 de Dezembro, para lembrar os responsáveis e os seus defensores que não esqueceram o crime e continuarão a lutar.

    “Não surpreende que o nome Union Carbide gere ressentimento e ódio”, observou um jornalista que falava com habitantes locais. Ele poderia ter dito o mesmo em todo o lado sobre as pessoas que sabem o que aconteceu. Mais que apenas um incidente que aconteceu há vinte anos atrás, o desastre de Bhopal e o tratamento dado às vítimas revelam algo sobre a natureza do sistema que governa todo o nosso mundo.
    http://www.paginavermelha.org/noticias/bhopal.htm

  • Antônio Pereira

    (overemphasize; to intensify the subject of environmental issues)

    Devido à relevância do tema, vale a pena rever pela conscientização geral ao ler estas extensas reportagens.

    Desculpe-me se o post “superenfatiza” o tema.

    Alguém pode garantir que acidentes deste porte estão livres de repetição no mundo em que vivemos?

    Cordialmente,

    Sds.

  • Antônio Pereira

    Reportagem especial: CRÔNICA DE UMA CATÁSTROFE AMBIENTAL.

    (Autoria: André Deak e Paulo Fehlauer)

    “A história do derramamento no Rio Paraíba do Sul que matou toneladas de peixes e pode ter contaminado milhões de pessoas.”
    http://www.revistaforum.com.br/casoservatis/site/

    (Vide: Galeria de Fotos; O efeito devastador da nuvem de veneno. Fotografias cedidas pela Associação dos Canoeiros Defensores da Natureza de Barra Mansa – RJ.)
    http://www.revistaforum.com.br/casoservatis/site/index.php/galeria/

  • Antônio Pereira

    Acompanhem: Crônica de uma catástrofe ambiental – (Parte. 2) Por André Deak

    Sexta-Feira, 20 de Março de 2009

    Na trilha da morte…

    A causa do desastre foi descoberta seguindo a trilha dos peixes mortos. Na verdade, como dito no início da reportagem, a toxina vinha de um afluente do Paraíba do Sul chamado Pirapetinga. Mais precisamente, do ponto em que o afluente passa nas costas da Servatis, empresa que envasava o endosulfan. Hoje a produção está interditada.

    A Servatis soube do vazamento na madrugada. O caminhão que faz o transporte do produto teria estacionado e o encarregado fez a ligação para bombear o produto tóxico para os tanques. “Só que ele se ausentou por um instante dessa operação, porque já fez isso centenas de vezes”, explica o presidente da Servatis, o alemão Ulrich Meier. “Nisso, rompeu o diafragma e soltou o engate do caminhão. Em consequência, o produto que restava ainda no caminhão derramou no dique de contenção. E como chove, tinha água no dique. O produto entrou lá dentro, e em conjunto com a água, forma um tipo de leite. Exatamente como o agricultor usa. Pega um litro, joga em um metro cúbico de água, e pulveriza”, relata. “O operador avisou que vazou e que o produto estava contido. Tinha 14 metros cúbicos daquele leite. Pensávamos que estava tudo bem, até recebermos indicações do rio Paraíba.”

    Ocorre que o dique de contenção tem uma válvula, que quando aberta despeja o conteúdo do dique no rio Pirapetinga. Uma pergunta óbvia seria por que um dique de contenção tem uma válvula virada para o rio – ao que Meier explica que isso era “para uma operação de água de chuva”. “Analisa-se a água, e se não estiver contaminada ela é descartada para a rede pluvial. Só que essa válvula estava com defeito, não estava totalmente fechada.” Em um primeiro momento, a empresa afirmou que 1,5 mil litros haviam vazado. Dias depois, corrigiu a informação: seriam 8 mil litros. O caminhão que fazia o transporte tinha capacidade para 30 mil litros. Como cada litro do agrotóxico precisa ser misturado a mil litros de água para a pulverização, caso o caminhão todo tivesse vazado, seriam 30 milhões de litros de veneno. Para ter uma ideia de quanto agrotóxico isso significa, é o mesmo que 30 segundos de vazão das Cataratas do Iguaçu.

    Um rio de incertezas…

    A Servatis já recebeu multa de R$ 33 milhões aplicada pela Comissão Estadual de Controle Ambiental (Ceca), ligada à Secretaria do Meio Ambiente do Rio de Janeiro. A empresa chegou a ser interditada, mas foi liberada em seguida, após uma vistoria. Em audiência pública realizada em dezembro, em Resende, Ulrich Meier afirmou que esse valor pode levar a empresa à falência, se não conseguir novo crédito no BNDES. “Os 20 dias parados causaram muito prejuízo para a empresa. Reconhecemos a lambança que fizemos no meio ambiente e queremos reparar nosso erro. Por isso temos que conseguir dinheiro para pagar nossa conta de luz, fornecedores e funcionários. Se não conseguirmos o crédito, teremos que decretar a falência da empresa. E isso será muito mais danoso para o ambiente”, afirmou.
    O rio Paraíba do Sul está repleto de empresas em suas margens, “verdadeiras bombas prontas para explodir”, conforme define o presidente do Instituto Estadual do Ambiental (Inea), Luiz Firmino Martins. Isso porque não há auditorias regulares, não se sabe como essas empresas operam – e elas estão lá há mais de 30 anos. Além das empresas, falta conscientização das pessoas. “Tem muito mecânico que joga óleo. Dá pra ver na água. E todo mundo joga o lixo no rio. É uma cultura”, diz o conselheiro municipal de Meio Ambiente de Barra Mansa, Denival da Costa. “A quantidade de coliformes fecais é enorme. As grandes indústrias estão cuidando do esgoto, porque exportam e precisam de um selo verde. O problema é a pequena indústria e o esgoto doméstico.” Quase não existe tratamento de esgoto nas cidades ribeirinhas do Paraíba do Sul. “A gente bebe esgoto”, lamenta Costa.

    E muita gente comeu os peixes intoxicados pelo endosulfan. Guilherme Souza, diretor do Projeto Piabanha, conta que enquanto retirava peixes do rio para medir a toxidade dos animais, após o acidente, as pessoas comiam os peixes. Como a onda do produto atingiu todo o rio, espécies que vivem em áreas mais profundas e que dificilmente são apanhadas por pescadores apareciam. “O cara nunca viu um robalo de cinco quilos, ainda vivo. Eu falava pra não comer, mas não adiantava”, lembra Souza. Há relatos de pessoas com irritações na pele (um efeito do produto), mas nenhuma quantificação. Souza conta ter visto pessoas armazenarem nas geladeiras os peixes mortos, para consumo ou venda posterior.
    Hoje, ele diz que as pessoas já não consomem, conscientizadas do risco. Nem pescam, porque não têm para quem vender. Em fevereiro, o Ibama proibiu, até 31 de maio, todos os tipos de pesca na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul – de Resende, onde ocorreu o acidente, até a foz, em São João da Barra, litoral norte do estado.

    Mídia e silêncio…

    Apesar de ter sido um dos piores acidentes ecológicos da história do Rio de Janeiro, poucos ouviram falar do assunto. Talvez porque novembro de 2008, mês do desastre no rio Paraíba, também foi quando outro estado sofreu uma calamidade: era o ápice das enchentes em Santa Catarina que deixaram dezenas de milhares de desabrigados. Toda a atenção da mídia se voltou para lá. A contaminação no Rio de Janeiro ficou desinteressante. Fora o jornal carioca O Globo, que publicou algumas reportagens – e mesmo assim, no caderno de cidades –, ninguém mais noticiou o envenenamento do Paraíba do Sul.

    Há desdobramentos. Em fevereiro, a Servatis, a Basf e a Agripec (empresa que produziu o endosulfan derramado), quase três meses depois do ocorrido, foram condenadas em primeira instância na cidade de Resende a pagar um salário mínimo mensal para cada um dos cerca de 1.200 pescadores do Paraíba do Sul enquanto eles tiverem os trabalhos afetados pelo pesticida. A Basf nega participação no acidente e a Agripec, hoje Nufarm, afirma que não tem fábrica em Resende. A Servatis não nega a culpa pelo acidente, mas diz que tem um projeto de recuperação do rio em conjunto com uma ONG local. O governo do Rio de Janeiro afirma que só aprovará um projeto de recuperação realizado em conjunto com diversos órgãos, como o Ibama e secretarias de outros estados por onde o rio passa, como SP e MG. O projeto da Servatis deverá, assim, ser analisado e incluído em um plano maior.

    O governo do estado do Rio de Janeiro promete um relatório final, com todos os dados consolidados. Um documento oficial trará, então, o resultado do derramamento de um dos piores venenos produzidos no mundo na bacia hidrográfica de um dos estados mais importantes do Brasil. Talvez aí os jornais se interessem pela notícia – e possam servir para algo além de embrulhar peixe morto.

    Rio castigado (Retrospectiva)

    Outros acidentes recentes que causaram estragos no rio Paraíba do Sul

    1982 – Vazamento da Cia. Paraibuna de Metais, com o rompimento de um dique de contenção de rejeitos no rio Paraibuna, que carreou resíduos de metais pesados (cromo e cádmio) e outras substâncias tóxicas, contaminando o rio Paraíba do Sul desde a confluência com o Paraibuna até a foz.
    1984 – Acidente rodoviário em que um caminhão despejou 30 mil litros de ácido sulfúrico no rio Piabanha.
    1988 – Vazamento de óleo ascarel contido em 3 mil litros de água utilizada para apagar o incêndio em transformadores na Thyssen Fundições.
    1989 – Acidente com um caminhão tanque de metanol que despejou o produto no rio, na altura de Barra do Piraí.
    2003 – Vazamento de mais de 20 milhões de litros de soda cáustica no rio Pomba, provenientes da indústria Cataguazes de Papel. Acidentes de menores proporções ocorreram em 2006 e 2007, sob responsabilidade da mesma indústria.
    2008 – Vazamento de pelo menos 8 mil litros do agrotóxico endosulfan no rio Pirapetinga, afluente do Paraíba do Sul. Aproximadamente 100 toneladas de peixes foram mortos, em período de desova. Não há medições sobre danos à saúde das populações atingidas, mas o produto é altamente tóxico, banido em diversos países.
    Fonte: Fiperj e revista Fórum (sobre 2008)

    Conheça a substância Endosulfan: classe I, extremamente tóxico Banido da União Europeia e de pelo menos outros 20 países, o endosulfan é um agrotóxico – ou um “defensivo agrícola”, como preferem chamar os produtores – usado principalmente nas lavouras de café, algodão, soja, cana e alguns cítricos. É da mesma família do DDT, já proibido no Brasil e em quase todo o mundo. Aqui, o endosulfan é classificado como “extremamente tóxico” pelo Ministério da Saúde e como “altamente perigoso para o meio ambiente” pelo Ibama. Há uma campanha mundial pela proibição do produto e vários processos tentam impedir a produção local, como nos EUA.

    Um relatório de 2002 da ONG inglesa Environmental Justice Foundation (End of the road for Endosulfan – a call for action against a dangerous pesticide) mostra danos causados em vários países, como a Índia, onde há casos relatados de deformidades congênitas, doenças neurológicas e até morte, além de episódios nos EUA, Colômbia e Benim, entre outros. A Colômbia, aliás, é um dos países que proibiu o uso.

    O químico age sobre invertebrados em geral, não apenas insetos. Deve ser misturado em água e depois borrifado nas lavouras. Segundo artigo do professor Philip C. Scott, do Instituto de Ciências Biológicas e Ambientais do Rio de Janeiro, o testemunho mais contundente sobre o efeito do endosulfan na natureza é o de um agricultor do Benim: “Os campos fedem por dois a três dias após a aplicação pois praticamente qualquer ser vivo foi morto e tudo começa a apodrecer”.

    Em entrevista, Scott diz que “moluscos e crustáceos, como o pitu e o lagostim, são facilmente afetados. Na fase larval deles mais ainda. É um tipo de inseticida que é feito para atacar a parte respiratória de insetos e invertebrados. E como caiu no rio numa época de desova, para uma larva é mortal. Os peixes são particularmente sensíveis ao endosulfan. Eles têm hemorragias violentas”.

    O professor diz que mesmo mamíferos não estão a salvo. “Na Índia, uma aplicação normal – não um desastre – atingiu a água e você vê uma série de doenças de fundo neurológico. Especialmente as de fundo nervoso. Se puder prestar atenção nos hospitais da região, vai encontrar mais pessoas com problemas psiquiátricos, nervosos. Na gestação, afeta os fetos.”

    Até poucos anos, diz ele, o endosulfan era usado na França. “E precisam de bons pesticidas – fazem uvas, fazem vinho. Mas lá ninguém aceita produtos que não sejam inofensivos à saúde humana. Se as pessoas não se levantam, se a imprensa não reage, a indústria continua produzindo isso. O governo não tem porque usar um produto como esse. É preciso expor os perigos.”

    André Deak.

    http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=6623

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