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Brasil: Tentativa de censura a documentário sobre censura

O documentarista brasileiro radicado em Londres Daniel Florêncio teve uma surpresa no dia 22 de setembro, quando seu filme Gagged in Brazil foi retirado das redes da Current TV. O documentário, “uma investigação sobre o que parece ser uma imprensa cada vez mais restrita no Brasil”, fala de liberdade de expressão e das conexões entre imprensa e política, analisando de perto o envolvimento de Aécio Neves, poderoso governador do segundo mais populoso e quarto maior estado do país, Minas Gerais. Ele explora a forma como a imprensa local apenas divulga notícias que são favoráveis ao governo do PSDB, e a falta de investigação jornalística ou debate sobre os erros da mesma administração. Um dia depois, sua ex-editora na Current TV entrou em contato para explicar os motivos:

Segundo ela, na semana anterior, os executivos seniors do canal nos EUA receberam cartas com severas considerações e críticas sérias em relação ao filme. As cartas foram enviadas pelo PSDB de Minas Gerais. O PSDB afirmava que meu filme tinha caráter político-partidário, que não representava a realidade do acontecido no estado e questionava minha conduta ética na produção do filme. Junto as cartas foram enviadas também cópias da versão em inglês do vídeo produzido pelo PSDB e postado no YouTube.

Muitos blogueiros, como Paulo Fehlauer do Na Rua (da captura de tela acima), tinham publicado o vídeo e por mais de um mês exibiram uma mensagem de erro. Enquanto isso, a Current TV lançou uma investigação, que durou um mês, sobre as alegações e os procedimentos jornalísticos de Daniel Florêncio, o que resultou na volta do Gagged in Brazil ao site. André Deak, que tinha entrevistado Daniel para seu blogue há alguns meses, vê a notícia como uma vitória para a liberdade de expressão:

Em alguns lugares (especialmente na rede), parece que o jornalismo ainda é possível.

Lançado pelo Current TV no Reino Unido em 27 de maio 2008, e nos Estados Unidos uma semana antes, Gagged in Brazil teve uma versão com legendas em português publicada no YouTube, o que causou uma grande repercusão: o link correu e-mails, sites de relacionamentos e o vídeo mais de 2.000 menções no Google, mais de 100.000 visualizações no YouTube, para não falar nos 6.000 visitas na versão do Current TV, em inglês.


Comentando sobre o filme na época do lançamento, Catatau [pt] diz:

Salta aos olhos o enquadramento jornalístico de determinadas figuras políticas, como Aécio Neves e Lula. Enquanto para determinados políticos a linha editorial é branda, para outros a cobertura é implacável. Como se a imprensa escolhesse o rigor ou a parcialidade a partir de um jogo que foge aos olhos do espectador.

Pouco tempo depois, Gagged in Brazil – The Other Side [O Outro Lado], o vídeo resposta abaixo, foi publicado no YouTube pelo grupo PSDB Jovem – e outros seis vieram na esteira. O documentarista foi acusado de partidarismo, manipulação de dados e desobediência a princípios jornalísticos básicos. Ele também sugere que o documentário não merece tanta atenção, uma vez que Daniel é apenas um expatriado mineiro, e não um jornalista britânico.


Liberdade de imprensa – Assunto antigo

Gagged in Brazil foi inspirado em outro filme, Liberdade, Essa Palavra, um vídeo de 2006 feito pelo então estudante de jornalismo Marcelo Baêta, feito para seu trabalho de conclusão de curso. Ele ligava a demissão de cinco jornalistas em 2002 e 2003 com matérias que eles escreveram ou transmitiram que faziam críticas a Aécio Neves. No momento em que o governador se prepara para disputar a presidência em 2010, “o problema da manipulação da imprensa continua a se desdobrar no Brasil”, descobre Elizabeth Tuttle durante uma entrevista com Marcelo Baêta [en] para o Columbia Journalism Review. Qual seria a relevância do documentário dele hoje?

First, Neves is one of the main presidential hopefuls for the 2010 elections. Second, the international repercussions of my video-documentary are still reverberating. This past May, it was heavily featured on the Current TV documentary “Gagged in Brazil,” which has since been viewed on YouTube 50,000 times. In June, the governor’s PR department posted yet another video response, this time to the Current TV's video.

Primeiro, Neves é um dos principais candidato nas eleições de 2010. Em seguida, as repercussões internacionais do meu documentário ainda estão ecoando. No mês de maio passado ele foi intensamente destacado no documentário “Gagged in Brazil” que desde então foi visto mais de 50 mil vezes no YouTube. Em junho, o departamento de RP do governo postou mais uma resposta em vídeo, dessa vez ao filme do Current TV.

Em um comentário recente no artigo acima, o leitor Diógenes Pinto Carvalhaes diz que o Columbia Journalism School não deveria ter publicado uma entrevista do tipo sem “sem mostrar o outro lado de um assunto polêmico”:

I thought this subject was buried in the past, but it returns again like a ghost. Why is it coming back? For the same reason that it has appeared in 2006… At that moment, the alleged censorship in Minas Gerais was a leitmotiv in the opposition campaign, when Aécio Neves was running for a second term. Macelo Baêta’s video was a precious item of propaganda against Aécio Neves and largely scattered by anonymous spams in the internet. Now, Aécio Neves is one of the names most seriously considered for nomination in the next Brazilian presidential campaign.

Eu achei que esse assunto estava enterrado no passado, mas ele volta novamente como um fantasma. Por que ele volta? Pelo menos motivo pelo qual apareceu em 2006… Naquele momento, as alegações de censura em Minas Gerais foram o tema central de uma campanha da oposição, quando Aécio Neves estava concorrendo ao segundo mandato. O vídeo de Macelo Baêta foi um item de propaganda precioso contra Aécio Neves e espalhou-se amplamente por conta de spams anônimos na internet. Agora, Aécio Neves é um dos nomes mais seriamente considerados para as próximas eleições presidenciais brasileiras.

No entanto, o assunto da censura à imprensa em Minas Gerais está longe de ser enterrado. No meio das eleições municipais em setembro passado, o site de notícias da oposição ‘Novo Jornal’ foi retirado do ar pelo Ministério Público devido a acusações de anonimado, como relatado pelo Global Voices. E nem mesmo blogues escapam das tentativas por parte de políticos de calar aqueles que tentam levantar suas próprias vozes. No mês passado, o cientista político Fernando Massote foi ameaçado de processo por parte de um político local por reproduzir em seu blogue notícias que não o favoreciam:

Informo que estou respondendo a interpelação judicial interposta pelo Sr. Marcio Lacerda. O candidato a prefeitura de BH me intima a confirmar conteúdos publicados no meu blog  www.massote.pro.br e me ameaça de processo por difamação, calúnia e injuria. Sendo assim, confirmo a autoria de todos os textos definitivos que foram postados e permaneceram no meu blog, da data em que foram publicados até hoje. Estes textos são muito conhecidos pela alta freqüência de visitantes à minha publicação eletrônica. A difusão do meu blog, como todos sabem, é uma conseqüência entre outros fatores, da grande crise da imprensa em Minas Gerais, causada também pela censura de que é vitima e que tem sido amplamente denunciada.

3 comentários

  • fábio

    Esse filminha é ridículo. Para quem vê aparece até que estamos em uma ditadura. Isso é 99,9% de exagero, pode ter uma coisinha ou outra de verdade (0,1%). Isso deve ter sido feito por um petista ou um revoltado com o governo ou com a vida mesmo.

  • Você acha mesmo, Fábio? Eu concordo com você que alguns exageros que podem ter sido cometidos no documentário — e até onde sei, não posso afirmar que sejam realmente exageros ou apenas amostras de uma situação mais absurda do que podemos imaginar. Por outro lado, tentar ridicularizar o documentário desta forma, sem maiores argumentos (ou contra-argumentos), faz parecer que sua única intenção é tentar diminuir o impacto das revelações feitas pelo documentário. Será que este é o caso? E se é, por quê você deseja fazer isso?

    Abraços do Verde

  • O mais interessante, é que parece que não há oposição em Minas. Você acredita? Nem um só “doente”, sem noção, e descontente, que decidiu por nada desgostar do governo. Olha que isso existe, e sempre existiu? A voz dos 20, 30 ou 40% descontente. Só essa percepção já diz tudo sobre a imprensa mineira.
    até.

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