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Angola: Zungueiras enfrentam vida dura com dignidade e coragem


“Ela precisa carregar seu bebê enquanto anda pelas ruas de Luanda vendendo várias coisas. Em Luanda, as chamamos de “zungueiras”. Foto “Senhora com bebê” de Jose Carlos Costa, usada com permissão do fotógrafo.

Pelas ruas desta cidade de Luanda, vêem-se zungueiras de olhar humilde e determinado. Percorrem as ruas da cidade faça sol ou chuva. Algumas carregam os filhos às costas, ao mesmo tempo que suportam o peso da mercadoria que vendem. Pode ser fruta doce como a fruta-pinha, a manga perfumada, o abacate da cor da esperança que estas mulheres teimam em preservar, ou sandes bem recheadas com fiambre e queijo. Produtos como roupa, sapatos, livros escolares ou peixe são outros dos artigos escolhidos por estas lutadoras e provedoras do lar.

Jorge Ramos do blog Jorginho em Angola, comprova esta realidade e escreve sobre as zungueiras da bela península do Mussulo:

“As zungueiras são as milhares de angolanas que saem às ruas vendendo todo o tipo de mercadorias que carregam na cabeça mesmo. Essas zungueiras do Mussulo atendem a um público específico e oferecem produtos como roupas de praia, batas e peças inteiras de panos multicoloridos, ricamente estampados com figuras africanas e linhas geométricas, bem ao gosto do padrão daqui. Elas caminham o dia todo, sob o sol escaldante. É absolutamente incrível a capacidade das zungueiras em equilibrar sobre a cabeça balaios, sacos, cestos, bacias e sacolas onde transportam as mercadorias que vendem. Desafiando as leis da física, o frágil equilíbrio se impõe perante vários obstáculos que se interpõem ante elas nas ruas e calçadas além dos filhos pequenos, que carregam nas costas, atados por panos que amarram na frente à altura do peito. Milhares de zungueiras percorrem a cidade, o dia todo, de um ponto a outro de Luanda, arriscando-se muitas vezes em meio ao tumultuado trânsito”.

“As mulheres que estão “na zunga” são as que vivem do comércio ambulante. É uma alternativa à fome num país de poucos empregos. Mas na África até isso fica estético, colorido”. Foto Zungueiras, de wilsonbentos, usada com permissão do fotógrafo

O trânsito infernal que reina sob Luanda é o menor dos males para estas mulheres. Os fiscais que rondam a cidade em busca de infracções caracterizam-se pelo tom áspero e austero com que se dirigem às vendedoras ambulantes. A relação entre fiscais e zungueiras está longe de ser cordial. Muitas queixam-se do modo de actuação destes indivíduos, já que a maioria, fica-lhes com o dinheiro e com a mercadoria, o que significa humilhação e um rombo no orçamento familiar.

O governo tenta acabar com a venda ambulante e tenciona construir mercados próprios para acolher as zungueiras. Se essa meta for atingida, será que Luanda voltará a ser a mesma? A cidade perderá o colorido e o prazer de ver o gingar guerreiro destas mulheres e as bacias coloridas em que transportam a sobrevivência diária.

A documentarista Marisol Kadiegi dedica em Angola de Todos Nós um merecido espaço às zungueiras de Luanda e de outras regiões do país:

“Elas saíram do Uíge, Malange, Benguela, enfim! De todas as províncias de Angola para na capital do país, tentarem uma vida melhor e em busca de sonhos, tentar ver seus filhos “doutores”. Castigadas pela guerra, herdaram da mamã quitandeira a arte de vender, da palavra “zunga” originária do kimbundo, ela se tornou andarilha, andante ou vagante. Essa dita senhora é a nossa zungueira, mulher batalhadora que muito antes do sol, se levanta para tratar da vida e conseguir alimento para o seu sustento. Assim como uma leoa, caça comida para seus filhos enquanto o “rei” leão descansa. A nossa vendedora que de porta em porta e nas ruas da cidade sai oferecendo o seu produto, fazendo do lamento um grito. Na maioria das vezes, levando o filho caçula nas costas, dá um kilape (crédito) às freguesas habituais e carrega no rosto um sorriso na esperança de um dia ver-se totalmente liberta da sua condição.

Vítima de violência da polícia e muitas vezes por parte dos próprios companheiros, a mulher zungueira é exemplo de dignidade.”

“Mulheres trabalhando”, foto de Jose Carlos Costa, usada com permissão do fotógrafo

Dignidade e coragem são dois bons adjectivos para caracterizar estas mulheres. Devido à falta de formação e à pobreza, muitas mulheres angolanas vêem-se obrigadas a entregar-se à vida ambulante. Jorge Ramos conta um pouco sobre o dia a dia das zungueiras:

“Quando cansam, param e se sentam nas calçadas onde amamentam seus bebés e tiram alguma fruta dos seus alforjes para se alimentarem. Às vezes é numa esquina movimentada, mas já vi uma zungueira em pleno centro da cidade parar num calçadão, baixar seu balaio de peixe salgado e ressequido e dar meio abacate para o filho pequeno que se lambuzava, bem na porta de uma moderna agência de um banco europeu, num belo contraste cultural. Idiossincrasias da globalização, que não comporta vertentes antropológicas nem aspectos humanistas em sua inexorável marcha, por isso nessa minha breve leitura contento-me em apenas analisar o episódio sob o prisma da plasticidade da cena e seu significado. Com as elevadas taxas de desemprego e o escasso acesso a uma formação escolar ou profissional ser zungueira é a actividade que mais absorve jovens angolanas pobres, geralmente mães solteiras, algumas recém saídas da adolescência.”

As fotos acima foram tiradas por Marcelo Frota e são reproduzidas aqui com a permissão do fotógrafo. Veja mais fotos dele no Flickr e no Picasa.

  • Adoro esses textos sobre a cultura de outros países de língua portuguesa.

  • África mãe Zungueira

    Esta que se aproxima
    carrega uma criança às costas
    e outra no ventre
    uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
    lembrando que é hora de parar e amamentar
    e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
    gestora de um ovário condenado a não parar
    porque é património social
    penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade

    Conhece bem demais a cidade
    não tanto pelos monumentos
    mas pela necessidade
    viandante como a borboleta
    fez-se fiel e histérica amante
    da lei da compra e venda de porta à porta
    uma lei entretanto não prevista por lei
    “depender só do marido? Nunca”
    mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
    no estômago só o funji do jantar de ontem
    sem tempo sequer para escovar os dentes

    Lá vai mais uma dobrando a esquina
    de pregão firme como a voz do tambor
    humilhada aos poucos pelo sol
    nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor

    Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo
    veja esta nos olhos encarnados grita despercebida
    uma mulher mal amada
    nunca descoberta
    rainha de etapas queimadas
    ele que devia ser companheiro
    é de se esconder no copo
    quando os ventos são ásperos
    autêntico chá em taças de champanhe
    não estar disposta para mais um suor sagrado
    é para ele frontal apelo à violência
    habituada a levar da cara
    odeia a sinceridade do espelho

    Por aqui passou mais uma profissional da zunga
    protagonista anónima com mil mestrados da vida
    contudo não contada na segurança social
    para o turista uma espécie de paisagem
    rosto de uma noite que lançou a mulher
    às avenidas dialécticas dos centros urbanos
    no seu dever de sustentar a sociedade
    a mesma que a condenará antes de amanhecer
    por não participar da vida política
    ou por não saber ler
    nem escrever

    In «Consulado do Vazio», 28, Gociante Patissa, KAT-Benguela, Maio 2008

  • Humberto Lopes

    Estas fotos dão saudade da minha querida Angola do seu Sol e das suas Gentes.

  • Excelente trabalho!

  • ester

    realmente fiquei radiante de ver este comentario sobre a mulher angolana mas propriamente a zungueira sao mulheres de muita força ,e de pouca instruçao o que e de lamentar porque essas mulheres tao sofridas nao puderiam aprender a escrever o nome?claro que puderiam se houvesse uma politica de enquadramento social , de respeito pela mulher .os valores que nos foram dados pelos nossos avos ja nao se usa e como dizem os jovens estao fora de moda mas acredito que foram esses valores que fez muitas sociedades verem a mulher nao como um pano rascado sem serventia ,mas a ve como mae ,companheira ,amiga,esposa ,educadora e trabalhadora. e de lamentar como elas tem maridos que nem sequer dao valor a eles proprios ,porque maltrata «acompanheira independentemente da condiçao social nao pode gostar deles proprios, o pior de tudo e que a sociedade angolana esta cheia de homens como esses em todos niveis socias nao abrange so as zungueiras .mas a muita gente admitir esses maltratos pelo nenos elas tem uma coisa em comum com as que sao ditas como da alta sociedade.para terminar as zungueiras nao sao nenos nem mais do que ninguem no aspecto humano .cabe o governo de encontrar respostas as necessidades delas,fazer realmente um mercado a onde possam vender as suas proprias porque vos digo este nao e um bom postal agradavel para o pais mostrar o mundo ha que haver respeito pelo ser humano, ha dinheiro pra coisas futeis e pra isto nao ha. angola precisa criar uma sociedade justa para todos.

  • Clara

    Antes de mais, quero agradecer pelos comentários:)
    As zungueiras são de facto, mulheres à parte. São guerreiras, humildes e mães à prova de fogo. Calcorreiam por Luanda com os filhos às costas ao mesmo tempo que transportam os seus produtos. São mulheres corajosas que enfrentam a dura realidade do dia a dia sob o sol escaldante ou a chuva impiedosa. São mulheres vítimas de fiscais sem coração e honestidade que as humilham, maltratam e roubam.
    É de facto preciso que se criem locais próprios onde estas zungueiras possam dedicar-se tranquilamente à actividade comercial. É preciso que os habitantes respeitem o trabalho destas mulheres. Que a polícia fiscal adopte atitudes mais humanas em relação às zungueiras. Da parte que me toca, estas vendedoras ambulantes têm todas o meu respeito…

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